“Estamos com uma meta de atingir R$ 2 milhões em doações”

Ideia criada em São Paulo ganha desdobramento em Goiás para mobilizar rede de voluntariado na ajuda com matéria-prima, produtos de higiene e EPIs

Aline Stival, da UniãoGO | Foto: Henrique Tarricone

A pandemia da Covid-19, doença que atingiu primeiro a cidade de São Paulo e depois se espalhou pelo Brasil, revelou uma necessidade da ampliação das redes de voluntariado no País. Na capital paulista surgiu a UniãoSP, que reuniu empresários e líderes da sociedade civil organizada para ajudar entidades e o setor público com doações de dinheiro e produtos para abastecer a sociedade e os profissionais da saúde nos itens mais necessários neste momento.

Goiana que mora em São Paulo, Aline Stival veio passar o período de isolamento social com a família e trouxe a ideia para Goiás. A mobilização fez surgir o UniãoGO, formado em parceria com a Central Única das Favelas do Brasil (Cufa), do contato com empresários, governo estadual, Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) e a Universidade Federal de Goiás (UFG). “Estamos com uma meta de atingir R$ 2 milhões em doações.”

De onde surgiu a ideia de criar esta rede de voluntariado?
Sou goiana, mas moro em São Paulo há bastante tempo. Estou muito ligada a grupos de grandes empresários paulistas e atuo em um projeto chamado Legado para a Juventude Brasileira. Estou muito próxima a esse público. Assim que estourou toda a crise da pandemia do coronavírus em São Paulo, que acabou sendo um pouco antes do que no resto do País, um grupo muito forte de empresários de São Paulo se mobilizou junto com outras figuras bastante relevantes da sociedade civil, líderes comunitários em Paraisópolis, representantes da área médica e de vários estratos sociais se juntaram em um grupo que se configurou no União São Paulo.

E começaram a se mobilizar, cada um apontado para as políticas públicas que eram feitas pelo governo, para viabilizar os recursos e ações necessários para endereçar os temas. Comecei a viver o grupo. Foi incluída em um grupo de WhatsApp. No meio disso, vim para Goiânia passar o período de quarentena com a família. Quando cheguei aqui, tentei buscar pessoas conhecidas que estivessem fazendo algum tipo de mobilização da sociedade civil além do Estado. E não encontrei nenhuma ação local.

Convidei alguns amigos de Goiânia para tentarmos replicar o modelo que estava em execução em São Paulo. Reuni um grupo de empresários que tenho relações aqui, chamamos alguns líderes públicos, líderes comunitários, o ecossistema de inovação. Juntamos um grupo forte e assim se fez. Assim nasceu o UniãoGO, muito vinculado com as referências do que tem ocorrido em São Paulo, no Rio e que está indo para outras localidades.

O grupo foi se formando naturalmente e conseguimos uma interlocução direta com o governo para entender o que é prioridade em Goiás. Ficou claro que a prioridade são as comunidades vulneráveis, as periferias e os profissionais de saúde, com a necessidade de EPIs [equipamentos de proteção individual]. Em São Paulo, estava muito forte o chamado para compra de respiradores, com a mobilização de recursos para comprar estes equipamentos e de testes. Em Goiás, o Estado disse que gostaria que nos mobilizássemos para a questão das sociedades vulneráveis e para conseguir EPIs para os profissionais de saúde.

Nos juntamos fortemente com o reitor da UFG [Universidade Federal de Goiás], Edward Madureira, principalmente na operação do Hospital das Clínicas. Começamos a mobilizar recursos, matéria-prima, voluntários e uma série de ações para colocar isto de pé. Criamos uma plataforma de crowdfunding (financiamento coletivo) junto a uma fintech de Goiás, que topou fazer isso sem reter nenhum tipo de taxa, para centralizarmos as doações para compra, produção e distribuição.

E também um trabalho de conscientização. Tem muita gente no grupo que é da área de comunicação. Eu venho da comunicação também. Estamos estruturando uma campanha forte para estar presente nos veículos de mídia de conscientização da necessidade de uma atuação cidadã, que diz respeito a todos os indivíduos, não só ao Estado e às entidades. É uma mudança de comportamento de cada um.

“A mudança do mundo pede uma atuação coletiva”

“Só assim conseguiremos avançar, prosperar e superar o que precisa ser superado” | Foto: Divulgação

É possível dizer aproximadamente quantas pessoas o grupo já tem em São Paulo e que conseguiu? E o que começa a ser feito aqui?
Em São Paulo, o grupo começou com cerca de 260 pessoas, acabou se desmembrando em um segundo grupo e depois em subcomitês, assim como replicamos aqui em Goiás. Foram se criando comitês de ação na área de saúde, no social, de educação e mobilização. Imagino que tenhamos pelo menos mil pessoas em São Paulo na linha de frente com acesso a todas as suas redes para mobilizar montantes bem consideráveis. Nesta semana, o Brasil chegou à marca de R$ 1 bilhão em doações. Isso é inédito no País.

Dá para chegar neste valor em São Paulo ou Rio, mas é um marco do País. Temos um momento muito simbólico, em que as pessoas estão sendo chamadas para a solidariedade e para uma atuação cívica. Em Goiás, estamos com uma interlocução direta com grandes empresários. Há uma doação vindo em volume bem importante da BR Foods com uma distribuição local. Nossa ação nacional possibilita que empresas com atuação em todo o País façam uma distribuição no nosso Estado.

Fora as relações que estabelecemos com empresários locais para doações de produtos: alimentos, cestas básicas, itens de higiene. Vamos distribuir por meio da OVG [Organização das Voluntárias de Goiás] e via Cufa [Central Única das Favelas], que tem um mapeamento de 215 comunidades vulneráveis no Estado de Goiás. Eles têm todo um tratamento bem criterioso em relação à distribuição e logística dos produtos, o que para nós é bem relevante. Estamos com uma meta de atingir R$ 2 milhões em doações na plataforma de crowdfunding, que está vigente. Vamos aguardar os próximos dias para termos números concretos.

Como será a ajuda ao Hospital das Clínicas?
Estamos mobilizando todas as nossas redes. Houve uma demanda muito forte em relação a matéria-prima para a produção de EPIs. A UFG se juntou a uma série de voluntários. Também mobilizamos muitos voluntários, como uma força tarefa, para fazer acontecer tudo que for necessário para o hospital começar a funcionar. A UFG demanda para nós tudo o que nossas redes abrem de acesso e de possibilidades. São várias ações.

Há alguma demanda específica mais urgente que a Cufa apresentou ao UniãoGO?
A situação nas periferias é realmente muito calamitosa. O fato de a Cufa ter uma parceria nacional com a TV Globo, com chamadas na TV Anhanguera todos os dias, faz com que cheguem muitas demandas. O que dizem é que a higiene é algo muito crítico. A falta de sabonete, papel higiênico, pasta de dente, escova de dente, itens de limpeza da casa, alimento são problemas que a Cufa nos relatou.

Fizemos uma parceria com a Cufa também em um projeto novo chamado Mães na Favela, com a disponibilização de R$ 120 pelo PicPay para que as mães tenham a possibilidade de ter a dignidade de escolher aquilo que vão comprar. Entramos nessa ação com a Cufa entendendo a gravidade da situação das mães das famílias nestas comunidades vulneráveis.

“A prioridade são as comunidades vulneráveis, as periferias e os profissionais de saúde”

“O grupo foi se formando naturalmente e conseguimos uma interlocução direta com o governo para entender o que é prioridade em Goiás” | Foto: Divulgação

Como é feito o acompanhamento desde a doação até o resultado da ação chegar aos beneficiados?
Estamos concentrando as doações na plataforma, que está disponível no site http://uniaogo.com.br. O dinheiro recebido em doações é repassado diretamente às entidades com as quais fizemos parceria. Uma delas é a Cufa. Outra questão é a mobilização da distribuição. Em Goiânia, tudo que é produto vai direto para o campo do Goiás Esporte Clube, onde são recolhidos os alimentos e os kits de higiene.

Confiamos muito no trabalho da Cufa. Não é uma parceria apenas local, é algo nacional. Há todo um mapeamento criterioso das comunidades e um trabalho de acompanhamento em nível nacional do trabalho que a Cufa desenvolve nas periferias. Temos várias empresas envolvidas, com um ganho logístico muito grande e um ganho de imagem pela credibilidade da Cufa e pelo trabalho que a Central Única das Favelas desenvolve.

Como se dá o trabalho junto à OVG? O que é feito até chegar nos governos nas cidades em que esta rede de voluntariado é formada?
Partimos das relações. Como temos um grupo importante de empresários entre os membros do UniãoGO, a interlocução com o Estado começou a partir do empresariado. A OVG concentra as maiores ações sociais que envolvem o combate ao novo coronavírus. Tudo que se refere à parte social, muitas vezes até da saúde, está concentrado na OVG.

A OVG nos detalhou todo o pedido do que seria necessário para providenciar, por exemplo, em quantidade de EPIs: máscaras simples, N95, óculos transparentes, capotes, luvas e todo material. Geram para nós os volumes necessários para que a UniãoGO se mobilize enquanto sociedade civil. Inclusive na doação de alimento. É uma ação que está mais pulverizada. São várias pessoas que correm atrás desta mobilização.

É possível citar o que tem sido doado em Goiás?
Basicamente alimentos avulsos e cestas básicas. Indústrias alimentícias foram as primeiras. A BR Foods, que não é goiana, mas por ter operações em Goiás resolveu fazer doação. E também itens de higiene. Há empresas com as quais estamos negociando doações neste momento.

Como uma pessoa interessada em fazer parte do UniãoGO ou que pretenda fazer uma doação pode entrar em contato com a ação?
O site http://uniaogo.com.br já está no ar, onde a pessoa pode encontrar todas as informações da plataforma de doação. São três diferentes campanhas em andamento. A pessoa pode escolher para qual delas quer doar. Os grupos de WhatsApp são divididos em um grupo central, no qual discutimos as ações prioritárias no Estado, e os comitês específicos: comitê de saúde, comitê social, comitê empresarial, econômico, jurídico. A pessoa pode se juntar a nós através dos grupos de WhastApp.

“A Cufa em um mapeamento de 215 comunidades vulneráveis no Estado de Goiás”

“Eles têm todo um tratamento bem criterioso em relação à distribuição e logística dos produtos, o que para nós é bem relevante” | Foto: Divulgação

O que vem a ser o Legado para a Juventude Brasileira? Como este trabalho funciona?
O projeto Legado para a Juventude é um trabalho de formação e qualificação da elite jovem empresarial brasileira. Nós reunimos jovens das grandes famílias empresárias brasileiras, que passam por um programa de formação que dura 12 meses. Têm interações com grandes mentores e pessoas da elite intelectual, política, empresarial, científica, acadêmica.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um dos mentores e idealizadores do programa. Estes jovens passam por toda uma jornada de formação. No ano passado, tivemos um grupo de Goiás que participou do programa. Quis trazer não só as pessoas do Eixo Rio-São Paulo e do Sudeste, mas também os goianos, porque precisamos nos qualificar e entender nosso papel protagonista para o desenvolvimento do Brasil. Esta é a nossa grande missão.

Em algum momento este trabalho entra no campo de atuação política ou é específico para o setor empresarial?
Empresarial. Tanto que somos uma empresa de educação.

Atingir R$ 1 bilhão em doações em todo o Brasil, que é um recorde, está dentro do esperado ou ainda há espaço para mais mobilização?
Cabe muita mobilização. E não só neste momento em que estamos vivendo, mas sempre. O que acreditamos é que precisamos amenizar um pouco o peso que fica tão nas costas do Estado de deixar resolver os temas centrais de saúde, educação, saneamento básico e a sociedade civil como um todo se mobilizar para uma distribuição de renda e para uma riqueza que circule. As doações fazem parte também, mas é preciso estimular a criação de negócios, a geração de empregos. A criação de valor faz o dinheiro circular no País. Tem muito espaço ainda para muitas ações.

Há alguma ação específica para moradores em situação de rua? Algum comitê do UniãoGO trabalha com a condição dos moradores em situação de rua durante a pandemia de Covid-19?
Não há uma ação específica com moradores de rua, mas parte da população atendida pela Cufa, que estamos abastecendo com doações, são pessoas deste perfil, que moram nas periferias e são bastante desassistidas. Assim como os trabalhadores autônomos, como vendedor de espetinho, o vendedor de cachorro quente. São pessoas que são assistidas através das doações que chegam pela Cufa.

Assim como há previsões de que quando sairmos do isolamento social nossa relação com o mundo pode mudar, o voluntariado tem sofrido mudanças em relação à atuação presencial e o suporte on-line?
Existe claramente uma mudança. É muito bacana de ver como as pessoas estão se mobilizando para se voluntariar. Há um ímpeto de solidariedade, mesmo sem poder estar presencialmente. Toda a mobilização dos grupos, tudo o que tem ocorrido, todo o volume gigante de doações em dinheiro, em produtos, a mobilização das pessoas para doarem seu tempo, seu know-how, seu expertise, tudo isso tem ocorrido dentro de um contexto de isolamento. Mostra sim uma mudança. Voluntariado não é só ir lá e fazer alguma ação presencial.

O UniãoGO é um trabalho de voluntariado com tempo específico de duração, até o fim da pandemia de Covid-19, ou é uma ação prevista para se estender?
Sou uma grande defensora da necessidade da mobilização da sociedade civil. É claro que é difícil prever como as coisas vão ocorrer, está difícil para todos. A intenção é que tenha uma continuidade. Os diferentes atores da sociedade precisam conversar, convergir, entrar em consenso. É o momento de atuarmos em coletivo. Não é só neste momento. A mudança do mundo pede uma atuação coletiva, uma visão conjunta. Só assim conseguiremos avançar, prosperar e superar o que precisa ser superado.

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