“Estou pensando em novos objetivos para Anápolis, porque já estamos atingindo muito do que havíamos projetado”

Prefeito da segunda cidade mais importante para a economia goiana, petebista faz balanço dos primeiros meses de gestão e já planeja novos avanços, apesar da crise no País

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Desde janeiro, o professor e empresário Roberto Naves (PTB) ocupa um posto-chave na economia goiana: prefeito de Anápolis, ele é o condutor da administração da cidade mais industrializada do Estado, com o 2º maior PIB e a 3ª maior população. Seis meses depois, fazendo uma primeira avaliação do governo em meio a um cenário incerto do País, ele diz que o balanço é totalmente positivo: obras que estavam paralisadas voltaram a ser tocadas e o governo estadual destinou mais de R$ 200 milhões ao município pelo programa Goiás na Frente.

Um de seus primeiros atos na Prefeitura, revela, foi tirar o computador do gabinete. Motivo: não tinha integração dos sistemas e ele não podia monitorar questões como a folha de pagamento e a arrecadação. Aos poucos, ele vai transformando a administração analógica que recebeu em uma gestão moderna e integrada. A intenção é reduzir a burocracia ao máximo, para tornar o município mais atrativo às empresas e servir de forma mais eficiente ao cidadão anapolino. Nesse sentido, o procedimento de uso do solo, por exemplo, já tem todo seu trâmite de forma digital.

Na questão política, Roberto Naves põe seu partido à frente e destaca o papel de primazia que o PTB deve ter, visando as eleições do próximo ano, entre as siglas que compõem a base aliada ao PSDB. “Por nossa densidade eleitoral, teremos de ter naturalmente uma vaga na chapa majoritária. Isso é até matemático dentro do pragmatismo da política”, salienta. Nesta entrevista ao Jornal Opção, ele salienta o bom convívio que tem tido com a Câmara de Anápolis, até mesmo com opositores — entre eles está o ex-prefeito e hoje vereador Antônio Gomide (PT) — e diz que fará sempre o que for possível para o crescimento da cidade. “Toda vez que o governador Marconi Perillo (PSDB) ligar para mim para perguntar o que eu acho da nomeação de um anapolino, independentemente de ser “a”, “b”, “c” ou “z”, vou falar de bate-pronto que é muito bom”, resume.

Cezar Santos — Dias atrás foi anunciado que a Ferrovia Norte-Sul não deve entrar em operação, pelo menos por agora. Sua administração já fez uma estimativa do prejuízo que isso dará ao município?

Na verdade, não haverá prejuízo, só vamos deixar de arrecadar mais. A Norte-Sul foi muito pouco utilizada até agora e o que é necessário agora é passarmos pela regulamentação de seu uso, de sua parametrização, de qual será seu custo. Re­cen­temente foi feito o leilão da operação do porto seco de Gurupi. A ideia é de que a ferrovia saia de A­ná­polis, passe por Gurupi e vá até o porto de Itaqui [no Maranhão]. To­dos os estudos do governo federal mostram que nas próximas décadas, a zona do agronegócio vai se deslocar para a região conhecida como Matopiba, que é um nome composto com as siglas dos Es­ta­dos que a compõem, Maranhão, To­cantins, Piauí e Bahia. O que falta, então, é apenas o governo re­gu­lamentar essa obra. Não podemos deixar algo de tanta importância paralisada por questões burocráticas.

Cezar Santos — Já há notícias de empresas que, por conta da incerteza em relação à Ferrovia Norte-Sul, estão descontinuando projetos de investimentos ou mesmo até falando em sair do município. Isso está mesmo ocorrendo?

Em Anápolis não tivemos uma corrida por ocupação de espaço em virtude da operação da Norte-Sul. Nenhuma empresa chegou por conta da ferrovia em si. Aliás, a última grande empresa chegou a Anápolis em 2009. Daquele ano para cá, o poder público municipal não teve uma atuação mais eficaz buscando ampliar o Daia ou criar o distrito agroindustrial do município. Isso fez com que a cidade parasse de receber empresas. Para ter noção, nossa arrecadação ainda está em torno de R$ 70 milhões mensais. Então, digo que Anápolis deixou de ganhar, embora não esteja necessariamente perdendo.

No que diz respeito às empresas — o que você aborda muito bem —, se o País não enfrentar de vez a desburocratização, passando a ter menos Estado e mais competição, vai continuar acontecendo o que tem acontecido, com empresas que realmente tem capital para poder investir se desestimulando. Nessa linha de combater a burocracia, lançamos o programa Inovação, que visa a gestão, o fluxo de processos e o atendimento ao público, algo que buscamos incessantemente nesses seis primeiros meses de Prefeitura.

Nesta semana, já estão funcionando em Anápolis o uso do solo online e o alvará online. São os primeiros processos 100% online de ponta a ponta. Não havia isso lá e são apenas os primeiros de muitos. Isso já conseguimos tirar do papel, mas a ideia é fazer todo o fluxo de processos online, como ocorre já em Brasília. Com a desburocratização e com mais agilidade, as empresas passam a ter mais segurança para fazer seus investimentos. E é isso que nós queremos, oferecer tudo o possível para as empresas. Já temos um município com ótima localização; vamos ter um aeroporto de cargas a ser inaugurado até o fim deste ano ou, no mais tarde, no começo do ano que vem; teremos a Ferrovia Norte-Sul em breve, como esperamos. Então, se conseguirmos ter mais áreas por meio do Daia [Distrito Agroindustrial de Anápolis], do governador Marconi Perillo, que destinou 30% da Plataforma Multimodal para Anápolis, e se ainda tivermos uma Prefeitura sólida e desburocratizada, chegaremos ao objetivo de juntar todos os requisitos para voltar a crescer.

Augusto Diniz — Nesses seis meses e meio de gestão, quais foram os principais entraves que foram quebrados?

Quebramos muitos entraves, mas ainda há muito a ser feito. A Previdência é um dos maiores desafios nesse sentido, seja para Anápolis, seja para toda e qualquer cidade ou qualquer gestor. Temos um déficit previdenciário na ordem de mais de R$ 4 milhões por mês. Temos de tirar isso das contas da Prefeitura e fazer o repasse para tapar buracos na Previdência. É, portanto, um desafio muito grande.

Outro desafio considerável é a folha de pagamento. À medida em que a cidade cresce e há a contratação de novos servidores, garantindo a eles seus direitos, a folha naturalmente au­menta. Com isso, o gestor precisa se preocupar em ampliar a ar­recadação municipal. Entre­tan­to, nossa arrecadação não au­mentou. Em janeiro, gastamos 69% da arrecadação com a folha de pagamento. Fizemos o possível no que diz respeito a economia, a gestão de folha, para colocarmos a Pre­fei­tura dentro do azul — ou seja, gastando de acordo com aquilo que se arrecada. Mesmo assim, com todo o controle, fechamos o pri­meiro quadrimestre com 55%, fo­ra do limite prudencial. Por isso digo que os dois grandes desafios, para todo gestor, continuam sendo a Previdência e a folha de pagamento.

Augusto Diniz — Anápolis possui uma dívida milionária na área de limpeza. Como está esse ponto?

É uma dívida de R$ 27 milhões. Buscamos um acordo com a empresa, que continua prestando serviços na cidade. Tudo que ela fez em 2017 recebeu literalmente em dia — assim como os servidores também recebem, no último dia útil de cada mês. Essa questão da dívida passada está judicializada e aguardamos um parecer para assinar o acordo e começar a pagar o que está para trás. Só de dívidas do governo passado já efetuamos pagamentos da ordem de R$ 25 milhões. Em relação a dívidas de médio e de longo prazos — somando-se precatórios e tudo o mais a ser pago nos próximos quatro anos — temos algo na casa de R$ 270 milhões. Mas estamos com tudo planejado para saldar devidamente.

Augusto Diniz — Essa dívida está inviabilizando, de alguma forma, a realização de algum serviço?

Não, não inviabilizou ne­nhum serviço. O que temos fei­to é nos debruçado sobre as planilhas e toda a parte de gestão, o que fizemos principalmente nos primeiros 60 dias. Mas, de forma alguma inviabilizou algo e todos os projetos que eram efetivamente importantes para a cidade de Anápolis continuaram funcionando. Agora, estamos ampliando e me­lhorando os serviços em diversas áreas. O que nós fizemos, então? Ora, o País está em crise e, tendo em vista essa condição, chamamos, por exemplo, todos os proprietários de imóveis alugados para a Prefeitura para rever os valores. Fizemos o mesmo com os veículos locados para o município. A partir do momento em que passamos a gastar apenas o que era necessário e fizemos o controle de gastos com frota, aluguel etc., o que se compra e quando se compra e sempre buscando pagar à vista, só isso já foi suficiente para que conseguíssemos colocar a Prefeitura dentro do azul.

Elder Dias —O Ministério Público (MP-GO) está contestando compras feitas pela Prefeitura de Anápolis que ocorreram sem licitação. Que resposta o sr. tem para dar a esse questionamento?

Quando se assume uma Prefeitura sem crédito, com dívidas, sem estoque e com processos licitatórios findados, só há uma forma de manter os serviços: com a compra direta daquilo que for emergencial. Ocorre que, em relação ao mesmo levantamento que foi feito no início da gestão, já vemos o reflexo de uma Comissão de Pregões e Licitações extremamente eficaz. Os menores deságios que estão havendo nos pregões eletrônicos são de 20%. Nenhum gestor quer comprar nada sem processo licitatório, mas nenhuma população aguenta esperar remédios por 120, 180 dias, que é o prazo da burocracia para uma licitação normal.

Tudo o que fizemos está previsto na Lei 8.666 [conhecida como Lei das Licitações, sancionada em 1993] e não há qualquer tipo de ilegalidade, porque, o que a lei diz é que, quando não há condição de fazer um processo licitatório em tempo para questões emergências — e o governo passado não deixou isso — a compra direta pode ser feita. Foi o que fizemos. Obvia­mente, responderemos da forma devida tudo aquilo em que formos questionados, não há qualquer problema. O maior problema que houve foi outro: pegamos empresas credoras de dívidas que não queriam mais fazer o fornecimento e tínhamos vários itens sem o devido processo licitatório, sem estoque e sem planejamento. Tivemos de começar do zero e, quando é dessa forma, temos de respeitar um prazo para comprar. Se são de 180 dias esse prazo, então a criança fica sem lanche na escola, o doente fica sem medicamento no posto de saúde e no hospital? Não dá.

Eu cuidava de um orçamento de mais de R$ 3 bilhões na Conab [Companhia Nacional de Abas­tecimento, da qual Roberto Naves foi titular da Diretoria Ad­mi­nis­trativa, Financeira e de Fiscalização de novembro de 2015 a abril de 2016], prestei contas ao TCU [Tribunal de Contas da União] e nunca tive um processo ou qualquer outro problema. Por quê? Porque conhecemos muito bem a legislação e a seguimos à risca.

Cezar Santos — A saúde sempre foi um problema muito agudo em Anápolis. Como está a situação dessa área da administração hoje?

Não só em Anápolis, a situação da saúde é realmente um problema grave em qualquer município.

Cezar Santos — Mas Anápolis tem o agravante de ser um polo para a região.

Realmente, isso é um fato. Em Anápolis, tratamos de pacientes de todas as cidades circunvizinhas. Mas, para ter ideia da situação em que nossa cidade estava em termos de gestão, me digam: como administrar a saúde de um município como Anápolis, que gasta milhões e milhões de reais com medicamentos, em uma simples planilha com caneta? Pois era assim. Nosso almoxarifado não tinha um sistema nem para controle de estoque.

Cezar Santos — Algo totalmente amadorístico…

Tudo era feito no papel, nem mesmo havia algo em uma planilha Excel. Isso para uma prefeitura do porte de Anápolis é um absurdo. O resultado disso é que, ao assumirmos a gestão, encontramos milhões de reais em medicamentos vencidos, quando fizemos o levantamento. Isso porque há um sistema gratuito do governo federal, que é o Hórus. O que fizemos a partir de então? Em primeiro lugar, encaminhamos projetos para reformar determinadas unidades de saúde, visando melhores condições de estrutura e atendimento; em segundo lugar, estamos implantando — como seria obrigação do município — o prontuário eletrônico como o sistema de gestão de controle de estoque. Só isso já muda bastante a questão da saúde no município. Junte-se isso ao fato de valorizarmos os profissionais — fizemos um plano em que praticamente dobramos o valor pago aos plantonistas — e não deixarmos faltar medicamentos e podemos então começar a pensar em passos adiante em relação a esse setor. O que não dava era para falar nisso quando tínhamos ainda tudo feito na caneta e no papel.

Elder Dias — Então agora está tudo informatizado?

Não, e sabe por quê? Porque o almoxarifado está informatizado, mas nunca tiveram a preocupação, em plena segunda metade da segunda década do século 21, de colocar internet em alguns dos postos de saúde. Ou seja, não tivemos como interligar todos os estoques, mesmo com todo o trabalho que fizemos.

Augusto Diniz — Não há atendimento, então, à exigência do SUS de o sistema ser todo informatizado?

Nunca fizeram nada disso, agora que estamos fazendo, em nossa gestão, desde o começo do ano. Já fizemos a implantação em algumas unidades e continuamos a proceder em outras. Como eu disse, não havia nem mesmo o sistema Hórus, que é o sistema de controle de medicamentos do próprio governo .

Ao pegar a Prefeitura, tínhamos, por exemplo, manifestações de pacientes e familiares de pacientes que precisavam de insulina. Havia portadores de diabetes vestidos com nariz de palhaço na Câmara de Anápolis. Hoje não temos mais esse problema, porque fizemos a padronização, montamos uma equipe de endocrinologistas e, caso o paciente tenha mesmo necessidade de receber o medicamento, há um calendário para que a pessoa vá buscá-lo e tudo fica certo. O problema é que pegamos uma cidade fantástica, industrializada, mas que, em termos tecnológicos, estava parada no tempo. A ponto de a primeira atitude que tive, em meu gabinete, ter sido a de retirar meu computador.

Elder Dias — Por quê?

O computador não tinha sistema. Hoje, com o programa Inovação, eu tenho, posso saber, por meio de meu próprio terminal, como está a folha de pagamento, como está a arrecadação. A verdade é que os gestores anteriores de Anápolis seguiam isso “pelo rumo”.

Cezar Santos — Mas sempre foi dito que gestões como a de Antônio Gomide (PT), principalmente, e em seguida a de João Gomes (hoje sem partido depois de perder a reeleição pelo PT) eram aprovadíssimas pela comunidade anapolina. Como se deu essa discrepância, então?

É como ser chefe de casa, pai de família, quando se tem dinheiro sobrando. Assim, é fácil. Era o que havia no País alguns anos atrás. Havia projetos sendo elaborados e lançados todo dia pelo governo federal, era simples conseguir recursos. Mas, quando a crise chegou, como foram os dois últimos anos de administração em Anápolis? É preciso fazer a avaliação do que havia em determinado momento. Claro que foram governos que avançaram em determinadas áreas.

Precisamos reconhecer que avançaram bastante na área da educação. Mas, em termos de gestão, por exemplo, não avançaram nada. Mas como dizer que foram gestões de sucesso se a última grande empresa de Anápolis chegou em 2009? Vamos além: qual era o histórico de prefeitos anapolinos antes daquele momento áureo da economia brasileira? O que era preciso fazer em Anápolis para ser considerado bom prefeito, era muito ou pouco?
Portanto, não estou aqui para falar se foram bons ou ruins. Até considero que foram importantes e até bons para a cidade, a fizeram evoluir e evoluir muito, em alguns aspectos. Só que fazer gestão com muito dinheiro é fácil. Difícil é fazer quando o momento é de crise, quando é preciso cortar e fazer receita bater com despesa.

“Vamos lançar agora o Daia do município”

Elder Dias — O sr. esteve aqui no Jornal Opção em entrevista no mês de janeiro. À época a manchete colocava em aspas sua fala sobre a ampliação do Daia e a atração de novas indústrias. Hoje o sr. manteria isso como principal objetivo?

Já estou pensando em outros objetivos, porque esses estamos atingindo. Primeiramente, trouxemos de novo para nossa cidade a titularidade da Secretaria do Estado de Desenvolvimento E­co­nômico, Indústria e Comércio (SED), que estava com Aparecida de Goiânia. Por nossa gestão po­lítica, ela retornou a Anápolis e isso foi um ganho muito grande. Outra questão: as empresas não se instalavam por falta de área, en­tão conseguimos transformar 30% da área da Plataforma Mul­ti­modal em distrito agroindustrial e a Codego [Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás] já colocará esses 20 alqueires à disposição das interessadas.

Nesta semana, vamos lançar o Distrito Agroindustrial e Co­mercial do município. O que era o grande desafio de seis meses atrás — captar e atrair empresas — está praticamente vencido com o que estamos apresentando como resultados. Entre os outros desafios que coloquei naquela entrevista estão as obras paradas. No que diz respeito às obras do Estado, todas foram retomadas. O Centro de Internação do Menor Infrator está concluído e vai ser entregue agora; o aeroporto de cargas está com a licitação de sua estrutura para que possa começar a operar, mas a pista já está pronta; o anel viário está em pleno vapor e, dentro de no máximo 90 dias, vai ser entregue; e o Centro de Convenções de Anápolis foi retomado, também, está com pessoas trabalhando, embora não consiga prever ainda quando será concluído.

Em relação às obras municipais, temos paralisados o viaduto da Avenida Brasil, o prédio da Câmara, a reforma do Estádio Jonas Duarte e 146 moradias populares para ser entregues. Destravamos tudo que havia em termos de burocracia com o viaduto e vamos inaugurá-lo no aniversário da cidade [31 de julho]. Da mesma forma, resolvemos tudo o que havia travado em termos de mobilidade urbana. O prédio da Câmara terá de ser licitado novamente, porque deixaram o contrato vencer, não o renovaram no ano passado e o projeto apresenta problemas de engenharia a tal ponto que uma das vigas ficou com um metro e meio de altura. Infelizmente, uma parte do trabalho vai ser perdida — isso chegou a ser matéria em rede nacional na Globo.

Destravamos também obras de Cmeis, postos de saúde e Cais, no total de mais de dez do governo passado. O Jonas Duarte ainda está parado por falta de gestão junto ao governo federal para liberação de emendas. Depois de destravar e concluir essas obras — para resgatar algo que também disse aqui na entrevista passada, em busca de mostrar respeito e consideração pelo dinheiro público —, estamos, então, começando a avançar as nossas obras. Uma de nossas grandes bandeiras de campanha foi o Centro Pediátrico, que foi licitado e terá sua construção sendo iniciada agora. Com o apoio do governo estadual, vamos lançar agora o Centro de Internação, com 80 leitos. O projeto está pronto e falta apenas a liberação do dinheiro. Teremos ainda mais três feirões, um centro administrativo no Parque Ipiranga, além do término de várias obras de escolas e postos de saúde. Mas, se você me perguntasse quais são os próximos desafios, ou qual o maior deles, eu diria que será o desafio previdenciário.

Augusto Diniz — Este ano a cidade recebeu o anúncio de mais de R$ 200 milhões do programa Goiás na Frente, com o que foi possível, por exemplo, a construção de mais dois centros de saúde. Como está sua relação com o governador Marconi, já que ele esteve com outro candidato [Carlos Antônio, do PSDB] nas eleições em Anápolis no ano passado?

Sempre tive uma relação de muito respeito e carinho com o governador. No momento, estou no cargo de prefeito de Anápolis e, sendo assim, tenho sempre de cobrar o que for demanda de nossa cidade. Foi exatamente isso que fizemos. Por que obtivemos R$ 216 milhões? Ocorre que, por cerca de 40 anos, o grande desafio de todo prefeito era resolver o problema de abastecimento de água. Por causa da água já tivemos prefeito cassado, prefeito que passou por grandes crises por conta disso. O último prefeito que brigou muito por essa questão, que levantou essa bandeira, foi Ernani de Paula, que acabou por ter problemas com o governo do Estado com essa polêmica.

Quando assumimos, fomos ao governador e, com muito respeito, lhe dissemos: “Governador, a Saneago obteve a concessão de exploração do serviço de água em Anápolis em 1973. De lá para cá, nunca construiu uma única estação de água. A que existe hoje no Ribeirão Piancó foi construída pelos militares, e para ser usina hidrelétrica. Se a Saneago não consegue fazer, nossa parceria continua, mas vou municipalizar o serviço e resolver, porque a cidade não aguenta mais”. Então, conseguimos R$ 120 milhões de todo o dinheiro que recebemos para resolver o problema do abastecimento.

Elder Dias — E como será isso?

Teremos três etapas. A primeira é a transposição do Ribeirão Capivari para o Piancó, para aumentar a vazão deste, o que já está 30% concluído, em seis meses. Também estamos licitando a construção da estação de tratamento de água, bem como estão sendo realizados os estudos para o novo reservatório para Anápolis. Resolver esse problema já seria uma grande marca de nossa administração. Temos acompanhado essa obra de perto, feito vistorias e usando a internet como veículo para mostrar à população como tudo tem sido encaminhado. O governador Marconi Perillo sabe reconhecer os parceiros que tem — e aqui não falo do prefeito, mas da cidade de Anápolis, que decidiu as últimas eleições em prol dele. É lá em Anápolis que ele sempre tirou a diferença que havia em Goiânia e em Aparecida.

Elder Dias — A demanda por água em Anápolis aumentou bastante na última década. Porém, quando a demanda é atendida, como a­go­ra, é preciso pensar também que se­rá preciso aumentar também a pro­dução de água. O que o município tem feito para preservar a água que tem e mesmo aumentar a disponibilidade de água? Digo is­so porque é certo que faltará água também ao Ribeirão Capivari se houver a continuação do ritmo de expansão urbana, de desmatamento e de destruição de nascentes.

Com certeza. Estamos recuperando todas as nascentes da região do Capivari e do Piancó. Estamos plantando árvores e delimitando as áreas de preservação ambiental, de modo a efetivar de fato a proteção devida. Além disso, temos a colaboração de uma grande referência nesse tema, que é o idealizador da Fa­zenda Santa Branca [ecovila situada no município de Terezópolis de Goiás], Antônio Zayek. Nesses primeiros seis meses, ele já desenvolveu um projeto que está tendo repercussão nacional e até internacional e toca exatamente no ponto que você está falando: não adianta só se preocupar em trazer água, porque, assim, uma hora a água vai acabar.

Uma das teorias que Zayek defende é de que devemos facilitar a permeabilidade da água até o lençol freático. Para tanto, ele está concluindo o projeto — no momento, verificando a viabilidade financeira — para que criemos bolsões de permeabilidade.

Augusto Diniz — Como seria isso?

Por exemplo, ao fazer uma praça, antes mesmo da terraplanagem, faz-se um grande buraco, preenchendo-o com areia para só depois colocar a terra. Isso visa facilitar a permeabilidade da água na­quele local, o que, por sua vez, compensa a impermeabilidade ge­rada pelo asfalto. É um projeto inovador que Anápolis está puxando.

Cezar Santos — Qual é sua grande aposta para mudar a cara de Anápolis?

Acho que tudo passa pela informatização: controle de frota, controle de estoque, uso do solo online etc. Isso destrava a vida do cidadão, do empresário. Isso, com certeza, foi uma grande tacada de nossa parte, no sentido de levar a cidade à modernização.

Cezar Santos — Indo para a seara política, nota-se um certo atrito na base aliada em disputa de vagas na chapa majoritária. São poucos cargos para muitos nomes e partidos, todos se sentindo no direito de ter alguém. Como o sr. vê essa questão?

A primeira coisa que penso em relação à base aliada é de que, se ela se mantiver unida, dificilmente será batida. O que cada um precisa fazer é ter noção de seu tamanho, daquilo que representa para, então, postular alguma coisa. Não posso nem devo avaliar outros partidos.

Eu avalio o PTB. E quando faço isso, avaliando também nosso presidente estadual, o querido deputado federal Jovair Arantes, costumo perguntar à imprensa e a pessoas da sociedade: qual partido tem prefeituras como a de Anápolis, Itumbiara, Águas Lindas, Luziânia, Senador Canedo, Porangatu, Goianésia e tantas outras? Isso dá uma base política de sustentação que cacifará o deputado Jovair a sentar na mesa e conversar com todos os aliados na hora de montar a chapa majoritária.

Entretanto, nós, do PTB, optamos por discutir esse assunto apenas na hora oportuna. Por agora, estamos trabalhando para fortalecer o partido politicamente e para fortalecer a base do governador Marconi Perillo. Por quê? Porque mais à frente será feita a avaliação de quem poderá postular essa vaga na chapa majoritária e será feita também uma pergunta: qual outro partido tem esse mesmo peso político? Se houver algum, a gente concorrerá; se não houver, creio que vamos participar da chapa majoritária naturalmente.

Augusto Diniz — Para o próximo ano, o sr. tem algum outro projeto político?

Meu projeto é 100% a Prefeitura de Anápolis. Não há qualquer possibilidade de eu me afastar do mandato durante esses quatro anos para concorrer a qualquer cargo público.
Augusto Diniz — Como o sr. viu a filiação do ex-senador Demóstenes Torres ao PTB?
Politicamente é um ganho muito grande para o partido. Demóstenes é uma pessoa que conhece a política, que tem habilidade, que sabe fazer leitura política como poucos. Portanto, vai somar muito politicamente ao PTB. Juridicamente, não posso fazer análise, até porque não sou jurista. Eleitoralmente, isso é uma questão com o eleitor, do político com o povo.

Elder Dias — Mas como o sr. vê a imagem dele hoje com o eleitor?

Não tenho como fazer essa avaliação. Hoje estou ocupando um cargo público e a imagem que eu tenho de um político com o eleitor fica um tanto obscura. Não dá para ter a leitura correta e fico receoso de cometer qualquer tipo de injustiça para um lado ou para outro. Creio que isso possa ser revelado por meio de pesquisas. Em breve teremos esses levantamentos, que responderão essa questão.

Augusto Diniz — Como está sua relação com o ex-prefeito e hoje vereador Antônio Gomide, que se posiciona como oposição?

É uma relação normal, democrática. O ex-prefeito Antônio Roberto Gomide é uma pessoa com quem sempre tive uma relação familiar muito próxima, já que ele também morou em Porangatu e foi amigo de meus pais. Não temos tido problemas com a Câmara. Para ter ideia, a votação mais apertada que tivemos lá, em projetos que enviamos, foi de 22 a 1. Na maioria, foram 23 votos a 0. Isso porque só enviamos projetos que podem melhorar a qualidade de vida da cidade e de sua população.

Elder Dias — A oposição tem tido uma posição republicana, então?

Sim, com certeza. É uma oposição que pondera, que quer saber o porquê de certas coisas. Esse tipo de oposição republicana é sempre muito saudável para o ambiente político de qualquer cidade. Creio que está sendo feita do jeito que deve ser feita, tanto por Gomide como por outros vereadores. Todo vereador pode fazer oposição, dependendo do tema. E a liberdade que tenho com a Câmara é assim, às vezes quem faz algum contraponto é até mesmo um vereador do PTB. Não vejo problema nisso, o que temos de discutir são as melhores soluções para a cidade.

Cezar Santos — E como está sua relação com o ex-prefeito e adversário derrotado na última campanha, João Gomes, que hoje também está na base de Marconi?

Eu tenho dito que estou prefeito de Anápolis e tenho de pensar na cidade. Não dá para pensar em problemas políticos que ficaram no passado. Toda vez que o governador Marconi Perillo ligar para mim para perguntar o que eu acho da nomeação de um anapolino, independentemente de ser “a”, “b”, “c” ou “z”, vou falar de bate-pronto que é muito bom. Preciso estar defendendo minha cidade e cada vez que ela ocupar mais espaço naturalmente se fortalece mais. Temos uma relação respeitosa e não vejo qualquer problema no que diz respeito a isso.

Elder Dias — O sr. acha que o eleitorado de Anápolis dará a José Eliton (PSDB), que é o pré-candidato de Mar­coni para sua sucessão, o mes­mo apoio que sempre deu ao governador?

Se a base estiver unida, com o PTB se mantendo na base, teremos condições de dar a mesma estrutura que suportamos ao governador Marconi Perillo em outras eleições.

Cezar Santos — Como o sr. vê a pré-candidatura de José Eliton?

Eu a vejo como a mais viável de todas, para o atual momento. Faço essa análise tendo como pressuposto que a base aliada esteja unida, porque ela é muito forte assim. No entanto, uma possível saída do PTB mudaria bastante o cenário. Por isso, acho que a base deve continuar unida, para que tenhamos tranquilidade para a eleição de José Eliton.

Augusto Diniz — A pretensão do PTB em relação à chapa majoritária entra, em alguma forma, em rota de colisão com o PSD e o PSB, que também tentam a mesma vaga?

Não vejo assim. A política, na hora da definição, é pragmática. O que será pesado é o que cada um tem, quantos votos, qual a capilaridade. Política é pragmatismo. Portanto, não há por que estar em rota de colisão com qualquer partido da base. O que vamos fazer é sentarmos todos à mesa e colocar a própria situação. A partir daí, faz-se uma comparação e a construção do que resultar disso.

Elder Dias — O PTB vai mesmo fechar questão em pleitear cargo na chapa majoritária do ano que vem?

O PTB não tem nem de pleitear, o cargo tem de ser naturalmente do partido. Afinal, qual é o segundo maior partido da base, em termos de densidade eleitoral, depois do PSDB? É o PTB. Ora, se o PSDB já está com duas vagas — a do governo e uma do Senado — o próximo partido a se posicionar tem de ser o PTB. Isso é natural, é matemático, uma coisa muito simples. Mas o que o PTB não vai fazer é ficar se engalfinhando por meio da imprensa, nem agredir algum dos partidos parceiros que também ache que tenha o mesmo direito.

Elder Dias — Hoje o sr. tem uma visão diferente do mundo da política do que tinha há seis meses?

Penso que essa visão está mudando todo dia. Não a minha, mas a da população em geral. Não só acho, mas tenho certeza de que quem foi gestor há 4, 8 ou 12 anos, quando questionados sobre algum tipo de problema pelo qual passaram, podem dizer que não tiveram como fazer diferente. Já os novos gestores não terão essa desculpa. Vivemos um momento diferente da política e de gestão e, por isso, não teremos a desculpa de dizer que não tivemos como proceder de tal forma e não daquela outra. Por isso, todo prefeito e todo governador vai ter de aproveitar para fazer diferente, e para estar em paz, tranquilamente, com a população em geral. É preciso fazer política de uma maneira diferente da que foi feita nos últimos anos e é isso que estamos buscando fazer em Anápolis.

Augusto Diniz — O sr. falou sobre o programa Inovação e sobre tornar eletrônico todo o processo de gestão em Anápolis. Mas o sr. também tem usado as redes sociais para mostrar o que sua administração tem feito. Que avaliação já pode ser tirada dessa experiência?

O político de hoje precisa ser completo, falar com todo mundo. Da mesma forma com que falo aqui com vocês porque parcela da população se orienta por meio de jornais qualificados, como o Jornal Opção, há outras que se informam pela internet e outras ainda que só veem televisão. Então, para ser um político que, em termos de marketing, converse com toda a população, é preciso investir em todos os meios. Não sei quantificar o que isso representa em cada área, mas sei que há a necessidade de ser — ou, pelo menos, tentar ser — um político completo em termos de comunicação. E é isso que estamos buscando.

Augusto Diniz — Não tem sofrido nenhuma crítica de isso ser um uso marqueteiro das redes sociais?

Não, porque não apareço nas redes sociais fazendo marketing, mas me comunicando para apresentar as obras. Não apareço enfeitado ou algo assim, apenas digo ao eleitor que estou vistoriando a obra que ele aguardava.

Cezar Santos — Uma das críticas, aliás, é que sua atuação seria uma espécie de imitação do que faz o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). Como o sr. reage a isso?

Não tenho problema em imitar ninguém, se for o lado positivo de cada um. Não tenho esse orgulho e nem a pretensão de achar que cada pessoa se constrói independentemente. Todos se constroem se espelhando em bons exemplos. O que Doria tiver de bom exemplo vou copiar, o que o ex-prefeito Gomide tiver, também copio, sem problema algum. A pessoa pública precisa estar acima de seu ego. Essa é a nova política que precisamos fazer.

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