“Como vou manter o relacionamento com meu cliente mesmo com portas fechadas?”

Doutorando em Administração na USP e professor de Empreendedorismo diz que um das grandes dificuldades dos negócios que estão parados é a falta de planejamento

Professores Altair Camargo e Luciana Padovez | Foto: Reprodução/Facebook

Os professores Altair Camargo e Luciana Padovez Cualheta eram docentes substitutos da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia da Universidade Federal de Goiás (Face/UFG) quando criaram em 2014 um curso de extensão voltado para o empreendedorismo com vagas para alunos da instituição. O UFG Empreende criou uma demanda que levou os dois, em setembro de 2017, a abrir a primeira turma da Sempreende, uma escola de empreendedorismo fundada por Altair e Luciana.

Com doutorado em Administração, os dois já receberam na Sempreende mais de 1,4 mil alunos com oferta de conteúdo focado em pequenos negócios e suas áreas específicas. As restrições impostas a atividades comerciais e industriais para conter o avanço da pandemia da Covid-19 em Goiás levou os professores a criar um grupo no Telegram para divulgação de pequenos negócios locais e dar dicar do que pode ser feito para inovar em meio à crise.

Na entrevista ao Jornal Opção, Altair Camargo fala sobre diferentes experiências de empreendedores que precisaram modificar um pouco ou completamente seus negócios para continuar em funcionamento. E destaca a importância de saber utilizar a internet como aliada da marca. “Uma das questões é o uso das redes sociais. Como eu vou me comunicar com meu cliente?”

Como surgiu a ideia de criar um grupo no Telegram para ajudar na divulgação de pequenos negócios locais?
Sempre tivemos a ideia de estarmos próximos do aluno para ajudá-lo. Ministramos cursos, mas dizemos que a aprendizagem não termina no curso. Continua. Sempre, depois de todo curso, fazemos um grupo de WhatsApp para os alunos enquanto colocam em prática o que aprenderam. Eles nos mandam mensagem ou entram em contato no grupo para ajudarmos no desenvolvimento como uma forma de acompanhar o aluno. Dentro de todo o curso, fazemos isso.

Neste momento de crise, a grande maioria dos nossos alunos tem negócios – diria que cerca de 80% têm um negócio – e muitos estão parados. Criamos o grupo no Telegram para falar sobre o assunto. Porque no WhatsApp temos um grupo por curso e um grupão com todos os alunos.

Para não ficar monotemático, falando só do novo coronavírus, o que dá certo desânimo por causa das notícias ruins, decidimos falar menos ou quase nada da quarentena nos grupos de WhatsApp e criamos um grupo no Telegram para dar dicas de o que as pessoas e as empresas podem fazer. São vários exercícios.

Em um dia da semana, fazemos o exercício do “e se”. “E se voltar agora? E se voltar semana que vem? O que eu vou fazer? E se voltar daqui um mês?” Outro exercício é pensar em produtos que você pode vender para o mesmo público que você vende. Nunca chegamos com receita pronta. Não dizemos “faça isso que vai dar certo”.  A ideia sempre é a de estimular as pessoas a pensarem em elas próprias se desenvolverem.

O grupo de Telegram já tem mais de 200 pessoas, que acompanham o material e fazem, cada um no seu ritmo. Não temos uma cobrança por ritmo.

As mais de 200 pessoas são todas alunos da Sempreende?
Abrimos a possibilidade de outras pessoas entrarem no grupo também. Mas, pelos nomes que têm aparecido, a grande maioria é aluno.

O sr. disse que, nos grupos, tem tentado fugir um pouco das notícias relacionadas ao avanço da pandemia de Covid-19. Que tipo de dica e o que é trabalhado junto a essas pessoas?
Tentamos incentivar parcerias. Não só nesta época, mas sempre tem parceria entre nossos alunos de um comprar no negócio do outro, um passar a conhecer o outro, até parcerias de negócio mesmo. Uma pessoa que trabalha com festas faz parceria com quem faz doce e vendem para a mesma pessoa. Mais de uma pessoa compartilha os mesmos clientes.

Outra medida que adotamos é dar ferramentas de planejamento. Muitos negócios estão parados e que muitas vezes nunca fizeram um planejamento. Começam a vender e não se preocupam muito com planejar. O que é normal no pequeno negócio. Planejar o que será feito daqui para frente. Que produto eu tenho que posso, de repente, tirar do meu portfólio? Que produto não estava vendendo e posso deixar de lado? Que produto eu tenho e posso adicionar no meu portfólio?

Uma das questões é o uso das redes sociais. Como eu vou me comunicar com meu cliente? Como vou manter o relacionamento com meu cliente mesmo com portas fechadas? É este tipo de conteúdo que colocamos no grupo.

É uma prática comum dos pequenos empreendedores que estão no grupo usar as redes sociais? Já entendem a necessidade de estarem com a marca presente nas redes? Há também quem ainda não saiba como usar?
Existem estas pessoas. Mas no nosso grupo diria que todos estão nas redes sociais e usam para seus negócios. Lógico que cada um está no seu momento diferente, mas dentro do grupo todo mundo usa rede social. Alguns usam mais com o foco em relacionamento, outros com foco maior em vendas. Mas todos usam.

São negócios que conseguem aproveitar a presença nas redes ou apenas têm conta nas redes?
Muitos estão vendendo principalmente fazendo delivery. Todo dia aparece alguém que diz, por exemplo, que precisa de uma papelaria para fazer uma atividade com o filho e as papelarias estão fechadas. Qual papelaria está fazendo delivery? Sempre tem alguém no grupo que tem uma papelaria. A pessoa diz que está funcionando. Quem procura vai ao Instagram da pessoa e encontra as marcações de como fazer o pedido de delivery. A pessoa pode comprar que quem vende garante que entregará na casa da pessoa.

Não só a divulgação do produto, mas a divulgação adaptada aos tempos atuais. O que tem ocorrido é muita gente que não quer comprar com medo de adquirir algo que esteja infectado. Vamos imaginar uma caneta. Eu compro uma caneta. Aí eu pego a caneta e posso pegar o novo coronavírus porque tive contato com a caneta.

Tem muita gente mostrando os bastidores, o cuidado que tem tido, seja com a fabricação do produto, com a embalagem, para mostrar como o produto chega ao cliente para evidenciar que a entrega é feita de uma forma segura. Há uma preocupação sanitária que antigamente só os negócios de alimentação tinham. Agora todo negócio tem essa preocupação. E isso também tem ocorrido no grupo, de uma pessoa ajudar a outra.

O que é possível discutir em um momento de crise e adaptar? Os empreendedores têm conseguido lidar com os pequenos negócios?
Muita gente não tem conseguido lidar bem com esse momento. A pessoa que tem o negócio muitas vezes não tem o conhecimento do negócio. Abre-se uma loja, faz-se a divulgação mais ou menos do jeito que a pessoa acredita que seja o certo e o cliente vez. Não é tão difícil assim vender. Ou não era. Agora está difícil de vender. Ninguém está indo atrás. Principalmente produtos que não sejam essenciais.

Ninguém está comprando um sapato, uma blusa ou algum item parecido. Está mais difícil esse tipo de venda. Tem gente que simplesmente ficou paralisada. “Meu negócio ficou fechado” e não sabe o que fazer. E existem alternativas. Pode ser por meio de parcerias. Muita gente tem feito isso, principalmente com serviços. Por exemplo, uma clínica de massagem estética vende agora por um preço mais baixo um pacote de R$ 400 por R$ 200 para a pessoa fazer no futuro.

Um serviço ou produto que era vendido para a pessoa encontrar no local e começa a ser vendido para ser consumido em casa. Decoradora de festa não tem como fazer festa durante o isolamento social. Uma de nossas alunas começou a fazer um kit para festa em casa. Ela vende o kit e o próprio cliente faz a decoração da festa em casa para a família para comemorar um aniversário ou uma data especial.

Quem usa mais a criatividade, está mais disposto a inovar, saiu da paralisação, tem encontrado brechas para vender. Claro que não no nível que vendia antes. Mas consegue encontrar brechas. O grande problema está para as pessoas que atuam de forma mais conservadora ou que têm um apego muito grande ao negócio tradicional. O apego ao negócio como ele sempre foi, “fiz assim, sempre deu certo e tenho de continuar a fazer assim”, sem a mente pronta para inovar, sem proatividade, tem sofrido mais.

As grandes empresas têm como estruturar uma cadeia de entrega ou usar aplicativos para atender a demanda. Como os pequenos negócios conseguem se fazer conhecidos como uma empresa de bairro, da vizinhança, e enfrentar a concorrência da entrega, que é mais difícil para o pequeno negócio?
Uma coisa é se tornar conhecido. Como fazer para se tornar conhecido? Você pode usar redes sociais. Uma coisa que falo muito em todo curso, mas que pouca gente faz é sair comentando. Rede social não é só o seu perfil. O seu perfil é como se fosse a sua casa. Mas ninguém está entrando lá.

Você pode comentar em perfis alheios, mas sem fazer comentários de venda. É um comentário como se fosse criar amizade mesmo.

É uma interação?
Exatamente. Ver um story, comenta, manda direct, elogie as pessoas. Mostre para as pessoas que você existe. Faça a busca ativa. É usar a rede social fora do perfil. Às vezes a pessoa pensa em usar a rede social, mas só fica postando no perfil dela. E muitas vezes posta para ninguém. Ninguém está vendo.

É divulgar. Ampliar o nome, a marca da empresa, para fora do seu perfil. Outra coisa que dá para fazer – e não é nem para se tornar mais conhecido -, mas vender mais, é pegar a base de clientes que as empresas já têm e utilizá-las. Se a pessoa já comprou de você um dia é porque já te conhece e gostou de você a ponto de tirar o dinheiro da carteira e pagar. Ir atrás dos clientes antigos, conversar com eles. E é preciso conhecer um pouco de marketing para fazer isso.

Vamos imaginar que eu venda roupa. Não é chegar para o cliente e dizer “olha, estou com um monte parada aqui, me ajuda” e manda um catálogo de cem fotos. Eu sei que o Marcos gosta de camisa sem bolso branca e veste M. É preciso pegar as fotos de camisa branca sem bolso que você tem no tamanho M e mandar. Diga: “Marcos, essas camisas aqui, estão do seu jeito. Se você comprar agora, te dou um desconto porque estamos passando pela pandemia do novo coronavírus”.

É fazer o marketing de um para um. Buscar ativamente os ex-clientes, mostrar que você ainda existe e como você pode ajudá-lo. O movimento de comprar do pequeno para ajudar está funcionando. As pessoas estão com vontade de fazer isso. O pequeno tem a vantagem de o cliente conhecer a história de quem vende, os valores, o que ele pensa em termos de política e sociedade. É aproveitar esses pontos e mostrar isso nas redes sociais.

As pessoas gostam de comprar de quem elas se identificam. É aproveitar o momento para mostrar a cara.

“O pequeno tem a vantagem de o cliente conhecer a história de quem vende, os valores”

“As pessoas gostam de comprar de quem elas se identificam. É aproveitar o momento para mostrar a cara” | Foto: Reprodução/Facebook

O sr. citou a interação nas redes sociais na última resposta e falou também sobre o perfil mais conservador do pequeno negócio, quando tem uma atuação tradicional. A junção das duas questões obriga a pessoa a se engajar mais com a marca para não só divulgar, mas fazer com que as pessoas interajam com aquele perfil da empresa?
Muito negócio não tem rede social. Um açougue de bairro nunca precisou ter rede social. A pessoa acaba comprando daquele açougue e não do supermercado porque conhece o dono, conversa com ele. É como se fosse um amigo do dono. E a carne no açougue pode até ser mais cara do que a carne do açougue do supermercado. Mas o cliente continua a ir por causa da conversa, porque sabe o corte para cada pessoa, chama o cliente pelo nome. A ideia é trazer isso para a rede social.

Isso sempre existiu. As pessoas valorizam isso no dia a dia. Mas agora nós não temos o dia a dia. Esse contato infelizmente está suspenso. É tentar trazer a proximidade de chamar o cliente pelo nome, elogiar o filho, “seu filho cresceu”, saber o tipo de carne e o corte preferido do cliente para a rede social. Porque a relação humana não acabou. Ela está temporariamente ocorrendo mais de forma virtual. E a rede social é uma forma de se relacionar.

É trabalhada a migração da vendinha do bairro e o comércio próximo para o comércio virtual como algo definitivo? O que pode mudar na visão de mundo depois da pandemia da Covid-19?
O confinamento acelerou vários processos que as empresas que conseguirem sobreviver teriam no futuro, que é trabalhar com a comodidade da pessoa, com entrega na casa do cliente, do jeito que a pessoa quer, as questões sanitárias. A preocupação com higiene está muito mais nos restaurantes e estabelecimentos de estética e saúde. Isso migrou para todos os negócio. Outra mudança que ocorre.

A inovação, saber que o mundo não é linear, está sujeito a mudanças. De repente vem um meteoro – ou uma pandemia – e muda o rumo das coisas. A mentalidade de mudança surgia. Muitas empresas já tinha visto isso. Mas essa mudança foi acelerada, veio de uma vez e atingiu todo mundo.

O uso das redes sociais de forma profissional, para captar e se relacionar com os clientes. Muita gente utilizava as redes sociais para colocar produto e esperar o cliente aparecer. Essa forma de relação com o cliente é superimportante. Era algo que pouca gente fazia. Agora se tornou essencial. Quem não faz isso, aumenta a chance de o negócio não sobreviver depois do confinamento.

O que mudou na sua relação de trabalho com o empreendedorismo antes e depois da Sempreende? Quando veio a ideia com a Luciana Padovez de criar uma escola voltada ao empreendedor para dar suporte a quem pensa em começar um negócio ou já tem uma pequena empresa, mas não sabe lidar direito com esse negócio?
Nós éramos professores da UFG e éramos responsáveis por um curso de empreendedorismo na instituição. Era um curso de extensão aberto para todos os alunos. Inicialmente foi aberto apenas para os estudantes da UFG. Atualmente é aberto para toda a comunidade. Chama-se UFG Empreende.

Criamos o curso na UFG, que era fechado para alunos da universidade. E pensamos: “Por que não abrir isso para a sociedade? Por que não ensinar as pessoas a empreender?”. Víamos que tinha uma demanda, muita gente queria fazer o curso e não era da UFG. E começamos pequenos, com uma turma teste. Deu certo e continuamos. Colocamos novos conteúdos, entendendo quem era nosso público, isso foi crescendo e é o que é hoje.

E é o que gostamos. Tanto eu quanto a Luciana tivemos outros negócios, trabalhamos em outras empresas. Víamos que faltava, e ainda falta muito, a ligação entre a academia o mercado prático. Muita coisa que ocorre na academia fica na academia e muita coisa que ocorre na prática não tem nada a ver com o que se estuda. Tem muita gente fazendo coisa que estudamos na academia e faz errado.

Pensamos em unir os dois mundos com nossos cursos. Eu e Luciana fizemos mestrado e doutorado pensando no pequeno negócio. Unimos os dois mundos com um curso rápido. Não é aquele curso teórico que muitos estão acostumados na universidade. É um curso voltado para a prática, porém baseado em uma teoria robusta e pesquisa científica. Não tem o “acho que é isso, então faça assim”. Nosso curso é sempre baseado na pesquisa científica e também no pensamento crítico.

Não é uma lógica do coach do empreendedorismo?
Não. Nunca damos receita do que fazer para dar certo. Incentivamos os alunos a pensar. Entendemos a individualidade de cada aluno, de cada negócio. Sabemos que cada negócio é diferente. Vou falar para determinado aluno “é melhor você fazer um Instagram e postar mais nos stories”. Mas para outro pode ser “é melhor você pegar seu dinheiro e colocar em outra coisa, nem precisa ter instagram”. É claro que a decisão será sempre do aluno. Não vamos impor nada.

A Sempreende existe há quanto tempo?
A Sempreende tem dois anos e meio. O primeiro curso foi em setembro de 2017.

Sabe quantos alunos já passaram pela escola?
Em torno de 1,4 mil a 1,5 mil alunos.

Como está o curso de extensão na UFG?
O curso continua. Criamos, fomos responsáveis por dar o curso dois ou três semestres e saímos da UFG. Neste ano, eu voltei. Dei aula para uma turma neste semestre. Luciana ainda não. Era para ter tido outra turma, mas por causa da paralisação nas aulas não pudemos dar o curso. Estou à frente do projeto novamente.

Qual é a ligação que os dois têm com a UFG?
Fomos professores substitutos e hoje somos professores contratados. Como temos experiência com o curso, nos contratam especificamente para dar o curso. Mas como estudamos na UFG na graduação e no mestrado, estamos sempre na instituição. Não formalmente, mas temos um contato muito grande com a instituição.

Desde o curso de extensão até a criação da Sempreende, o que mudou na realidade dos novos negócios de antes para quem busca informação para manter ou abrir uma empresa?
Começamos em 2014 o UFG Empreende. Era algo pouco conhecido. Menos pessoas falavam em empreendedorismo do que hoje. Não tinha uma oferta de curso livre. Foi a primeira escola de Goiânia e uma das primeiras do Brasil para quem quer abrir negócios novos.

Antes, a pessoa que queria abrir um negócio fazia pelo o que vinha na cabeça ou ia para o Sebrae e tinha as consultorias. O Sebrae é muito bom, tem suas vantagens, mas é genérico. Uma pessoa que quer abrir um açougue, quer abrir uma loja de roupa ou uma loja de software, o curso, a solução ou produto que o Sebrae oferece é o mesmo.

Começamos a oferecer produtos individualizados para cada tipo de negócio e atender as pessoas de forma mais personalizada. Vemos que aumentou o número de cursos. Concorrentes existem muitos. E aumentou a procura de pessoas por esse tipo de curso. As pessoas têm visto que precisam se capacitar.

As pessoas estão vendo que não é fácil abrir um negócio, que é preciso aprender algo antes. Não é só comprar um produto, abrir uma loja e começar a vender que vai ganhar dinheiro com isso. O que vejo é um amadurecimento das pessoas, uma preocupação com a preparação antes de abrir um negócio.

Na terça-feira, 31, o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] publicou os dados da primeira Pnad Contínua [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua] realizada por telefone em decorrência do isolamento social. Subiu o desemprego no trimestre fechado em fevereiro de 11,2% para 11,6%. São 38 milhões de informais. E há uma lógica nova de chamar qualquer autônomo ou informal de empreendedor. Como o sr. avalia essa nova classificação utilizada para todo trabalhador informal como empreendedor?
O conceito de empreendedor não está definido. Tem gente que diz que empreendedor é quem abre um negócio. Há quem fale que empreendedor é quem inova dentro da empresa. Tem gente que diz que o vendedor de porta em porta ou o motorista por aplicativo é um empreendedor por fazer alguma coisa diferente. Depende da definição.

Particularmente, considero empreendedor uma pessoa que faz alguma coisa diferente, que inova, seja abrindo um novo negócio ou fazendo um negócio diferente ou algo diferente na empresa em que trabalha. Não considero que o vendedor no sinal entre na conta do empreendedorismo. Às vezes a pessoa está no semáforo tentando uma forma de sustento, mas talvez possamos chamá-lo de empreendedor em potencial se ele quiser fazer aquilo virar um negócio.

Mas também podemos ter um preconceito de dizer que a pessoa que está no sinal não é empreendedor. Só que ele pode fazer ali uma superinovação. Não é porque não tem um CNPJ ele não é um empreendedor. Uma pessoa que vende água na rua, por exemplo, se veste de garçom, deixa a água bem geladinha, vai servindo. Essa pessoa pode ser talvez considerado um empreendedor porque fez algo diferente.

Agora a pessoa que compra uma caixa de jujuba por R$ 0,50 cada uma e vende por R$ 2 é mais uma maneira de ganhar dinheiro. É quase uma esmola. Então é preciso diferencial e realmente é difícil classificar o que é e o que não é empreendedor. É muito subjetivo. Não acredito que ter um CNPJ é sinônimo de ser empreendedor. Mas, ao mesmo tempo, não é só porque a pessoa está ganhando dinheiro de forma autônoma que é uma empreendedora.

Só para ficar mais claro, quem é o empreendedor e quem é o empreendedor em potencial?
O empreendedor em potencial é aquela pessoa que vê uma oportunidade mas ainda não executou. Está no quase. Pode até ser a pessoa que vende a jujuba no sinal, que, de repente, ao invés de vender a jujuba do jeito que sempre fez, começa a recitar um poema para convencer a pessoa a comprar a jujuba. E da jujuba passa a vender um chocolate. Do chocolate, passa a ir para um ponto de ônibus e monta a barraquinha. E se torna empreendedor.

O que chamo de empreendedor em potencial é aquela pessoa que está em um lugar, às vezes trabalhando, às vezes não, mas que ainda não inovou. Pode até já ter visto a oportunidade, teve uma ideia, mas ainda não executou. O empreendedor é quem executa, faz algo direcionado à inovação. E quando falamos em inovação é algo diferente para ele ou para o bairro e que dê dinheiro. Porque não podemos chamar de empreendedor alguém que inventa algo que não dá dinheiro ou resultado algum.

“Começamos a oferecer produtos individualizados para cada tipo de negócio e atender as pessoas de forma mais personalizada”

“Vemos que aumentou o número de cursos. Concorrentes existem muitos. E aumentou a procura de pessoas por esse tipo de curso. As pessoas têm visto que precisam se capacitar” | Foto: Reprodução/Facebook

A participação da mulher no empreendedorismo, à frente dos negócios, é uma constante? É grande a presença da mulher no empreendedorismo em Goiás?
Nos nossos cursos, 75% dos alunos são mulheres. Notamos que são as mulheres mesmo que querem fazer os cursos. E muitos homens vão porque a mulher levou e acaba indo o casal. A mulher quer ter o negócio, quer seu posicionamento, ser independente pelas vantagens de ser empreendedora e ter seu próprio negócio: trabalhar em casa, ter mais flexibilidade de horário.

Em um emprego formal, sabemos que uma mulher é menos valorizada do que o homem na mesma função. O salário é menor. No empreendedorismo, ela tem a oportunidade de ter um salário igual. O número de mulheres empreendedoras é maior do que o de homens no Brasil. Empresas geridas por mulheres geralmente duram mais tempo. Os funcionários preferem líderes mulheres do que líderes homens.

Na nossa empresa vemos que são mais mulheres, que estão mais interessadas em aprender. Geralmente as mulheres criam uma bagagem maior antes de começar de fato um negócio. De forma geral, o homem é mais impulsivo, tem a ideia e quer começar. Em geral, a mulher tem a ideia, avalia o que sabe fazer, tenta melhorar o que não sabe fazer e, aí sim, começar o negócio.

Disse que muito homem vai porque a mulher leva. E tem muito homem que a mulher pediu. Ele chega ao curso e fala que a esposa disse que ele precisa aprender mais porque não sabe. A mulher está mais interessada em se capacitar mais.

É possível apontar três dicas básicas para começar a trabalhar o pequeno negócio em meio à crise?
Tem vários lados. Mas o principal no momento de crise é rever os cursos. Diminuir ao máximo os custos fixos. Diminuir o que gasta sem produzir. É preciso trazer isso para o mínimo possível. Ver o que é possível economizar e renegociar com operadoras, seja de internet, aluguel, fornecedores. O que dá para diminuir é o ponto principal.

Outro ponto é não paralisar. Não deixar o negócio morrer. Continuar lembrando os clientes que o negócio existe. Continuar lembrando, seja por rede social, telefone, WhatsApp, que o negócio continua existindo.

E a terceira forma é o processo. Pensar: “Como eu vou vender neste cenário em que não posso abrir as portas?”. Porque imaginamos que o comércio pode ser liberado na próxima semana. Mas se não liberar e eu precisar ficar mais um mês com as portas fechadas? Como posso manter o negócio: fazendo entrega? E muitas vezes ficamos focados na entrega tradicional.

Uma aluna tem um pub, encomendou vários litros de chope verde para o St. Patrick’s Day – 17 de março – e não teria como vender porque o pub não podia abrir. O que ela fez? Colocou os barris de chope em uma caminhonete e fez uma espécie de rodízio de chope. Ia à casa dos clientes servir o chope rodando a cidade. É preciso usar a criatividade para criar formas diferentes de entregar o produto.

Vi que nos Estados Unidos uma cidade estava com falta de papel higiênico. Uma empresa de publicidade tinha muito papel higiênico e resolveu doar os rolos. E passou a dar por drive-thru. Quando pensamos em drive-thru imaginamos o McDonald’s. Mas pode ser simplesmente a pessoa parada na calçada, o cliente passa de carro e o produto é jogado dentro do carro. Fizeram isso com papel higiênico, mas poderia ser feito com outros produtos.

Uma loja de roupa pode pensar em uma de higienizar a roupa, enviar para a casa da pessoa, que experimenta, devolve e você cria uma forma de desinfectar a peça antes de mandar para outro cliente. É preciso ciar formas alternativas de entregar o produto. A forma tradicional é o cliente ir até a loja e você entregar o produto. Pode até ser que as novas formas fiquem, seu negócio mude com o uso de uma entrega diferente.

Tem algo que não abordamos na entrevista e que gostaria de destacar?
O principal para este momento é ter a mente aberta. É preciso compreender que seu negócio pode não ser mais o que era antes. Um exemplo é a Sempreende, que é uma escola que vende cursos presenciais. De repente, podemos passar a vender os cursos 100% on-line.

É entender que é uma coisa incontrolável. Não adianta ficar lamentando, porque não foi culpa de ninguém o vírus e a pandemia. Todo mundo está sofrendo as mesmas consequências. A regra do jogo é a mesma para todo mundo. É preciso ter essa mente inovadora, pensar formas de inovar. É pensar fora da caixa.

Existem algumas técnicas que podem ser adotadas para pensar fora da caixa. Uma delas é o “e se”. E se eu puder abrir na semana que vem? E se eu ganhar um financiamento de R$ 100 mil? E se meus clientes não voltarem? E se meus concorrentes fecharem e só eu sobrar? É hora de pensar nas várias formas e conversar com pessoas de áreas que não têm nada a ver com a sua. Se você vende roupa, pergunte para alguém que vende cachorro quente o que ele acha que você pode fazer para sua loja vender mais. E ouvir.

Tire o não do vocabulário. A primeira reação de quem ouve uma sugestão é dizer que não vai dar certo por causa disso ou daquilo. Não ouve a ideia do outro e já fala que não vai dar certo. É hora de ouvir, entender, pegar ideias de amigos e evitar falar não de primeira.

Quem tem uma loja de roupa, por exemplo, e alguém sugere que a pessoa passe a levar a roupa na loja da pessoa. De primeira, a pessoa já diz que não dá. Então sugere para anunciar no Mercado Livre, mas a pessoa aponta outro motivo para já dizer que não dá. É hora de tirar o não do vocabulário. É hora de ouvir a ideia, pensar e estruturar o que é possível fazer.

Não vai ser aquela ideia exatamente a usada. Mas de uma ideia que não vai ser usada pode surgir outra ou unir mais ideias a partir de uma sugestão recusada. É preciso ouvir, estar aberto a ouvir e estar aberto à mudança. Não julgar logo de cara.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.