“Brasil pode melhorar se tiver apenas oito partidos políticos”

Cientista político norte-americano afirma que cláusula de barreira vai travar partidos nanicos e postula que política de coalizão gera batalha por nichos de poder e fisiologismo na máquina pública

David Fleischer “Os políticos juram que o horário gratuito na televisão é muito importante, mas as pesquisas mostram que a audiência do programa é muito baixa. A audiência dos debates é muito mais alta.

Rafael Oliveira

Professor emérito da Faculdade de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), o norte-americano David Fleischer analisa, em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, os cenários políticos referentes à disputa da Presidência da República. Na sua visão, as redes sociais ganharam importância com o tempo e ter muito tempo de televisão pode ser ruim para um candidato. O eleitor terá dificuldades para escolher o próximo presidente. Dois são misteriosos, Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). São considerados “desequilibrados” Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes. O candidato mais previsível — Geraldo Alckmin (PSDB) — foi definido como “picolé de chuchu”. Há quem entenda que evoluiu para “picolé de chuchu light”.

O cientista político aponta poucas semelhanças em relação à campanha de 1989 (na qual Fernando Collor, do minúsculo PRN, derrotou Lula da Silva, do PT). Mas há pelo menos duas similitudes. Primeiro, há postulantes tão marqueteiros e populistas quanto Fernando Collor. Jair Bolsonaro é um deles. Segundo, em 1989, José Sarney, então presidente, era tão impopular quanto o presidente Michel Temer — coincidentemente, ambos do MDB.

David Fleischer, consultor político internacional, afirma que, apesar de preso, o ex-presidente Lula da Silva tem condições de influenciar na eleição de 7 de outubro deste ano — daqui a um mês e 19 dias — e pode contribuir para eleger um poste (leia-se Fernando Haddad).

Tempo de televisão ou redes sociais: qual terá mais peso nessa eleição?

Os políticos juram que o horário gratuito na televisão é muito importante, mas as pesquisas mostram que a audiência do programa gratuito é baixa. A audiência dos debates é muito mais alta. As redes sociais são cada vez mais importantes. Nós temos candidatos bem posicionados nas pesquisas, mas que têm dez segundos na TV. Poucos são como o Enéas para usar bem os dez segundos [candidato a presidente da República, o médico Enéas Carneiro só tinha tempo para dizer: “Meu nome é Enéas!” O bordão contribuiu para tor­ná-lo conhecido em todo o País]. Portanto, as redes sociais vão ser extremamente importantes. Na campanha de 1989 quem tinha mais tempo de TV era Ulys­ses Guima­rães e o PMDB era o maior partido na Câmara dos Depu­ta­dos. Porém os comunicólogos [marqueteiros] do PMDB tinham dificuldade em definir o que fazer com Ulysses Gui­marães durante 20 minutos. O candidato ter tempo demais em horário gratuito vira um problema. O ideal é um ou dois minutos. Cinco minutos para Geraldo Alckmin (PSDB) é demais para usar bem.

Como avalia a declaração do candidato do PDT a presidente, Ciro Gomes, de que o PT tenta asfixiá-lo para que não se torne a alternativa de esquerda?

Trata-se, digamos, de “mais valia”. Ciro Gomes está aproveitando o isolamento ou cerco gestado pelo PT para tentar espernear e reagir. Mas o postulante do PDT está cada vez mais desidratado. Com a senadora Kátia Abreu como vice — é amiga da ex-presidente Dilma Rousseff —, não sei como vai ficar. O agronegócio não tem apreço pela ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu. Portanto, a tentativa de fazer média com o agronegócio não vai funcionar para Ciro Gomes. Ana Amélia Lemos, do PP do Rio Grande do Sul, tem profunda conexão com o agronegócio, é uma senadora ativa, debate muito bem e tem posições fortes. Geraldo Alckmin acertou ao escolhê-la para vice. Hábil, Ana Amélia conseguiu articular candidaturas de governador e senador de modo a evitar que Jair Bolsonaro, do PSL, e Ciro Gomes organizem palanques competitivos no principal Estado do Sul do País.

Comenta-se que no Brasil mulher não vota em mulher. Por que os candidatos dão tanta preferência em ter mulheres na campanha?

Porque existe o mito de que tem de equilibrar a chapa com mulheres. Bolso­na­ro tentou, mas não conseguiu. Vários postulantes a governador recrutaram mu­lheres. Em São Paulo, o candidato do MDB a governador, Paulo Skaf, recrutou Carla Danielle Basson, tenente-coronel da Polícia Militar, para ser sua vice.

Afinal, há algum candidato que possa ser definido como liberal?

É difícil dizer o que é Ciro Gomes. Ele diz uma coisa diferente a cada dia. A mesma coisa ocorre com Marina Silva, que não é liberal mas também não é bem de esquerda. O PT não é liberal. Os petistas estão numa sinuca, pois queriam pôr Fernando Haddad para debater no programa eleitoral, mas, como ficou decidido que só vão chamar candidatos a presidente, o PT perde a chance de alavancar seu postulante. Teoricamente, o candidato a presidente é Lula da Silva, que, na prisão, não tem como participar dos debates. Mas o jogo é, em seguida, colocar Haddad como candidato e, como sua vice, Manuela d’Ávila, do PC do B. A orquestração é feita por Lula a partir da prisão.

Dada sua experiência como presidente do Banco Central e ministro da Fa­zen­da, Henrique Meirelles (MDB) é visto como um político que seria um presidente possivelmente competente. Mas, como candidato, é visto como “fraco”.

Embora não tenha carisma, Meirelles tem história positiva. Mas seu chefe político, o presidente Michel Temer, mais o prejudica do que ajuda. Todo mundo associa os dois. Temer disse que ele é candidato para defender seu legado. Mas que legado vai defender? Meirelles atuou de maneira competente no Banco Central e no Ministério da Fazenda, tem dinheiro próprio para a campanha, mas falta-lhe carisma. Para piorar, se defender o legado de Temer, tende a afundar-se eleitoralmente.

Quais as semelhanças e diferenças entre as eleições de 2018 e 1989?

Em 1989 teve 22 candidatos. Atualmente, são 14 candidatos; se Manuela d’Ávila for vice de Haddad, serão 13. É um número muito grande de candidatos. Em Brasília são 12 disputando o governo. É o maior número de todos os Estados para governador. Como a política está muito bagunçada, muita gente tenta se aventurar, se autopromover e promover o partido. Os postulantes querem aproveitar as circunstâncias. O problema de 1989 é que foram as primeiras eleições depois do regime militar. Tivemos um período de 29 anos sem eleição direta para presidente da República. Então era novidade. Na época, se tinha um presidente [José Sarney] extremamente desgastado e fraco, com a inflação chegando quase a 100% ao mês. Esse era o eixo da morte do PMDB de Ulysses Guimarães, muito ligado a Sarney, que entrou no PMDB pela janela. Em 1989 houve uma eleição excepcional. Mas tem algumas semelhanças com 2018, não muitas. Foi uma eleição de dois candidatos outsiders, Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, que chegaram ao segundo turno. Leonel Brizola morreu na praia, faltaram quase 300 mil votos para superar Lula e ir para o segundo turno.

“O problema é que Geraldo Alckmin é mesmo um picolé de chuchu. Ele tem zero de carisma.”

Geraldo Alckmin diz que o centrão (DEM, PP, Solidariedade, PR e PRB) vai ter de se adequar ao seu rigor ético. Em 1989, Fernando Col­lor também usava o discurso ético.

Alckmin quer aproveitar o ódio da sociedade pelos políticos. Os eleitores acham que todos os políticos são corruptos e não querem votar em ninguém. O tucano quer ser um outsider, como João Doria, que falou em sua campanha para prefeito de São Paulo que não era político — era administrador. Alckmin quer aproveitar esse sentimento, porém no seu governo em São Paulo houve corrupção. Cada semana tem mais gente de suas gestões indiciada. O cunhado do ex-governador recebeu mala de dinheiro também. Portanto, tem que tomar muito cuidado com esse negócio de corrupção, porque, em qualquer debate, os outros candidatos vão jogar isso em cima dele.

Geraldo Alckmin conseguiu uma grande quantidade de partidos co­ligados já no primeiro turno, mas patina para subir nas pesquisas.

Tem um ditado na política que diz que qualquer presidente — inclusive Bolsonaro — não consegue governar sem o MDB e o centrão. A governabilidade depende de uma coalizão adequada no Congresso Nacional. Alckmin está tentando contornar esse ditado. Mas, se eleito, terá de chamar o MDB para governar também. Frise-se que ele até subiu um pouco nas pesquisas, conseguiu obter dois dígitos.

Mas Geraldo Alckmin, de uma coligação partidária, até agora não cresceu satisfatoriamente. O problema é ele ou a coligação?

O problema é que Alckmin é mesmo um picolé de chuchu. Ele tem zero de carisma. Numa das últimas pesquisas, superou Bolsonaro em São Paulo. Nas anteriores, Bolsonaro ganhava dele neste Estado. Era inusitado porque Alckmin foi governador do Estado quatro vezes. Isso mostra suas limitações e fraquezas.

A conclusão das convenções dos partidos deixou o cenário político mais preciso?

Sim. O que todo mundo esperava era um candidato para ocupar o grande centro do espectro político. Alckmin chegou com seu centrão para tentar ocupar esse espaço estratégico. Ciro Gomes foi desidratado pelo próprio PT, que tinha até o convidado para ser vice de Lula. Como Bolsonaro é o candidato anti-Lula e tudo indica que Lula ficará fora da campanha, Ciro Gomes perde seu foco.

“Quando questionado, Bolsonaro transfere a responsabilidade para Paulo Guedes. Candidato a presidente tem de saber alguma coisa sobre economia.”

Como o sr. avalia o candidato Jair Bolsonaro?

Nas entrevistas, quando questionado de maneira mais firme sobre um tema mais complexo, Bolsonaro transfere a responsabilidade, que é sua, para outra pessoa, o economista Paulo Guedes. Candidato a presidente não deve agir assim. O postulante ao Palácio do Planalto tem de saber alguma coisa sobre economia. Lula da Silva, sabendo de suas limitações, ouvia atentamente seus principais auxiliares. Dilma Rousseff, pelo contrário, sugeria saber de tudo e não acolhia as recomendações dos assessores. É um equívoco.

A Operação Lava Jato será decisiva na eleição deste ano?

Há quem postule que a Lava Jato vai provocar uma grande renovação na Câmara dos Deputados. Porque lá estão 150 fichas sujas. Mas há quem sugira que a renovação será pequena, porque mais de 90% dos deputados estão se candidatando à reeleição. Os caciques dos partidos vão distribuir o fundo eleitoral e, por isso, tendem a privilegiar os veteranos e a darem menos dinheiro para os novatos. As duas visões são bastante antagônicas. Pessoalmente, postulo que a renovação vai ser a usual, cerca de 50% — o que, se ocorrer, será grande.

O sr. tem acompanhado a política em Goiás?

Pesquisas indicam que o senador Ronaldo Caiado pode ganhar a eleição. Não sei como está para os candidatos ao Senado. Mas essas campanhas são bem complicadas. É vital esperar as pesquisas de setembro para se ter um quadro menos impreciso. A definição de candidatos este ano foi muito tarde em relação a 2014 e a campanha foi encurtada.

“Quem poderia fazer as reformas seria o senador Álvaro Dias, que tem experiência no Congresso e tem uma cabeça boa. Mas ele não sai dos 5% ou 6%.”

Os candidatos ao Planalto dizem que vão nomear nomes técnicos para os ministérios e não irão acatar sugestões políticas. É mero discurso de campanha?

É questão de governabilidade. A regra na política, para se ter uma coesão na coalizão, é distribuir cargos para os integrantes da coligação. Não só ministérios, mas também o segundo e terceiro escalão — são 25 mil cargos federais. Não sei se vão quebrar a regra. Bolsonaro diz que vai indicar sete generais para os ministérios. Não será indicação de partido político. É mais discurso de campanha. Para governar é preciso distribuir os ministérios e alguns vão para pessoas mais profissionais das áreas. Mas os grandes ministérios em termos de dinheiro, como Saúde e Educação, são muito cobiçados pelos partidos políticos.

O fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, continuará?

Tem analista que pensa assim. A governabilidade às vezes exige a distribuição de cargos para aliados dos deputados e senadores. Ter maioria na Câmara dos Deputados e no Senado, com 13 ou 14 partidos, não é fácil. Daí as múltiplas negociações políticas.

O sr. disse em 2014 que o presidencialismo estava esgotado. Como avalia agora?

Pode-se limitar os mandatos. Tem políticos que querem limitar os mandatos na Câmara dos Deputados para três mandatos. Em alguns países já funciona assim. Mas, para mudar qualquer coisa no Brasil, só aprovando pelo próprio Congresso. Por isso é difícil. Temos de prestar atenção nesta eleição para a cláusula de barreira de 1,5%. Partidos nanicos podem não obter votação suficiente para continuarem existindo com força política. O percentual parece pequeno, mas o partido tem que alcançar essa quantidade mínima de votos válidos em nove Estados. Esse negócio de nove Estados é complicado. Vamos ter uns oito partidos que não vão ultrapassar essa barreira. Tais partidos, mesmo com deputados eleitos, vão ter de se juntar a outros partidos. Ela diz que, se não atingir os 1,5%, os partidos não terão fundo partidário nem horário eleitoral gratuito — o que mata qualquer partido. Vamos conhecer no dia 7 de outubro quais partidos vão cair. Outra coisa é a coligação proporcional que vai valer para vereador em 2020 e para o Congresso em 2022. Neste ano ainda vai reduzir mais ainda o número de partidos. E se alterar o sistema eleitoral e colocar o voto no partido e não no candidato, vai reduzir também mais partidos. Para governar, oito partidos são suficientes para representar todas as correntes de opinião no Brasil. O que temos hoje — 35 partidos — é um exagero.

Com um Judiciário forte, até “legislando”, o Congresso pode mes­mo conseguir aprovar mudanças eleitorais?

Em 2015, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu que a contribuição eleitoral de pessoa jurídica [empresários] é inconstitucional, houve judicialização. O que afetou tremendamente as eleições municipais em 2016 e favoreceu candidatos endinheirados como João Doria, em São Paulo, Alexandre Kalil, em Belo Horizonte também. Muitos partidos estão procurando candidatos com dinheiro este ano. O principal exemplo é Henrique Meirelles, que faz a campanha com seu próprio dinheiro. Em 2019, um ano sem eleição, o Congresso vai ter tempo para tentar fazer mais alguma reforma política. Essas reformas são mais fáceis de fazer em anos ímpares, quando não tem disputa eleitoral.

O STF tem legislado no lugar do Congresso Nacional?

Sim. Os ministros do Supremo entram para decidir alguma coisa que pode ou não ser feita. Por exemplo, está deliberando a questão do aborto, que o Congresso nunca teve coragem de colocar na pauta. Acho que o STF vai abrir a legalidade para o aborto até 12 semanas. O Su­pre­mo está tentando declarar que o fo­ro privilegiado é inconstitucional. Se­rá outra grande mudança. Todo mun­do vai cair logo na primeira instância. Alguns já caíram na primeira ins­tância, como Beto Richa, que renunciou ao governo do Paraná pa­ra ser candidato ao Senado. As­sim, o caso dele foi para a primeira instância. Isso aconteceu em alguns Es­tados onde o governador perdeu o foro privilegiado para ser candidato a outro cargo. A tendência do Su­pre­mo é acabar com o foro privilegiado, o que seria outra grande reforma.

O sr. avalia que as reformas consideradas importantes — Previdência e Tributária — serão pautadas pelo próximo presidente?

A Reforma da Previdência é superimportante porque o déficit cresce extraordinariamente a cada ano e vai inviabilizar o orçamento da União. A Tributária é a mãe de todas as reformas. Tem muitas pessoas interessadas nessa reforma, como empresários, governadores e economistas. Costurar tal reforma é muito importante. Mas nenhum País no mundo faz uma Reforma Tributária de grande vulto. Sempre vai mudando alguma coisa aqui e outra ali. É complicado fazer uma grande Reforma Tributária, mas ela é necessária. E também vai depender da coalizão conseguida pelo próximo presidente no Congresso. A maior parte das reformas precisa de quórum — 60% dos deputados e senadores. A Emenda da Bengala foi feita pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2015 para aumentar o limite de idade de aposentadoria dos ministros do STF de 70 para 75 anos. Em duas semanas, o Con­gresso aprovou uma PEC. Aí tirou a possibilidade da então presidente nomear mais ministros no Su­pre­mo. Era um prenúncio de seu im­peachment, porque perdeu totalmente o controle do Con­gresso. Quando o Congresso quer aprovar uma PEC, acontece rapidinho. Por isso vai depender da habilidade do próximo presidente para mobilizar o Congresso e isso vai depender mais do MDB e do centrão.

“Ciro está aproveitando o isolamento ou cerco gestado pelo PT para tentar espernear e reagir. Mas o postulante do PDT está cada vez mais desidratado.”

Pensando na coalizão, tem dois candidatos tidos como complicados e imprevisíveis, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes. Vai sobrar para Geraldo Alckmin fazer as reformas?

Se eleito, Alckmin vai ter muitos assessores para ajudar. Marina não é desequilibrada, ao contrário de Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, mas é muito rígida. Isso prejudica para articular coligações. Outro que poderia fazer essas reformas seria o senador Álvaro Dias, que tem muita experiência no Congresso e tem uma cabeça boa. Mas ele não sai dos 5% ou 6%.

“Marina não diz muita coisa. Fala de algumas propostas, mas pouca gente sabe o que realmente faria. Difícil prevê o que seria um governo dela.”

Como definir a candidata Marina Silva, da Rede?

É difícil porque Marina não diz muita coisa. Nas entrevistas, fala de algumas propostas, mas pouca gente sabe o que realmente faria. Difícil prevê o que seria um governo dela. Dos outros candidatos é mais fácil fazer uma avaliação.

Não ter um projeto preciso, como Marina Silva, assusta o mercado financeiro, que tem um peso importante na eleição presidencial?

Muito. Tem gente no mercado fi­nanceiro que acha que Bol­sonaro seria uma boa.

Como afirma o marqueteiro americano James Carville, tudo gira em torno da economia?

As propostas para a economia são extremamente importantes porque o Brasil ainda não saiu da crise. A greve dos caminhoneiros ajudou a frear a retomada econômica. A GM estuda a sua própria frota de caminhões para carregar peças e não depender dos caminhoneiros. A retomada está muito devagar. Talvez Meirelles tenha propostas mais interessantes.

Quais os temas básicos dessa campanha para tentar mobilizar os eleitores?

Os três assuntos fundamentais são educação, saúde e segurança pública. Conforme o Estado, a segurança pública é mais importante. Em outro, é a saúde. Eu moro em Brasília desde 1972 e diariamente os telejornais locais têm críticas ao sistema de saúde e segurança pública. Isso não muda nunca. E a quarta área significativa é a economia.

“Lula já elegeu dois postes mas perdeu influência política”

Lula da Silva, Dilma Rousseff e Fernando Haddad: o petista-chefe já bancou e ajudou a eleger dois postes, mas terá dificuldade para emplacar o terceiro na Presidência

A estratégia do PT em insistir no nome de Lula da Silva vai enfraquecer ou fortalecer o candidato real do partido a presidente, Fernando Haddad?

Vai enfraquecer. Os petistas vão esperar a impugnação da candidatura de Lula da Silva no Tribunal Superior Eleitoral. Aliás, já admitiram como certa a impugnação quando retiraram o processo no Supremo Tribunal Federal sobre a soltura do ex-presidente. O PT está jogando com pouco tempo. Pesquisas de intenção de voto indicam que, no cenário em que aparece totalmente apoiado por Lula, Haddad tem 13%. O PT sonha com Lula fazendo campanha para o ex-prefeito de São Paulo. Entretanto, não se sabe como fará campanha porque a Justiça não permitiu que gravasse vídeos. A rigor, não dá para prever como será sua influência no pleito em prol do candidato petista.

Em que grau ex-presidentes conseguem transferir votos para seus candidatos? Lula vai conseguir transferir votos para Fernando Haddad? Fernando Henrique Cardoso consegue transferir para Geraldo Alckmin?

Lula tem mais chance, porque seu marketing é mais eficiente do que o de Fernando Henrique Cardoso. FHC nunca foi para a cadeia; os militares tentaram mas não conseguiram prendê-lo [foi aposentado compulsoriamente da USP]. Lula conseguiu eleger dois postes, Dilma Rousseff para presidente, em 2010 e 2014, e Fernando Haddad para prefeito de São Paulo, em 2012, com a ajuda de Paulo Maluf, Em 2016, o poste perdeu para João Doria, do PSDB. Lula sabe fazer campanha para eleger postes, mas sua capacidade de influenciar o eleitor diminuiu — dados o impeachment de Dilma Rousseff, a Operação Lava Jato e a própria prisão. O problema do PT é que há uma regra na política brasileira: quem elege mais prefeitos antes conquista mais deputados no pleito seguinte. Em 2016, o PT elegeu menos da metade de prefeitos que elegeu em 2012. Se a regra continuar valendo, o PT tende a eleger pouco mais de 30 deputados federais e deve eleger menos senadores. Porque alguns senadores não vão disputar a reeleição. Por fim, deve eleger menos governadores. O petista Tarso Genro, uma dos líderes mais racionais do petismo, sugeriu que o PT deveria ter se reformulado no ano passado. Os fichas sujas deveriam ter sido expulsos e aí se apresentaria um “novo” PT para as eleições de 2018. Se o PT for mal em 2018, forçosamente terá de mudar para o pleito de 2020. Há o desafio de salvar o PT ou certos petistas.

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