Mandetta: “Todo mundo sabe a gravidade da Covid-19. Mas tem pessoas que são inconsequentes com a vida dos pais, filhos e com a sociedade”

Ex-ministro da Saúde diz acreditar que a população tem consciência do perigo que o novo coronavírus representa, mas que é preciso insistir na informação sobre prevenção e combate ao Sars-CoV-2

Ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta | Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

Pouco se falava sobre o ministro Luiz Henrique Mandetta no governo Bolsonaro até a chegada do novo coronavírus ao Brasil. Quando o primeiro caso da Covid-19 foi constatado, na noite de 26 de fevereiro em São Paulo, o titular do Ministério da Saúde adotou como tática de prevenção a transparência. Com entrevistas diárias transmitidas pela internet e canais de TV, os dados eram atualizados, os novos protocolos de prevenção e tratamento vinham a público.

A repercussão da forma de agir do ministro da Saúde despertou certo incômodo no presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que viu a popularidade de Mandetta crescer nas pesquisas de opinião pública. Enquanto o nome do médico e ex-deputado federal pelo DEM do Mato Grosso do Sul era assunto em qualquer lugar do País, Bolsonaro chamava ministros de “estrelas” no governo. Entre a ameaça de demissão e a troca do titular da pasta, o Brasil discutiu durante duas semanas o assunto.

Mandetta foi demitido em 16 de abril e deu lugar a Nelson Teich, que foi empossado como ministro no dia seguinte. Uma semana depois, o ex-juiz Sergio Moro fez denúncias contra Bolsonaro em um pronunciamento e entregou o cargo de ministro da Justiça e da Segurança Pública. No dia que Mandetta foi demitido, o Pais tinha 33.682 casos confirmados da Covid-19 e 2.141 mortes causadas pela doença. Na sexta-feira, 8, o Brasil chegou a 145.328 pessoas com o novo coronavírus e 9.897 mortos, com 751 óbitos confirmados em 24 horas.

Em entrevista ao Jornal Opção, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta fala sobre o trabalho de combate ao novo coronavírus no Brasil, a transparência dos dados, uso de máscaras caseiras, o que foi planejado para enfrentar a pandemia no País e como tem visto o trabalho de Teich na pasta.

Desde que o sr. saiu do governo federal, como tem visto a atuação do País no combate à Covid-19?
De uma maneira muito assimétrica. Alguns governadores e prefeitos mais cuidadosos, mais zelosos, outros menos cuidadosos. Cada um tem feito uma leitura muito individualizada. Falta uma unidade de corpo, que infelizmente o Brasil não conseguiu dar.

Como podemos fazer municípios, Estados e governo federal se entendam? Principalmente o governo federal, que continua a contrariar todas as recomendações dos profissionais de saúde e da comunidade científica.
Esse o ponto lastimável da história toda porque o SUS [Sistema Único de Saúde] é um pacto federativo vivo. Enquanto estive ministro, consegui dialogar com os secretários estaduais e municipais de Saúde. O Ministério da Saúde procurava o consenso, um caminho, e estava construindo esse consenso. Tanto que conseguimos excelentes índices de isolamento e distanciamento sociais, conseguimos uma padronização, compra conjunta e expansão do sistema.

Após o desmanche da equipe, me parece que o sistema tem funcionado com cada Estado procurando sozinho fazer a sua tomada de decisões, já que, aparentemente, o governo federal se distancia muito dessa tomada de decisões conjunta, que era a tônica do Ministério da Saúde e que é o princípio fundamental do SUS.

Depois da decisão do STF, que dividiu as responsabilidades na decisão por medidas restritivas com Estados e municípios, muitas cidades flexibilizaram bastante as atividades econômicas. Como o sr. tem visto o movimento de grande flexibilização das atividades consideradas não essenciais? Que tipo de preocupação isso pode trazer nas próximas semanas?
O governo federal tem preparado decretos nos quais vai gradativamente considerar tudo essencial. Isso vai gerar uma espiral de casos cada vez maior da Covid-19, com número de óbitos cada vez maior. Como vão se dar a velocidade com que vamos passar pela doença e a dramaticidade dos números o tempo vai dizer, a história vai dizer.

A impressão que tenho é que quanto mais se quer flexibilizar na hroa errada a movimentação da sociedade, mais tempo vamos levar para poder ter uma retomada da economia. E este vírus não negociou com nenhum chefe de Estado do mundo. Não negociou com nenhum sistema de saúde do mundo.

Temos de tentar evitar colapsos, porque o colapso que o novo coronavírus provoca é um colapso muito maior do que o do sistema de saúde. Se fizermos movimentos errados, vamos pagar um preço muito alto.

Os pesquisadores têm falado bastante da necessidade de definir o R, quantas pessoas são infectadas por uma única pessoa com o vírus, no Brasil. Com a baixa testagem da população, como vamos conseguir identificar a taxa de transmissão no País?
Existem técnicas para fazer a identificação. Normalmente se faz isso por algo chamado inquérito sorológico, que é o que foi feito pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no Rio Grande do Sul, serve hoje de modelo para todo o Brasil e deixamos pronto para fazer por Estado.

No inquérito sorológico é possível ver velocidade de propagação, saber o percentual da população que esteja imunizado e consegue confrontar os dados com os casos notificados. O inquérito sorológico é a grande chave para fazer planejamento.

A adoção do uso de máscaras para toda a população, como no caso de São Paulo, demorou muito para começar. A capital paulista só adotou a medida na quinta-feira, 7. A máscara, que o sr. recomendou enquanto ainda era ministro, já deveria ter sido adotada há mais tempo?
A máscara ajuda. Durante muito tempo, ficamos sem uma regulamentação por parte da Anvisa [Agência Nacional da Vigilância Sanitária] sobre máscara de pano, de tecido, que era uma coisa que o Ministério da Saúde solicitava à Anvisa que fizesse a sua regulamentação.

Sou médico de uma geração que quando comecei a operar nós operávamos todos com máscara e roupa de pano. Existia um protocolo de lavar, limpar e esterilizar. Demorou muito tempo até o Ministério da Saúde fazer uma regulamentação própria para permitir que as pessoas possam usar máscara caseira.

É importante usar? É. Mas é preciso saber que tem de lavar com água sanitária, que é uma peça que você pode usar durante um período de tempo, mas não adianta ficar com a máscara vencida, com umidade, com saliva.

Não é porque está com a máscara que pode tudo. A máscara é simplesmente uma barreira mecânica que ajuda. Mas o mais determinante é distanciamento, ficar em casa, lavar as mãos, fazer a higiene das mãos, do rosto, passar o álcool em gel. Tomar as medidas de higiene é mais importante do que a máscara.

“Vemos a diferença dos números de Goiás para outros Estados, fruto da seriedade com que prefeitos e o governador têm tratado o tema”

“É preciso tomar cuidado, não podem relaxar para não ter problemas daqui para frente” | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Há cidades nas quais o transporte público tem funcionado com frota reduzida de veículos num mesmo momento em que as medidas restritivas são afrouxadas, o que tem gerado aglomerações nos pontos e terminais de ônibus. Qual o risco de aumentar o contágio nesses locais?
É preciso ter bom senso. Tem de haver distanciamento, não pode ter ônibus superlotado. O ônibus vai refletir qual é o nível de atividade social que tem uma cidade. Enquanto não há circulação intensa de vírus, aparentemente isso é inofensivo. Na hora que tiver uma circulação mais intensa do vírus, será um dos primeiros serviços a fechar.

Se discute a possibilidade de o novo coronavírus ter sofrido mutações em diferentes países, se há uma letalidade maior do Sars-Cov-2 em uma região do que em outra. Já há a informação se no Brasil o vírus sofreu alguma mutação?
Não. O vírus é o mesmo com variações genéticas mínimas. Estamos falando do mesmo vírus. A letalidade é em função da velocidade como que o coronavírus se propaga e da capacidade do sistema de saúde de atender os pacientes. Todos os países vão passar pelo coronavírus com maior ou menor grau.

Chegou a ser cogitada a vinda do sr., ao sair do Ministério da Saúde, para o cargo de secretário estadual de Saúde em Goiás. Quais são os planos do sr. a partir de agora?
Sou muito amigo do governador Ronaldo Caiado (DEM), talvez por isso essa possibilidade foi cogitada. Secretário Ismael Alexandrino é uma pessoa maravilhosa, trabalha muito bem e eu não tenho nenhuma possibilidade, no momento, de ser secretário de Estado nenhum.

Não conheço a realidade do Estado de Goiás. Seria muito ruim para Goiás. Eu ajudo com leituras para o governador, com sugestões, assessoria. Gosto muito do Estado de Goiás. Sou de um Estado aqui do Centro-Oeste, sou do Mato Grosso do Sul, somos todos da mesma forja. Será um prazer e uma honra para mim sempre ajudar o Estado de Goiás, que faz um bom trabalho.

Vemos a diferença dos números de Goiás para outros Estados, fruto da seriedade com que prefeitos e o governador têm tratado o tema. É preciso tomar cuidado, não podem relaxar para não ter problemas daqui para frente.

Enquanto o sr. estava à frente do Ministério da Saúde, o Entorno do Distrito federal já era uma preocupação por causa da Covid-19. O que o Hospital de Campanha de Águas Linda de Goiás representará no combate à doença quando começar a funcionar?
O Hospital de Campanha foi uma solicitação do governador Caiado. O que nos comprometemos foi em montá-lo e, quando for necessário, o governador irá ativá-lo através dos equipamentos, pessoal, enfermeiros e médicos que o Estado definir.

É uma área que tem uma desassistência muito grande. Tem um hospital que foi construído, gastaram muito dinheiro, uma obra definitiva que o governador retomou. Esse hospital sim dará uma condição melhor para aquela região. É uma região muito preocupante porque concentra um número grande de pessoas e Brasília já tinha dado sinais de que não atenderia a população goiana que está no Entorno do Distrito Federal.

O Hospital de Campanha é uma unidade de 200 leitos que precisa ser ativada assim que o Estado tiver as necessidades de utilizar a estrutura. Mas foi uma solicitação do governo de Goiás.

Como fazer as pessoas entenderem que a Covid-19 não é uma gripezinha ou um resfriadinho, principalmente quem insistem em convidar amigos e parentes para fazer churrasco e ver lives de artistas na TV?
Acho que a população já entendeu. Todo mundo já sabe a gravidade da doença. Mas tem pessoas que são inconsequentes com a vida, com a vida dos seus pais, dos seus filhos, dos seus parentes, inconsequentes com a sociedade, inconsequentes com o sistema de saúde. Pessoas que insistem e fazem esse tipo de atitude. Normalmente não assumem.

Infelizmente, temos de insistir, falar, aconselhar. Não é uma questão de violência, nada disso. É uma questão de diálogo, de explicar. A maioria dos brasileiros já entende, já faz a sua parte. Alguns se submetem ao trabalho porque precisam trabalhar, sabem que a vida é dura. Precisamos acreditar que a ciência vai nos dar algumas notícias boas para podermos sair desta crise sanitária.

Mas enquanto não temos, precisamos preservar e lutar pela vida de uma maneira muito intensa. Temos o resto da vida para nos arrepender de não termos cuidado da vida.

“Eu lutei intransigentemente pela vida do povo brasileiro”

“Eu, como cidadão, sinto o Ministério da Saúde mais distante daquela quantidade de informações que era entregue, comentada, analisada e submetida” | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Parece ter passado aquela fase em que agentes públicos defendiam o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina no tratamento da Covid-19, até pelo resultado preocupante das pesquisas. Começamos a ver o início das autorizações no mundo para o uso do remdesivir nos pacientes internados. Por que nunca se discutiu o uso do remdesivir no Brasil, mesmo com resultados preliminares melhores nas pesquisas para a Covid-19 do que a cloroquina e a hidroxicloroquina?
Isso é típico da ciência. Deixemos os médicos pesquisarem, os infectologistas analisarem, pesquisarem, submeterem, fazerem os estudos. Podemos torcer. Sou um homem de muita fé. Rezo todos os dias o terço e peço para que ilumine os cientistas para que eles nos tragam melhores drogas, melhores medicamentos, para que tragam uma vacina, testes melhores.

Posso torcer. Não posso adotar uma linha sem ter embasamento científico. Defendo com intransigência a ciência, o apoio à ciência, porque será através da ciência que vamos virar esta página.

No que o sr. diz ter feito, com torcida para que cheguemos a uma fase melhor, como o sr. tem acompanhado o trabalho do novo ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich, que está no cargo há 22 dias?
Da mesma forma que você, como cidadão. Não o conheço, não conheço a equipe, as medidas. Me parece que este vírus não deixa muita opção. Para quem jurou defender a vida, o coronavírus não deixa muita opção a não ser procurar desviar da doença. O resto é só força de expressão, força de palavras: se elas vão ser mais duras, mais intensas ou mais amenas.

Eu lutei intransigentemente pela vida do povo brasileiro. Acreditei que era a razão de ser, de eu estar ali, era alertar ao máximo, dar o maior número de informações, trabalhar com muita transparência, estar presente nas coletivas, responder a pergunta da imprensa. A imprensa livre divulgando tudo, perguntando, é a melhor que podemos ter para lutar contra este vírus, contra este inimigo.

Diferente de uma guerra contra um inimigo que você precisa ter segredos de guerra, quando seu inimigo é um vírus, você tem de ter o maior número de informações na mão da população. Porque só a população sabendo de tudo, das suas fraquezas, das suas possibilidades, é que ela pode se preparar, é que você pode dar o mínimo para a pessoa lutar. Procuramos dar às pessoas o máximo de informação sempre.

Eu, como cidadão, sinto o Ministério da Saúde mais distante daquela quantidade de informações que era entregue, comentada, analisada e submetida. Nossos erros e nossos acertos eram submetidos sistematicamente à opinião pública.

A visão do sr. como médico com relação ao SUS mudou depois que ocupou o cargo de ministro da Saúde?
Não mudou. Os princípios filosóficos que aprendi na medicina nunca foram tão atuais. E que o Juramento de Hipócrates, que os profissionais fizeram, principalmente os mais jovens, sirva de referência. Aquilo não é simplesmente um enfeite para uma formatura de medicina. Aquilo é uma verdade. E é atras daquela verdade que temos de ir atrás.

Qual é o tamanho da preocupação que temos de ter hoje com quem está na linha de frente do tratamento de pacientes da Covid-19? Quais são os cuidados que precisam ser tomados na atuação das equipes de saúde?
Os profissionais de saúde são aqueles que temos de cuidar muito deles, tratá-los muito bem. Organizar ao máximo esta força de trabalho. É através deles que vamos ter tratamento. A enfermagem brasileira é uma enfermagem guerreira, uma enfermagem com raça, é uma enfermagem que não larga o doente. É reconhecida como uma enfermagem inspirada em Anna Nery. 

Junto com uma enfermagem profundamente comprometida, um corpo clínico comprometido, os agentes comunitários precisam assumir mais as visitas domiciliares, orientar mais os idoso para quem tenham consciência, orientar as famílias na hora de fazerem a promoção da saúde de uma maneira mais intensa.

O dia 12 de maio é o Dia da Enfermagem. É um dia para rendermos todas as homenagens à enfermagem, porque ela está na linha de contágio, está na linha de frente. E é inadmissível que qualquer pessoa não renda homenagens, não agradeça. Inadmissível que alguém pratique qualquer ato de violência, agressão verbal à enfermagem, aos médicos, que estão na ponta, muitas vezes submetidos a um trabalho sem as devidas condições.

Merecem todo o nosso aplauso, todo o nosso respeito pelo carinho e a dedicação que têm dado aos milhares de pacientes que batem à porta do sistema hospitalar brasileiro.

Como ficou a relação do sr. com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido)?
Nunca tive… Nunca tive… O presidente tem toda a prerrogativa de trocar os ministros, ele foi eleto. Os ministros são nomeados pelo presidente e são exonerados pelo presidente. Saí sem nenhum conflito com o presidente. Sempre o tratei com muito respeito e sempre também me tratou com muito respeito. Desejo um bom trabalho e boa sorte ao presidente. Temos opiniões diferentes sobre este assunto, mas isso é normal da democracia.

Como ficará o trabalho do sr.? O que fará a partir de agora?
Estou aguardando a Comissão de Ética da Presidência da República. Quando se ocupa o cargo de ministro de Estado, é preciso solicitar se a comissão permite que a pessoa trabalhe. Não quero ficar recebendo um salário durante seis meses para ficar em quarentena. Sou obrigado a perguntar e comissão dirá o que eu posso ou não fazer, se posso fazer consultoria, se posso ter assessoria, se posso fazer palestra, se posso cobrar ou não. Isso quem define é a Comissão de Ética da Presidência da República.

Por isso, estou aguardando. Se disser que não posso fazer nada, que tenho de ficar em casa, ficarei muito triste, porque nos últimos cem dias estudei muito o assunto e poderia ajudar muito as cidades, os Estados, governadores, hospitais, entidades médicas e de enfermagem. Poderia transmitir a eles coisas que aprendemos e dos contatos que tivemos no mundo.

“Desejo um bom trabalho e boa sorte ao presidente. Temos opiniões diferentes sobre este assunto, mas isso é normal da democracia”

“Nunca tive… Nunca tive… O presidente tem toda a prerrogativa de trocar os ministros, ele foi eleto. Os ministros são nomeados pelo presidente e são exonerados pelo presidente. Saí sem nenhum conflito com o presidente” | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

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