“Caiado é o oposto de Marina Silva, não é exemplo de conduta democrática”

Candidato da Rede/PSB ao Senado em Goiás faz críticas ao concorrente líder das pesquisas e diz que a ex-ministra do Meio Ambiente hoje é elogiada pelo agronegócio

Foto:  Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Aguimar Jesuíno ainda é uma figura desconhecida do eleitorado goiano. Como o próprio candidato ao Senado admite, é difícil para um novo nome da política concorrer com gente que tenha vários mandatos nas costas, como é o caso de seus adversários na disputa eleitoral — Vilmar Rocha (PSD), Marina Sant’Anna (PT) e, principalmente, Ronaldo Caiado (DEM). E é contra o deputado federal dos Democratas, que lidera as intenções de voto para a cadeira majoritária de Goiás no Congresso, que o procurador federal no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) centra sua maior munição. “A eleição dele é um retrocesso, do ponto de vista democrático, para Goiás”, justifica.

Para superar o pouco conhecimento diante da população goiana, Aguimar tem aproveitado o efeito Marina Silva, promovida a candidata nacional de sua coligação depois da morte de Eduardo Campos (PSB) em um acidente aéreo. Investe seu minuto de tempo eleitoral na TV em um vídeo em que ela o apresenta — Aguimar é um dos fundadores da Rede Sus­ten­tabilidade em Goiás e seria um dos nomes mais fortes do Estado em um eventual governo da ex-senadora.

Também agropecuarista, Aguimar diz que o programa do partido não é contra o agronegócio, culpa as gestões do Estado dos últimos 30 anos pela decadência da Celg e realça que lutará pela reforma política caso eleito. “É uma reforma política para aprimorar a democracia, que foi sequestrada pelo poderio econômico e por essas gangues partidárias.”

Elder Dias — Marina Silva é a favorita a vencer as eleições e o sr. é uma das pessoas mais próximas a ela em Goiás. Como será assumir um mandato com cerca de 5% da bancada do Congresso Nacional, se for mantida o atual número de parlamentares de sua coligação?
Será um grande desafio. Temos consciência das dificuldades que haverá para aprovar as leis com o fisiologismo que há hoje no Congresso brasileiro, com os caciques regionais tendo tanta força no Parlamento. Para enfrentar, temos de apresentar propostas que vão ao encontro dos anseios da população e fazer com que esta mesma população participe da discussão da legislação, por meio das ferramentas digitais, de debates públicos, de chamadas e outros mecanismos.
Temos exemplos concretos de projetos de leis que eram de interesse da população, não contavam com a menor simpatia de deputados e senadores, mas, mesmo as­sim, foram aprovados. Um bom exemplo é o Ficha Limpa. Nos dias anteriores, os parlamentares estavam dando declarações contra o projeto, que não tinha maioria no Congresso para ser aprovado. Na véspera, houve aquela grande manifestação na Esplanada dos Minis­té­rios, comandada pela CNBB [Con­ferência Nacional dos Bispos do Bra­sil], OAB [Ordem dos Advo­gados do Brasil] e outras entidades, que levaram centenas de cruzes e disseram que colocariam nelas os nomes de quem votasse contra o Ficha Limpa. Em poucos dias, o projeto foi aprovado fruto desse clamor social da população brasileira.
Outro exemplo é a PEC [proposta de emenda constitucional] 37, aquela que restringia poderes do Ministério Público. Já havia um acordo de lideranças no Congresso, quase um consenso, para aprovar essa proposta. Então, vieram as grandes manifestações de junho e tudo mudou. Em Goiânia, praticamente 80 mil pessoas foram às ruas. O Centro ficou lotado de jovens e também cidadãos de todas as idades. Também estive presente, participando daquele dia.
Naquele momento, o Ministério Público conseguia fazer uma conexão com a juventude e com a sociedade. A população nem sabia o que era exatamente a PEC 37, mas sabia que ela restringiria direitos. Então, logo na semana seguinte a PEC foi rejeitada, com pouco mais de 30 votos a favor dela, de 513 votantes. Isso de uma matéria sobre a qual já havia sido criado um consenso, um acordo. Então, um dos pontos que Marina pretende utilizar é a participação popular, abrir canais para que o povo possa participar.
O outro ponto é o processo de convencimento. Itamar Franco [presidente entre 1992 e 1994] sucedeu Collor de Mello e fez em pouco mais de dois anos de mandato sem fazer compra de votos no Con­gresso e sem loteamento de cargos. Mais que isso, ele conseguiu aprovar todas as matérias que enviou, entre elas o plano de estabilização econômica, o Plano Real. Ele foi um exemplo concreto de um presidente que, sem ter a maioria do Con­gresso e sem fatiar o Estado — como passaram a fazer já a partir do governo Fernando Henrique Cardoso [PSDB, presidente de 1995 a 2002] —, é possível governar.
Para isso é preciso diálogo. Não dá para ser como a presidente Dilma Rousseff (PT), que não estabelece diálogo com as bancadas, com os parlamentares, e quer passar um trator em cima. Ora, se você quer passar um trator, você tem de comprar. Aí fica fácil: não precisa negociar, basta entregar o Ministério da Agricultura para um, o Ministério do Transporte para outro, faz um mensalão e pronto, os votos estão comprados. Só que isso não é nada democrático, nada republicano.
Nós sabemos que será difícil, mas também sabemos que é possível. Será uma grande construção para a democracia brasileira acabar com esse tipo de governo que faz o fa­tiamento de Estado para partidos ou grupos políticos. É difícil, mas é possível, e engrandece a democracia.

Cezar Santos — Há uma argumentação contra a ex-senadora, segundo a qual ela se posta como antipolítica, colocando-se acima da própria política. Algumas propostas que ela tem sinalizado dão indicativos de que ela quer fazer uma democracia representativa direta, o que seria um desprestigio ao Parlamento.
Não é exatamente isso. Participei da discussão e da fundação da Rede Sustentabilidade. Fizemos muitos debates a respeito disso. O que há é uma desconexão, um divórcio entre a população e os políticos. Con­sequentemente, a população considera a política, como um todo, como algo muito estranho para sua vida. O que gerou esse divórcio? Principalmente esses 30 anos de péssimas gestões no Brasil e em Goiás. Os políticos participam dos processos eleitorais, fazem suas propostas e depois não honram seus compromissos. Passam a fatiar o Estado e a fazer negócios. Querem ganhar mandatos de deputado, governador ou senador não para fazer algo pela população, mas para fazer negócios, financiar suas próprias campanhas e, muitos deles, para levar dinheiro para casa.
Isso tudo criou uma revolta mui­to grande na população, que foi se distanciando dos políticos. A pessoa vota — até porque o voto é obrigatório —, mas, quando se faz o contato pessoal, percebe-se que ela está com uma certa distância, uma certa reserva, em relação aos políticos.
Marina Silva foi uma das primeiras políticas brasileiras a fazer essa leitura. Em todo o mundo, há cerca de 25% a 30% de pessoas que estão desconectadas dos políticos ou da política de seus países. Isso ocorreu recentemente na Itália, na Espanha também, enfim, em quase todos os lugares do mundo há essas pessoas que estão descontentes de uma maneira geral.
Como fazer para reaproximar as pessoas da políticas, fazer com que elas voltem a participar da política? Com esses partidos que têm dono isso não é possível. O PMDB de Goiás tem um dono. O PT nacional tem um dono, assim como PTB, o DEM e assim por diante. Esses partidos não fazem discussões, apenas obedecem a uma liderança hierarquizada. Nesse sentido, Marina quis puxar um movimento diferente, que fosse horizontalizado e que pudesse democratizar a discussão, inclusive usando a internet para fazer deliberações. Houve, então, a opção por criar um partido nesses moldes. O nome escolhido foi Rede, porque a concepção era essa — criar um partido em rede —, e Sustentabilidade, porque esse é o mote de todo o projeto para fazer um desenvolvimento econômico de forma sustentável.

Elder Dias — Marina Silva é o maior nome da Rede Sustentabilidade ho­je e será o nome mais influente. Na es­tru­tura formal do PT, Lula é apenas mais um, mas tudo o que é vo­ta­do in­ternamente acaba tendo u­ma enorme influência dele. O que im­pe­dirá que Marina se torne para a Re­de o que Lula se tornou para o PT?
Hoje, a rede é uma organização que será registrada como partido em janeiro próximo. É uma organização pequena, não tem capilaridade nenhuma. Não temos como tapar o sol com a peneira: ela foi formada pela liderança da Marina. Essa questão que você levanta é muito forte, importante, mas a ideia é criar essa capilaridade, fazer com que pessoas que estão avessas à política e aos políticos possam se interessar pelo assunto, vir conversar e até compor conosco. Nossa estrutura tem um conselho de cidadãos não filiados para fazer o intercâmbio, dar sugestões e pontuar críticas.
Mas, sem dúvida, Marina é a figura mais forte, mais importante. Ela foi a líder desse processo de criação, mas a ideia não é a essa de ser um partido com dono, que fale por ele sem consultar os demais. E Marina Silva é uma pessoa muito democrática. Ela se senta para participar de uma reunião e, às vezes, fica o dia todo, até porque nossas reuniões são muito demoradas. Há uma questão interna de nosso estatuto segundo a qual temos de buscar sempre um consenso progressivo. Às vezes, então, discutimos um ponto por uma hora, duas horas, três horas, dez horas, até conseguir afunilar uma decisão consensual. Às vezes varamos uma noite discutindo. Esse é o estilo de Marina, que, repito, é democrática e ouve muito as pessoas.

Euler de França Belém — Então, o pessoal da Marina, em janeiro, dei­xa o PSB e vai para a Rede Susten­tabilidade?
Temos a meta de efetivar o registro da Rede até janeiro do próximo ano, até porque há uma emenda constitucional no Con­gresso que restringe ainda mais a criação de partidos. Precisamos nos antecipar a essa emenda.

Euler de França Belém — Então, é fato que Marina e vocês vão deixar o PSB?
Nós não somos do PSB. Marina e eu não somos do partido. Naquela filiação democrática patrocinada por Eduardo Campos, isso ficou acertado: todos nós nos filiamos apenas para participarmos do processo eleitoral. Então, ninguém ganha ninguém, eu sou da Rede, Marina é da Rede, Walter Feldmann [ex-deputado federal por São Paulo pelo PSDB e coordenador-geral da campanha de Marina] é da Rede.

Elder Dias — Isso foi um acordo formal, está no papel, ou é um acordo apenas político?
Isso ficou alinhavado. Na época, esses pontos foram apresentados à imprensa. Eduardo Cam­pos chegou a abrir o partido para que a Rede in­dicasse membros para as executivas no PSB no Brasil inteiro e dissemos que não queríamos, porque não somos do PSB. Não tem ninguém de nós, da Rede, que ocupe cargo no PSB.

Euler de França — Por que os banqueiros estão tão empolgados com Marina Silva, principalmente Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú, o maior banco brasileiro?
Maria Alice Setúbal, a Neca Se­túbal, é uma das fundadoras da Rede e integra a coordenação nacional. Ela participou do ato de fundação, em Brasília, e acompanhou Marina em todo o processo de discussão e formatação da Rede Sustentabilidade. Ela é, portanto, uma militante da Rede. Uma doutora, educadora, professora da PUC-SP [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo], pessoa respeitadíssima no meio acadêmico. Hoje ela é uma das coordenadoras do nosso programa de governo.
Por que o setor financeiro está, digamos assim, declarando que um eventual governo de Marina Silva não é contra seus interesses? É muito simples: desde 2010, Marina defende o tripé econômico adotado por Fernando Henrique Cardo­so, que Lula manteve e que Dilma dis­se que iria manter, mas não cumpriu. Esse tripé é constituído de meta de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal. Dil­ma tem desleixado com todas essas três questões, não as tem perseguido. Marina acha que isso é muito importante para manter a estabilidade econômica do País, conquistada por Fernando Hen­rique — a um custo muito grande, inclusive a venda de muitas empresas estatais. Sem isso não teríamos o crescimento que tivemos. A isso, Eduardo Campos acrescentou a independência do Banco Central, que é uma questão altamente polêmica.

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Elder Dias — Essa autonomia do BC vem da proposta de governo de Eduardo Campos?
Sim, e Marina manteve todos os compromissos assumidos por Eduardo, inclusive este. Não se discutiu os detalhes de como isso se dará. Obviamente, terá de ser feito um projeto de lei, a ser enviado ao Congresso, estabelecendo como serão indicados os diretores do Banco Central, o tempo de mandato, entre outras questões.

Euler de França Belém — E o sr., pessoalmente, defende a autonomia do BC?
É uma matéria complexa. Na prática, durante os governos de Fernando Henrique e de Lula o Banco Central brasileiro teve autonomia. Agora é que está havendo muita interferência. Acredito que a política não deva interferir muito na atuação do BC, para que este cumpra sua tarefa constitucional, que é manter a estabilidade da moeda.

Euler de França Belém — A Rede Sustentabilidade é socialista?
Não, a Rede não é socialista.

Euler de França Belém — O que ela é, exatamente? Como defini-la, política e ideologicamente?
Nos dias de hoje, no mundo moderno, em que há tanto tempo se discute capitalismo e socialismo, “direita” e “esquerda”, termos originários da Revolução Francesa, há uma nova época. Esses termos ficaram muito desgastados. Consi­de­ramos que o mais importante, hoje, é resgatar princípios éticos, de transparência, de valores, de respeito à coisa pública e, principalmente, de sustentabilidade.
O planeta todo caminha para uma catástrofe anunciada. Se não tomarmos medidas urgentes, esse planeta vai aquecer quatro graus Celsius até 2100, os oceanos vão subir de um a dois metros em todo o mundo, com alagamento de cidades em toda a Terra. Isso foi detectado pelo IPCC [sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], o painel climático da ONU [Orga­nização das Nações Unidas]. São dados divulgados em abril que dizem respeito a mudanças muito sérias que estão acontecendo. E tudo isso está muito acima dos conceitos de esquerda e de direita. O que propomos em nosso estatuto é o desenvolvimento sustentável, com ética, transparência, pluralismo e respeito às minorias.
Não estamos propondo estatizar nada, ou privatizar nada. Queremos apenas aperfeiçoar a democracia brasileira e dar um salto para frente, fazendo desenvolvimento com sustentabilidade. Não é socialismo. Estamos no PSB, que é um partido socialista “no nome”, digamos assim, mas a Rede não é socialista.

Euler de França Belém — Seria algo próximo do nacionalismo?
Digamos que seja o partido da ética e da sustentabilidade.

Euler de França Belém — Algo próximo à socialdemocracia?
Todos os que integram a Rede têm uma vertente socialdemocrata ou de esquerda, se for para colocar sob esse aspecto.

Euler de França Belém — Em questões como o casamento gay, ficaram dúvidas sobre o posicionamento de Marina Silva. Qual é a posição real dela e a sua?
A minha é aquela que o CNJ [Conselho Nacional de Justiça] já definiu, a união civil. Nesse caso, as pessoas já moram juntas, convivem há décadas. No caso de morte de uma das pessoas, os bens não iam para o parceiro, porque o Código Civil dava outra destinação. A pessoa também não tinha benefício previdenciário. Com a união civil, resolvem-se as questões de partilha de bens e relativas à Previdência Social. É basicamente o projeto proposto por Marta Suplicy [senadora licenciada (PT-SP) e atual ministra da Cultura], o qual o CNJ acabou encampando. É isso também o que Marina defende, a união civil, nada a ver com o casamento matrimonial, como ocorre nas igrejas. É uma questão apenas de nome, uma questão semântica. Essa união civil, que já está regulamentada no Brasil, está em nosso programa.

Cezar Santos — Marina Silva teve 20 milhões de votos para presidente em 2010, mas ficou apenas em 3º lugar no Acre. Ela faz parte da elite dirigente do Estado e seu marido [Fábio Vaz de Lima], até duas semanas atrás, compunha o governo de Jorge Viana [era secretário-adjunto]. Ou seja, o acreano, que conhece Marina, não votou nela. Como explicar isso?
Isso não é complexo. O Acre tinha governo do PT, forte, com um governador [Binho Marques] com boa aprovação. E Marina era ministra do governo petista e deixou esse time, foi para uma outra vertente. Então, no Acre, o governo era forte e conseguiu dar a maioria de votos para o PT em 2010. Na entrevista ao “Jornal Nacional”, ela até brincou, dizendo que santo de casa não faz milagre. O que houve no Acre foi isso, inclusive o pessoal de Ma­rina continuava a integrar a estrutura do governo petista no Acre.

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Elder Dias — Ou seja, Marina deixou a estrutura do PT no Acre e foi sozinha lá?
Sim, porque o pessoal dela continuou a compor, em aliança, o governo do PT.

“Reforma política é necessária para o País”

Frederico Vitor — Quando o sr. conheceu Marina Silva e qual foi sua impressão dela, pessoalmente?
Eu a conheci recentemente, no processo de discussão e fundação da Rede, em fevereiro de 2013, antes só a conhecia pela TV e por suas ideias. É uma pessoa absolutamente simples, muito amável, que inspira muita confiança. Parece ser uma mulher muito séria e determinada, muito firme apesar de seu jeito franzino. Uma mulher que veio do povo e que me causou uma impressão muito boa, por sua firmeza de propósitos.
Quando houve o indeferimento do registro da Rede pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), praticamente todos os partidos pequenos — PHS, PEN, PV, PPS — se ofereceram para abrigá-la como candidata a presidente. Ela recusou todos, alegando que não queria ser moeda de troca no segundo turno, buscando manter sua integridade. Então, apareceu a figura do senador Pedro Simon (PMDB-RS) que disse então a Marina: “Vamos procurar Eduardo Campos, ele é um sujeito honesto, decente.” Pedro Simon ligou para Eduardo e fez essa ponte com Marina. Mas Marina não foi para o PSB para ser candidata a presidente, como queriam os outros partidos, mas para somar com Eduardo. Ela disse que não queria ser candidata só por ser. Preferiu fazer uma aliança programática com seu nome; se servisse como candidata a vice-presidente, tudo bem. Mas o lugar era de Eduardo.

Euler de França Belém — Como o sr. se posiciona em relação ao aborto?
Para mim, deve prevalecer o que está na legislação em vigor, aqueles casos previstos pelo Código Penal [o chamado “aborto legal” ocorre em caso de estupro ou de risco de vida para a mãe]. Não é possível permiti-lo de modo indiscriminado. É uma questão dolorosa, uma agressão à vida, à mulher. A legislação brasileira atual já regulamenta a questão da maneira adequada. Eu não proporia alterações nesse tema, nem a Rede está propondo algo.

Euler de França Belém — E em relação à redução da maioridade penal?
Sou contra. Nas entrevistas que concedi em rádios, me disseram, brincando, que eu até perderia votos por ter esse pensamento. Mas sou contra por causa da precária estrutura do sistema prisional e carcerário que temos hoje, no Brasil. Sou contra, mas proponho alternativas para a questão. O menor hoje comete um crime com 17 anos e 364 dias e não pode sofrer as punições do Código Penal com a pena máxima de 30 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê uma internação máxima de três anos. O que eu proporia para substituir esse rigor do Código Penal? Proporia que essa internação fosse estendida para dez anos. Proporia também que os criminosos que se utilizam do trabalho de menores para a prática de crimes não gozassem de nenhum benefício da legislação, principalmente a progressão e mudança de regime e que a pena desse meliante fosse agravada em um terço, para que ele não se sinta tentado a usar o consórcio de menor para a prática de crimes. Esse é um ponto.
Outro ponto é que os Estados cumpram seu papel estabelecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. É preciso construir o centro de internações, onde o menor fique internado ou recluso, mas que possa receber educação em tempo integral, uma formação profissional e assim, no futuro, que ele possa ser reinserido na sociedade. Se nós reduzirmos a maioridade penal para 17 anos, o bandido vai atrás de alguém com menos de 17 anos. Se o limite for 16, ele vai atrás de um menor com 15 anos, 14 ou 13. Assim, onde vamos parar? Nós temos de estabelecer uma política de proteção dos menores.

Euler de França Belém — Sobre a legalização da maconha, qual sua posição?
A questão da liberalização das drogas, em geral, começou na Holanda. Lá, houve a liberação em um bairro de Amsterdã, onde se permite o comércio e o uso indiscriminado de drogas. Nos Estados Unidos, já há 22 Estados que permitem o uso da maconha para fins medicinais. Nos Estados de Washin­gton e Colorado foi permitido o uso para fins recreativos, também. Israel permite para fins medicinais, como algumas doenças terminais em que a morfina, por exemplo, já não faz mais efeito. Tanto americanos quanto israelenses permitem que se compre a maconha com receita médica para tratamentos terapêuticos. O Uruguai, no ano passado, liberou de maneira geral o uso e comercialização da maconha. O que me chama a atenção é que todos esses países já resolveram sua agenda social — problemas de saúde, de educação, de transporte, de segurança pública. Portanto, nossa agenda agora é resolver essas questões sociais. Depois, podemos fazer essa discussão sobre o uso da maconha, que precisa ser feita com a sociedade brasileira. Só não acredito que seja a agenda do momento.

Elder Dias — O sr. não acha que a droga em geral interfere na agenda da violência, da segurança pública? Ou seja, a criminalização da droga não leva a um aumento da violência, por meio do tráfico?
Concordo. Mas como resolver isso? Liberando o uso da maconha? Os que usam a maconha não são cri­­minosos, agressivos. Aliás, eles ficam até mais lentos, mais tranquilos.

Elder Dias — Mas o tráfico de drogas é agressivo.
O tráfico é agressivo. Mas o que gera mais violência são essas drogas mais pesadas, que são caras e têm um mercado muito grande, como a cocaína e o crack, entre outras.

Euler de França Belém — Marina mudou a posição dela sobre os transgênicos?
Ela era ministra do Meio Ambiente quando foi liberado o uso dos transgênico no Brasil. Estava contra, mas foi convencida no processo.

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Elder Dias — Ela foi convencida ou derrotada no processo?
Eu não tenho o resultado do conselho que votou a deliberação e qualquer informação que eu desse poderia cometer um erro. Mas sei que na gestão dela foi liberado o uso de transgênicos e essa norma foi cumprida. O Ministério do Meio Ambiente emitiu as licenças que tinha de emitir. Então, essa é uma página virada. O Brasil, hoje — e eu também sou agricultor, tenho uma pequena propriedade rural — usa semente transgênica. Há duas questões: uma é o mercado europeu, que não gosta de transgênicos; por outro lado, há o menor uso de herbicidas com os transgênicos. Até do ponto de vista ambiental, o transgênico exige menos uso de herbicida por ser, biologicamente, mais resistente aos ataques de pragas que existem. Marina não propõe voltar atrás e proibir o uso de transgênicos no Brasil. Isso é página virada, repito.

Euler de França Belém — O sr. não acha que, do ponto de vista ético, de transparência, seria importante que Marina revelasse quem são as pessoas que a contratam para dar conferências, com as quais ela fatura R$ 1,6 milhão por ano?
Isso deve estar no Imposto de Renda dela, não?

Euler de França Belém — Está no Imposto de Renda, mas ela alegou confidencialidade para não revelar o nome dos agentes.
Em minha opinião, tudo deveria ser totalmente transparente. E creio que ela deva ter entregado essas informações do Imposto de Renda ao TSE.

Euler de França Belém — Paulo Garcia (PT) foi eleito prefeito de Goiânia com a proposta de fazer de Goiânia uma cidade sustentável. No entanto, em seu segundo mandato, ele não está conseguindo implementar essa proposta. Como é que o sr. avalia essa gestão dele?
Eu a avalio como a pior gestão da história de Goiânia, de toda a história da capital. Eu nunca vi nada tão desastroso na minha vida. Moro aqui há 30 anos e nunca vi uma cidade tão mal cuidada. Vamos ser honestos: não dá para pôr a culpa em Iris Rezende (PMDB), porque Paulo está no mandato há mais de cinco anos. Não dá para dizer que a culpa é da gestão passada. Se bem que, mesmo na gestão passada, Paulo era o vice, era partícipe de tudo.
Onde Paulo errou? Errou em inchar a máquina pública com cargos comissionados. Errou ao incorporar a Comdata [Companhia de Processamento de Dados do Município de Goiânia], na qual o pessoal era celetista, colocando todos como estatutários — ou seja, quem recebia os benefícios pelo INSS passou a ter aposentadoria integral paga pelo Tesouro municipal. Houve também aquela gestão da Comurg com salários acima do teto constitucional, algo escandaloso, esdrúxulo e, parece, com o fim de corromper o sindicato, de partidarizá-lo, algo assim. E a verba é a mesma, a receita é a mesma. Se gastam mal, se incham a máquina com cargos comissionados que nada rendem para a cidade, o dinheiro faltará em algum lugar. Mas eles não são tão burros assim. Pensaram “nós gastaremos, então aumentaremos o IPTU e, assim, pa­garemos as contas sem ninguém ficar sabendo”. Só que a Câmara rejeitou o aumento do IPTU e o descaso administrativo teve, então, de vir à tona. A sociedade se levantou e impôs uma derrota a Paulo Garcia na Câmara, ainda que com apenas um voto de diferença. Ele queria transmitir para nós o fruto da incompetência administrativa dele.
Goiânia não é sustentável do ponto de vista ambiental. Nós temos um aterro sanitário onde não se separam os resíduos sólidos do orgânico. Não faz compostagem do resíduo orgânico. Los Angeles [cidade da Califórnia, EUA] faz isso há mais de 20 anos e essa é a melhor técnica que se tem para tratamento de resíduos, separando o inorgânico do orgânico. Faz-se a compostagem do orgânico, em que se acrescenta a poda das árvores, dos vegetais, há o processo de fermentação e, então, isso volta para natureza. Você repõe onde extraiu. É a melhor técnica do mundo. Não há aqueles fornos de incineração, a mais sustentável é esta forma: a compostagem do orgânico e a reciclagem do inorgânico. Simples e rentável, até. Di­vi­dindo Goiânia em quatro quadrantes e comprando uma chácara em ca­da quadrante desses, para os caminhões não ficarem circulando de lá para cá, instalam-se estações de compostagem ao invés de construir uma montanha ao lado da capital. Coisa simples, nada de reinventar a roda. Mas eles não querem fazer.

Euler de França Belém — Portanto, o sr. acredita que sustentabilidade, nesse caso, foi apenas marketing?
Apenas. Não há sustentabilidade ambiental. O trânsito, sem mobilidade urbana, na capital é um caos, não tem nenhum tipo de planejamento. Não se tem um transporte público de qualidade e a Prefeitura nem sequer tem caixa para isso hoje — com essa estrutura tributária que nós temos no Brasil a União teria de auxiliar e, do ponto de vista econômico e financeiro, o município não tem sustentabilidade nenhuma. A Pre­feitura está devendo R$ 400 milhões e essa dívida sobe todos os dias. O que seria necessário fazer? Cortar na carne. Cortar esses cargos comissionados, que não fazem falta à Prefeitura, e nomear um servidor concursado para ser chefe, estabelecendo planos de meta. Mas não fazem isso.

Euler de França Belém — E isso é falta de quê, em sua visão?
O que há passa pelo fato de levarem partidários para dentro da gestão. É misturar partido com administração. Levam dirigentes sindicais, dirigentes de associações, de grupos de minorias, todos para receber salário do dinheiro público. A política é errada, desastrosa, maléfica para a cidade. O critério não é competência; se fosse, nomeariam os gestores dessas entidades todas usando o critério da iniciativa privada, por meio de um head hunter, buscando competência na sociedade para ocupar aqueles lugares, que era o que deveria ser feito. Deveriam buscar competência para ocupar os cargos públicos e não a designação dos candidatos perdedores de eleição, com a desculpa de que “ele perdeu a eleição, então vamos colocá-lo em alguma secretaria, em alguma divisão, na chefia de uma diretoria etc.”.

Euler de França Belém — Por que Marina vetou a aliança do PSB com Ronaldo Caiado [deputado do DEM e candidato ao Senado] em Goiás?
São vários os motivos. Pri­mei­ro, é a questão democrática. Caiado, embora esteja em um partido que se chame Demo­cratas, não é democrático. E queremos fazer uma democracia de alta intensidade no Brasil, com muita participação popular, ouvindo a comunidade, criando conselhos populares, envolvendo a sociedade como um todo no processo. Nós achamos que é necessário ter alternância de poder, não só nas estruturas de governo de municípios, Estados, União, mas também as estruturas partidárias precisam se oxigenar. Precisam fazer eleição, renovar, trocar suas lideranças.
Caiado é presidente eterno do partido dele, então não há exemplo de uma conduta democrática. Na questão ambiental, ao invés de buscar um consenso para que o País possa estabelecer uma agenda de crescimento, com respeito ao meio ambiente e com sustentabilidade, o discurso dele é todo na desídia, na controvérsia. Pois, em cima da controvérsia, da desídia, ele se reelege deputado federal. Nós queremos construir uma agenda para um País sustentável, mas com preservação ambiental e vários outros pontos. A democracia é o principal da agenda. Ele traz ainda um ranço do passado, da ditadura, em sua conduta.

Euler de França Belém — O sr., então, considera Caiado como um político autoritário?
Considero e, em minha opinião, a eleição dele ao Senado, que se avizinha, é um retrocesso, do ponto de vista democrático, para Goiás. Não é um avanço, não é o que precisamos no Congresso para fazer as mudanças que o Brasil precisa.

Euler de França Belém — Mas por que Caiado lidera as pesquisas de intenção de voto?
É o mais conhecido. Noventa e cinco por cento da população de Goiás conhece Ronaldo Caiado. E o período de campanha eleitoral no Brasil foi sendo encurtado com o tempo, cada eleição tendo um período menor. Na campanha, eu tenho 19 programas de televisão com um minuto. Dezenove minutos. Com esse tempo, como eu vou ficar conhecido por 6 milhões de goianos? Isso é praticamente impossível. Portanto, o sistema eleitoral foi feito para reeleger quem está aí, para replicar o erro, porque são eles que fazem a lei e se beneficiam disso. Eles querem fazer campanha de 30 dias, porque se gasta menos e não se permite aos novos se tornarem conhecidos pelo grande público. E Caiado não tem escândalos que o envolvam, do ponto de vista ético. Aí, quando apresentam a cartela, o mais conhecido é Caiado. Cabe a nós descontruirmos isso ao longo do processo, que é muito curto.

Cezar Santos — O que o sr. fará para se apresentar ao eleitor como uma alternativa melhor do que Caiado?
Eu tenho discutido minhas propostas em todos os veículos de comunicação de Goiás que me deram essa oportunidade, com detalhes, para que a população conheça minhas ideias. Os jornais atingem um público pequeno. Vem, então, a propaganda eleitoral, que estou usando da melhor forma possível, fazendo o programa um pouco diferente, menos maçante, para chamar a atenção das pessoas para minhas propostas. Mas, com esse divórcio da população com a política, as pessoas desligam a televisão no horário eleitoral. Não querem ver. As pesquisas indicam que apenas 20% dos televisores estão ligados no horário eleitoral. E no interior as pessoas ficam com televisões ligadas, mas as antenas mal pegam a programação de Goiás, porque têm parabólicas. Nas maiores cidades de Goiás temos TVs a cabo e a classe B, C e D já estão com TVs por assinatura. Assim, elas mudam de canal por aquilo que conversamos anteriormente, pela ojeriza à conduta de políticos. Existe essa dificuldade para romper. Eu precisaria de R$ 20 milhões. Só dessa forma eu conseguiria massificar minha imagem em um mês em todo Estado de Goiás. Faria cavaletes, banners que são permitidos, colocaria um exército de 3 mil pessoas nas ruas, distribuindo meu material pelo Estado. Mas eu não tenho esse recurso.

Euler de França Belém — Isso significa que Caiado tem esses recursos, pois a presença dele está ostensiva.
Tem. Só nas contas dele apresentadas ao TSE, Caiado colocou R$ 15 milhões para sua campanha. E ainda tem a campanha a governador, que o leva junto e investe no nome dele mais uns R$ 5 milhões, pelo menos.

Euler de França Belém — Eleito senador, o que o sr. fará? Quais são as suas principais propostas?
A reforma política é muito importante. Teríamos de proibir as doações de pessoas jurídicas para as campanhas. Defendo a reforma política proposta pela OAB, que propõe a doação máxima de um salário mínimo por pessoa física e que proíbe a do ação de pessoa jurídica. Isso iria equilibrar o jogo eleitoral.

Cezar Santos — É a proposta que está no STF [Supremo Tribunal Federal]?
A da OAB será apresentada agora, em setembro. No STF há o mandato de segurança para coibir a doação de pessoas jurídicas. Mas está indo uma proposta para o Congresso Nacional, que é uma emenda de iniciativa popular da OAB e da CNBB. A campanha, então, seria puxada com recursos públicos e com doações de pessoas físicas limitadas a um salário mínimo. Assim, existiria um equilíbrio democrático para disputar a eleição. Qualquer cidadão poderia sair candidato a senador em condições de igualdade. No cenário atual, o poder econômico faz a diferença. Muitas pessoas me dizem “ah, você vai ficar forte na próxima eleição, nessa você só vai ficar conhecido” (risos). Portanto, seria necessária essa reforma política para aprimorar a democracia brasileira, que foi sequestrada pelo poderio econômico e por essas gangues partidárias. Houve um verdadeiro sequestro da democracia.
Então, vou atuar em prol da reforma política, do financiamento democrático de campanha limitado a um salário mínimo e pelo fim da reeleição, com mandatos de cinco anos para todos, inclusive para senadores. Por que propomos isso? Porque o financiamento dos Estados, municípios e da União é queimado de dois em dois anos para fazer a reeleição de alguém. Isso custa muito caro ao desenvolvimento do País, pois é dinheiro público jogado fora. Por isso, com o mandato de cinco anos, teríamos ao menos quatro anos para execução dos projetos que foram aprovados pela população, na urna. E sem reeleição.
Nós da Rede, vamos além — e is­so está no plano de governo de Marina: nós propomos apenas uma reeleição para parlamentar. Em Goiás, meus concorrentes ao Senado têm cinco mandatos de deputado federal. O que esses ho­mens farão de novo no Congresso Na­cional, se eles tiveram 20 anos para fazer o que eles estão prometendo na TV e não fizeram? O que eles farão? Eles falam de saúde, educação, etc., mas eu nunca os vi articulando a bancada de Goiás para fazer um trabalho conjunto, ao invés dessa individualidade das emendas parlamentares, ou emendas de bancada para beneficiar o Es­tado como um todo. Eles não fa­zem isso. Todos olham para seu umbigo, para seu quintal. Querem fazer emenda individual para levar para o sindicato rural ou para determinada Prefeitura e, normalmente, todos eles indicam as construtoras que farão as obras. E nós sabemos o que se passa nessa relação de empresa, prefeituras e deputado federal.

Elder Dias — O efeito que o sr. abordou agora, nessa resposta, aconteceu com Marina Silva. Ela ficou conhecida em 2010, teve 20 milhões de votos e, agora, apesar de ter uma estrutura bem menor comparada a de outros dois candidatos, esse poderio econômico não está prevalecendo, no momento.
Mas, na eleição passada, ela conseguiu conversar com a sociedade, conseguiu passar simpatia para sociedade. Só que naquela eleição, ela não ameaçou os outros concorrentes. Ela foi bem, mas não era uma ameaça a ninguém.

“Precisamos unificar as polícias”

Euler de França Belém — O que o sr. propõe para a segurança pública?
O ponto mais polêmico que defendo é a PEC 51, que prevê a união das polícias e a desmilitarização da Polícia Militar. No Brasil, nós temos a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal; nos Estados, temos a Polícia Técnico-Científica, a Polícia Civil e a Polícia Militar. O Congresso Nacional deu poder de polícia, no mês de julho, às Guardas Municipais. Então, nós estamos com quatro polícias, cada uma com área de atuação separada. Um PM vê um cidadão cometer um ilícito de trânsito muito grave, mas não faz nada, porque a competência é do município; um guarda municipal vê alguém cometendo um homicídio e não faz nada, porque a função dele é guardar as escolas e fazer a vigilância dos prédios públicos municipais; policiais militares e civis estão constantemente envolvidos em brigas entre eles. É uma desordem total e o bandido reina quase sozinho.
Precisamos unificar essas polícias. O único lugar do mundo que tem essa divisão é o Brasil. No Canadá, por exemplo, é só uma polícia, municipal ou por condado, sob comando único, com carreira. E tem uma escola nacional de segurança pública, pela qual todos os policiais são obrigados a passar, recebem formação e só depois vão para as ruas. Nos Estados Unidos, a mesma coisa. Eu proporia que no Brasil se criasse também essa escola nacional de segurança pública, para dar aos nossos policiais a formação necessária, tanto de inteligência quanto de intervenção de força, direitos humanos, enfim, para uma conduta correta no trato com a população. Proponho também a unificação da carreira e de vencimentos, não é justo um policial de Goiás ganhar menos do que um de Brasília ou de São Paulo.
É preciso mais investimento em inteligência, porque estamos em plena era da tecnologia da informação e nossas polícias são muito mal equipadas. Dou um exemplo pessoal: tive o carro roubado à mão armada recentemente, na Praça do Setor Nova Suíça, fiquei refém por 20 minutos. Depois, fui registrar queixa no distrito policial mais próximo, no Jardim América. Lá, me informaram que não se faria a ocorrência, teria de ser na Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos, próxima ao Detran, na Cidade Jardim. Ao chegar lá, o funcionário não me perguntou nada sobre a aparência do assaltante, circunstâncias do crime etc., não quis nem saber. Ora, a tecnologia permite que se faça a ocorrência na primeira viatura, através de um tablet, online, e isso cai já no sistema da polícia, possibilitando, quem sabe, que imediatamente o bandido possa ser preso. Não precisa reforma constitucional para fazer isso, as normas existentes já possibilitam.
Então é preciso investir em tecnologia da informação e ter gestão das polícias e formação dos policiais. Sobre essa PEC 51, costumo dizer que a PM hoje tem função de proteger o Estado, os governos e os governantes, e não o cidadão. Precisamos de polícia para proteger a vida das pessoas, uma polícia cidadã, com uma mudança de conceito. E é preciso alterar a legislação. Na verdade, a União se omite na questão da segurança pública, sem diretrizes, não colabora com os Estados do ponto de vista financeiro. E, pior, não cumpre seu dever constitucional de defender as fronteiras do Brasil, por onde entram armas pesadas e drogas, isso não é tarefa dos Estados. Os Estados não têm culpa se há tráfico de drogas em seus territórios. Estados e municípios pagam essa conta.

Euler de França Belém — Uma reforma do pacto federativo poderia melhorar esse quadro?
É outra questão. É preciso uma reforma tributária urgente e eficaz, reduzindo o número de tributos e alargando a base tributária, usando também a tecnologia da informação. Precisamos também fazer o pacto federativo, já que a União concentra 70% dos recursos tributários, enquanto ficam Estados e municípios com apenas 30%. Mas transporte urbano é de responsabilidade dos municípios; saúde e educação, dos municípios e dos Estados; segurança pública, só dos Estados. Então, Estados e municípios, com essa distribuição de FPM [Fundo de Participação dos Municípios] e FPE [Fundo de Participação dos Estados], não conseguem fazer face às despesas obrigatórias constitucionais. É preciso redistribuir. Eduardo Campos falava que de imediato iria aumentar em 2 pontos porcentuais do FPM e do FPE. Marina Silva afirmou que vai honrar todos os compromissos assumidos por ele com a sociedade brasileira. Então, teríamos de imediato um repasse maior aos Estados e municípios, até que se faça o pacto federativo.

Euler de França Belém — O sr. se coloca como um candidato municipalista?
Eu sou municipalista. Os serviços são prestados nos municípios, que precisam ser fortalecidos, como os Estados, e esvaziar Brasília. Não tem de ter aquele amontoado de coisa, em termos de estrutura administrativa, em Brasília, têm de ir para os Estados. Nós recriamos a Sudeco [Superin­tendência de Desenvolvimento Sustentável do Centro-Oeste], mas a sede é em Brasília. Não pode ser assim. (enfático)

Cezar Santos — E a presidente Dilma Rousseff, em campanha, fala como se ela não tivesse nada a ver com o problema, reclamando que os Estados não aguentam tanta responsabilidade, sendo que ela e o partido dela não mexeram uma vírgula em favor de uma repactuação federativa nestes anos todos. Ela fala como se fosse oposição.
Exatamente. Fiquei estarrecido vendo a distribuição de máquinas, patrolas, motoniveladoras, tudo isso doado pelo governo federal às prefeituras. Prefeito tem de pegar um carro, um avião e ir a Brasília, pedir à presidente, a Olavo Noleto [ex-subchefe de As­suntos Federativos da Secre­taria de Relações Institucionais da Presidência, agora candidato a deputado federal por Goiás], na secretaria, “pelo amor de Deus, me dê duas patrolas”. Aí perguntam o que vão receber em troca, se vão dar apoio político ou no Congresso Nacional. Nem toda prefeitura precisa de patrola, o que precisa é o governo passar recursos para a prefeitura administrar. É com esse toma lá dá cá que queremos acabar no Brasil, com o fim desse presidencialismo de coalizão.

Euler de França Belém — A saúde também não é um problema em que o governo federal deve entrar mais, em vez de deixar apenas para municípios e Estados?
Eu acho que sim, e cito núme­ros sobre a saúde. Em 2000, o governo federal custeava 59,8% dos recursos gastos pelo SUS com a saúde. Em 2011, esse gasto ficou com índice de 45,4%, ou seja, uma redução de 14 pontos porcentuais por parte da União. As prefeituras e os Esta­dos não aguentam cobrir essa conta. Por isso, nossa coligação à Presidência e eu aqui em Goiás defendemos aquele projeto de lei de iniciativa popular, denominado Saúde+10, que preconiza o repasse de 10% da receita bruta da União para a saúde. Só assim para parar de vez com o sequestro da verba da saúde que esse governo federal tem feito, num descaso total com o setor. Um médico amigo, de Nerópolis, me dizia que, desde que foi extinta a CPMF [Con­tri­bui­ção Provisória sobre Mo­vi­mentação Financeira], nunca foi reajustada a verba do SUS, que nem cobre os custos dos hospitais. Por essa razão, nos últimos a saúde pública perdeu milhares de leitos no País. Este governo priorizou dar bolsas, que têm efeito muito maior do ponto de vista eleitoral, e trata com descaso total a saúde, a educação e a segurança pública.

Euler de França Belém — Em Goiás, há uma polarização entre o PMDB, que caminha para perder a quinta campanha, e o PSDB de Marconi Perillo. Iris Rezende não sobe nas pesquisas, mas ele não permite que outros opositores, como Vanderlan Cardoso, de seu partido, e Antônio Gomide (PT), cresçam. Isso enfraquece a oposição?
Concordo. O PMDB em Goiás tem um piso, do qual não cai, mas quando sobe também tem um teto, por volta dos 28%. Quebrar essa barreira é muito difícil, dada à história de 1982 para cá. Há uma faixa de eleitores que vota nele sem considerar nenhuma outra opção. Acho que os adversários do PMDB, incluindo meu candidato, acabaram detectando isso.

 Candidato Aguimar Jesuíno fala a editores e repórter do Jornal Opção: “Defenderemos o fim da reeleição” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Candidato Aguimar Jesuíno fala a editores e repórter do Jornal Opção: “Defenderemos o fim da reeleição” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Cezar Santos — Seu candidato, Vanderlan Cardoso, centra ataques a Marconi, que, as pesquisas indicam, já está no segundo turno e tem mesmo possibilidade de liquidar a eleição logo em 5 de outubro. O adversário de Vanderlan não seria, na verdade, Iris Rezende?

O adversário de Vanderlan é Iris, porque o segundo turno é ou­tra eleição. Eu vou poupar um adversário pensando em aliança no segundo turno, mas tem uma coisa: e se eu não for para o segundo turno?
E Iris é muito vulnerável, não é difícil fazer uma campanha mostrando os erros dele. Na questão da Celg, por exemplo — eu disse isso nos jornais e vocês também publicaram aqui —, são pelo menos três grandes erros de Iris Rezende. O primeiro grande rombo na Celg foi por causa da usina de Corumbá, que Iris entregou ao governo federal. A obra foi iniciada no governo Ary Valadão, mas Iris tomou posse em 1983 e não deu continuidade a ela, optou por devolver a concessão ao governo federal.
Aí vem o segundo erro de Iris, que devolveu a concessão de Co­rumbá com a alegação de que iria construir a última etapa de Ca­choeira Dourada, o que ele concluiu no segundo governo dele. Só que o Rio Paranaíba não tem volume de água suficiente para gerar energia com essa etapa, então ela é usada mais para a manutenção das outras etapas. Faltou visão estratégica, pesquisa mais aprofundada da vazão daquele rio.
O terceiro erro do PMDB foi a venda de Cachoeira Dourada. O então governador Maguito Vilela (PMDB) diz que foi por pressão do governo federal. Bem, Minas Gerais tinha vendido a Cemig [Companhia Energética de Minas Gerais], mas Itamar Franco a retomou, numa ação meio ostensiva, e não deixou que a negociação se efetivasse. A Cemig hoje é a maior geradora exclusiva de energia do Brasil. E o dinheiro da venda de Cachoeira Dourada foi todo torrado pelo Maguito e o Naphtali Alves [PMDB e que, como vice-governador, sucedeu Maguito no governo quando ele se desincompatibilizou para concorrer ao Senado em 1998] naquele processo de tentativa de eleição do Iris em 1998; gastaram aqueles 800 milhões de dólares da venda da usina em um passe de mágica, iniciando obras que depois foram abandonadas em todo o Estado.
O outro erro grave de Iris foi o inchaço da máquina administrativa da Celg. Tenho pelo menos dez amigos, colegas advogados, que entraram na Celg em 1983, sem concurso público, para ser advogados da empresa, que chegou a ter mais de cem advogados. É irmão de deputado, filho de deputado, cabos eleitorais de senador do PMDB, um punhado de gente, é só pegar a relação e verificar.
E aí temos erros de todos os governos, desde o de Iris Rezende até o de Marconi Perillo, que mostram a má gestão da Celg. A empresa era cabide de empregos, era patrocinadora-mor do Estado para eventos, para shows, para entidades em fins lucrativos, para piloto de corrida, lutador de boxe etc. Dentro da Celg, se você ocupa cargo de direção por um dia, a gratificação já é incorporada ao salário. A empresa não aguenta isso. Se seu salário é de R$ 3 mil e então ganha uma gratificação de R$ 10 mil de gratificação e no final seu salário se torna R$ 13 mil para sempre. A luta lá, então, é para ganhar uma gratificação, nada mais. E continua assim.
Para mim, do ponto de vista econômico, essas pessoas liquidaram a Celg. Era preciso resolver a questão porque eu, por exemplo, que sou um pequeno produtor, tive de comprar um gerador de energia. A questão é totalmente politizada.

Cezar Santos — Mas isso agora não está resolvido, não chegou a um ponto final nessa questão, com o acordo firmado com o governo federal?
Tem gente dizendo que vai questionar o acordo judicialmente, criando ainda mais instabilidade. Para mim, não faz diferença se a Celg é uma estatal federal ou estadual, porque sou brasileiro. (enfático) Isso é ridículo. Não vou nem discutir o erro de Marconi, que desfez o acordo feito por Alcides, por uma mesquinhez política. Agora, deixar de novo isso para o próximo governo é outra mesquinhez política. O ideal seria que todas as lideranças de Goiás se sentassem em uma mesa e ajudassem todos a resolver essa questão. Era preciso que esses políticos tivessem uma posição de estadista, republicana, sem essa mesquinharia.

Euler de França Belém — O PMDB não teria quebrado também o BEG [Banco de Estado de Goiás] e o BD [Banco de Desenvolvimento do Estado de Goiás]?
Fizeram políticas equivocadas. Não sou estatista, acho até que deveriam vender o BEG. Mas não podiam era fazer o que fizeram com a Caixego [Caixa Econômica do Estado de Goiás], onde fizeram liquidação judicial e ainda sobrou dinheiro. Ora, então ela não estava falida. Foi uma liquidação política.

Euler de França Belém — Por que a Sudeco não funciona?
Porque eles a montaram para se tornar um cabide de emprego em Brasília. Foi uma luta da senadora Lucia Vânia (PSDB), mas a Sudeco não tem politica de desenvolvimento regional e não foi capitalizada. É um órgão que também distribui patrolas e máquinas, mas essa não é sua função. Acho que o Centro-Oeste precisa de uma superintendência de desenvolvimento. Então, a crítica é para a bancada de Goiás no Congresso, que só olha para seu umbigo, seu mandato e seus partidos. A bancada do Norte não deixou acabarem com a Sudam [Superintendência de Desenvolvi­men­to da Amazônia], a do Nordes­te também lutou pela Sudene [Su­perintendência de Desenvolvimento do Nordeste], mas a goiana deixou acabar com a Sudeco.

Euler de França Belém — O sr. acha que Lula teria coragem de enfrentar a candidata Marina Silva hoje?
Não tem. Acho que a população poderia receber isso muito mal. Fora que isso implicaria o risco de sofrer uma derrota para Marina Silva no primeiro turno. Lula não correria esse risco.

Euler de França Belém — Como a Marina não defende a reeleição, ele pode estar pensando lá na frente?
A Marina vai propor ao Con­gresso nacional o mandato de cinco anos e o fim da reeleição.

Euler de França Belém — Qual será a diferença no social da Marina Silva em relação ao governo do PT?
A proposta é manter a estabilidade econômica e os programas sociais. Manter e transformá-los em programas de Estado, em vez em programas de governo, para evitar o uso eleitoreiro.

Elder Dias — Ela efetuaria o Mais Médicos como programa de Estado, por exemplo?
Não há uma analise especifica sobre esse programa. No Brasil há uma carência de médicos, o que é inconteste, incentivada pelos lobbies de médicos para não abrir faculdade de medicina. Havia também um lobby gigante dos conselhos de medicina e seus agentes políticos para fazer reserva de mercado. A PUC Goiás [Pontifícia Univer­sidade Católica de Goiás] venceu isso somente recentemente, dom Fernando Gomes dos Santos [primeiro arcebispo de Goiânia] e os muitos reitores da então UCG [Universidade Católica de Goiás], como Padre Pereira [José Pereira de Maria, reitor de 1979 a 1984], não conseguiram. Isso fez com que o País formasse menos médicos do que suas necessidades.
Era importante, em minha opinião, criar o programa Mais Médicos, porque era o clamor social nas manifestações de rua. O governo o criou, abriu inscrição para médicos brasileiros e depois para médicos de fora. O programa cumpre sua função social, mesmo que feito com fins eleitoreiros beneficia a população. Um erro do programa, na minha opinião, é que deveria criar a carreira de Estado para médico. Deslocar um médico de Goiânia para ir para o interior do Pará ficar à mercê do prefeito local não dá. Ele não tem garantia nenhuma, é um contrato precário. Antes da criação do SUS havia uma carreira do médico que era eficiente. Nada tenho contra o médico cubano ou de qualquer outra nacionalidade.

Euler de França Belém — Mas o sr. não acha que o governo não deveria pagar direto ao médico cubano, sem ser direto ao governo dos irmãos Castro?
Sim, deveria ser pago ao profissional.

Cezar Santos — Não deveria ser feita também a revalidação, como se faz para qualquer médico estrangeiro ou brasileiro formado no exterior e que queira atuar no País?
Concordo. Essa questão foi politizada pelo Conselho de Medicina e pela bancada dos médicos. Foi politizada e os conselhos não iriam fazer essa revalidação. Houve um lobby classista dos médicos, e os cubanos não iriam passar nessas provas.

Frederico Vitor — O sr., que é próximo a Marina Silva, saberia dizer qual é a agenda dela para a área da defesa, ou seja, sua política voltada para as Forças Armadas?
Conheço pouco da área, mas há uma posição de fortalecer nossas Forças Armadas e equipá-las com material bélico moderno para proteger nossas riquezas naturais e nossas fronteiras, principalmente para que não entre contrabando de drogas e tráfico de armas. Marina seria uma aliada das Forças Armadas para fortalecer as defesas do Brasil, não tenho a menor dúvida disso.

Euler de França Belém — Qual sua relação com o agronegócio em Goiás? O sr. é um defensor do setor?
Sou. O agronegócio é importante, não só para Goiás, mas para todo o Brasil. Nós produzimos 193 milhões de toneladas de grãos no País, um volume muito expressivo. Nos últimos 12 anos, tivemos um aumento de produção no Brasil de 54% e um aumento da área plantada apenas de 12%, o que implica um ganho de produtividade extraordinário. Estou dizendo esses números para provar que é possível expandir a produção agropecuária sem avançar em área de floresta. O agronegócio tem de ser tratado com sua devida importância, não só na plantação de grãos, mas na parte sucroalcooleira, na geração de álcool, açúcar e produção de energia da biomassa, que é muito importante nessa matriz energética renovável que o Brasil quer efetivar para não ficar dependentes das energias fósseis. O agronegócio tem de ser prestigiado. Mas, e a questão ambiental? É o que digo, precisamos fazer o desenvolvimento sustentável. Temos em Cristalina o município com mais quantidade pivôs na Améri­ca Latina. No Rio São Marcos há três PCHs [pequenas centrais hidrelétricas]. Se os produtores ligam o pivô e retiram a água do rio, o restante da água é insuficiente para rodar as turbinas geradoras de energia.

Elder Dias — Teria, então, de se optar entre uma coisa ou outra.
Sim. Falta, na realidade, planejamento para recuperar nossas nascentes no Brasil inteiro, principalmente no Planalto Central. Não é possível gerar energia hidroelétrica se não houver abundância de água. Não é possível ter uma agricultura forte sem água. Não é possível ter uma pecuária forte de aves, suínos e bovinos sem água. E não haverá água se não tiver preservação ambiental.
No mínimo temos de cumprir o Código Florestal. Vamos recompor nossas nascentes, vamos reflorestar nossos cursos d’água, vamos proteger nossas encostas e estabelecer as reservas legais, que, no caso do Cerrado, abrangem de 20% de cada propriedade. Precisamos recompor esses 20% do bioma, que é o de maior biodiversidade do planeta, mas está sendo totalmente destruído. Eu gosto de falar desse assunto, porque digo que o Cerrado é a verdadeira caixa d’água do Brasil. Cerca de 90 milhões de brasileiros dependem das águas que nascem no Cer­rado, nas bacias do Tocantins, do Paranaíba, do Araguaia e do São Francisco. Nove de cada dez brasileiros utilizam energia elétrica gerada nas águas do Cerrado. A maior reserva subterrânea de água, que é o Aquífero Guarani, está no Cerrado. Precisamos proteger essa riqueza, esse patrimônio do Brasil e da humanidade.
Há 40 anos os cursos d’água de Goiânia eram uma coisa e hoje são outra. Estão totalmente deteriorados. Se formos nesse caminho vamos esgotar nossos recursos naturais. A previsão do painel de mudanças climáticas da ONU é de que até 2100 tenhamos uma escassez hídrica no Cerrado em torno de 40% e um aquecimento em torno de 4º C. As culturas que estamos plantando aqui, então, não seriam possíveis daqui a cem anos. O produtor rural que quer que seu negócio perdure ao longo do tempo precisa pensar na sustentabilidade. Precisa pensar numa produção que seja menos dependente da química.
Para isso, entram ferramentas importantes, como a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], que foi importante para o desenvolvimento de sementes que pudessem ser plantadas em nosso solo, que é mais ácido e pode desenvolver sementes que gerem plantas com menor necessidade de produtos químicos para sobreviver. Mas é preciso que o País adote essa posição de pensar lá na frente. O mundo não quer comprar carne nem alimentos de países que continuem a agredir o meio ambiente. Marina se reuniu com o setor sucroalcooleiro no interior de São Paulo e ficaram todos apaixonados pela defesa que ela fez da importância estratégica do etanol para o Brasil.

Cezar Santos — E ela sinalizou que o pré-sal pode não ser essa coisa toda.
Lula saiu pelo mundo vendendo o etanol, incentivou os empresários a investir no etanol e o BNDES [Banco Nacional do Desenvol­vimento Econômico e Social] abriu as torneiras para investirem em usinas. Depois da descoberta do pré-sal, esqueceram todos os compromissos assumidos com os empresários e pensaram só no petróleo, na energia fóssil, congelando o preço da gasolina. Daí o setor teve de fechar 42 usinas e fechou 2013 com um prejuízo de R$ 60 bilhões. Esse povo não quer saber do PT, isso eu já ouvi da boca deles mesmos. O álcool é impor­tante, porque vem dele o plástico verde. É toda uma cadeia que é preciso incentivar. Hoje o agronegócio está convidando Marina a ir aos eventos.

Euler de França Belém — Quando Marina Silva vem a Goiás?
Não tem agenda ainda. Mas, com certeza, vem. Após a morte de Eduardo e a escolha de Marina, ela fez campanha de rua, voltou e começou a semana de debates na televisão. Essa semana foi toda construída em São Paulo e Rio de Janeiro, e ela fez somente pequenas viagens.

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