Aline Bouhid e Elder Dias

As eleições gerais de 2022 foram há sete meses, mas o horizonte da política já se joga para 2026, especulando a eleição presidencial – ou reeleição, no caso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocar seu nome – e os pleitos nos Estados. Antes, têm as disputas municipais de 2024, importantíssimas para definir com que força local os partidos chegarão dois anos depois.

A presidente do PT em Goiás, Kátia Maria, conhece bem esse processo. Ela está há seis anos na direção e ajudou a reconstruir o partido após a deposição de Dilma Rousseff (PT), naquilo que os petistas e a esquerda como um todo – e também gente de outros grupamentos – nunca deixaram de chamar de “golpe”.

Agora, ela é também uma das caçulas da Câmara de Goiânia. E Kátia já tem muito a mostrar em sua prestação de contas de pouco mais de cem dias à frente do mandato herdado de Mauro Rubem, eleito deputado estadual: várias audiências públicas sobre temas importantes, os projetos Abrace o Meia Ponte e Viva o Centro, “abraçados pela Câmara” – como ela ressalta – e muita caminhada pelas diversas regiões da cidade visitando equipamentos públicos. Para quem, desde 2017, já esteve em todos os 246 municípios de Goiás – “tem cidade em que fui até cinco vezes” –, a rotina nem parece tão pesada.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, a vereadora fala um pouco sobre tudo isso e dá uma ideia de como pretende trabalhar suas principais bandeiras no Legislativo goianiense: educação, saúde, cultura e meio ambiente. Revela, também preocupação sobre como o novo Plano Diretor de Goiânia vê a preservação ambiental da cidade.

Aline Bouhid – O que o PT já está pensando para as eleições municipais do próximo ano?

O Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras tem um legado em Goiânia, e um legado muito grande. Já governamos a cidade por três vezes e acredito que este momento que vivemos agora mostra que, mais do que nunca, vai ser preciso que apresentemos nosso projeto, porque a cidade enfrenta muitos problemas. Temos problemas de ordem social, econômica, de infraestrutura, na saúde também.

Na Câmara, sou presidente da Comissão de Saúde e recebemos informações de que várias unidades funcionam de forma muito precária, com lista de espera grande e sem transparência. Na educação, mais de 7 mil crianças da capital aguardam por vagas em Cmeis [centros municipais de educação infantil], é um déficit grande que temos. Por isso, o PT precisa colocar seu projeto na rua e apresente seus nomes para debater com a sociedade, dando oportunidade para que Goiânia, que já escolheu nosso projeto por três vezes, tenha novamente a possibilidade de avaliá-lo. Entendendo que é o melhor para a capital, que nos dê a oportunidade de governá-la mais uma vez.

Na redação do Jornal Opção, vereadora Kátia Maria concede entrevista a Aline Bouhid e Elder Dias | Foto: Wesley Menezes

No PT, representar o projeto é algo maior do que qualquer nome de liderança

Aline Bouhid – E quais são os nomes que o partido coloca em campo?

Ainda não chegamos à fase de definição de nomes. O PT tem um método diferente, a gente discute o projeto, alinha com as demandas da sociedade, para só depois definir nomes. Mas hoje nós temos o nome da deputada federal Adriana Accorsi, que é muito lembrado; também o professor Edward [Madureira, primeiro suplente de deputado federal], que também é um nome de respeito e com 55 mil votos, além de reitor por três vezes na UFG [Universidade Federal de Goiás], então tem uma experiência muito grande em gestão; há ainda o deputado [estadual] Mauro Rubem, que também colocou seu nome à disposição.

O PT tem isto, que considero uma vantagem: primeiro trabalhamos com o projeto, o que facilita muito lá na frente, já que, indiferentemente do nome escolhido, tem a marca do partido. Representar esse projeto é algo maior do que o nome de qualquer liderança. Vamos discutir até que esse nome seja apresentado à sociedade.

Elder Dias – Por uma questão de antiguidade no partido e de já ter disputado a Prefeitura duas vezes, Adriana tem prioridade nessa lista tríplice?

Eu diria não que haja uma prioridade, mas é natural que quem já teve candidatura seja o primeiro nome a ser discutido. Mas candidato tem de querer. E ela vem dizendo que não quer. Então, é também natural que a gente discuta outros nomes, outras possibilidades. O
professor Edward tem feito várias conversações, construindo sua pré-candidatura, e Mauro Rubem, na semana passada, também se colocou à disposição. Tenho certeza de que nós dialogaremos com a direção municipal de Goiânia para o que seja melhor para o partido. Mas é bom ressaltar que o PT não vai discutir sozinho, porque está numa federação. Então, vamos fazer esse diálogo dentro do partido, definindo qual o projeto, e vamos ter de apresentar isso à federação composta com o PV e o PCdoB. Esse conjunto de partidos é que vai definir o nome, mas acredito que o PT, nesse sentido, sai na frente por sua musculatura, pelas vezes em que já disputou e pelos nomes que tem. Mas temos de construir isso com a participação de toda a federação.

Elder Dias – Há rumores de que Adriana Accorsi poderia sair para o Senado, se houvesse uma composição com o MDB de Daniel Vilela?

Não existe essa conversa ainda, 2026 está longe, temos de preparar antes 2024, dentro do PT. Vamos fazer o que fizemos no Estado em 2022: buscar ampliar nossa representação no Legislativo dos municípios, garantir que tenhamos também maior representação nas prefeituras. Obviamente, isso vai nos preparar para 2026. Então, o que vamos ser em 2026, onde e com quem estaremos, bem como o nome que vai nos representar, tudo isso automaticamente passa por 2024. Por enquanto, o que existe é a clareza de todas as nossas lideranças de que precisamos fortalecer o partido e preparar para que o time do Lula entre em campo e amplie sua representação.

A realidade local vai ditar muito, mas estar no governo Lula nos aproxima (PT e MDB)

Elder Dias – À exceção do período de composição com Iris Rezende entre 2008 e 2016, o MDB foi sempre um adversário político do PT em Goiânia. Existe chance de nova coalizão com os emedebistas já para o ano que vem? Já houve alguma conversa entre os partidos?

Do ponto de vista de alianças, não. O que tenho dito é que é natural que os partidos da base do governo Lula sejam os que a gente possa dialogar aqui no Estado. Vai ser com todos os partidos? Não, porque a realidade local vai ditar muito. Mas estar no governo Lula nos aproxima, do ponto de vista de defender as políticas nacionais. Na medida que tenha um alinhamento maior com o governo federal, isso pode abrir um diálogo para as eleições futuras. Queremos discutir o projeto do PT, colocar nossos nomes. Até o momento, o MDB ainda não tem seus nomes. Se a gente se juntar e eles indicarem um vice para uma composição de chapa, acredito que poderia ser uma chapa muito forte. PT e MDB já estiveram em outras eleições juntos e é uma construção que precisa ser feita, mas não existe essa construção ainda aqui. O que existe está no governo federal, o que abre possibilidade de dialogar no Estado também.

Elder Dias – E se estar no governo federal abre essa possibilidade, então há também chance de negociar até com o governador Caiado, já que o União Brasil é da base de Lula.

Como disse, vai depender da conjuntura local. Com União Brasil, isso aqui é um pouco mais difícil porque há uma divergência de pensamento maior. Nós temos ajudado o governador, porque ajudar o governador é ajudar a população, os programas do governo federal vêm por intermédio do governo do Estado, é uma questão administrativa. Ajudamos todos os governos de Goiás anteriores enquanto estivemos no governo porque isso é ajudar o povo, é trazer política pública. Agora não tem um alinhamento automático. Eu diria que com o União Brasil
haveria uma análise um pouco diferente da que teríamos com o MDB, com que já tivemos em outras ocasiões juntos. Não seria um alinhamento automático, porque há um pensamento bastante diferente, que se distancia de nosso projeto.

Aline Bouhid – E como está a situação do partido nos outros municípios? Parece já haver nomes nas cidades mais tradicionais. Quais nomes estão cotados?

O PT é o que tem mais diretórios em Goiás, entre os partidos constituídos. Agora, vamos passar por um momento de reformulação também dessas instâncias partidárias. Temos um calendário de atividades para que, onde houver comissão provisória a gente fazer com que essa comissão se torne diretório, porque essa é uma política do PT – a gente não deixa comissão provisória visando aquele tradicional troca-troca.

Então, o momento é de reorganização das instâncias partidárias nos municípios. Nós estamos em mais de 220 cidades, isso dá muito trabalho. Vamos ficar até outubro fazendo essa organização interna. Paralelamente a isso, estamos com uma campanha de filiação e de atração de lideranças políticas em todas essas cidades, para que possam compor conosco com a pretensão de ter candidaturas a prefeituras e câmaras. Não estamos dando prioridade para definição de chapas majoritárias agora. Não adianta uma cidade querer ter candidatura se não tiver formado a chapa de vereadores, que é a base de sustentação para a candidatura majoritária. Então, vamos focar, neste primeiro ano, a formação de chapas proporcionais competitivas para ampliar nossa representação nas câmaras municipais. Obviamente, Anápolis, o entorno do DF, Aparecida de Goiânia e cidades onde já governamos ou estamos governando são prioridades para discutir a chapa majoritária. Mas a tarefa de casa do momento é organizar o partido e fazer a chapa proporcional.

Elder Dias – Quantos diretórios e quantas comissões provisórias o PT tem no Estado hoje?

Da última contagem, eram cerca de 150 diretórios e 76 comissões provisórias, salvo engano. Os diretórios são a ampla maioria e vão aumentar em número com esse movimento que vamos fazer, no que chamamos de PED, os processos de eleições diretas, e de que todo filiado ou filiada pode participar. Faremos isso no segundo semestre, para termos mais instâncias consolidadas, com mandato com tempo determinado, como são os diretórios.

Elder Dias – Em seu início de gestão como presidente, a sra. disse que era um desafio puxar filiados para o PT, naquela fase pós-impeachment de Dilma Rousseff [em 2016]. Como avalia essa sua trajetória?

Sinto orgulho do trabalho que a gente fez. Verdadeiramente não é fácil ser a primeira
mulher a presidir o partido, isso por si só já é um desafio muito grande. Quando entrei, em 2017, estávamos no olho do furacão do golpe, Dilma tinha acabado de ser destituída ilegalmente do cargo e as pessoas viviam com muito medo, porque o ataque ao partido estava muito forte. E nós levamos adiante esse processo. Claro, isso é resultado de um esforço coletivo do partido, mas tenho a honra de ter coordenado tudo isso. Não tenho dúvida de que minha determinação de andar o Estado inteiro várias vezes – eu conheço os 246 municípios e tem cidade em que fui até cinco vezes para dar conta de formar a direção – fez alguma diferença. Hoje o PT está presente em mais de 90% dos municípios.

Conseguimos, em 2022, ainda em uma eleição muito acirrada, com muita fake news e ataques, além do uso da máquina pública como nunca tínhamos visto antes, dobrar a bancada de deputado federal e quase dobramos a bancada de deputados estaduais – faltaram 77 votos para a gente fazer o quarto nome. Lula, no Centro-Oeste, teve em Goiás o Estado com maior votação percentual. Então, vejo valeu a pena todo o esforço que tivemos nesse trabalho coletivo de fortalecimento do PT.

O PT continua fazendo oposição séria e firme (ao prefeito de Goiânia)

Aline Bouhid – Em Goiânia, está havendo uma reaproximação entre vereadores e o prefeito Rogério Cruz (Republicanos), em um governo de coalizão. Como o PT enxerga esse processo?

Na verdade, não é um processo novo. Todas essas pessoas que estão, digamos, realinhando relacionamentos com o prefeito já eram da base dele. Então, não tem novidade quanto a essa base. O que havia era um descontentamento, aí veio essa fase de diálogo mais intensivo entre eles, mas não muda muita coisa, porque eles já eram da base. O PT continua fazendo oposição séria e firme, que mostra o que tem que mostrar e que fiscaliza. Fizemos agora audiência pública da saúde e apresentamos um relatório muito contundente das falhas e do que não foi cumprido no Plano Anual da Saúde (PAS) de 2022. Também fizemos os questionamentos necessários na prestação de conta do prefeito. Solicitei que, assim como tem uma página de aplicação da saúde e da educação – que são áreas com recurso vinculado –, na próxima prestação de conta queremos ver também os recursos vinculados na assistência social, na cultura e no meio ambiente. São três áreas importantíssimas para o desenvolvimento da cidade e que têm recurso vinculado, mas a gente não tem a transparência devida e o acompanhamento como se tem em saúde e educação. O prefeito chegou a dizer que nunca havia sido cobrado na área da cultura e o que tenho a dizer é que cheguei à Câmara para isso.

No Centro tem muita coisa acontecendo. O que falta é incentivo, boa organização

Aline Bouhid – Em que situação está a aplicação integral dos recursos vinculados à cultura em Goiânia?

Como disse, fizemos a cobrança diretamente ao prefeito na prestação de contas. Realizamos uma audiência pública com a presença do secretário de Cultura [Zander Fábio] e quero destacar a abertura que ele tem tido para dialogar conosco e com o movimento. Foi uma reunião extremamente representativa e o próprio secretário admitiu que as atividades que eles já tinham realizado não tiveram a representação de nossa audiência pública. Isso porque os produtores culturais e artistas têm sede dessas atualizações. Precisamos fazer com que a lei seja executada. Queremos nada mais que aquilo existente na lei referente à cultura e que esses produtores possam dar sua contribuição. Isso é importante para a Prefeitura, para os produtores culturais, mas, sobretudo, para a comunidade. É por meio desses mecanismos de incentivo e fomento à cultura que vamos fazer com que as várias modalidades de arte cheguem às comunidades, na região noroeste, na sudeste, na oeste, na região norte e todas as demais.

No último dia 24 [quarta-feira] fizemos o Viva o Centro, uma atividade de ocupação do Centro de Goiânia. Tenho debatido com alguns vereadores que eles têm usado a expressão “o Centro é um lugar fantasma”. Não é. No Centro tem muita coisa acontecendo. O que falta é incentivo, uma boa organização dessas atividades, e o nosso mandato se dispôs a fazer isso. Então de um lado, estamos buscando o cumprimento da lei, com algumas reivindicações para aprimoramento dela. Concomitantemente, queremos que a cultura chegue aos bairros. Mas quem mora nos bairros também tem direito de usufruir a cultura no Centro de Goiânia, porque nós temos como levar o Teatro Goiânia para lá, nem o Centro Cultural Goiânia Ouro, nem a Rua 8. Tem de haver uma via de mão dupla: os equipamentos de cultura tem de chegar aos bairros, mas as pessoas que moram nos bairros também precisam conhecer as atrações culturais que existem no centro. Vamos fazer esse movimento com o Conselho de Cultura, analisar as leis que compõem esse arcabouço de financiamento. Então, a partir de um diálogo entre Câmara, Secretaria Municipal de Cultura e Conselho Municipal de Cultura, queremos que antes de agosto, quando o orçamento deve ser enviado para o Legislativo, já tenham sido feitos esses ajustes sobre o que está realmente na lei de verdade, para que a Prefeitura possa fazer o orçamento de 2024 com a garantia dos investimentos na cultura.

Elder Dias – Em que pé está o projeto Cara Limpa, que é uma ideia que não sai do papel – ou pouco sai – já há décadas? Está dentro dessa proposta?

Essa é uma boa questão. Precisamos discutir como é que podemos resgatar a questão das fachadas, a art déco, mas também quais são os patrimônios imateriais da cidade. Nós temos uma cultura dos becos que não é explorada. Muita gente nem sabe sobre a vida cultura dos becos, então existe um nicho a ser trabalhado. Precisamos, também, discutir segurança pública e dignidade humana. Temos uma população em situação de rua muito grande no Centro e, ao mesmo tempo que precisamos acolhê-la, temos de garantir a segurança dela e de todos os que vivem ali, principalmente os comerciantes. Moro no Centro e sei do que estão falando, porque estou lá desde 2007. Portanto, são muitos os desafios: segurança pública, habitação, transporte, mobilidade, sustentabilidade, patrimônio material e imaterial, tudo isso precisa ser trabalhado em seminários com as mais diversas entidades, como fizemos no circuito cultural que fizemos com o Viva o Centro.

Elder Dias – Sobre esse projeto Viva o Centro, foi uma parceria com a Secretaria Municipal de Cultura?

Na verdade, fizemos uma devolução do duodécimo do Legislativo, com o compromisso de que a Secretaria de Cultura entraria como parceira nesse projeto. Ou seja, a Câmara está realizando esse projeto, inclusive financeiramente.

Elder Dias – Mas a iniciativa foi sua?

 A iniciativa é minha, aprovada em plenário, um projeto de nosso mandato que a Câmara aprovou e abraçou para si. Havíamos feito isso também com o projeto do Meia Ponte e deu muito certo. Agora, o presidente Romário Policarpo [Patriota, presidente da Câmara de Goiânia] acreditou mais uma vez em uma iniciativa de nosso gabinete, para o Centro de Goiânia.

Estou muito convencida de que é possível recuperar o Meia Ponte

Elder Dias – E em que consiste essa ação envolvendo o Rio Meia Ponte?

Ela se chama-se Abrace o Meia Ponte. Acredito que seja um dos maiores projetos de que a Câmara esteja à frente neste momento. O Rio Meia Ponte abastece, com sua bacia, 100% da Grande Goiânia. Então, cuidar do Meia Ponte é cuidar de nossa própria sobrevivência, porque é garantir que a água chegará à torneira da casa de todas as pessoas. Esse projeto ele ganhou um volume de apoios maior até do que eu havia projetado. Fizemos uma expedição, descendo o leito por terra e por água, fazendo todo o diagnóstico do rio. Essa expedição durou seis dias e fizemos depois uma primeira reunião técnica de trabalho, apresentando dados iniciais. Estamos agora no fechamento desse relatório e vamos lançar, em 12 de junho, a Carta das Águas do Meia Ponte, trazendo, numa apresentação pública, o balanço de como está o rio e quais são as principais diretrizes que apontamos para sua recuperação. Estou muito convencida de que é possível recuperar o Meia Ponte, ainda que tenhamos necessariamente uma ação de médio a longo prazo, garantindo a oferta de água de qualidade. Já estamos, também, buscando linhas de financiamento para a implementação do projeto. Acredito que será o documento mais completo sobre o Rio Meia Ponte dos últimos anos, porque há estudos separados: alguém estuda água, outro estuda solo, um terceiro, a vegetação. Mas nesse documento vamos ter informações por uma equipe multidisciplinar sobre qualidade da água, do solo, fauna, flora e o impacto da ação humana no rio. E precisamos fazer tudo isso virar uma realidade.

Uma novidade, que falo aqui pela primeira vez, é que a Câmara vai lançar, também no dia 12, a criação do Observatório do Meia Ponte. A ideia é fazer uma parceria da Câmara com as universidades e abrir no governo federal, por meio do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], algumas ações de financiamento. Estão envolvidos a Câmara, sob minha coordenação, a UFG, o IFG [Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás], e a Saneago, que têm sido a linha de frente desse projeto de recuperação do Meia Ponte. Todos, inclusive, estavam na expedição, ao lado de cerca de 20 parceiros. É preciso ressaltar o comprometimento que essas três instituições tem tido nessa pauta.

Elder Dias – Muitos anos atrás, ainda no governo do professor Pedro Wilson [PT, prefeito de 2001 a 2004] foi anunciado o projeto Macambira-Anicuns, que revitalizaria os cursos d’água e beneficiaria uma área extensa da capital, principalmente da região sudoeste até a noroeste Mas tivemos um andamento muito pequeno dessa obra, que seria gigantesca. Ainda existe algo em relação ao Macambira-Anicuns na atual gestão? Se não, existe alguma possibilidade de retomada desse projeto ou vocês nem discutem isso na Câmara?

De fato, existe o projeto, mas realmente isso está paralisado. É importante para Goiânia, talvez hoje tendo de remodelar alguma coisa, porque já é um projeto mais antigo. Houve algum avanço na gestão de Paulo Garcia [PT, prefeito de 2010 a 2016], quando houve a implantação do Parque Macambira. Seria essencial retomá-lo, até porque o Ribeirão Anicuns deságua no Meia Ponte e é um dos mananciais mais poluídos, jogando seus efluentes em toda a bacia. Então, trabalhar o Meia Ponte vai exigir também trabalhar todos os córregos de Goiânia, porque são afluentes do rio. O assoreamento e a degradação do Meia Ponte são resultado também da degradação de seus afluentes. Então, se cursos d’água tão importantes como o Anicuns, o [Ribeirão] João Leite, o [Córrego] Botafogo e tantos outros estão precários, isso afeta também o rio maior. A recuperação do Meia Ponte vai passar por trabalhar também com os córregos, que são seus braços.

Elder Dias – Goiânia foi construída exatamente aqui por conta da abundância de água. Esse projeto da Câmara que a sra. lidera trabalha com essa questão?

Nós estamos no berço das águas e é necessário que as pessoas entendam isso. Já vivemos uma crise hídrica e, se nós cuidarmos, vamos passar por secas terríveis daqui a um tempo. Não adianta construir reservatórios – e eu falei isso no lançamento dos novos reservatórios da cidade, na região noroeste [evento realizado no dia 17 de março], ao presidente da Saneago [Ricardo Soavinski] e ao governador Ronaldo Caiado (UB) –se não cuidarmos da recuperação de nossas nascentes e da preservação dos cursos d’água. Caso contrário, esses equipamentos e obras, que caros, ficarão subutilizados, porque precisa ter água para que funcionem. Só vamos ter água se preservarmos as nascentes que compõem a Bacia do Meia Ponte.

Elder Dias – O governador Caiado e o governo estadual de forma geral, como estão envolvidos com esse projeto? A burocracia do Estado está participando diretamente, além da Saneago?

A Saneago tem participado mais ativamente, como em todo a expedição, e está conosco elaborando os dados laboratoriais, ajudando no diagnóstico. Recebi, pelo Canal do Cidadão, mais de dez denúncias, que encaminhamos aos órgãos competentes, seja a Secretaria de Meio Ambiente do Estado (Semad) ou a Amma [Agência Municipal do Meio Ambiente]. A expedição não foi punitiva, fiscalizatória; foi educativa e de levantamento de dados. Entretanto, é automático que, vendo alguma intervenção ilegal e recebendo a denúncia, nossa tarefa é acionar os órgãos competentes. Costumo dizer que, se não vai pelo amor, vai pela dor. E as multas existem para aquelas pessoas que não se conscientizaram pela educação ambiental, talvez elas tenham mais zelo se mexer no bolso. É assim no trânsito e em outras áreas, infelizmente.

Elder Dias – Para quem está com três meses e meio de mandato, já é muita coisa, não?

Sim, são cem dias de mandato. Estamos falando de dois projetos que são, diria assim, as meninas dos olhos, nascidos em seu gabinete e abraçados pela Câmara, aprovados por unanimidade em plenário e com respaldo da presidência da Casa.

Elder Dias – Os vereadores têm esse nível de produção, em geral?

O que posso dizer que a Câmara tem uma produção grande. Sou da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Educação e presido a Comissão de Saúde, então sei que é um volume alto de projetos que tramitam na Casa.

A Câmara de Goiânia tem de cumprir seu papel de discutir a cidade

Elder Dias – Mas são projetos realmente de impacto? Porque, no imaginário popular, se consolidou a crença de que vereador só homenageia gente com diplomas e medalhas e muda ou dá nome para rua.

Esses cem dias têm me mostrado que essas ações também são importantes, porque as pessoas se sentem reconhecidas e valorizadas cada vez se faz uma sessão solene. Fiquei bastante atenciosa a isso e vejo que é uma ação necessária também. O que não pode é se resumir a isso. A Câmara tem de cumprir seu papel de discutir a cidade, de apresentar projetos que solucionem a vida da população e acho que está em um nível satisfatório no momento. A mostra disso são esses dois grandes projetos que estamos fazendo, o Abrace o Meia Ponte e o Viva o Centro.

Elder Dias – Quais são suas demais ações no Legislativo?

Temos projetos para o combate à violência contra a mulher, pela igualdade salarial. Na área da educação, estamos acompanhando muito de perto agora a questão do piso salarial e a abertura do concurso público, que vinha sendo uma tarefa do mandato do então vereador Mauro Rubem. Tomei essa bandeira com muita força e tivemos uma convocação de aprovados, mas queremos que outros, do cadastro de reserva, também sejam convocados.

Outra atividade é andar por Goiânia, o que eu chamo de Kátia por Goiânia. Então, pego uma região por vez e visito todas as escolas, os Cras [centros de referência de assistência social], as unidades de saúde, o Conselho Tutelar. É preciso ver “in loco” como está a prestação do serviço público à comunidade. Também fizemos várias audiências públicas, como sobre o Código de Postura e a questão dos pit dog, outra para discutir a violência contra a população LGBTQIA+, uma terceira para discutir a violência nas escolas e a saúde emocional de nossos estudantes, em que tivemos a honra de receber o ministro Márcio Macedo [chefe da Secretaria-Geral da Presidência]. Fizemos com ele esse momento e o governo federal, com um comitê intergestor, teve a iniciativa da Caravana da Juventude pela Paz nas Escolas,
que é muito próximo do que nós discutimos em nossa audiência pública.

Não vamos resolver o problema da violência nas escolas só com guarda municipal, PM e detector de metais. Temos de fazer um debate profundo sobre a saúde mental de nossos alunos, mas também de nossos professores. O funcionamento da rede de atenção da saúde mental em Goiânia está muito precário, os Caps [centros de atenção psicossocial] não têm dado conta de atender, por déficit de profissionais e por falta de infraestrutura. Muitos lugares funciona com a boa vontade de um profissional que faz ali seu próprio kit para trabalhar com a população.

Elder Dias – A sra. tem levantado um debate para fazer correções de falhas no Plano Diretor e também pela aprovação das leis complementares, que ainda, muitas delas, nem chegaram à Câmara. O último Plano Diretor ficou para trás sem que houvesse regulamentação de muita coisa que estava nele. Esse novo Plano também já está caminhando para isso?

Sou discípula de Paulo Freire no quesito do “esperançar”. Tenho a esperança ativa, que é a esperança com ação, fazendo algo para que as coisas aconteçam. Fizemos uma audiência pública extremamente representativa, com universidades participando, com o CAU [Conselho de Arquitetura e Urbanismo], com o Crea [Conselho Regional de Engenharia e Agronomia]. Tivemos ali a certeza de que alguns pontos do Plano Diretor precisam melhorar. Um exemplo: não adianta dizer que a área de preservação dos rios foi ampliada para cem metros [a partir das margens] se não tem um mapa apontando onde estão as áreas de preservação e onde estão as nascentes. Como preservar, se não está pontuado, se esse mapa ainda não existe? Ninguém viu esse mapa ainda. Temos hoje esse problema gravíssimo, que é saber o que está acontecendo com as áreas de preservação de Goiânia. Precisamos ter zelo com isso, estamos falando de nossa água. Um jeito de garantir essa água é garantir também a vegetação, que é o que ajuda na produção e na sustentação da água. Não ter um mapa demarcando onde são essas áreas é grave.

Hoje, em 100% de Goiânia está permitido edificar. Temos, então, que garantir as áreas que vão ter permeabilidade do solo. Temos que garantir que a região norte de Goiânia continue sendo uma região de bastante vegetação, porque ali é onde entra a camada de ar que vai esquentar ou vai refrigerar Goiânia. Já temos uma sensação térmica acima da média e isso vai piorar se a gente não cuidar do verde, se pavimentarem tudo, se só tiver concreto. A continuar assim, quando for tempo de estiagem, vai ser um ar muito seco e muito calor; e quando for tempo de chuva vai ser com alagamentos e inundações, como a gente já está vendo. Além dessa que já fizemos na Câmara, vamos fazer uma audiência pública do Plano Diretor em cada uma das regiões de Goiânia. Queremos consolidar esse material dialogando com o prefeito, mostrando que alguns pontos são necessários para cidade, inclusive para a administração pública.

Elder Dias – A gestão de Rogério Cruz merece ser tão contestada, da forma como se ouve nas ruas, onde as pessoas chegam a fazer que “parece que Goiânia não tem prefeito”?

Penso que tem uma deficiência muito grande na gestão, em várias áreas. Na educação, saúde, assistência social, que são áreas que demandam maior atenção, infelizmente têm muitas falhas. Onde eu tenho andado, a saúde bucal não funciona, as unidades básicas, para atender a população perto de casa, têm muita deficiência também. Temos a política da saúde da família, que é preventiva, mas para a qual Goiânia só tem 50% de cobertura. Então, metade da população não está atendida por essa política, que é tão importante para não sobrecarregar
a rede de urgência e emergência. As filas de urgência e emergência são muito grandes, pessoas aguardando para fazer cirurgias, exames de alta e média complexidade.

Na educação, também têm questões importantes a ser levantadas. Falta o plano de
de carreira dos administrativos; o piso salarial agora que vai ser discutido – o do ano passado não foi cumprido; temos um déficit de docentes grande; são 7 mil crianças aguardando vagas em Cmei – o PT foi referência nisso quando administrou, pelo tanto de vagas que criamos. Goiânia tem recursos, tem orçamento, concurso público que já foi feito, então, se tiver inteligência, dá para fazer uma gestão mais ousada e atender bem a população.

Na assistência social é a mesma coisa: a população em situação de rua cresceu de forma exponencial, os Cras têm muita deficiência de pessoal. É preciso fazer uma rede efetiva de atendimento à população em situação de vulnerabilidade e garantir que as políticas de infraestrutura realmente existam. O Goiânia Adiante [programa lançado meses atrás pela Prefeitura, anunciado como o maior pacote de ações da história, com R$ 1,7 bilhão de recursos próprios] faz mais marketing do que ações propriamente ditas, porque não são recursos novos, mas sim realocação de alguns recursos para determinadas áreas. Então, não adianta só falar que tem superávit, isso precisa se manifestar na política pública da ponta, que atenda a população.

Elder Dias – Falando sobre política nacional, como dirigente maior do PT em Goiás, a sra. acha mesmo que já mudou muita coisa? Como Lula costuma dizer, o Brasil voltou, de fato?

Tenho certeza que sim. Ando muito por Goiânia e pelo Estado. As pessoas agora acordam melhor, respiram melhor, vivem melhor, porque passou aquela pressão, aquele incentivo à violência, de não saber o que vai acontecer, passou aquilo de todo dia ter uma polêmica diferente. As pessoas desempregadas, pagando caro pela cesta básica, sem dar conta de comer carne. Hoje as pessoas voltaram a sorrir. Está bom? Não, ainda não está do jeito que nós queremos, mas começou a melhorar a vida das pessoas. Tivemos já uma redução do preço da cesta básica, do preço da carne, do combustível, do gás de cozinha. Tivemos, enfim, uma reestruturação das políticas.

Comparo a situação com reformar uma casa. É sempre mais difícil do que você construir uma do zero, porque quando se pega o terreno limpo, se constrói do jeito que quiser. Mas quando vai reformar com todo mundo dentro? Tem de arrastar o móvel para o lado, passar para o outro cômodo, consertar aquele outro. E é isso que estamos fazendo, reformando o governo e retomando as políticas públicas, para reconstruir o Brasil e fazer sua transformação. A primeira delas ficou muito clara: mesmo antes de Lula tomar posse, a credibilidade do Brasil lá fora já tinha outro cenário. As pessoas o recebiam, já conversavam com ele e já abriam relação de comércio exterior. Lula, fazendo essas viagens agora, ao contrário do que a oposição fala, abre
as portas de outros países para consumir nossos produtos, para que a gente possa exportar e melhorar nossa economia. Mas, então, vai ficar só no comércio exterior? Não, Lula tem feito todo tipo de movimentação: têm a valorização real do salário mínimo, que ele lançou no 1º de Maio; a estabilização da inflação; a briga, no bom sentido, que ele está travando com o Banco Central para poder reduzir a taxa de juros, como componente importante para melhorar a economia. Então, o Brasil voltou tanto para o cenário internacional, sendo respeitado de novo lá fora, como também aqui para a população.

Elder Dias – E na educação, que é sua área, como está vendo o início do governo Lula?

Estão aí as ações de reconstrução das políticas sociais e das políticas da educação, recompondo o orçamento das universidades federais, da UFG, da UFCat [Universidade Federal de Catalão], da UFJ [Universidade Federal de Jataí], do Instituto Federal Goiano, do Instituto Federal de Goiás. Todos passaram por uma reformulação em seu orçamento, porque havia um sucateamento das políticas educacionais no governo passado, sufocando as bolsas – que voltaram a ser uma realidade agora, garantindo que os pesquisadores e estudantes pudessem permanecer na educação. O que estamos fazendo de oferta na educação infantil vai voltar a atender as mães que carecem por vagas na creche, porque quer educação de qualidade para seu filho, mas também o sentimento de que vai trabalhar e o filho estará num lugar seguro.