“Jorge Kajuru será o candidato do PSB a governador de Goiás”

Deputado, que se prepara para assumir a presidência do PSB em Goiás, diz que o senador é seu postulante para a sucessão de Ronaldo Caiado

Deputado federal Elias Vaz (PSB) | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Eleito deputado federal com 74.877 votos, Elias Vaz está tateando a Câmara. A estratégia é conhecer bem o terreno, para poder emplacar suas ideias. Entre elas, estão mudanças na legislação relacionada às drogas. Para ele, a criminalização nunca surtiu efeito e fomenta a violência. Outro assunto que o mobiliza é a reforma, para ele nefasta, da Previdência proposta pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL). Em pouco mais de dois meses, já percebeu que a desarticulação do Governo no Congresso tem a ver com inexperiência, por um lado, e o radicalismo, por outro.

Nas questões domésticas, prepara-se para assumir a presidência do PSB, no lugar da senadora Lúcia Vânia. Evita assumir a candidatura à Prefeitura de Goiânia, em 2020, mas banca o senador Jorge Kajuru como candidato do partido em 2022. Originário das lutas pelo transporte alternativo, critica as soluções do prefeito Iris Rezende para a mobilidade urbana e o afastamento do governador Ronaldo Caiado dos órgãos de gestão do transporte coletivo na Região Metropolitana.

Na segunda-feira, 25, Elias Vaz conversou com o Jornal Opção por quase duas horas. Eis a íntegra da entrevista:

Euler de França Belém – Você é um leitor?
Eu sempre gostei muito de ler, mas, ultimamente, estou muito preso a ler jornais (risos). Sempre gostei muito de literatura, mas estou com certa dificuldade. Para mim isso é lazer e estou até com uns três livros que quero ler.

Euler de França Belém – Esses dois primeiros meses de Brasília, como foram?
Estou em um período de adaptação, procurando conhecer bem o terreno, para saber agir bem. Já notei que quando a gente domina bem o regimento, a forma de agir, fica mais fácil defender as ideias, o que a gente pensa.

Tivemos um atraso no funcionamento das comissões, que é realmente onde o parlamentar consegue demarcar posição.

Euler de França Belém – E o sr. está em alguma?
Estou em três. Participo como efetivo da Comissão de Finanças e Tributação, considerada a segunda comissão mais importante – a primeira é a CCJ [Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania]. Além da CCJ, é a única comissão que pode arquivar projeto.

É uma comissão importante, onde passa a questão tributária, tema que me interesso bastante. E é onde está um problema vital no País, a renúncia fiscal. Temos um problema sério de justiça fiscal no Brasil. Então considerei importante participar dessa comissão.

Estou como suplente – mas lá [na Câmara] suplente tem direito a quase tudo: relatar projeto, voto – na Comissão de Minas e Energia e na Comissão de Fiscalização e Controle, que é a responsável por fiscalizar os ministérios. Essa comissão já convidou todos os ministros a participarem.

E, além disso, fiquei como um dos vice-líderes do PSB.

Euler de França Belém – O PSB tem quantos deputados?
O PSB tem 32 deputados, é a sétima [maior bancada]. A terceira maior bancada tem 37 deputados, que é a do PP. Então, o PSB está muito próximo da terceira, com disposição de votar no que for melhor para o País.

Nós não vamos fazer uma oposição a tudo do governo, mas àquilo que entendermos que seja ruim. Como a reforma da Previdência.

Euler de França Belém – A eleição renovou a Câmara. Há alguns políticos tradicionais, mas houve renovação. O sr. está sentido esse espírito de renovação?
Não, não sinto. Está muito cedo para dizer isso. É muito difícil saber como será o comportamento de muitos deputados, porque até agora não tivemos a votação de nenhum projeto polêmico.

Há muito parlamentar que, há um ano, não participava de partido nenhum. A bancada do PSL é esse retrato: ninguém era do PSL.

Mas um comportamento diferente do parlamento ainda está cedo para dizer, há uma indefinição. Ninguém sabe como essas pessoas que não têm relação partidária, não têm vínculo partidário, vão se comportar nas votações mais polêmicas.

Euler de França Belém – Nessa crise entre o Governo Bolsonaro e o Rodrigo Maia [presidente da Câmara], eu tenho algumas interpretações. Uma, diz que o Rodrigo Maia está afirmando a independência do Poder Legislativo, o que, se for a realidade, é correto. Outra diz que, quando ele fala que quer conversar diretamente com o presidente, quer exigir as cotas dos deputados que ele representa. Como o sr. avalia esse conflito? E aonde ele vai chegar?
O presidente Bolsonaro não pode dizer que não sabe como funciona o parlamento, porque foi deputado federal por 28 anos. Aliás, não pode nem dizer que é contra político, porque foi político por 28 anos. É um discurso que ele faz, mas é um discurso muito estranho.

Quando se abriu a discussão com a bancada de Goiás sobre indicações, fiz questão de nem ir à reunião. Esse tema não me interessa, não quero ter esse tipo de relação. Acho que isso compromete o parlamentar.

Ora, se você indica alguém em uma estrutura de governo, cria uma relação de cumplicidade com esse governo. E isso fere um dos princípios basilares do Poder Legislativo, que é ter independência.

O Bolsonaro abriu a possiblidade de os parlamentares indicarem [aliados para cargos no Governo]. O que se discute é qual o alcance disso.

O problema não é, por exemplo, [a votação da PEC] da Previdência. Há outros problemas. O Governo tem abertura para discutir esse projeto? Penso que muita gente, pode ser o cargo que for [oferecido], não vai votar na reforma da Previdência da forma que ela está. Existe um choque.

A composição do Ministério não foi só técnica, tanto que tem três ministros do DEM. O Ministério pode ter um ou outro técnico, mas tem um viés político. O problema não é que talvez não seja o viés político que o Congresso desejaria. Aí é outra história.

Ele [Bolsonaro] nomeou três ministros do DEM, mas não conversou com o DEM. Ele não fechou com o DEM, que tem três ministros! Isso mostra uma incapacidade política, de fazer uma articulação. Ele fez questão de dizer que era ele que estava fazendo a articulação e não o partido. Agora está pagando o preço.

Rodrigo Hirose – Historicamente, os presidentes que não têm uma boa relação com o Congresso não conseguem governar.  O sr. vê essa perspectiva para o atual Governo?
Quando o presidente é mal avaliado e tem uma relação de conflito com o Parlamento, ocorre uma combinação perfeita para a instabilidade. É para onde está caminhando o Governo.

Não sou eu quem está dizendo. O Governo caiu 15 pontos em dois meses [o deputado se refere a pesquisa do Ibope]. É o Governo que tem o pior índice de avaliação de todos os presidentes depois da restauração democrática. Isso é preocupante.

Embora eu seja oposição, fico preocupado com uma instabilidade política, porque o País paga a conta. Ter um Governo fragilizado, que está batendo cabeça – e esse Governo está batendo cabeça…

“O Delegado Waldir deu uma declaração contundente sobre a reforma da Previdência. Nem precisa de oposição” | Fernando Leite / Jornal Opção

Fala-se do Rodrigo Maia, mas o Delegado Waldir deu uma declaração contundente sobre a reforma da Previdência, que repercutiu no Congresso. Estamos falando do líder do PSL. Hoje nem precisa da oposição.

“O Major Vítor Hugo é uma pessoa boa no trato, mas não tem nenhuma experiência para ser líder do governo” | Fernando Leite / Jornal Opção

No Parlamento, a própria relação de conflito entre os partidos aliados com o Governo Bolsonaro já é o bastante para desmoralizar esse Governo. É uma situação complicada. Esse ambiente tem gerado preocupação. Se esse processo continua, a frase do Olavo de Carvalho é correta, esse Governo não dura seis meses.

O desgaste é um processo acelerado de forma que os maiores críticos do não esperavam. Há uma situação totalmente desordenada. As opções que o Governo faz na sua articulação são complicadas.

Pode-se ter divergência com as pessoas… Veja o deputado João Campos [PRB-GO]. É uma pessoa que tem muita divergência lá dentro, mas é uma pessoa que agrega, porque ouve as pessoas que têm posições divergentes. Ele pode defender o negócio da cura gay e tudo, mas no diálogo é democrático. Esse é o perfil de um líder.

“A Joice Hasselmann é muito boa para xingar os outros. Quem tem esse nível de radicalidade, nem de longe tem o perfil de agregar. Líder tem de agregar”

Imagine o seguinte: o Major Vítor Hugo [PSL-GO] é uma pessoa boa no trato, mas não tem nenhuma experiência para ser líder do Governo. A Joice [Hasselmann, líder do Governo no Congresso] é muito boa para xingar os outros. Quem tem um nível de radicalidade, nem de longe tem o perfil de agregar. Líder tem uma questão, a de agregar.

Não estou falando em uma pessoa que tem dúvida no apoio ao Bolsonaro, mas tinha de ter alguém que dialogasse com outras forças políticas do Parlamento, e isso é uma coisa que a Joice não tem, de forma alguma. Até com o filho do presidente ela tem problema. Ela desagrega.

O presidente parece que não aprendeu nada nesses 28 anos. Tudo o que pode fazer de errado, ele está fazendo. Esse é um governo que bate cabeça. Não existe uma articulação consistente.

A única pessoa que estava segurando um pouco, que tem alguma relação consistente no Parlamento e que era o grande aliado do Governo, era o Rodrigo Maia. Aí você vê o Rodrigo Maia batendo boca com o filho do presidente e com o próprio presidente de forma pública.

Isso demonstra onde está localizado esse Governo. É uma situação difícil e não vejo uma sinalização de que ele vai conseguir se articular minimamente dentro do Parlamento.

Euler de França Belém – E o [ministro da Casa Civil] Onyx Lorenzoni, como o sr. está vendo o trabalho dele?
Não sei o que está acontecendo, mas parece que o Onyx não está tendo o papel de protagonismo. Não sei por problemas de diferenças, de quem é quem dentro do Governo, mas noto que o Onyx está parado. Não há iniciativas dele.

Não sei se por falta de autonomia ou por falta da capacidade, o fato é que o Onyx não tem sido uma figura de protagonismo na articulação com o Parlamento. É alguém que se esperava que tivesse algum protagonismo. Não se sabe se por falta de autoridade ou de divergência dentro da estrutura de Governo. Toda hora ficamos sabendo que um quer mandar mais que o outro.

“Tem gente que quer reproduzir o loteamento da estrutura pública, que pega o Ministério para fazer rolo. Tem outro setor que quer espaço para fazer política. O Bolsonaro não está conseguindo diálogo com nenhum desses grupos”

Rodrigo Hirose – Há quem diga que essa falta de articulação é porque o Governo não quer repetir velhas práticas, como o toma lá dá cá. Outros, afirmam que é pura falta de habilidade para construir essa articulação. Qual análise está correta?
As duas coisas. O Parlamento não é homogêneo. Tem gente que quer reproduzir o loteamento da estrutura pública que ocorreu nas gestões do PT, do PSDB… O pessoal pega o Ministério para fazer rolo.

E tem outro setor que que quer um espaço no Governo para fazer política. Significa ter influência no Estado, trazer resultados estruturais para seus Estados e ter dividendos políticos. Essas pessoas estão em um patamar diferente. Não é que querem fazer coisas irregulares. Pode-se discutir se esse é o papel do Parlamento. Acho que não é.

O Bolsonaro não está conseguindo diálogo com nenhum desses grupos. Com o grupo que quer fazer da estrutura de Estado um esquema de negócio, espero que ele realmente não o faça. Mas há uma margem para trabalhar um projeto político, dentro de um espírito republicano. Mas há dificuldade no Governo Bolsonaro de construir até esse tipo de situação.

Há espaço para fazer a boa política. Mas quando se manda um projeto totalmente nefasto para boa parte da população [como a reforma da Previdência], fica difícil construir qualquer coisa que seja em um bom ambiente. Qualquer deputado que estudar esse projeto vai ver que ele é uma pancada na cabeça de quem ganha pouco nesse País.

Euler de França Belém – O projeto da reforma da Previdência só tem medidas negativas? O que o sr. acha que tem de positivo?
Acho que há um problema de origem. Querer estabelecer que a Previdência é o grande problema do País é uma falácia. A primeira coisa que deveríamos discutir é a reforma tributária. Discutir a hora de arrecadar.

Ano passado, tivemos mais de R$ 400 bilhões de renúncia fiscal, beneficiando grandes grupos econômicos. O Brasil é o Robin Hood às avessas. Quem paga imposto no Brasil é a classe média, os pequenos e médios empresários, e o trabalhador na hora do consumo. O grande empresário não paga imposto.

Sujeito compra uma moto, paga imposto. Sujeito compra um iate, não paga imposto. Sujeito compra um carrinho popular, paga imposto. Sujeito compra um helicóptero, um jatinho, não tem imposto.

No Brasil, é tudo invertido. Não tem incentivo fiscal para produção de produto orgânico, que vai evitar problemas de saúde, mas tem isenção fiscal para agrotóxico. É tudo interesse econômico, não tem interesse estratégico para o País. A primeira coisa que temos de discutir é a reforma tributária.

Estamos falando de uma situação que deixou de arrecadar mais de R$ 400 bilhões, essa é uma matemática simples. Esse valor supriria o chamado déficit previdenciário, que é até inferior a isso. Sé é que podemos chamar isso de déficit previdenciário. Mas, mesmo que isso fosse verdade, esses R$ 400 bilhões já seriam suficientes para resolver esse problema do desequilíbrio fiscal.

E há outras questões. Como, por exemplo, a discussão sobre o que se gasta com financiamento da dívida pública, que são R$ 300 bilhões, R$ 400 bilhões por ano, para alimentar um setor especulativo financeiro que não produz nada para a sociedade, que são os banqueiros. Mas, não, o Governo faz questão de discutir a Previdência porque é a parte mais fraca da história.

“Não tem incentivo fiscal para a produção de produtos orgânicos, mas tem isenção para agrotóxicos” | Wagner Soares / TJGO

Mas vamos discutir a Previdência. Não se pode dizer que é déficit da Previdência aquilo que é gasto na proteção social, e está misturado. Temos exemplos clássicos, como o do trabalhador rural que nunca contribuiu, que a vida inteira fez agricultura de subsistência. Comprovando 15 anos de exercício da função, ele vai à aposentadoria.

Estão alterando para 20 anos de contribuição. Pessoa que não contribuiu está ferrada. Não vai aposentar nunca. Teremos em alguns anos uma grande massa de pessoas idosas nas ruas, passando fome. Nunca vi um projeto tão cruel como esse.

O próprio Governo reconhece que só a questão do trabalhador rural responde por 58% do chamado déficit da Previdência. Isso não é déficit, é proteção social. Como dizer que é deficitário se é algo que o Governo paga? É o mesmo que dizer que o Bolsa Família é deficitário, o dinheiro gasto na Saúde é deficitário. Assistência social não pode ter esse enfoque.

O Governo fala duas mentiras: “Vamos combater os privilegiados, a começar pelos políticos”. É preciso que as pessoas saibam que o regime previdenciário dos vereadores, que são a maioria dos políticos no Brasil, é o INSS. E quase todas as Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional têm um regime próprio.

Esse projeto não está impedindo que os atuais políticos tenham acesso ao regime próprio. Ele diz que, a partir da lei, não haverá mais regime próprio. Mas qualquer senador, deputado federal ou estadual pode fazer opção nesse momento.

“É mentira o que o presidente [Bolsonaro] está dizendo, que os parlamentares são contra a reforma porque ela vai tirar a mamata. Não vai tirar mamata”

Eu fiz a opção pelo regime do INSS. Acho errado o regime especial para deputado. Mas é mentira o que o presidente está dizendo, que os parlamentares são contra [a reforma] porque ela vai tirar a mamata. Não está tirando.

O Governo diz que está tirando privilégios. É só estratificar o que se espera economizar, que é o tal de R$ 1 trilhão nos próximos dez anos, como o Paulo Guedes tem dito, que se vai verificar em quem, efetivamente, está pautada a reforma da Previdência.

De R$ 1 trilhão de economia, R$ 700 bilhões são no regime geral, no INSS, de quem ganha pouco, até R$ 5 mil. E grande parte das pessoas ganha até dois salários mínimos. O próprio resultado do que eles esperam economizar já desmascara quem é que vai pagar a conta.

Há mais R$ 180 bilhões de economia em cima do trabalhador, como a alteração no salário família, no abono salarial e no benefício de prestação continuada.

Somando os dois, dá quase R$ 900 bilhões. Como pode-se dizer que a reforma da Previdência vai atingir os privilegiados se 90% do que se pretende economizar vai ser em cima do trabalhador que ganha pouco?

Isso é uma mentira. Estão demonizando as carreiras dos servidores públicos, tentando justificar um ataque ao trabalhador que ganha pouco.

Tem outro problema, que é a privatização da Previdência. A capitalização, na verdade, é para atender os bancos, que têm interesse nesse modelo. É um grande negócio, fazendo que uma pessoa que ganhe salário mínimo tenha de fazer uma previdência privada. É claro que essa pessoa não conseguirá pagar isso e, quando chegar a hora de ela se aposentar, se tornará um grande problema social.

O sistema de capitalização também tira o regime solidário, em que patrão também contribui. Diz-se que isso é opcional, mas o empresário vai decidir entre o que é hoje, que ele contribui, ou pelo regime de capitalização, que ele não contribui. É óbvio que todo empresário fará opção pelo regime de capitalização e ninguém mais vai ter emprego no regime antigo.

Essa reforma da Previdência tem uma espinha dorsal, numericamente falando, que 90% é para atingir pobre. Não dá para apoiar, não tem conserto. Ela foi criada para resolver um problema de caixa do Governo.

Rodrigo Hirose – Em Goiás, nos últimos 15 anos, diminuiu muito a proporção entre trabalhadores inativos e ativos. Hoje, há praticamente um inativo para cada ativo. Matematicamente fica claro que algo precisa ser feito, não?
Sim, mas não querer jogar na conta [do mais pobre]. A aposentadoria do servidor público representa 10% do valor que o Governo quer economizar. Isso pode ser discutido, porque é um problema matemático. É questão de fazer o cálculo atuarial. Hoje, pode não haver déficit. Mas daqui a 10, 15 anos, poderá haver problema para pagar quem se aposentar. É matemático. Mas misturaram isso com um corte profundo em benefícios, que vai desde a pensão de uma viúva, que vai agora receber apenas 50% da renda.

“Na Reforma da Previdência,

não quero que tratem

os militares como

tratam os trabalhadores.

Quero que tratem os

trabalhadores como

os miltares”

Não é assim que se vai resolver o problema da Previdência, que deveria ser discutida com um enfoque técnico, que ficasse restrito. Agora, querer desobrigar a União de responder pelo problema social, como a questão do trabalhador rural e do idoso que está abaixo na linha da pobreza (que é um beneficiário do Programa de Benefício Continuado), aí, não.

Deveríamos estar discutindo problema na área militar. Mas quando o Governo mandou o projeto da reforma da Previdência para os militares, reconheceu que, diferente dos R$ 900 bilhões que vai economizar em quem ganha em média dois salários mínimos, espera economizar R$ 10 bilhões com a estrutura militar do País.

Estou até brincando: não é que quero que eles tratem os militares como tratam os trabalhadores; quero que tratem os trabalhadores como tratam os militares. O que não dá é os militares terem a importância que têm e os trabalhadores não.

Euler de França Belém – E a situação das mulheres?
As mulheres são muito mais penalizadas nesse processo. A professora terá de trabalhar em média dez anos a mais [para se aposentar]. A trabalhadora rural, cinco anos a mais.

O Brasil tem características sociogeográficas diferentes. Existem estudos que apontam que pelo menos 50% dos municípios do Brasil não têm média de vida próxima a 65 anos. Há países que adotaram a referência de 65 anos para se aposentar. Esses países têm a média de vida de 82 anos e uma certa concepção homogênea. A média do Brasil é menor e tem a complicação de que, em muitas cidades, como na Região Nordeste, a expectativa de vida menor que nas cidades do Sul, por exemplo. E nada disso foi levado em conta na discussão da reforma da Previdência.

Euler de França Belém – Há vários projetos de reforma tributária no Congresso. Qual é mais aceita?
Há uma expectativa de se estabelecer uma nova discussão, de se fazer uma reforma de iniciativa do próprio Governo. Tem situações específicas, gente que defende a tributação de fortunas, que é prevista desde a Constituição de 1988 e nunca foi efetivada.

Euler de França Belém – E há projetos que acabam com os incentivos fiscais de vez…
O incentivo fiscal tem de ter uma relação estratégica. É inconcebível a Coca Cola ter incentivo fiscal no Brasil. Qual a estratégia de desenvolvimento do País para uma empresa como a Coca Cola ter benefício fiscal, quando muitos países estão taxando os refrigerantes para compensar o problema de saúde que eles geram?

É como o exemplo que dei da relação entre a agricultura orgânica e a que usa agrotóxico. Não tem incentivo para a agricultura orgânica e tem para envenenar as pessoas para depois essas pessoas irem pro SUS [Sistema Único de Saúde] gerando custos para o País.

O incentivo fiscal tem de estar atrelado a um projeto de crescimento do País, inclusive geográfico. Pode ter regiões em que se possa ter, mas não incentivo fiscal para desenvolver São Paulo é inconcebível.

Estamos discutindo a produção de energia solar. A Anel quer agora que as empresas paguem por utilizar o sistema de redes existentes. Isso seria um baque em uma coisa que começa a crescer e que é muito interessante.

É uma energia limpa, não polui, o investimento do Governo é zero e é uma forma, inclusive, de resolver o problema da infraestrutura no País. Tem de ter incentivo fiscal, isso é estratégico.

O incentivo fiscal tem, inclusive, relação com grandes esquemas de corrupção. Antigamente, os grandes esquemas estavam na questão das empreiteiras. Hoje ela disputa com a renúncia fiscal. Pode ter certeza que muita renúncia fiscal, não estou dizendo que toda, é a custa de corrupção.

A empresa que tem alguma relação promíscua consegue algum tipo de incentivo. As investigações estão apontando pra isso, é uma situação concreta na União e em vários Estados.

É inconcebível um Estado como Goiás, que arrecada R$ 24 bilhões, ter R$ 8 bilhões de renúncia fiscal. Isso não entra na cabeça. A mesma coisa na União, que tem quase R$ 400 bilhões de renúncia fiscal.

E isso não está atrelado a uma estratégia de crescimento econômico. Está muito mais pelo casuísmo.

Euler de França Belém – O pacote anticrime tem algumas boas ideias. Mas houve um conflito entre o Rodrigo Maia e o ministro Sérgio Moro que deve retardar a aprovação desse projeto. Como o sr. está acompanhando esse tema?
O projeto tem coisas interessantes, mas outras questionáveis. Há temas que são constitucionais e o Moro quer modificar por meio de Lei Complementar. Nossa bancada tem o Luís Flávio Gomes [deputado federal por SP] que é um jurista respeitável que tem feio muitas observações.

“O projeto anticrime do ministro Sérgio Moro tem coisas interessantes, mas outras questionáveis” | Foto: Agência Brasil

Acho interessante a possibilidade de que a pessoa, quando reconhece o ato ilícito ou crime, evite o processo, semelhante ao que ocorre nos Estados Unidos. Permite-se um benefício quem reconhece o erro, tendo uma redução da pena sem necessidade de um processo que dure oito, dez anos e tem um custo muito forte para o País.

Mas a há questões problemáticas, o policial, sob forte emoção, ter justificativa para matar alguém. Diante da realidade que estamos vivendo, não é incomum vermos situações de erros crassos. Sei que a maioria da polícia é zelosa, tem cuidado com isso, mas não se pode deixar brecha para pessoas que acham que podem se tornar um Rambo e sair matando. A lei acaba permitindo esse tipo de comportamento.

Euler de França Belém – Em Caldas Novas, o PCC e o Comando Vermelho, que estão em guerra, mataram quatro pessoas. Um dos traficantes feridos foi para o hospital, os membros de uma das facções entram, fizeram médicos e enfermeiros reféns. Nesse interim, o traficante fugiu e foi assassinado na rua. O sr. não acha que precisa ter um rigor maior com o crime organizado?
Nós estamos falando da 181ª alteração na Lei do Código Penal desde 1940. Nenhuma diminuiu a criminalidade.

Euler de França Belém – Mas não significa que não se deve fazer outra…
Sim, mas querer que a alteração da lei vai resolver a criminalidade no Brasil é uma ilusão, que muitos governos se utilizaram, porque não se gasta nada. Fazer uma nova lei é muito simples, é só mandar votar. Sou defensor da Lei Maria da Penha, mas dizer que ela resolveu o problema da violência contra a mulher é uma falácia, é só verificar o tanto de crimes contra a mulher que estamos vendo, mesmo tendo a lei mais rigorosa.

Euler de França Belém – Mas melhorou a questão da punibilidade.
Sim, mas o principal é evitar a violência. É isso que temos de discutir: onde está a origem da violência. Precisamos ter coragem para enfrentar o debate sobre quem é o responsável pela geração da violência no Brasil.

Euler de França Belém – Quem é?
O jornalista Paulo Francis, ao discutir a questão das drogas, falava que a Lei Seca, nos Estados Unidos, só serviu para aumentar a violência e foi o período em que o americano mais consumiu álcool. Então ela não resolveu nada.

Foi um período em que a relação do crime organizado com o Estado, Judiciário, Poder Executivo, Poder Legislativo, foi muito forte. Na verdade, quis se enxugar gelo. A população querendo consumir álcool, alguém querendo vender.

A forma de o Estado brasileiro combater a droga é um equívoco. O Estado brasileiro deu um exemplo para o mundo de como combater um tipo de droga, o cigarro. Sou de uma geração em que grande parte dos amigos fumava. Hoje é raríssimo.

Isso ocorreu por causa de um trabalho sério. Se compararmos o comportamento do brasileiro com um francês, um americano, o brasileiro dá um show. A gente gosta de falar que o Brasil dá mal exemplo, mas um exemplo bom que o Brasil deu para o mundo foi combatendo o cigarro. Não foi criminalizando.

O Estado brasileiro precisa ter um outro tipo de combate às drogas.

Hoje as igrejas recuperam muito mais gente que era usuária de drogas que o Estado. Aliás, nunca ouvi falar que alguém deixou de usar drogas porque foi preso.

O que vemos no Brasil hoje é uma guerra de empresas clandestinas, como o Comando Vermelho e o PCC, que disputam o mercado. Esse estado de violência em Fortaleza, Manaus, Goiânia, é uma briga de mercado na clandestinidade, exatamente porque isso não é institucionalizado.

Se o FBI [Federal Bureau of Investigation], a polícia americana, que é muito mais estruturada que a nossa não consegue conter o tráfico de drogas nos Estados Unidos, que é um dos países onde mais consomem cocaína, como é que vamos conseguir fazer isso aqui?

Rodrigo Hirose – O sr. então defende alterações na legislação para mudar esse tratamento em relação às drogas?
Exatamente. Não estou fazendo apologia, mas defendendo uma maneira diferente de combater as drogas. A criminalização nem sempre é o melhor mecanismo. O Estado brasileiro tem de ser contra a droga, até porque ela gera problemas. Mas precisamos fazer uma reflexão se a criminalização é o melhor sistema.

Tem muita gente que tem um discurso moralista sobre isso mas, na verdade, está na caderneta como resultado desse crime, que gera bilhões. Gente dentro da estrutura governamental que recebe desse pessoal. Fica falando que é contra, porque se beneficia desse setor.

O debate está aberto no mundo. O Bill Clinton [ex-presidente dos EUA], o Fernando Henrique [ex-presidente do Brasil] e o [Álvaro] Uribe [ex-presidente da Colômbia] foram símbolos da tolerância zero em relação às drogas e hoje fazem uma reflexão diferente. Presidentes de países importantes acham que é preciso rediscutir esse tema.

“O Estado brasileiro tem de ser contra a droga, até porque ela gera problemas. Mas precisamos fazer uma reflexão se a criminalização é o melhor sistema” | Foto: Divulgação

Repito: o Estado brasileiro tem de ser contra, mas a forma de combater talvez não seja a criminalização.

Oitenta porcento dos homicídios no País estão relacionados ao tráfico, não ao uso. Isso não é um balanço qualquer em um país que tem um genocídio todo ano. Milhares de pessoas são assassinadas e muitas em função disso.

Quero abrir essa discussão no Congresso Nacional. Temos de fazer o mapa da violência e ver como combate-la.

Não tenho nada a ver com quem faz marcha da maconha, defende isso como uma questão de liberdade. Meu ponto de vista é outro. Qual a melhor forma de combater a droga: criminalizando ou enfrentando como enfrentamos a questão do cigarro?

Hoje, uma pessoa que acender um cigarro dentro de um restaurante é duramente repreendida. Certamente ela não vai conseguir fumar dentro de um restaurante, porque a maioria das pessoas que estão ali vai condená-la.

Euler de França Belém – O ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que as privatizações são importantes para o Estado e começou pelos aeroportos. Quais são as outras privatizações que o Governo deve fazer e qual sua opinião sobre elas?
Nas áreas de infraestrutura e nas áreas essenciais, sou radicalmente contra as privatizações. Canadá, França, Estados Unidos e Alemanha, símbolos do capitalismo, estão reestatizando. Paris reestatizou o serviço de saneamento. Na Alemanha, algumas cidades, como Hamburgo, reestatizaram o serviço de energia elétrica, porque entenderam que são serviços estruturantes que não podem estar a serviço do lucro.

Nós estamos sofrendo com a Enel em Goiás. O serviço piorou de forma substancial para o cidadão pobre, que está pagando uma tarifa altíssima, e para o empresariado. O setor empresarial que não aguenta essa relação com a Enel. Com a Celg, éramos felizes e não sabíamos. A empresa é uma demonstração de uma área que não deveria ser privatizada.

“Agora que o Aeroporto de Goiânia está pronto, vai privatizar. Por que não ter feito antes?” | Foto: Divulgação

Em relação aos aeroportos nem digo que é um serviço essencial. E nem é uma questão ideológica, até porque foi o governo do PT que começou com essa história de privatização de aeroportos.

Mas, veja o Aeroporto de Goiânia. Demora a fazer e agora que está pronto vai privatizar. Por que não ter feito antes? A empresa investiria com recursos próprios. Se for com financiamento do BNDES não adianta, porque seria como gerir dinheiro público.

Acho que o debate de que o Governo não deve entrar em determinadas situações é até correto. Mas serviços essenciais, como energia elétrica e água não devem ser objetos de privatização.

Tem uma [privatização] que estamos debatendo muito agora, que é a da Ferrovia Norte-Sul. Estaremos, talvez, condenando essa ferrovia estruturante para a região Centro-Oeste, que tem uma grande valia para o escoamento da produção, a ficar como está hoje, não utilizada.

O setor empresarial de Goiás está preocupado com isso, porque, se a coisa caminhar para onde está encaminhando, há um risco, e estamos falando de uma licitação para os próximos 40 anos, de ficar na mão da Vale.

Esta aí um modelo de  privatização que pode trazer um dano muito grande à economia goiana.

Rodrigo Hirose – O sr. está na CPI do BNDES. O que já andou, qual é o escopo?
O presidente [Rodrigo Maia] já solicitou aos partidos a indicação dos nomes. Quando ele faz isso, demonstra intensão clara de instalação da CPI. A perspectiva é que haja a instalação nos próximos dias, assim que os partidos fornecerem os nomes para a composição.

[O escopo] seriam as irregularidades denunciadas ao longo dos anos. Tivemos a JBS, Odebrecht, várias empresas que tiveram uma relação de benefício. O financiamento do BNDES a obras estrangeiras, como isso se deu.

O BNDES está desvirtuado. Ele tinha de impulsionar o desenvolvimento econômico. O ponto chave disso é o incentivo às pequenas e média empresas. Mas o foco do BNDES nos últimos anos foi basicamente contemplar, com créditos totalmente facilitados, grandes empresas.

Não entendo onde está o sentido de o BNDES emprestar para a Odebrecht, JBS, empresas consolidadas. Tinha de estar preocupada com outras atividades econômicas.

Mas essa é uma coisa que vamos nos debruçar, estudar bastante na medida em que for se desenrolando a CPI.

“O Kajuru está bem focado no mandato dele” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Euler de França Belém – O senador Jorge Kajuru disse que o sr. é o candidato do PSB a prefeito de Goiânia.
Aí é um desejo dele (risos).

Pelo resultado que tivemos em Goiânia, fui muito bem votado, isso [a candidatura] aparece de forma muito natural. Não tenho essa decisão tomada. Não descarto essa possibilidade, mas prefiro nesse momento focar no exercício do meu mandato.

O Kajuru também está muito focado no mandato dele, está conseguindo fazer um bom mandato, e isso é muito importante nesse momento. Até porque o País vive um momento muito complicado e eu estou muito focado nisso.

Não gostaria de focar em uma eleição para a Prefeitura de Goiânia. Temos conversado com vários parlamentares com quem temos identidade, como o Alysson Lima [deputado estadual do PRB], a vereadora Dra. Cristina [Lopes, PSDB], o delegado Eduardo [Prado, deputado estadual do PV], o Felisberto Tavares. Várias pessoas que desejam construir um projeto diferente para Goiânia e para Goiás.

Agora, quem vai ser o candidato, temos de esperar. Primeiro, se a pessoa quer; segundo, quem está em melhores condições.

Esse desejo nós temos. Estamos articulando, conversando, mas não com intensidade. Esse momento pode esperar um pouco, porque tem pautas no País que são muito sérias, até na questão democrática.

Euler de França Belém – E a Cristina Lopes, pode ir para o PSB?
Seria bem-vinda. Gostamos muito da Cristina, como de outras pessoas, como o Alysson Lima. A Cristina é uma pessoa que tem o perfil de militância política que nós acreditamos.

Euler de França Belém – Mas abriria espaço para ela ser candidata a prefeita?
É uma possibilidade. O que não podemos falar é “venha que você será candidata”. Até porque estamos construindo um grupo e queremos uma decisão do grupo.

Não dá para antecipar para ninguém que ele naturalmente será candidato a prefeito de Goiânia, até porque não estaríamos permitindo uma análise mais profunda e mais próxima da eleição.

Às vezes uma pessoa que hoje não está nas melhores condições pode, por um motivo ou outro, se apresentar em melhores condições na época das eleições.

Euler de França Belém – Por que houve um ligeiro afastamento entre o sr. e o senador Vanderlan Cardoso?
Foi uma questão natural, partidária. Mas, por exemplo, na discussão da ferrovia [Norte-Sul] estamos trabalhando muito juntos. É uma questão política. Ele está no PP, eu estou no PSB. Nós éramos do mesmo partido. Mas tenho conversado muito com o Vanderlan.

É óbvio que a situação partidária acabou afastando um pouco, mas não tanto. Ele foi uma das pessoas que ajudaram a construir essa pauta [da Norte-Sul] na bancada. Ele, inclusive, como empresário e representante de Goiás, está preocupado.

Não há indisposição entre mim e o Vanderlan. Pelo contrário, a gente tem conversado. Agora, é claro que cada um tem seu partido e pode ter diferenças de estratégias.

Rodrigo Hirose – O Kajuru disse que o sr. é o candidato dele a prefeito. E ele, Kajuru, é o seu candidato a govenador em 2022?
Claro. Kajuru é meu candidato a prefeito, é meu candidato a governador, se quiser ser presidente terá meu apoio. Minha relação com o Kajuru tem mais de 20 anos. Estou acompanhando o Kajuru de perto, ele montou um gabinete muito consistente, de muita qualificação.

Presenciei o Kajuru presidindo uma sessão [no Senado]. Ele cresceu muito, aprende muito rápido. Quando entrou no Parlamento, como vereador [em Goiânia], mais da metade dos vereadores era contra ele, mas saiu com praticamente todo mundo amigo. Conseguiu ser polêmico, mantendo essa relação.

No Senado, já é a versão mais atualizada dele. Chegou e criou várias amizades. Claro que tem um desafeto ou outro, mas muita gente gosta dele. Presenciei cenas interessantes. Semana passada, um senador chegou com o sobrinho, que era doido para conhecer o Kajuru, aquela coisa de fã. Vi o pessoal do PSOL que estava com outro senador querendo fazer foto com o Kajuru. Parentes, amigos de senadores. Não é uma coisa qualquer isso.

Pode-se questionar o que for, mas, nesses dois meses, o Kajuru foi o senador que conseguiu o maior destaque no cenário nacional. Não tem nenhum senador que se tornou tão popular. Ele consegue participar do debate, está com uma posição muito boa em relação à Previdência, tem se posicionado de forma muito interessante.

É uma pessoa que vai fazer um grande mandato. É uma pessoa que não tem a experiência política de muitos – a experiência dele tem um ano e meio, dois anos como vereador. Mas ele aprendeu muito rápido e cada dia que passa, melhora.

Euler de França Belém – O prefeito de Goiânia, Iris Rezende, diz que nos dois últimos anos do mandato vai fazer asfalto nos bairros que não têm, recuperar ruas e fazer viadutos. O Jornal Opção passou uma semana visitando a periferia de Goiânia e o que viu foi um filme de terror: obras abandonadas, buracos em todos os lugares, falta de assistência geral na área de saúde, CMEIs abandonados e as pessoas reclamando vivamente. Fala-se em velha política e essa é a velha política. Nos dois primeiros anos não gasta, deixa obras sem terminar e nos dois últimos anos torra recursos, endivida a Prefeitura e ganha as eleições. Como o sr. avalia esse tipo de política?
Acredito que isso é ultrapassado e não vai surtir efeito. Essa é uma concepção da velha política, equivocada, e as redes sociais se encarregam de desmascarar esse tipo de política.

O Governo Estadual usou a mesma estratégia. Depois que pegou o dinheiro [da privatização] da Celg fez um monte de obras pensando que iria arrebentar nas eleições. Deu o que deu. No Brasil inteiro isso não deu resultado. Hoje há um antídoto, que são as redes sociais.

“O Iris está mal avaliado e continuará mal avaliado. Não são obras eleitoreiras que vão mudar isso” | Foto: Livia Barbosa/Jornal Opção

O Iris não recupera a avaliação. Está mal avaliado e vai continuar mal avaliado. Não são essas obras eleitoreiras [que vão mudar]. A população percebe que ele só está fazendo as obras porque estamos a praticamente um ano e meio das eleições. Óbvio que a população percebe que elas são meramente eleitoreiras.

Isso já não tem espaço. Dou como exemplo quando o Governo [Federal] comemorou o fato de trazer as Olimpíadas e a Copa do Mundo para o Brasil. Foi o contrário. A Copa do Mundo gerou as manifestações de 2012, exatamente porque a população não tolera esse tipo de atitude, que, evidentemente, é para enganar a sociedade. Cria-se um clima, “estamos fazendo estádios bonitos”, como se os problemas dos hospitais e da Educação estivessem resolvidos.

“Não adianta querer fazer viaduto e a Saúde continuar uma lástima. A sociedade vai saber dar a resposta nas próximas eleições”

Não adianta querer fazer viaduto, asfalto onde não tem, e a Saúde continuar uma lástima. Não adianta querer passar um batom na cidade e a Educação continuar com péssima qualidade no Município. Esses são instrumentos já ultrapassados de fazer política, que tenho certeza que a sociedade vai saber dar a resposta nas próximas eleições.

Se ele [Iris] espera, efetivamente, porque guardou recursos para agora gastar, que a população vai achar que “agora vai”, isso é um atestado da má-fé de uma gestão, que mais uma vez aposta na memória curta da sociedade. Isso funcionava muito bem antes das redes sociais.

Hoje não adianta o parlamentar votar pelo aumento abusivo do IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano] pensando que em dois anos a população vai esquecer. Não esquece. Daqui a dois anos vai rodar nas redes sociais. Isso aconteceu nas últimas eleições para vereador. Votaram nos dois anos anteriores pensando que as pessoas não iam se lembrar nas eleições. A maioria não foi reeleita, foi a maior renovação da história da Câmara Municipal

Rodrigo Hirose – Em sua opinião, como possível candidato a prefeito, quais são os principais problemas de Goiânia?
Pude perceber, como vereador há 18 anos, que um dos grandes problemas na administração pública é a má gestão. Temos dois grandes problemas: o ralo da corrupção e a má gestão. Somando esses dois, o que temos de desperdício de dinheiro público é uma coisa absurda.

Há vários exemplos. Quando a CEI [Comissão Especial de Inquérito] descobre que há equipamentos novos guardados, que há funcionários contratados que estão o dia inteiro em fazer nada na área de radiografia, e que isso significou um gasto desnecessário de R$ 13 milhões em dois anos, mostra-se onde está o ralo de desperdício ou de corrupção.

É preciso mexer nessa estrutura administrativa. Goiânia tem mais de 50 mil servidores. Como é possível nada funcionar a contento? Nada na Prefeitura de Goiânia funciona bem. É um problema grave de gestão.

A SMT paga um sistema caro de controle semafórico que não funciona. Tem um dinheiro que era para [fazer] funcionar todo um sistema de onda verde, mas ela não existe. Todo lugar que se vai em Goiânia o trânsito é travado. São em situação assim que se vê um planejamento todo errado de Goiânia.

Uma forma de economizar é ter uma cidade planejada. Na questão da mobilidade, se a cidade é bem distribuída do ponto de vista das necessidades de deslocamentos, há menos problemas de trânsito, não é necessário construir viaduto.

Aliás, se viaduto resolvesse, São Paulo não tinha problema de trânsito. São Paulo não constrói mais viadutos, está trabalhando a estrutura para melhorar o transporte coletivo. Isso é que resolve a mobilidade. O mundo inteiro, a Europa investe isso. Aqui, estamos ainda falando em viadutos ao invés de investir em transporte público.

A Prefeitura de Goiânia, nos últimos 15 anos, não investiu um real sequer no transporte público. Não são 10, nem 15. É nem um real. E fala em resolver a mobilidade fazendo viaduto. Essa é uma concepção equivocada, atrasada.

O que precisamos hoje é de uma gestão moderna, qualificada. Esse é o maior desafio, porque hoje uma boa parte do dinheiro ou vai para o ralo da corrupção ou para o ralo do desperdício com gestões mal feitas.

Rodrigo Hirose – O sr. citou a questão da mobilidade, que atinge todos os cidadãos, independentemente da classe social. Como o sr. analisa a declaração do governador Ronaldo Caiado de que “Governo não toma conta de ônibus”, além das decisões de afastar o Estado dos órgãos de gestão do transporte coletivo na Região Metropolitana de Goiânia e de privatizar o Eixo Anhanguera?
É um grande retrocesso. O governador tinha era de estar brigando para o presidente da República entrar nesse tema. No Brasil, mais de 80% das pessoas vivem nas cidades. Portanto, o problema das cidades é um problema do Brasil.

Tive oportunidade de conversar com o então candidato [à Presidência] Eduardo Campos e disse a ele que o Brasil é um país totalmente invertido em relação aos incentivos fiscais. O que em um ano se deu de isenção fiscal para a indústria automobilística dava para dar gratuidade da passagem para todos os passageiros de todas as capitais do Brasil.

Ao invés de incentivar o transporte público, incentivamos o transporte individual. Isso é histórico e o governo do PT não foi diferente, até pela relação que o Lula tinha com a indústria automobilística.

Precisamos inserir o Governo Federal, governos estaduais e prefeituras nessa discussão da mobilidade. No momento em que o Governo Estadual quer sair desse tema, é um retrocesso, porque é óbvio que as prefeituras estão totalmente desassistidas da arrecadação, o grande arrecadador é a União, então fica muito difícil ter uma solução para o transporte público.

Mais grave que falar em privatizar a Metrobus, é ele [Caiado] dizer que não quer mexer com transporte. Porque o transporte público precisa do Governo do Estado. No mundo inteiro o transporte público funciona com um órgão gestor forte e com subsídio. Não tem outra conversa. Qualquer lugar que o transporte público funciona bem tem essas duas receitas.

Em Goiânia essa briga começou lá atrás, quando o governador Marconi Perillo não quis mais presidir a Câmara Deliberativa de Transporte Coletivo [CDTC] e o prefeito de Goiânia também não. Isso virou lepra. Ninguém quer saber de transporte público, ficou órfão.

E o governador agora quer formalizar que quer sair dessa discussão. Daqui a pouco os prefeitos dirão que também não querem. Aí, quem vai cuidar do transporte? Vai ficando uma situação absurda, as empresas farão o que quiserem.

O governador está errado em se afastar do transporte coletivo. Ao contrário, se eu estivesse no lugar dele, reivindicaria que o Governo Federal também entrasse com recursos para a mobilidade urbana.

Governador Ronaldo Caiado | Foto: Lívia Barbosa

“O Governo Caiado tem cometido vários erros. Essa política de terra arrasada não funciona mais. O julgamento sobre o Governo passado, a sociedade já fez. Agora é preciso dar uma resposta a ela”

Euler de França Belém – Como o sr. avalia o governador Caiado em relação à Educação, Segurança, questão fiscal, folha de pagamento?
O Governo Caiado tem cometido vários erros. Foi um equívoco não ter pagado a folha [de dezembro], ainda que fizesse opções, atrasasse.

Essa política de terra arrasada, que a vida inteira o pessoa fez, isso não funciona mais. Não fui base, não apoiei o Governo passado, nem nas eleições, ao contrário do meu partido, mas todo mundo sabia dos problemas que o Governo tinha. O governador [Caiado] chega, fica só olhando para trás, falando do passado… Todos sabiam, agora é enfrentar da melhor forma.

O julgamento sobre o Governo passado, a sociedade já fez. Já derrotou. A população já fez a opção e não quis a continuidade. Pronto, isso está superado. O governador não precisa ficar falando toda hora: “Olha, esse Governo [anterior] não presta”. A sociedade já entendeu assim, agora é preciso dar uma resposta para ela.

Caiado está patinando, não está conseguindo dar solução para os problemas do Estado. Isso está faltando. É preciso enfrentar o debate, as necessidades das áreas de Saúde, Educação.

A impressão que dá é que o centro do Governo dele [Caiado] é a questão da terra arrasada e jogar toda a responsabilidade ao anterior. Isso está gerando um descontentamento da população. A gente conversa, nas redes sociais se percebe isso.

Euler de França Belém – Esse é um risco muito grande, pois, se daqui a seis meses, continuarem os problemas, qual será a desculpa?
Aí já deu a cara do Governo, que não conseguiu resolver os problemas.

Euler de França Belém – Alguns economistas dizem que o erro do Caiado é achar que a solução para os problemas de Goiás está em Brasília, sendo que ela está aqui.
Ano passado, ele abriu um debate interessante, que foi o da renúncia fiscal. É inconcebível um Estado que arrecada R$ 24 bilhões por ano abrir mão de R$ 8 bilhões por ano. Inconcebível uma empresa como a Caoa pagar 14% dos impostos e ter isenção de 86% – e melhorou um pouco, pois já teve 98% de isenção. A guerra fiscal que temos no Brasil acaba dando prejuízo para o povo brasileiro.

Não que eu seja contra o incentivo fiscal, mas isso tem de ser tratado como estratégia para o crescimento do País. Goiás tem de se desenvolver, Rondônia também, mas não pode é ter essa loucura de dar 98% de desconto de pagamento do imposto. Não há Estado que aguente.

Euler de França Belém – Quem fará eutanásia primeiro: PT, PMDB ou PSDB?
Há um espaço muito grande para o surgimento de novas forças políticas. Esses partidos terão muita dificuldade de se recuperar. Mesmo o PT, com seu desempenho eleitoral – e penso que um dos motivos para a vitória do Bolsonaro foi o antipetismo. O partido, que elegeu a maior bancada [em 2018] sequer lançou um candidato à presidência na Câmara [dos Deputados] nem no Senado. É uma demonstração de um partido que está com dificuldades.

Temos algumas possibilidades, como acirrar esse processo de direita no País. Mas o Governo Bolsonaro mina um pouco esses setores mais à direita e abre espaço para um governo mais à esquerda. Temos um perfil para um Governo mais de centro-esquerda na próxima eleição.

Euler de França Belém – O PSL será o novo PRN [Partido da Reconstrução Nacional, criado para a eleição de Fernando Collor de Mello em 1989]?
Acho que sim. O PSL não sobrevive até o final do Governo Bolsonaro.

Euler de França Belém – Havia um movimento de deputados para cobrar a duplicação da BR-153, depois que a Queiroz Galvão perdeu a concessão.
Isso [a duplicação] foi formatado no governo do PT. O BNDES se recusou a colocar o dinheiro nas mãos das empresas, porque estava sob ataque, e isso inviabilizou todo o processo e as licitações.

Em Goiás, a empresa que tem a concessão até Brasília, a Triunfo, tinha de ter feito a transferência de um trecho para fora de Goiânia. Mas, sem o financiamento do BNDES, quase todas as empresas alegaram que houve uma queda no contrato. Diante dessa situação, há uma discussão para outro modelo.

“Demorou-se 20 anos para duplicar a BR-153 e, quando ficou pronta, foi privatizada”. | Foto: Divulgação

Acho que a privatização em que a empresa vai colocar dinheiro dela, não do BNDES, é interessante. Esse é um tipo de privatização que há um ganho, porque tem alguém que vai investir recursos que o Estado não tem hoje e [a empresa] terá um tempo para recuperar o dinheiro e ter lucro. Mas não da forma que foi feito aqui [em Goiás]. Demorou-se 20 anos para fazer a duplicação e, quando ficou pronta, a rodovia foi privatizada.

Nas privatizações das rodovias, só após quatro anos de exploração as empresas começavam a pagar o BNDES. Pior, a garantia não é o patrimônio da empresa, mas, sim, o próprio contrato. Se em algum momento ela não conseguir mais pagar, devolve o contrato. É um risco zero.

A privatização deve ser um pouco mais capitalista, que tenha risco. Essa privatização em que o Estado banca tudo não tem nada a ver com o capitalismo.

Euler de França Belém – Quais as pautas importantes no Congresso que não estamos discutindo?
Há um desejo muito grande em discutir a reforma tributária, o pacto federativo. Os municípios estão estrangulados. Essa é a questão central do debate nacional.

Rodrigo Hirose – Há dois projetos que interessam muito ao Governo de Goiás. Um sobre a possibilidade de o Governo Federal avalizar empréstimos pelos Estados e outro que ordena os repasses da Lei Kandir, já que o Tribunal de Contas da União (TCU) considera que a União não precisa mais fazer os repasses aos Estados. Como está a tramitação desses temas?
Há discussão sobre esses assunto, mas nada de concreto ainda. Na Câmara, há um sistema muito presidencialista. O presidente tem uma força muito grande na pauta.

Disse ao governador Ronaldo Caiado que, quando for discutir assuntos de Goiás, sou deputado federal de Goiás. Independentemente de posição partidária, vou defender o Estado. Não interessa se o Governo do Caiado será beneficiado. Essa questão mesquinha, essa pequenez de que, se não é do meu partido não foi apoiar, é uma estupidez.

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