“Estrutura de saúde pública foi toda desmobilizada nos últimos anos”

Prefeito de Formosa, um dos emedebistas que apoiaram candidatura de Ronaldo Caiado (DEM) ao governo, defende que gestão precisará ser honesta e austera

Prefeito de Formosa Ernesto Roller (MDB) | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ernesto Roller (MDB) compõe o grupo de prefeitos emedebistas que optou por não apoiar a candidatura do deputado federal Daniel Vilela (MDB) a governador de Goiás e preferiu caminhar desde o início com o senador Ronaldo Caiado (DEM). Confiante de que não há motivos legais para o partido expulsar os filiados considerados infiéis nas eleições, o prefeito de Formosa diz que Caiado terá muitos desafios a enfrentar quando assumir o governo do Estado. Roller reconhece que as dificuldades financeiras enfrentadas pela gestão de Formosa dificultaram a candidatura do nome que apoiou para deputado estadual, Guto Araújo (Podemos), mas que tem trabalhado para manter os serviços em funcionamento mesmo em momento de crise.

Euler de França Belém – Nas outras regiões do Estado houve um debacle do governo, mas no Entorno do Distrito Federal, os quatro deputados estaduais eleitos são da base governista. Por que a eleição no Entorno foi diferente das outras regiões?
O candidato de Formosa – Guto Araújo (Podemos) – teve no Entorno um desempenho muito aquém do que ele esperava, mas teve muito apoio fora da região. Diego Sorgatto (PSDB) teve uma presença muito forte no Entorno Sul, que tem uma densidade eleitoral muito forte. Os três – Diego Sorgatto, Lêda Borges (PSDB) e Wilde Cambão (PSD) – são de regiões que têm dentro do Entorno uma densidade eleitoral maior. Dois foram eleitos tendo como base principal Luziânia e Lêda Borges Valparaíso. Lêda foi secretária de Estado e isso naturalmente tem seus reflexos. É muito mais pela situação individual de cada um do que por alguma questão de natureza partidária e política.

Euler de França Belém – Mesmo assim temos exemplos como Gugu Nader (PTB), de Itumbiara, que é uma região forte, e não foi eleito, Francisco Oliveira (PSDB) e Eliane Pinheiro (PSDB) com apoio maciço no Estado não foram eleitos.
Quantos deputados estaduais tiveram da base no Entorno? Eram mais candidatos. A eleição de deputado estadual é muito diferente. Mas tem um detalhe: o Entorno tem ligação menor com a comunicação do Estado de Goiás, com os veículos de comunicação goianos. Há uma comunicação muito forte do Distrito Federal no Entorno, o que tira um pouco da identidade na questão política que se verifica na questão política estadual. Líderes locais, como Diego Sorgatto, que é deputado e foi candidato a reeleição, um parlamentar jovem e que teve um desempenho muito forte, com presença não só no Entorno, mas apoio em Flores de Goiás, que não faz parte do Entorno, e outras regiões.

Lêda é ex-secretária de Cidadania. O candidato que foi eleito e teve como base Formosa – Tião Caroço (PSDB) – é um ex-conselheiro do TCM [Tribunal de Contas dos Municípios], teve apoio em São Miguel do Araguaia, e recebeu mais votos fora do que em Formosa. Muito mais votos em virtude das características pessoais do que dessa vinculação com o processo eleitoral estadual.

Euler de França Belém – Mas isso também não significa que a oposição, que passará a ser agora situação, foi frágil no Entorno?
Toda vida a oposição foi frágil no Entorno. É só pegar os outros resultados. Qual foi a grande vantagem de Ronaldo Caiado? Ronaldo tinha uma presença muito forte no Entorno pela sua atuação parlamentar de muitos anos, por sua atuação no Senado e por sua presença na região. A questão da oposição, esse grupo que agora chega ao governo, ser fraca no Entorno não se pode negar. Veja o seguinte ponto: em toda a região, o único prefeito de oposição sou eu. O único prefeito de oposição ao atual governo sou eu.

Augusto Diniz – O que o sr. diz é que o Entorno fica completamente descolado da eleição estadual?
Não é completamente descolado. Tem os reflexos, mas vive uma realidade que é muito particular, que é uma ligação muito forte com Brasília e a mídia da capital federal. Aquele cidadão que vive no Entorno muitas vezes pela o sinal da televisão do Distrito Federal. O morador do Entorno que trabalha em Brasília acaba por ver a imprensa de Brasília. O Entorno tem essa característica.

Euler de França Belém – Até o prefixo do telefone é 61.
O nosso prefixo no Entorno é o 61.

Euler de França Belém – O que os adversários do sr. comentam é que o candidato do sr. a deputado estadual foi contaminado pelo desgaste da sua gestão em Formosa. O que tem de verdade nisso?
Eu não sou daqueles que tapa o sol com a peneira. Tem muito de verdade nisso. Fui alvo de ações políticas, e mesmo ações administrativas, que me trouxeram consequência. No ano passado, quando assumi, a cidade estava toda esburacada e suja. Fiz as licitações de tapa-buraco e outras ações. Neste ano, estranhamente no ano da eleição, foram travadas duas licitações minhas, uma inclusive antes de ser realizada: a do tapa-buraco e a da limpeza urbana.

Euler de França Belém – Travadas no TCM?
Travadas no TCM. Uma das licitações antes de ser realizada. Perdi mais de seis meses no tapa-buraco e a de limpeza urbana só consegui fazer há 20 dias. Isso me gerou um desgaste, é inegável. Ao que me parece, com endereço certo.

Euler de França Belém – O programa Goiás na Frente ajudou Formosa?
Nada. Do Goiás na Frente não chegou nem um real para Formosa.

Euler de França Belém – Mas a documentação foi apresentada?
Apresentamos a documentação. Esperávamos que isso fosse feito ainda pelo governador Marconi Perillo (PSDB). Já no apagar das luzes do prazo, que foi no final de junho, tive de vir a Goiânia para tentar a liberação, mas não conseguimos recurso do Goiás na Frente para a cidade de Formosa.

Euler de França Belém – O programa atendeu alguma prefeitura na região?
Nas cidades próximas, não tenho essa informação.

Euler de França Belém – Dizem que o sr. herdou a prefeitura com dívidas que podem ser de até R$ 200 milhões. Qual é a real situação das dívidas da prefeitura de Formosa?
Assumimos com R$ 36 milhões em empenhos não pagos, outros R$ 39 milhões em empenhos cancelados, uma dívida de R$ 30 milhões com a companhia energética. Só da gestão passada, a dívida com a Previdência é da ordem de R$ 24 milhões, fora a dos outros mandatos. No total, é uma dívida que passa de R$ 130 milhões. O número chega a R$ 190 milhões com precatórios e tudo. A grande dificuldade de administrar Formosa é que é uma cidade grande, mas que tem pouca atividade econômica. Formosa é um grande posto de comércio e de serviços, e isso agrega pouco valor na arrecadação do município.

Nossa área agricultável é um campo de instrução do Exército brasileiro de 125 mil hectares. Temos estudos que mostram que, ao longo dos últimos 20 anos, Formosa deixou de arrecadar com impostos – ICMS – sobre a produção mais de R$ 1 bilhão. Formosa não tem um parque industrial. Catalão, por exemplo, tem 20 mil habitantes a menos que Formosa e tem uma arrecadação que é quase o dobro da nossa. O grande desafio é desenvolver economicamente a região do Entorno, não só Formosa, para fazer um equilíbrio entre a demanda e a possibilidade de solução.

Ainda há o sobressalto dos precatórios. Para pagar as dívidas da prefeitura tive de cortar meu salário em 30%, o de todos secretários em 20% e as gratificações de todos comissionados em 60% para reduzir o endividamento sem sacrificar serviços públicos. Mesmo com todas as dificuldades, Formosa está vendo asfalto ser feito com recurso próprio da prefeitura depois de muito tempo, galeria de água pluvial ser feita com recurso da prefeitura. Coisa que há muito tempo não se via. A prefeitura vinha administrando folha, problema e não realizava se não tivesse ajuda de outros governos, estadual ou federal. E pelo nível de endividamento não conseguia nem as certidões para poder receber recursos, transferências voluntárias, da União ou do Estado.

Augusto Diniz – Com esta realidade, como fica o reajuste anual o pagamento do piso nacional da educação?
Cumpri todos os reajustes. Em Formosa ninguém recebe abaixo do piso. Aplico a chamada data-base. Tanto em 2016 quanto este ano demos o reajuste aos servidores.

Augusto Diniz – O que precisou ser cortado para que o reajuste do piso fosse cumprido?
Tivemos de fazer cortes. Quando chegue à prefeitura havia 20 secretarias. Reduzi para sete. Só com o salário de secretários que deixo de pagar a economia é de mais de R$ 1,2 milhão por ano. É preciso fazer opções, cortes de despesas. Cortei, por exemplo, um grande volume de aluguel de imóveis e veículos. No lugar, adquiri veículos. No levantamento feito para comparar 2017 com 2016, foi reduzido nos itens combustível, aluguel de imóveis, aluguel de veículos e peças para reposição. Enquanto em 2016 os gastos foram de R$ 17,8 milhões. Em 2017, a minha gestão gastou R$ 3 milhões. Precisei centralizar e colocar controle de gastos.

Euler de França Belém – O que sr. pretende fazer como prefeito nos próximos dois anos?
Formosa é uma cidade que tem tantas demandas. Há demandas de pavimentação asfáltica, há demandas graves na saúde. Acontece hoje em Formosa uma situação que era impensável até pouco tempo. As pessoas estão vindo do Distrito Federal, do Nordeste goiano, do Entorno Norte e do Oeste da Bahia para dar à luz no hospital municipal, porque montei uma maternidade no município. A região tem um vazio assistencial desde a divisa da Bahia e a divisa do Tocantins até a divisa do Distrito Federal. Nesse triângulo não temos um leito de UTI. O cidadão formosense se precisar de uma UTI, como não somos pactuados com Brasília, mas sim em Goiânia, que é nosso ente federado. O paciente de Formosa tem que andar 300 quilômetros atrás de uma UTI.

Augusto Diniz – Os leitos de UTI mais próximos de Formosa estão em Goiânia?
Os leitos mais próximos estão em Brasília, que também está em colapso, mas por conta da pactuação é Goiânia.

Augusto Diniz – Mas há alguma cidade goiana mais próxima de Formosa com leito de UTI?
Seria Anápolis. Em algumas áreas o Entorno atende o Distrito Federal. Novo Gama atende paciente da região do Gama, Santa Maria, que encontra dificuldades no sistema colapsado do Distrito Federal. Formosa, que eu citei o exemplo da maternidade.

Euler de França Belém – O ex-governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal, com todos os problemas de improbidade administrativa, diz algo certo, que o Entorno não podia ser tratado como responsabilidade somente de Goiás, mas de Goiás e do Distrito Federal. Porque muitas das dificuldades enfrentadas pelo Entorno, inclusive o problema das drogas, têm ligação com Brasília. O excesso de moradores em algumas cidades é um reflexo da falta de espaço em Brasília para receber essas pessoas, que vai para Formosa ou Águas Lindas e que convivem com o subemprego na capital federal, como flanelinhas em Brasília que moram em Luziânia ou Formosa, que passam o dia e depois voltam para as cidades que moram. Brasília, que deveria ser a redenção do Entorno, se tornou um problema para a região. Arruda dizia que tinha um projeto de desenvolvimento para o Entorno, inclusive com instalação de indústrias. Ainda há esse pensamento de resolver os problemas da região conjuntamente pelos dois governos?
Há algum tempo o governo do Distrito Federal virou as costas para o Entorno. Estive com o candidato Ibaneis Rocha (MDB) e tenho nele a esperança de que esse fluxo se inverta. Não adianta termos uma linha imaginária que de um lado a União, e portanto todos nós brasileiros, na qual colocamos um fundo constitucional de algo em torno de R$ 10 bilhões para custeio da saúde, segurança e educação. E do lado de cá dessa linha imaginária tenhamos uma realidade diferente. Mas as características são as mesmas. Já vi tanta teoria sobre criar um novo Estado, o que só criaria o Entorno do Entorno.

O que é preciso é que a chamada Ride [Região Integrada de Desenvolvimento do Entorno] deixe de ser um instrumento no papel e tenha ações efetivas. É preciso juntar as bancadas goiana e do Distrito Federal no Congresso para conseguir incentivos fiscais federais diferentes para poder gerar emprego e renda no Entorno. Com isso, desafogaríamos Brasília na necessidade da população da capital federal por emprego. Na medida em que se incrementa a atividade econômica se melhora a arrecadação pública, o que daria condições para fazer frente às demandas da região. A partir de então seria possível criar consórcios.

Tentar juntar os municípios do Entorno hoje em um consórcio seria redistribuir a miséria porque todos os municípios são deficitários, seja pela má gestão, mas fundamentalmente por essa característica financeira. É uma região que depende muito das ajudas do governo federal e estadual. São ajudas muitas vezes pontuais, como por exemplo ajudar a construir um hospital. Ora, construir um hospital talvez seja o mais fácil. Como se constrói um hospital e entrega a um município que está deficitário nos índices de gasto com pessoal, segundo a Lei de Responsabilidade Fiscal, e diz “agora você vai contratar cem médicos, duzentos enfermeiros, tantos profissionais de determinada natureza”?

É uma realidade que precisa ser enxergada de uma outra forma. Não dá para se chegar no município e entregar um cheque. Esse é o ato político. O que precisa é criar alternativas de natureza econômica para essa região. Senão não vai funcionar.

Euler de França Belém – E o projeto do deputado federal João Campos (PRB) de incluir a região do Entorno no Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF)?
Aquela foi uma sugestão ao deputado enquanto eu era secretário. Como João Campos é um deputado federal ligado à segurança pública, que é delegado, disse a ele que alguém precisava fazer alguma coisa. E o projeto do João Campos é justamente para incluir o Entorno no repasse do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF). É claro que isso enfrenta oposição do Distrito Federal. Mas acredito que os governos do Distrito Federal e Goiás podem se juntar, assim como as bancadas do Senado e da Câmara, para estabelecer uma tratativa de uma política de incentivo para aquela região. A partir do momento que se emprega o cidadão no Entorno, você diminui o subemprego no Distrito Federal, justamente aquele exemplo que você deu.

Mas a partir do momento que se gera receita, o município terá condição de gerar melhores serviços na área de saúde. Se eu tivesse mais recursos na área de saúde, eu teria condição de fazer muito. A maternidade que criei no hospital municipal em Formosa, porque o hospital particular que fazia parto disse que não mais atenderia SUS – da noite para o dia não teríamos local para as crianças nascer pela rede pública em Formosa -, até hoje o governo federal não aumentou o repasse para cobrir esse custo na saúde pública da cidade.

Euler de França Belém – Qual a alegação?
Burocracia. Queremos apenas o reconhecimento de que estamos prestando aquele serviço com um aumento na ordem de R$ 300 mil.

Euler de França Belém – E o Fundo de Participação dos Municípios (FPM)?
O FPM no Entorno é a maior receita. Há municípios que, além do FPM, têm o mesmo tanto ou mais de ICMS. Depende da atividade, seja ela industrial ou agropecuária. Cidades que chegam a dobrar suas receitas. No Entorno, a maior fonte de receita é o FPM. Até o IPTU é deficitário nas cidades porque não observaram um ordenamento no seu crescimento imobiliário, na sua divisão imobiliária. A Prefeitura de Formosa tem um seriíssimo problema de cadastro imobiliário. Resolve-se refazer esse cadastro. Mas esse cadastro custa uma fábula de dinheiro. Não há dinheiro para fazer isso.

É preciso melhorar a receita pública e chegar aos que não pagam. Os que estão cadastrados pagam. Mas há um conjunto de imóveis que não são cadastrados, que são objeto de ocupação, de direito de posse. Muitas vezes a pessoa não paga o IPTU porque está registrado no nome do titular que há muitos anos não conta com aquele imóvel como seu. É difícil até encontrar o endereço dessas pessoas.

Euler de França Belém – O candidato Ibaneis tem grandes chances de ser eleito governador do Distrito Federal. Como é um candidato do partido do sr., imagina que Ibaneis pode mudar essa situação?
Tivemos uma conversa na semana passada em que estava o candidato Ibaneis, o governador eleito Ronaldo Caiado e eu. Conversamos exatamente sobre o Entorno. A visão do Ibaneis é exatamente de unir forças. Ele disse que Goiás e Distrito Federal não podem ficar nessa briguinha velada e que precisamos da alternativa à região. Ibaneis defendeu a ideia de criar a Região Metropolitana de Brasília que envolva o Entorno, mantendo as características como unidades federativas distintas, mas para que tenhamos uma passagem de ônibus urbana e não interestadual, como acontece no Entorno hoje.

O custo da passagem é outro problema vivido pela nossa população. Pelo diálogo que tivemos, tenho na eleição do Ibaneis e de Caiado muita expectativa. Claro que sei que tem muitas dificuldades porque muita coisa depende do Congresso Nacional. Depende do governo federal também. Quando falo em incentivo fiscal federal envolve perda de receita do governo federal. Se não houver a união de todas as forças políticas da região não vamos conseguir resolver o problema, que só vai se agravar.

Augusto Diniz – O que Caiado apresenta de propostas para a região do Entorno?
A discussão de solução conjuntas é a primeira visão. É claro que existem propostas para a área de saúde, para que se regionalize e interiorize a saúde, concluir obras inacabadas de hospitais que podem ser regionalizados, assumidos pelo Estado. Há propostas na área de segurança pública. Mas o mais importante é essa visão. E desta visão vão surgir bons resultados, que é a de unir governo do Distrito Federal, governo de Goiás e municípios do Entorno em prol de se construir alternativas para aquela população que cresce em progressão geométrica, mas a receita pública e a possibilidade de solução dos problemas cresce em progressão aritmética.

Euler de França Belém – O que realmente precisa ser feito para melhorar o transporte na região do Entorno?
Vivemos um problema que em grande parte não é regulado pelo Estado, mas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Há uma precariedade na prestação do serviço. O melhor que podemos fazer é primeiro baratear o custo da passagem para o cidadão que vive no Entorno e para o cidadão que vive no Distrito Federal. Além disso, é preciso criar outros modais. Não é falar em trem bala e coisas que são intangíveis e inalcançáveis, feitas apenas para criar assunto político. É fazer algo que torne efetivo e rápido o acesso. Sabemos que há muita gente que mora em Formosa e no Entorno, mas não é só ocupando subempregos. São muitos professores, profissionais da área de saúde, concursados, efetivos do Distrito Federal, que moram no Entorno. É preciso discutir linhas de acesso mais rápidas, que seja um trem ou um veículo leve sobre trilhos (VLT), que também precisa de o governo federal agir nessas regiões.

Euler de França Belém – O que o governo de Goiás começou a fazer na área da saúde e não terminou na região?
Na minha cidade temos um ambulatório médico de especialidades (AME) que não foi concluído até hoje. Foi retomado, mas parou a obra, que está inacabada. Em Santo Antônio do Descoberto é o hospital, que já está levantado, mas nunca funcionou. Em Águas Lindas é a mesma situação. Há casos de hospitais no Entorno que estão sendo construídos há dez anos, alguns há 15 anos. É preciso que o governo seja mais presente, inicie e termine as obras, estabeleça parcerias para ajudar a custear. A tirar pelo o que conheço do exercício da minha atividade política como deputado, não é só Formosa, todo o Entorno vive essas dificuldades financeiras nas prefeituras.

Todo o País, é bem verdade. Há cidades de característica de um desenvolvimento econômico melhor que permite que elas satisfaçam o atendimento dessas demandas. O cidadão não vive na União, vive no município. Mas a maioria dos recursos está na União, não está no município. Essa é uma lógica irresponsável da república brasileira que precisa ser revista. Enquanto se gasta muito dinheiro com o serviço da dívida pública federal, os municípios estão com dificuldade. Aproveitando o centro cirúrgico que edificamos sobre o aspecto de reforma do aparelho hospitalar e da aparelhagem que colocamos, queremos muito que seja possível fazer as cirurgias eletivas. É um absurdo! E temos de compreender a indignação do cidadão daquela região. Se você fraturar um braço e precisar de uma cirurgia no SUS, é preciso esperar Goiânia autorizar porque na região não faz pela rede pública. Quero colocar isso no município, mas preciso ter fonte de custeio. Preciso que o recurso seja aumentado. Não posso criar serviços que geram um curto se não vier dinheiro.

“Querem construir a obra física e jogar a conta para o município”

Euler de França Belém – O sr. acredita que as policlínicas propostas por Caiado tendem a funcionar?
Acredito. Vão ajudar muito os municípios.

Euler de França Belém – Como será as policlínicas?
Augusto Diniz – Não é um modelo muito parecidos com os ambulatórios médicos de especialidades?
Não vi esse ambulatório médico funcionando. Muito importante é que qualquer ação do Estado de Goiás em determinadas regiões na área de saúde será um crescimento de 1.000 % porque não tem nenhum serviço. Na cidade de Formosa não há nenhuma estrutura pública de saúde do Estado de Goiás. Mesmo nesse ambulatório médico de especialidades, querem construir a obra física e jogar a conta para o município. No modelo deles, constrói-se o prédio e deixa a prefeitura custear os profissionais. Como isso vai ser possível?

O Estado tem de se fazer presente e se fazer presente mesmo. Não é construir obra física. Nenhum cidadão brasileiro quer mais a construção de obras físicas. Quer primeiro serviços públicos eficientes. É isso que o cidadão quer. Quer poder chegar a um hospital público ser atendido e ter o problema resolvido. Sabemos que é impossível colocar atendimento de alta complexidade esparramado em 5,5 mil municípios. No modelo SUS não há fonte de custeio. É preciso que haja uma facilidade de se alcançar esse resultado, pelo menos aquilo que é corriqueiro, mais comum e de baixa e média complexidade, que seja resolvido na sua cidade. Assim como você quer que haja uma iluminação eficiente, uma pavimentação asfáltica eficiente, que tenhamos a solução dos problemas.

Felipe Cardoso – O sr. disse que os cidadãos querem serviços públicos eficientes. E um dos grandes problemas do Entorno é a criminalidade. Como o sr. já foi secretário de Segurança Pública, como avalia os investimentos feitos pelo Estado ao longo dos últimos anos no setor, como isso refletiu nos municípios do Entorno e em Formosa e como o sr. avalia as propostas de Caiado para a segurança pública?
O Brasil está muito equivocado na sua visão de solução do problema da segurança pública. Há um problema de segurança pública sério, mas que decorre de um problema social mais grave. Se vocês pegarem o programa do Rudolf Giuliani em Nova York, ou no trabalho que foi realizado em Bogotá e Medellín… Medellín era a cidade que mais tinha mortes por 100 mil habitantes no mundo. Eram 3 mil mortes por 100 mil habitantes.

Hoje Medellín tem números menores do que Goiânia. Além da ação policial de saturação, presença e punição, foi feito um trabalho de resgate social de regiões em que havia bolsões de miséria e pobreza que induziam a pessoa para a violência e a criminalidade. Temos um problema de violência no País que decorre muito da condição com que o Brasil trata o problema da segurança. É uma discussão nacional que tem de ser estabelecida, resolvida, e que precisa ser enfrentada. Tem ação de força. Mas entram algumas questões.

Não podemos ver o policial acuado. O policial hoje, em sua maioria, tem medo de agir porque pode deixar de ser o servidor público que está apresentando um preso e passar a ser um réu em uma audiência de custódia. O policial está recebendo um tratamento muito ruim. Não é do Judiciário e do Ministério Público, mas da legislação brasileira, que precisa ser mudada. Não se pode acuar a polícia. Há uma visão distorcida no Brasil. O uso da força policial é um instrumento do Estado. Isso não significa extermínio e violência polícia.

No que diz respeito a investimentos na área de segurança pública, sempre vemos que os investimentos são feitos. Me lembro que quando fui secretário renovamos toda a frota de viaturas do Estado, entregamos mais de 2 mil viaturas, algumas locadas e outras adquiridas, armamentos, munições, compramos helicóptero. Foi no governo Alcides Rodrigues (à época no PP, hoje no PRP). Consegui uma emenda da bancada do Distrito Federal de R$ 15 milhões. O governo de Goiás colocou a contrapartida, o Ministério da Justiça liberou e compramos três helicópteros para a polícia.

Felipe Cardoso – A frota e o armamento inclusive foi reforçado nesta reta final do governo. Houve algum reflexo no município?
Não tem refletido nos números e índices de violência. Não podemos usar o problema social para desconhecer que existe o problema de segurança e que a polícia tem de agir. O governo federal tende a mudar a sua visão com relação ao problema. Vimos inclusive pelo próprio discurso do candidato que esta à frente nas pesquisas, que é Jair Bolsonaro (PSL). Todo mundo imagina que ele deve ganhar a eleição. Isso deve mudar a forma de conduzir esse problema. No Brasil fala-se em desencarceramento quando temos de falar do estabelecimento de uma política pública social e de encarceramento efetivo. Um cidadão pega 170 anos de pena e não pode cumprir mais do que 30, e dos 30 tem de calcular um sexto ou um terço para a progressão de regime. O que o cidadão cumpre de pena?

Felipe Cardoso – A região do Entorno, por vivenciar uma realidade de altos índices de violência e criminalidade, tende a aceitar mais a candidatura do Bolsonaro?
Com certeza há um reflexo também na nossa região. Pela primeira vez na história um candidato da direita fala sobre o problema cotidiano do cidadão. Essa é a grande verdade. Antes a direita discutia grandes temas, o problema econômico, as políticas econômicas. Isso não diz muito respeito ao cidadão. É claro que diz, mas a pessoa sai de casa com o celular e é roubado, sai com o dinheiro do ônibus e tomam esse dinheiro que seria usado para ir para a escola ou trabalho. Esse reflexo existe.

A população está muito cansada de assistir a um problema de violência tão grave e o Estado brasileiro sempre enxugando gelo. Não estou falando de ilhas de excelência, mas de um esforço de país. Se continuar sempre com esse discurso de que tem de botar mais polícia e de que a polícia tem de ser mais dura… Não funciona. É preciso apoiar o policial. No confronto entre o bandido e o policial deve levar vantagem o policial porque ele está representando a sociedade civil organizada na forma de agente da força pública.

É diferente da conduta desautorizada pela lei, isso é outra coisa. O País precisa enfrentar o problema, e não será fácil. O crime está envolvido em diversas atividade. O crime organizado é muito organizado. O que antes pensávamos ser uma realidade distante, do Rio de Janeiro ou de São Paulo, está esparrada. Tivemos conflitos em Manaus (AM) e no Nordeste dessas facções.

Augusto Diniz – Para ficar mais claro ao leitor, o que sr. considera que Bolsonaro encontro para que o discurso de campanha se tornasse mais próximo da população?
Acho até que Bolsonaro está dialogando pouco com a sociedade, mas está falando aquilo que o cidadão que vai trabalhar de Sol a Sol, luta para construir o seu patrimônio e custear a vida da sua família, está sentindo. Não dá mais para tolerar bandido fazer o que está fazendo no País. O que eu disse é que ele está mais próximo da população do que a direita dos últimos anos em seu discurso. O discurso da direita era um discurso elitista. Quem falava dos problemas do cidadão era a esquerda, que falava de justiça social, no Bolsa Família, em tirar brasileiros da miséria.

É quando aparece um cara tido como de direita, que é o Bolsonaro, e começa a defender que não se erotize as crianças – não estou entrando no mérito dessas questões -, defender a família, defender uma segurança pública mais efetiva. Bolsonaro fala aquilo que o cidadão brasileiro está sentindo, quer ouvir e precisa de solução. É aí que Bolsonaro levou essa vantagem. Há, claro, o problema de que o adversário representa todo o problema da Lava Jato, de corrupção, e essa eleição varreu a velha política.

Euler de França Belém – Como advogado, queria que o sr. dissesse quanto tempo de fato o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficará preso na primeira condenação, pelo caso do tríplex do Guarujá (SP)? Se Lula for condenado no processo do sítio em Atibaia (SP) a mais 12 anos de prisão, quantos anos realmente ficará na cadeia?
Como não conheço o processo em detalhes, posso dizer, em regra geral, sem considerar as questões qualificadores e os agravantes, com um sexto da pena cumprida vai para um regime mais benéfico, que é o semiaberto. Com o cumprimento de mais um terço, o preso vai para o livramento condicional. Há crimes em que não é admitida essa progressão de um sexto, que requer mais tempo.

Felipe Cardoso – Caso o resultado das eleições apresentem o contrario do mostrado em intenção de votos pelas pesquisas e Fernando Haddad (PT) venha a ser eleito presidente, é possível que seja concedido um indulto ao ex-presidente Lula?
Todo ano os presidentes da República se valem da sua prerrogativa, que está na legislação brasileira, de conceder o indulto na época do Natal. Basta estabelecer um prazo um pouco maior ou menor de cumprimento de pena e conceder o indulto. É difícil discutir caso a caso em uma situação tão hipotética. Haddad enfrentaria gravíssimos problemas nessa questão se efetivamente fizesse isso.

Felipe Cardoso – Haddad diz que não tomara essa medida, mas o sr. acredita que eleito presidente ele cederia às pressões da cúpula petista?
É difícil. Até porque Haddad foi varrido da prefeitura de São Paulo no primeiro turno em 2016. Como figura política, Haddad estava praticamente morto. Foi guindado ao segundo turno em cima do nome do Lula.

Euler de França Belém – Voltando a falar de Goiás, quais serão os principais desafios de Caiado nos seis primeiros meses de governo em 2019?
O primeiro desafio naturalmente é fazer um diagnóstico dos problemas do Estado. Digo isso porque sou prefeito de Formosa e com mais de um ano ainda estava descobrindo dívida deixadas por administrações anteriores. Claro que no Estado há uma condição completamente diferente de clareza maior quanto a isso. É preciso fazer o diagnóstico dos problemas do Estado, dos problemas de fluxo de caixa. O Estado tem um seriíssimo problema de fluxo de caixa. Veja que a folha de pagamento está sendo parcelada e atrasando. O que era uma das grandes bandeiras do chamado Tempo Novo, que era pagar no mês trabalhado, essa bandeira foi perdida.

Euler de França Belém – Mas temos de convir que durante muitos anos esse pagamento foi feito no mês trabalhado.
Sim. Inclusive o ex-governador Alcides pagou no mês trabalhado. O ex-governador Marconi Perillo também até 2015, quando houve o parcelamento, quando uma parte recebia até dia 30 e outra até o dia 10. Agora já se estendeu para setores da administração pública, mesmo que não órgãos do Executivo, que ficou para dia 18. O fato é que vamos ter uma situação preocupante. Não sabemos se o governo vai deixar a folha de dezembro em dia, paga em dezembro. É preciso dar transparência a essa situação. E tomar medidas para que se resolva esse problema. É claro que um governo quando entra sempre tem uma melhor situação do que o que está saindo.

Mas se faz necessário que sejam tomadas algumas medidas, após o diagnóstico, porque não acredito que em transição se consiga fazer o diagnóstico. Transição nunca é profunda 100%. Não dá tempo, não se consegue acesso a tudo e fazer todas as análises. É preciso comunicar com a sociedade o quadro que for encontrado e as medidas que serão tomadas para estancar os problemas para que o servidor receba no mês trabalhado, par que o Estado possa fazer frente às suas demandas. Os desafios dos seis primeiros meses são fazer o diagnóstico, ter transparência e anunciar quais serão as medidas, que não posso dizê-las aqui, não por outra razão porque não sei quais serão.

Euler de França Belém – Na transição do governo Ary Valadão (PDS) para Iris Rezende (MDB) em 1983, houve uma perseguição política muito grande com muitas demissões. Foi um momento de crise e caça às bruxas muito grande no Estado. Caiado pretende fazer a mesma coisa?
Não há esse sentimento de perseguir e prejudicar pessoas. Não queremos destruir ninguém. Ronaldo Caiado vem para o governo para realizar o seu trabalho. É óbvio que os postos de confiança serão exercidos por pessoas que sejam afinadas com o modelo e projeto político-administrativo de Ronaldo Caiado. Isso não significa perseguição. Você não pode trabalhar com adversários para que não seja intestinamente corroído.

Não há esse espírito de perseguir e destruir. A primeira coisa que um governante quer é ter paz para tomar as medidas que precisam ser tomadas. A primeira coisa que um governante quer é que todos possam ajudar na pacificação do problema político e dar ao Estado tranquilidade. Goiás é um Estado que vive muitos problemas. Se você for governar olhando no retrovisor, não dá certo.

Euler de França Belém – Por exemplo, Caiado vai manter a Bolsa Universitária?
Aquilo que é conquista e foi bom é possível fiscalizar, evitar fraude, evitar problema, mas deve avançar. Não há porque acabar com um programa porque foi criado pelo meu adversário. Esse não pode ser o elemento. Esse é um dos problemas do Brasil, da minha cidade e do Estado de Goiás. Tudo que foi bom, mas foi criado pelo outro, vou destruir para criar o meu. Não. Um exemplo é quando Lula tentou criar o Fome Zero, que seria algo diferente, mas só deu certo quando pegou o Bolsa Família, que era uma criação do Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e otimizou o programa. Queira ou não, isso ajudou muitos brasileiros a sair da condição de miséria e de fome.

Euler de França Belém – Caiado pretende tirar as Organizações Sociais (OSs) das gestões dos hospitais estaduais?
Não conversei com Caiado sobre as Organizações Sociais. Mas vejo que no caso das OSs, se o pensamento for de tirar ou não, isso não deve acontecer de imediato porque toda a estrutura de saúde do Estado foi desmobilizada. Toda a estrutura foi desmobilizada. Não tivemos concurso público na área de saúde no Estado nem contratações. Não dá, da noite para o dia, para chegar no Hugo [Hospital de Urgências de Goiânia] e dizer “OS, sai”. E vai pôr quem? É preciso tempo. Não estou dizendo que o pensamento de Caiado seja de acabar ou manter as OSs. Isso quem pode dizer é o governador eleito.

Euler de França Belém – O sr. é a favor ou contra implantar o modelo de OSs na educação?
Sou contra. O modelo de OS na educação mantém o pagamento do funcionário pelo Estado. O que a OS vai fazer na educação? O que a OS vai gerir? O que vai administrar? O que eu discuto no modelo de OS na saúde é o fato de que, por exemplo, o Hugo, que atendia um conjunto de pessoas muito maior do que atende hoje. OS acaba selecionando paciente. Isso gerou uma lotação muito maior nos postos de saúde, nos Cais, em Goiânia. O Protocolo de Manchester, que definem os níveis de atendimento de um hospital. O azul pode ser resolvido no posto de saúde, na unidade básica de saúde (UBS), mas as pessoas querem ser atendidas no hospital. Isso gera uma superlotação, agrava o problema da espera. O grande problema das OS é selecionar paciente.

Euler de França Belém – As escolas militares, que todo mundo elogia, não são uma espécie de OS? Por que os índices são tão bons?
A escola militar não é uma OS. Você deve se lembrar, Euler, o dia que eu, por solicitação da então secretária estadual de Educação Milca Severino, teve um problema em uma escola na qual um aluno entrou armado, colocaríamos o policiamento presente na escola. Quase acabaram comigo e com Milca dizendo que queríamos voltar ao tempo da ditadura ao colocar policiais nas escolas. A diferença que existe entre um colégio militar e outra unidade da rede estadual é a autoridade que é dada ao professor, ao diretor. Essa autoridade que antigamente o professor tinha. Hoje um professor é agredido por um aluno e se reagir vai parar na cadeia. Um rapaz de 17 anos pega um professor ou uma professora e dá-lhe uma surra. Se reagir o professor vai parar na cadeia.

O grande problema é uma crise de autoridade que temos no ensino público. Ficou naquela história de criticar a polícia dentro da escola. Mas traria um resultado de inibir a ocorrência de delitos e crimes. Samos que há menores que são utilizados no crime. Em um colégio militar, se você não corresponder à disciplina você é obrigado a sair do colégio. E nas outras escolas públicas você pode expulsar um aluno? Hoje não se pode expulsar um aluno se ele tiver problema de indisciplina. Essa democratização.

O ser humano tem de trabalhar com essa realidade da autoridade e disciplina. Não vou dizer hierarquia militar, é respeito. Nós fomos criados respeitando os mais velhos. Me lembro de meu pai dizer que se eu desrespeitasse professor em casa iria me acertar. Hoje não se vê isso. Muitas vezes o pai vai à escola questionar o professor por ter adotado uma medida mais dura alegando que o aluno foi humilhado. O colégio militar é outra realidade. Você coloca a polícia e os meninos respeitam. Os meninos gostam do corte militar, a coisa da farda, da ordem unida, da premiação.

“São soluções miraculosas que uma hora vão cobrar o seu preço. Lembra do Simve?”

Prefeito de Formosa Ernesto Roller (MDB) em entrevista concedida aos jornalistas Euler de França Belém, Augusto Diniz e Felipe Cardoso | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém – Qual é o foco do Caiado para a área de segurança pública?
Investimento. Corrigir a criação do policial militar ganhar R$ 1,5 mil de salário inicial. Isso aviltou e desestimula a Polícia Militar.

Euler de França Belém – O Estado tem condição de pagar mais?
O Estado precisa ser reorganizado financeiramente. Não posso dizer que tenha condição de pagar mais. Só posso dizer que esse modelo foi uma alternativa criada para aumentar efetivo sem o custo que tinha na época. São soluções miraculosas que uma hora vão cobrar o seu preço. Lembra do Simve [Serviço de Interesse Militar Voluntário Estadual]? Simve foi o maior absurdo que já aconteceu. Foi objeto de manifestações jocosas no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o nosso Estado. Criar um policial temporário, o maior absurdo do mundo, que foi feito para dar uma resposta à necessidade de aumento de efetivo.

A gestão da segurança pública precisa ser objeto de especial atenção porque já vi e ouvi que o nosso problema não é de falta de efetivo, mas de gestão de pessoal. Além disso, tem de haver um forte investimento e constante na segurança pública. É necessário que o País mude sua visão sobre a segurança pública. Não adianta querer mudar em Goiás se a realidade nacional não mudar.

Augusto Diniz – Durante a campanha, Caiado encarnou para o eleitor a figura da mudança. Tanto é que ganhou com quase 60% dos votos válidos. Só houve um momento em que essa aparente calma foi abalada, durante o debate da CBN e jornal O Popular, em resposta a um questionamento de incoerência feito pelo governador José Eliton (PSDB), Caiado respondeu que até pouco tempo o tucano beijava a mão dele. Os adversários começaram a dizer que o governo Caiado será o governo do beija-mão, como uma espécie de coronel que governaria somente para seus aliados. Até que ponto a calma do Caiado vai se manter durante os próximos quatro anos? Caiado é de fato o espírito da mudança que o eleitor viu no democrata?
Caiado é hoje um homem que acumulou uma larga experiência política de diversos mandatos como deputado federal, quatro anos como senador da República, é um homem amadurecido, experimentado, que não tem essa visão em si de coronel. Com relação a esse episódio do beija-mão, as figuras mais detestáveis na vida são as ingratas e traidoras. Quem era José Eliton há nove anos? Foi vice-governador quando Ronaldo Caiado, no Democratas, o indicou para vice na chapa do PSDB. Quem era ele?

Às vezes também é humano você ver uma injustiça ser cometida e dar uma resposta mais forte. Não há isso de beija-mão. Tive a oportunidade de participar da campanha de Ronaldo Caiado, da elaboração política da pré-campanha e da campanha de Caiado com diálogo, como serenidade, com sobriedade, ouvindo opiniões diferentes, decidindo, dividindo e compartilhando. Nunca tinha visto um candidato a governador consultar prefeitos sobre decisões a serem tomadas na composição da sua chapa e nos rumos a tomar na sua campanha. Isso eu vi agora.

A visão que tenho do Ronaldo Caiado é completamente diferente dessa que foi passada pelos adversários. Procuraram a todos tempo desestabilizar Ronaldo Caiado para que o senador desse uma resposta bruta. Ronaldo está muito tranquilo com relação a isso. Caiado já teve embates no Senado Federal, mas você nunca viu, por exemplo, o governador eleito fazer isso na estrutura de poder abaixo dele. Pelo contrário, trata todos bem, com muito respeito. A briga de Caiado é com os grandes. Caiado vai adotar uma postura de governo completamente diferente daquilo que os adversários pregaram. Na campanha já demonstrou isso.

Augusto Diniz – Passadas duas semanas da eleição estadual, como o sr. avalia a candidatura do deputado federal Daniel Vilela, presidente estadual do seu partido?
Um equívoco. Nós dizíamos isso desde lá atrás, tanto que não a apoiamos. Saiu claramente isso das urnas. MDB, um partido que já teve a maior bancada de oposição. Já teve a maior bancada de situação quando estava no governo, mas também teve a maior bancada de oposição. Um partido que não elegeu deputado federal, elegeu três deputados estaduais. E vale dizer que a eleição desses três deputados estaduais não em função do partido, mas do trabalho próprio de cada um, de Paulo Cezar Martins, Bruno Peixoto e Humberto Aidar, que veio para o MDB neste ano. O resultado das urnas responde à sua pergunta, que foi um lamentável equívoco que custa caro ao partido.

Euler de França Belém – Foi publicado que Daniel Vilela teria dito que estaria disposto a deixar para trás as decisões dos prefeitos dissidentes em não apoiá-lo na eleição: o sr., Adib Elias (Catalão), Renato de Castro (Goianésia) e Paulo do Vale (MDB). Os sr. ficarão no partido e pretendem compor com Daniel?
Sou um homem que não faz política personalizando os problemas. A minha divergência com Daniel Vilela foi no campo político. Isso não retira de mim a anotação das qualidades de Daniel Vilela e não contamina a boa relação que já tivemos. É claro que no período eleitoral estivemos afastados. O que é necessário para o MDB é o partido zerar o processo político havido e todas as forças político-partidárias sentarem, dialogarem e construírem consenso dentro do partido para que o MDB volte a crescer e se prepare bem para as eleições de prefeitos e vereadores no Estado. MDB é um partido grande que não pode de eleição a eleição vir diminuindo. Por que daqui a pouco vai acabar? Não.

Precisamos fazer um trabalho conjunto. Da minha parte, sou absolutamente desprendido com relação a isso. Tive as minhas divergências com Daniel Vilela no processo eleitoral de 2018, mas já estive junto dele e fui um dos que o apoiei para presidente estadual do MDB. Não tenho com Daniel nenhum problema, tenho capacidade de diálogo. O partido pode zerar todo esse processo, sentar todo mundo à mesa e tentar construir um norte, um rumo para o MDB nas próximas eleições. Vimos uma manifestação na semana passada do prefeito Iris Rezende de que o MDB deve apoiar o governo de Ronaldo Caiado. Isso é muito positivo para o Estado, inclusive para o próprio MDB.

Euler de França Belém – O sr. apoia que Daniel Vilela permaneça no comando do MDB ou vai apoiar Adib Elias?
Todos sabem da minha proximidade com o prefeito Adib Elias. Se precisar colocar um nome e e outro, vou apoiar Adib Elias. Mas não acredito que devamos chegar a esse ponto. Temos de sentar todas as forças políticas e conversar. Pode ser que seja proposta outra força política diferente desses dois nomes. É o diálogo que resolve os problemas da política. Isso que eu penso. É preciso ver as divergências e estabelecer os pontos comuns serem maiores do que as divergências.

Euler de França Belém – O sr. disse que o prefeito Iris Rezende é um dos grandes nomes do MDB. No entanto, a mulher, Iris Araújo (MDB), foi candidata em 2014 e não foi eleita com 66.234 votos, e no dia 7 recebeu apenas 39.976 votos. O que explica esse descenso político?
É difícil avaliar porque eu não conheço a campanha da Iris Araújo. A verdade é que não sei que nível de apoios ele teve, que envolvimento houve da estrutura do MDB com a candidatura de Iris Araújo em Goiânia. Claro que a base principal de apoio dela é Goiânia. O que eu esperava era que sem dúvida seria eleita porque me disseram que teria o apoio da estrutura partidária e do prefeito de Aparecida Gustavo Mendanha (MDB) em uma composição com Daniel Vilela. Quando se abrem as urnas fica a impressão de que o prefeito de Aparecida não apoiou a candidatura de Iris Araújo.

Euler de França Belém – Interessante é que o Dr. Zacharias Calil (DEM) foi eleito em Goiânia. Se a gestão Iris Rezende estivesse bem, Iris Araújo seria eleita.
Não se pode negar o reflexo do eventual desgaste do administrador na campanha dos seus candidatos. Não se pode negar isso. Não neguei na minha situação em Formosa, vou negar aqui? O que se ouve é que Iris Rezende vive um momento de algum desgaste na capital.

Euler de França Belém – Por que o presidente da Assembleia tem de ser do DEM? A discussão hoje é que tem de ser Álvaro Guimarães ou Dr. Antônio. Por que não pode ser um deputado do MDB?
As forças políticas que trabalham junto com o governo que ocupará o Palácio das Esmeraldas devem colocar alguém que tenha afinidade com o projeto político-administrativo para que haja um caminhar mais fácil da solução dos problemas do Estado. Não pode ser uma decisão partidarizada, mas é preciso haver um certo compromisso institucional entre os dois. O que importa é a governabilidade. E a presidência da Casa Legislativa é um dos instrumentos de governabilidade. Talvez um dos mais fortes. É o que pode pautar os projetos. Não é agora que Caiado chegará ao governo que a lógica será mudada.

Euler de França Belém – O sr. acredita que a base de Caiado na Assembleia pode chegar mesmo a 30 deputados como tem sido dito?
Augusto Diniz – Só com o resultados das urnas Caiado tem ao seu lado 18 deputados entre os eleitos pela coligação.
Foram eleitos 18 nas coligações, mas há espaço para o crescimento. Há deputados dispostos a ajudar na governabilidade. Temos aqueles que são figuras proscritas que não serão aceitas. Tião Caroço e Gustavo Sebba não serão aceitos por razões políticas. Pelo menos por nós não serão aceitos. Todos os outros que tiverem disposição republicana de contribuir com a governabilidade serão aceitos.

Euler de França Belém – Até os petistas?
Se assim desejarem não vejo por que não conversar com eles.

Augusto Diniz – O sr. imagina Adriana Accorsi e Antônio Gomide apoiando Ronaldo Caiado?
Não imagino e não acredito que haverá movimentação de um lado para o outro para o diálogo.

Euler de França Belém – Há um temor no Estado de que a relação do Caiado com os funcionários públicos, especialmente os representantes sindicais dos servidores, seja muito tensa. Como o sr. avalia essa situação?
Não vejo dessa forma. Governar é a arte de construir consenso no conflito de interesses, é conciliar o binômio necessidade com possibilidade. Ronaldo Caiado é um homem maduro. Não tenho informação nenhuma de que tenha dificuldade de relacionamento com este ou aquele ator político. Não será diferente com os sindicatos.

Felipe Cardoso – O sr. disse que as figuras mais detestáveis são as ingratas e traidoras. Apesar das críticas que o sr. fez ao governador José Eliton, a saída do deputado estadual Lincoln Tejota (PROS) da base aliada para se tornar vice-governador eleito na chapa de Caiado é também tratada como uma traição nos bastidores. A dia do Lincoln para a coligação caiadista é um sinal de traição ao governo?
Lincoln Tejota foi eleito em um projeto político e se manteve fiel a esse modelo político até o último momento. É diferente daquele cidadão que vai para a disputa do voto e submete o seu nome. Lincoln foi convidado por um conjunto de pessoas para assumir a candidatura a vice-governador por suas qualidades pessoais, por sua posição partidária e política, um jovem empreendedor. Ele se dispôs a ir para a disputa. Lincoln não foi indicado por ninguém para compor aquela chapa. Lincoln não caiu de paraquedas na política. Lincoln tem uma história por si, por sua família, o pai foi deputado, a mãe foi deputada, é deputado.

Lincoln foi convidado e abraçou o projeto político-administrativo que representa a chapa de Ronaldo Caiado composta por ele. O que são os sentimentos da base do governo eu não posso dizer porque lá não estava. O que posso afirmar é que não conheço voto contrário do Lincoln a projetos do governo neste mandato. Eu inclusive fiz parte da Assembleia nos dois primeiros anos. Ele se manteve fiel ao compromisso estabelecido inicialmente com o eleitor nas urnas. Que esse compromisso é estabelecido com o eleitor nas urnas quando foi eleito na base do governo que aí está. Agora Lincoln foi para outro voo, de candidatura a vice-governador com a perspectiva de vitória ou de derrota. Mas submetendo-se à vontade popular. É uma situação bem diferente. Os sentimentos que correm na base não posso dizer porque não faço parte da base do atual governo.

Augusto Diniz – Durante o processo de privatização da Celg, Caiado se colocou contrário à venda para a Enel por parte do governo federal. Na campanha, apenas o candidato Weslei Garcia (PSOL) defendeu a reestatização da companhia elétrica. A partir da posse, no dia 1º de janeiro, qual será a postura de Caiado em relação à Enel?
Reestatização é algo muito grave de se pensar porque tem de se pagar por isso. E o Estado tem condição de pagar? Em diversos Estados em que a empresa de energia foi privatizada houve a exclusão da dívida dos municípios. Em Goiás não. Todos os municípios continuam devendo à Enel, sendo que a Enel nunca prestou serviço antes do ano passado a município algum. A empresa comprou parte da Celg, da companhia energética de Goiás. Como imaginar a Enel, que está escochando, executando municípios na Justiça e tem incentivo fiscal do governo do Estado? Ora, o Estado somos todos nós! Goiás é composto de 246 municípios.

Não falo em reestatização, mas algumas coisas têm de ser revistas, como o tratamento que a Enel tem dado aos municípios. A Enel não botou esse dinheiro, não gastou um real para fazer o crédito que tem com os municípios. Além disso, a Enel ganha incentivos fiscais que são tirados dos municípios. Os municípios só entram com a cabeça para tomar paulada? É preciso ser revisto. Defendo que isso seja revisto. A Associação Goiana de Municípios (AGM) e as organizações que representam os municípios precisam entrar nesse debate e isso precisa ser discutido. Não acredito que reestatização seja o caminho, até porque tem de pagar e o Estado de Goiás não tem dinheiro para pagar.

O acionista majoritário que vendeu as ações foi a Eletrobras. O Estado conseguiu empréstimos e articulou para que houvesse a privatização. O Estado defendeu a privatização. Quando estava na Assembleia votei contra. O Estado de Goiás assumiu uma dívida de R$ 3,4 bilhões da Celg, o que foi autorizado pela Assembleia, e recebeu pouco mais de R$ 1 bilhão pela sua parte. Isso precisa ser discutido. Alguém precisa pagar por isso. Alguém precisa ser punido. Isso foi um absurdo no âmbito do Estado de Goiás. Na parte da dívida que o Estado assumiu a Enel não tem nada a ver com isso. O que a Enel tem de responsabilidade é por pisar nos municípios goianos se valendo de incentivos que são dados às custas dos municípios goianos.

Felipe Cardoso – O que gestão Caiado poderá fazer para que esse déficit seja suprido?
É preciso excluir a dívida dos municípios. Porque essa dívida não é da Enel. A Enel nada fez para constituir o crédito em cima dos municípios. Isso é enriquecimento ilícito. É um absurdo! Defendo que o Estado retire os incentivos fiscais se é para tratar os municípios desse jeito. Só quer receber e não quer pagar? Aí fica muito fácil. Até o mais bobo quer.

Augusto Diniz – Quem seria o nome indicado por Caiado para trata com a Enel a situação que o sr. descreveu?
Não sei. Estou dando a minha opinião e vou trabalhar por isso. Há dificuldade de resolver os problemas cotidianos com a Enel. Os municípios são tratados no pé, cobrados. Quando o município precisa de uma atenção, a resposta da Enel é que nada pode fazer porque há dívida do município com a empresa. Já tivemos esse tipo de resposta. Isso eu vou defender como prefeito da cidade de Formosa nos organismos que são próprios para isso, até mesmo no governo. O posicionamento do senador Ronaldo Caiado, próximo governador, eu não sei qual será. Mas imagino que terá toda disposição em tentar equacionar esse problema. Como, com quem e por quem não conversei com Caiado.

Augusto Diniz – Como estão as discussões para a formação do secretariado? Já há algum indício de que o perfil adotado será mais técnico?
Caiado ainda não está dedicado e não se dedicou a isso. São etapas que precisam ser cumpridas. Caiado está agora dedicado à eleição de Jair Bolsonaro. Sabemos que se o PT ganhar é uma antítese do Caiado, que certamente encontrará muitas dificuldades em Brasília.

Augusto Diniz – Se Haddad for eleito presidente a dificuldade para Caiado viabilizar recursos e obras federais será maior?
Não tenho a menor dúvida de que haverá dificuldade para o Estado de Goiás se Haddad ganhar. Caiado está dedicado à campanha de Bolsonaro e preocupado com a equipe de transição para depois estabelecer a formatação do seu secretariado.

Euler de França Belém – O sr. declarou apoio ao Bolsonaro para presidente?
Vou votar no Bolsonaro. Me perguntaram no Twitter. Como não sou homem de ficar em cima do muro, respondi que votarei em Jair Bolsonaro.

Augusto Diniz – O futuro político do sr. é ser candidato a reeleição em Formosa?
Tudo vai depender do que Deus tem de plano para mim e da vontade da população formosense. Estou muito focado em trabalhar e aproveitar os dois anos que terei com um governo aliado. Os primeiros dois anos são de muita perseguição do governo do Estado. A partir de 2019 terei um governo amigo, que será um agente facilitador na solução dos problemas da nossa cidade. Com relação a reeleição, a população vai decidir e, no momento certo, vamos conversar com as forças políticas da cidade e decidir qual será o caminho político por mim adotado.

Euler de França Belém – O sr. aceitaria ser secretário se fosse convidado?
Não. Neste momento tenho um compromisso com a cidade de Formosa. Estou passando por dois anos por um governo que me é hostil, que me criou dificuldades. Tenho, além de um compromisso com a minha cidade de exercer o mandato de prefeito, a expectativa de viver dois anos com um governo que seja um parceiro e facilitados das questões da cidade.

Euler de França Belém – Adib Elias será secretário ou permanecerá na Prefeitura de Catalão?
O que tenho de informação do Adib é que ele ficaria na prefeitura. Não conversei com Adib detidamente sobre o assunto. Em todo o processo eleitoral, nós nunca tratamos de cargos no governo. Nenhum de nós, quando foi apoiar Ronaldo Caiado, pediu cargos. Queremos um modelo administrativo diferente. Queremos, certamente, um governo que seja aliado porque sofremos muitas hostilidades. Isso será no momento certo e ao tempo do governador eleito para que chame as forças políticas que o apoiaram para formar a composição do seu governo.

Euler de França Belém – A Sudeco [Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste] acabou ou seria como se não existisse mais?
Sudeco existe. É claro que perdeu muito da sua força. Mas, por exemplo, estou realizando obras em Formosa liberadas pela Sudeco. A cobertura da feira na cidade está sendo viabilizada pela Sudeco. O que a Sudeco precisa é ser fortalecida nos próximos governos.

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