Fabrício Rosa: “A única ideologia de gênero que existe de verdade é o machismo”

Candidato a vereador do movimento LGBTQIA+ mais bem votado de Goiânia aponta falta de políticas públicas voltadas a uma parcela marginalizada da população

Candidato a vereador pelo PSOL, Fabrício Rosa diz que a sociedade goianiense não é completamente representada na Câmara | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

“O movimento LGBTQIA+ nunca conseguiu chegar ao Legislativo goianiense.” Candidato pelo PSOL, o policial rodoviário federal Fabrício Rosa conquistou 4.299 votos na eleição de 2020 para vereador em Goiânia. Não foi eleito porque o partido não atingiu o quociente eleitoral. Fabrício reconhece que a sigla lançou poucos nomes na disputa proporcional. Foram apenas nove candidaturas a vereador.

Mas há uma possibilidade de Fabrício, um homem gay, ser o primeiro representante LGBTQIA+ na Câmara de Goiânia. A Justiça Eleitoral ainda irá analisar em conjunto todas as ações que questionam partidos que elegeram vereadores no dia 15 de novembro sem cumprir a cota de 30% de gênero nas candidaturas.

Se a decisão for favorável, o policial rodoviário federal ocupará uma das cadeiras do Legislativo da capital. “A Câmara de Goiânia acaba por ficar muito desequilibrada, tanto para a direita quanto para o conservadorismo. Goiânia não é só isso”, observa o candidato mais bem votado do PSOL.

O sr. foi o candidato a vereador mais bem votado entre os que não foram eleitos. Qual foi o trabalho realizado para chegar a 4.299 votos?
É uma história. Uma construção de tijolinho em tijolinho de muito tempo. Represento vários movimentos que estão excluídos da Câmara de Vereadores de Goiânia. O movimento LGBTQIA+ nunca conseguiu chegar ao Legislativo goianiense. Nunca teve um candidato realmente viável para chegar à Câmara e conseguir amplificar as vozes da comunidade LGBTQIA+.

O movimento da juventude, com todas as suas pautas próprias, por uma nova política de drogas, contra a violência policial, pela valorização da cultura. O movimento da infância e da adolescência também é muito carente de um vereador que compreenda verdadeiramente as pautas da infância e da adolescência, que se coloque de maneira progressista e que entenda a rede de profissionalização da juventude. Atuo no combate ao trabalho infantil, o que me aproxima desta rede.

Consegui dialogar com vários grupos sociais que são carentes de representação na Câmara de Goiânia, que acaba por ficar muito desequilibrada, tanto para a direita quanto para o conservadorismo. Goiânia não é só isso. Consegui capilarizar e trazer pessoas que anseiam por esta mudança e não se sentem representadas por aqueles que estão no Legislativo.

O que representa ter candidatos como o sr., integrante do movimento LGBTQIA+, com força no voto e com possibilidade de assumir uma cadeira a depender do julgamento de ações na Justiça Eleitoral?
Somos de 10% a 15% da população. Não há políticas públicas na nossa cidade para a população LGBTQIA+. O maior movimento de rua que existe na cidade há 24 anos é a Parada do Orgulho LGBTQIA+. É um evento que reúne em torno de 150 mil pessoas. Nem a dignidade de nos reconhecer no calendário oficial da prefeitura Goiânia teve. A Parada do Orgulho LGBTQIA+ não está no calendário oficial da cidade. O que representa falta de banheiro, de palco, de estrutura, burocracias mais difíceis. E eventos muito menores estão no calendário. Este é só um símbolo da ausência de políticas públicas.

Não há casas de acolhida para os LGBTQIA+ expulsos de casa, especialmente adolescentes. Não há uma formação dos servidores públicos nas suas diversas áreas para compreender a dinâmica do preconceito e da homofobia. A educação no ensino fundamental precisa ser uma educação que valorize a diversidade, que valorize o respeito. Não tem nada a ver com que dizem se chamar ideologia de gênero. Até porque sabemos que a única ideologia de gênero que existe de verdade é o machismo, a única ideologia sob a qual todos nós vivemos.

Queremos uma educação para o respeito, a dignidade, a diversidade, que combata a gravidez na adolescência, que incentive o uso de métodos anticoncepcionais, que combata a proliferação de doenças. A minha votação representa a vitória de algumas bandeiras muito importantes para a civilidade e para o processo civilizacional da nossa cidade. É uma vitória muito grande para o movimento LGBTQIA+ em suas diversas áreas, que é um movimento muito amplo. Existem partes do movimento que trabalham só com a saúde, outras partes com a cultura e a arte LGBTQIA+. A área em que mais me insiro é no combate à violência contra LGBTs e a violência homofóbica.

É uma vitória para o movimento como um todo. Não ingressar na Câmara, mesmo com uma quantidade expressiva de votos, é muito triste para o movimento. Há uma expectativa muito grande de vários movimentos que participo. Mas especialmente do movimento LGBT.

Ser um representante do movimento LGBTQIA+ na Polícia Rodoviária Federal trouxe algum tipo de problema na carreira profissional?
O Brasil é homofóbico. A homofobia é estrutural e se expressa na polícia de várias formas, da mesma forma que se expressa na igreja, na escola ou na família. Mas se expressa na polícia de forma muito contundente. Porque a polícia é um ambiente belicoso, da guerra, e é formado majoritariamente por homens. 90% dos policiais são homens. É um lugar onde a feminilidade – não só o LGBTQIA+ ou a mulher – não é aceita. Qualquer pessoa que rompa com os traços que são colocados pelo senso comum como estereótipo de um policial perfeito sofre preconceito.

Na minha prática profissional, convivo com policiais que não querem compor uma equipe comigo, que não querem dividir a mesma viatura. Por ser policial rodoviário federal, eu viajo muito. Quando viajo para determinados locais em operações policiais, tem policial que não aceita, por exemplo, dividir um quarto de hotel ou um alojamento da polícia. O olhar é sempre o de que por eu ser gay daria em cima daquele policial. Na minha vida é assim que ocorre. Sempre há uma desconfiança de que eu quebraria algum sigilo ou seria mais fofoqueiro do que um heterossexual. O que percebo é que os heterossexuais são extremamente fofoqueiros. São estereótipos.

Na vida de outros policiais LGBTs mais afeminados, o problema é pior. Tem policiais LGBTs que são transferidos para delegacias ou quarteis. Especialmente entre os militares, a questão é mais grave. Tem policiais LGBTs que não ascendem na carreira, nunca conseguem ocupar um cargo de chefia ou uma promoção. Há casos de policiais LGBTs que se suicidam pela dificuldade em se assumir. Se já é difícil se assumir gay sendo um civil LGBT, ser um policial LGBT triplica a dificuldade em se assumir. São muitos os casos de depressão e suicídio entre policiais LGBTs. São situações que percebo na prática. São 21 anos de polícia.

Muitos suicídios são cometidos porque os policiais não conseguiram se resolver com sua própria sexualidade. A homofobia é estrutural, muito grave, ocorre em todos os espaços. Na polícia, a homofobia ocorre de maneira mais intensificada por causa do estereótipo que é criado de que o policial seria este homem formado apenas por músculos, mas não por capacidade de resolução de conflitos. A atuação policial é basicamente a resolução de conflitos.

É difícil ser um policial gay. Já fui denunciado por ser gay. Olha que loucura! Já mandaram uma denúncia para a corregedoria da PRF porque eu, Fabrício Rosa, era candidato policial e gay. A denúncia foi arquivada. Nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais, sofro muita perseguição. E sofro uma perseguição grande – inclusive em um processo que não foi arquivado – por defender uma nova política de drogas. Por ser contra o que chamamos de guerra às drogas e por defender, sobretudo, a legalização da maconha. Recebi várias denúncias na polícia por este motivo. Uma das denúncias virou um processo administrativo disciplinar em andamento.

“Não sou a favor de que haja uma lista fechada e as pessoas mais bem votadas, como eu fui, sejam eleitas”

“Quem tem de chegar é o sonho de um grupo, de um partido político. Um projeto comum de vida construído a várias mãos” | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Qual é a situação deste processo administrativo disciplinar?
São várias denúncias. Nesta campanha, eu levantei a pauta da legalização porque tem repercussões municipais. Não é um assunto unicamente federal. O cultivo caseiro, a cannabis medicinal e as políticas de redução de danos na saúde municipal passam pela discussão das drogas. Remédios para crianças passam por regulamentação municipal. Foi aprovada uma lei municipal há um mês.

O projeto de lei do vereador Lucas Kitão (PSL)?
Exato. Não basta aprovar uma lei que tenha um olhar comercial com objetivo de enriquecimento da indústria farmacêutica internacional, mas que permita o associativismo, que permita o comércio local com outro olhar. Com olhar mais popular. Tem toda uma questão local sobre o assunto.

Já o processo envolve a minha participação no movimento pela legalização da maconha. É uma participação que não ocorre no meu horário de trabalho, mas durante meu horário de folga. Faço doutorado em Direitos Humanos na Universidade Federal de Goiás (UFG). Pesquiso política de drogas. No meu horário de folga participo de palestras sobre a importância da legalização e as várias questões ligadas à legalização, a redução da violência e o encarceramento em massa, o financiamento das facções criminosas. As facções, sobretudo, conseguem recursos através do comércio que foi colocado na ilegalidade que é o das drogas.

Em uma das palestras que dei, alguém me denunciou porque em um pequeno trecho da palestra citei a minha instituição. Mas o que faço é uma análise macro da segurança pública. Como citei a PRF, a instituição recebeu a denúncia e alegou que eu fui imoral e desleal na citação. Por isto, abriram um processo contra mim. Ao final do processo, pediram para que eu assinasse um termo de ajustamento de conduta no qual eu me comprometeria a não ministrar mais palestras. Respondi que não poderia assinar o termo de ajustamento de conduta porque da minha vida fora da polícia quem toma conta sou eu, que sou um militante pela legalização.

Como não assinei o termo, a denúncia se tornou um processo administrativo disciplinar, um TAD [Termo de Ajustamento Disciplinar], cuja repercussão pode ser uma advertência, uma suspensão ou até a demissão. Respondo a este processo na corregedoria.

A discussão sobre a legalização da maconha para uso medicinal e comercial tem tomado grande espaço na discussão pública porque uma comissão especial avalia um projeto de lei na Câmara dos Deputados. Alguns setores, como o agronegócio, já começam a olhar com outra atenção o assunto, porque começam a enxergar a lucratividade do plantio legalizado.
A criminalização da maconha no Brasil e nos Estados Unidos, que ocorre nos anos 1930, é gerada por uma guerra econômica do cânhamo, que é uma das espécies da cannabis, contra a indústria têxtil. Do cânhamo se faz roupa, papel e uma série de produtos. A indústria têxtil e do petróleo ganha em cima dos lobbys no Congresso dos Estados Unidos, o que leva à criminalização. E a criminalização traz junto o preconceito porque eram drogas utilizadas por mexicanos e africanos. Uma série de fatores levou à criminalização.

Diversos grupos começam a perceber que a proibição é um grande retrocesso. Que a política antidrogas tem muito mais efeitos nefastos de colocar na cadeia e destruir a vida de jovens que não são necessariamente violentos. São jovens que comercializaram uma substância porque foi o que restou para a vida deles. Existe um movimento de pessoas que estão interessadas na legalização do plantio, inclusive famílias muito ricas em Goiás. Famílias multimilionárias em Goiás criam associações para uso da maconha medicinal e ventem a R$ 3 mil cada frasco de extratos da cannabis medicinal. Pouquíssimas pessoas têm acesso, apenas quem consegue pagar de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil. São ações com um olhar muito comercial, do lucro, não voltadas para a saúde.

Defendemos que o SUS [Sistema Único de Saúde] possa bancar estes medicamentos e que sejam permitidos o associativismo, o cultivo caseiro, os clubes canábicos, os clubes de cultivo, como ocorre no Uruguai, na Espanha e em outros lugares.

A partir da divulgação do resultado das eleições, parte dos seus eleitores começou a questionar a justiça do sistema proporcional para vereador. O sr. gravou um vídeo no qual defende o quociente eleitoral. Como as pessoas que votaram no sr. reagiram à sua atitude? Por que o sr. defende o sistema proporcional para o Legislativo?
O sistema proporcional leva para a cadeira do parlamento uma pessoa que representa um projeto coletivo, um programa partidário e um sonho em grupo. Não é uma noção individualizada e personalizada, que beira o populismo. Não é uma noção personalista. Não é o Fabrício. É um projeto coletivo. O sistema proporcional tem este mérito. Tem alguns problemas e deméritos no sistema que é o fato de pessoas bem votadas ficarem de fora. Ainda assim, eu concordo com este sistema.

Faltou candidato no nosso partido. As poucas candidaturas que tínhamos eram todas muito potentes. Eram nove candidaturas. Mas faltaram candidatos. As pessoas que não compreendem é porque de fato não compreendem o processo eleitoral como um todo. Por mais que tentemos explicar o quociente eleitoral, muita gente não compreende. A maioria das pessoas não compreende. Não sou a favor de que haja uma votação de lista fechada e que as pessoas mais bem votadas, como eu fui, sejam eleitas. Não é assim. Quem tem de chegar é o sonho de um grupo, de um partido político. Um projeto comum de vida construído a várias mãos.

Não é o Fabrício, é o projeto. E faltou ao nosso projeto alcançar o quociente eleitoral. Precisamos lutar coletivamente para que o projeto alcance o quociente no próximo pleito. O mais bem votado assume a cadeira para representar este projeto. Mas não é uma pessoa sozinha.

O sr. falou das candidaturas fortes do PSOL para vereador, mas só a sua e outras três superaram mil votos. As cinco demais candidaturas do partido receberam menos de 512 votos. Assim como o PSOL, outros partidos de esquerda lançaram poucos candidatos. Nomes que concorreram em 2016 não estavam na chapa de 2020, como Vitor Cadillac, Professor Pantaleão e o ex-candidato a prefeito Flávio Sofiati. São pessoas que poderiam ter fortalecido a chapa proporcional do PSOL?
Tenho absoluta certeza de que faltou uma estratégia mais bem azeitada entre os partidos de esquerda. Mas compreendo porque falta. Os filiados do PSOL não veem o período das eleições como o grande coroamento da vida, o momento mais importante e que o trabalho acaba no pleito. Não. Somos militantes por outro mundo possível, por outra forma de vida. A campanha eleitoral é mais um passo, estratégia, instrumento de luta.

Somos ativistas. Estamos juntos o tempo todo nas lutas. Especialmente os partidos de esquerda. Estamos juntos nas ruas, nas manifestações, nas reuniões. Isto gera brigas, conflitos. Estes conflitos acabam por nos distanciar. Falta mais generosidade entre os partidos de esquerda. Falta mais capacidade de compreender as lutas de cada um e tentar agir mais coletivamente, de maneira um pouco mais pragmática, para conseguir alcançar cadeiras na Câmara.

Porque não conseguiremos mudar só a partir das ruas e das lutas que fazemos enquanto ativistas. O parlamento e a institucionalidade também têm sua importância. Falta compreensão e generosidade entre os militantes de esquerda. É difícil. Não é uma tarefa fácil. Vejo a esquerda muito mais estudiosa, muito mais qualificada, muito mais atuante na transformação da sociedade, o que gera muito mais conflitos pessoais. E os conflitos pessoais passam a inviabilizar a possibilidade de alianças e parcerias.

Vimos a fragmentação evidente da esquerda na eleição de 2018, o que parece se manter até o momento. Há dois exemplos muito distintos no Brasil. Um é o segundo turno em São Paulo, no qual Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Flávio Dino (PCdoB) se uniram para apoiar a candidatura de Guilherme Boulos (PSOL). No Nordeste, os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) fazem uma disputa que inclui atos difamatórios de campanha em Recife (PE). Qual dos dois exemplos o sr. acredita que poderemos ver em 2022?
Torço para que vejamos o exemplo de São Paulo para que possamos, de maneira bastante comedida, fazer uma aliança para derrotar o bolsonarismo. Não significa se entregar ao capital. Sou a favor de uma aliança para derrotar o bolsonarismo. Temos de tomar bastante cuidado. Defendo uma aliança bastante cuidadosa à esquerda.

Não consegui acompanhar porque a campanha toma muito tempo, mas as poucas vezes que vi a campanha de Recife, os ataques que a candidata do PT tem sofrido são terríveis. Acusam-na de ser uma perseguidora dos cristãos, de que defenderia a ideologia de gênero.

“Não há políticas públicas na nossa cidade para a população LGBTQIA+”

“O maior movimento de rua que existe na cidade há 24 anos é a Parada do Orgulho LGBTQIA+. É um evento que reúne em torno de 150 mil pessoas. Nem a dignidade de nos reconhecer no calendário oficial da prefeitura Goiânia teve” | Foto: Antônio Silva/Câmara de Goiânia

Então o sr. não concorda com a esquerda incluída em uma aliança que tenha os ex-ministros Sergio Moro (Justiça), Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e o apresentador de TV Luciano Huck?
Não. Defendo uma aliança à esquerda. Talvez do PSOL com PT e partidos de esquerda. Não com Luciano Huck. Não derrubar o bolsonarismo a qualquer custo. Com Sergio Moro e Luciano Huck não é uma aliança que eu defenda. A aliança na esquerda que defendo talvez caiba o PDT e o PSB, mas não esta frente ampla de centro que se apresenta hoje. Não com estes golpistas.

Em que pé estão as ações que questionam o não cumprimento da cota de 30% de gênero nas chapas proporcionais na eleição para vereador em Goiânia?
Vários partidos ingressaram com ações. O PROS entrou contra três partidos. Estive com o Igor Franco, do PROS, que é um candidato que pode assumir caso as ações tenham resultado. O PSOL entrou, até o momento, contra o PMB. Fizemos um estudo bem profundo e há casos de mulheres que renunciaram à candidatura. Não concordo com a renúncia porque acredito que a candidatura tem de ser efetiva. Se a pessoa registra e no dia seguinte renuncia, isto não é efetivo. Não há efetividade nesta competição.

Tem algo mais grave. Há candidatas que foram apresentadas pelo PMB, partido contra o qual elaboramos a peça na segunda-feira, 23, que não tinham condição de ser candidatas. Nem prestaram contas na campanha anterior. Estavam com direitos políticos cassados. Temos histórico do cumprimento e do não cumprimento destas regras para garantir o direito das mulheres. Em Goiânia, esta regra tem sido cumprida de mentirinha. A cota de 30% precisa ser cumprida.

É uma situação que pode levar à mudança de mais de dez cadeiras entre os vereadores eleitos no dia 15 de novembro.
Com certeza. O PT ingressou com algumas ações. Era esperado que o PSD apresentasse outras ações. No total das ações protocoladas, o cenário que pode mudar varia de 25% a 30% dos eleitos na Câmara de Goiânia.

Qual avaliação o sr. faz da cota de 30% de gênero? É um bom mecanismo?
Faço parte de um grupo político que defende radicalmente as cotas. Não só de mulheres, mas de negros, de LGBTQIA+. Como somos de 10% a 15% da sociedade e quase não há LGBTs eleitos? Na eleição de 2016, foram 70 mil cargos disputados no Brasil entre vereadores e prefeitos. Apenas 25 LGBTs foram eleitos no País, o que representa menos de 0,05%. Em 2018, foram disputados 1.650 cargos. Apenas oito LGBTs foram eleitos, sete do PSOL.

Defendo instrumentos que possam corrigir e gerar equilíbrio para as comunidades e pessoas vulnerabilizadas historicamente. A cota é um destes instrumentos. Mas precisamos ter instrumentos de formação, de disponibilização de recursos, de incentivos econômicos. Precisamos criar outros instrumentos para que haja a possibilidade de que as comunidades quilombolas, indígenas, dos LGBTs e dos deficientes – os deficientes graves são 10% da sociedade brasileira, os leves beiram 25% – tenham oportunidades eleitorais. Os deficientes não têm vaga no parlamento. Onde estão os deficientes do nosso País?

Senão o parlamento será composto apenas pelas mesmas pessoas de sempre: os homens brancos milionários, fazendeiros, empresários, que não representam a multiplicidade da nossa sociedade.

Dos 971 mil eleitores de Goiânia, 54% são mulheres. Mesmo assim as mulheres não são eleitas. Mantida a formação eleita, teremos as mesmas cinco cadeiras ocupadas por mulheres na Câmara da capital. Por que há uma dificuldade de um eleitorado que tem maioria de mulheres em eleger representantes do sexo feminino?
Existe um modelo de vida que seguimos milenarmente. Este modelo, que podemos chamar de patriarcado, implanta em todos nós de maneira subliminar e subjetiva a noção de que homens seriam mais capacitados para determinados espaços: os espaços públicos, o palanque, o púlpito da igreja, a rua, a praça pública e especialmente o espaço de poder. São espaços que foram tidos, ao longo do tempo, como masculinos. Espaços que apenas homens que gritam mais forte e falam mais alto podem ocupar.

Historicamente, estas mesmas pessoas foram as donas do poder econômico. E privaram as mulheres da propriedade ao longo de séculos. É lutar contra um sistema milenarmente posto. E há outras questões. As mulheres têm dificuldade com uma carga de trabalho quadruplicada. São mães. São as responsáveis pela economia do lar. Mais de 5,7 milhões de homens do País não assumem sequer a paternidade dos filhos. Nem registraram os seus filhos. 5,7 milhões de crianças no Brasil não têm o nome do pai. Este é apenas um sintoma. É muito grave!

As mulheres ficam com uma tarefa muito mais difícil. É por isto que as mulheres precisam ter o incentivo de 30%. É preciso levar isto a sério para minimamente equilibrar o jogo.

Como o PSOL tem se posicionado com relação ao segundo turno em Goiânia e como o sr. resolveu se colocar na disputa para prefeito entre Maguito Vilela (MDB) e Vanderlan Cardoso (PSD)?
O PSOL não irá apoiar Maguito ou Vanderlan. Tivemos uma reunião na segunda-feira. Nenhum dos dois representa o que nós acreditamos para a cidade. Representam um projeto político de um grupo muito específico, que é o grupo das grandes empreiteiras, dos grandes latifundiários.

O candidato a vice-prefeito de Maguito [Rogério Cruz (Republicanos)] é um pastor da Igreja Universal que defende o fim da ideologia de gênero e todas estar marmotices do bolsonarismo, como o conspiracionismo. É do mesmo grupo político do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos). Temos receito de Maguito não assumir e o vice virar o prefeito sem nenhum capital político. As pessoas não sabem quem é este homem.

Por isto, optamos por não apoiar Maguito. Nem Vanderlan, porque o senador representa o bolsonarismo no Estado, o que há de pior na política em Goiás. Não vamos apoiar qualquer um dos dois e liberamos a militância para votar em quem quiser.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.