“A Igreja Católica tem feito um grande esforço para ‘cristianizar’ o Natal”

Bispo auxiliar de Goiânia alerta para o crescimento do consumismo e diz que é preciso que o clero e os fiéis busquem seguir o exemplo de despojamento do Papa Francisco

Dom Levi Bonatto está desde 2014 em Goiânia. A cidade é a primeira “parada missionária” desse paranaense nascido em São José dos Pinhais como bispo. Ele foi nomeado em outubro daquele ano e, dois meses depois, recebeu a ordenação episcopal por Dom Washington Cruz. Desde o ano passado, tem tido a companhia de outro bispo auxiliar, Dom Moacir Silva Arantes, no trabalho com o arcebispo. “Temos muita conversa e atuamos como conselheiros uns dos outros na condução da Arquidiocese”, diz.

Ele iniciou sua vocação na prelazia do Opus Dei, em 1980, na cidade de São Paulo, com os estudos de Filosofia. Na Pontifícia Universidade Santa Croce, em Roma, formou-se em Teologia e também em Direito Canônico. Também tem o curso de Economia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), diploma que o ajuda na função atual de ecônomo da Cúria Metropolitana. Fez toda sua trajetória como sacerdote, ordenado em 1996, no Paraná – é torcedor confesso do Coritiba.

Nesta primeira entrevista que concede ao Jornal Opção, centralizada em princípio no período natalino, Dom Levi Bonatto fala muito sobre a figura do Papa Francisco diante da Igreja e do mundo atual e situa, com uma frase, o desafio que se tornou a evangelização no mundo atual: “É uma palavra até pesada, mas temos um esforço muito grande na Igreja Católica para ‘cristianizar’ o Natal, principalmente tendo em vista o consumismo dessa época”. Não é sem motivo também que, aos 60 anos de vida, uma de suas preocupações como bispo seja com o crescente número de pessoas que se declaram sem religião.

Elder Dias – O período natalino, quando se celebra o nascimento de Jesus, é muito caro à Igreja, mas não é a principal data religiosa do calendário cristão, que tem na Páscoa seu fundamento. Curiosamente, como comemoração pagã, o Natal se torna cada vez mais proeminente. Sem dúvida, é o período do ano de maior consumismo no mundo ocidental. Também se tornou uma data de encontro entre amigos e famílias. Como a Igreja Católica tem entendido esse aspecto?

O Natal é realmente um período muito importante e, principalmente, muito bem comemorado pela Igreja. Sempre se criou uma expectativa muito grande em relação a essa data. Tanto é que, assim como na Páscoa, temos um tempo de preparação para o Natal, que é o Advento, que quer dizer “chegada”. Então, o Advento é o período em que, para nós, Jesus es­tá chegando. Por isso, é uma data pa­ra a qual nos preparamos muito bem.

Realmente, principalmente nos últimos tempos, existe a tendência de se fazer do Natal simplesmente uma ocasião de encontro e de troca de presentes. Hoje em dia, uma das coisas que as pessoas mais fazem durante o Natal é viajar, parece até que se tornou uma obrigação, que se tornou errado não fazer algo assim. Então, muitos fazem questão de pelo menos ir para um hotel no interior que seja.

A Igreja, de sua parte, tem tentado fazer com que essa festa seja realmente religiosa. Por isso, faz-se cada vez mais uma ênfase nesse período de preparação de quatro semanas, para que as pessoas cheguem bem ao Natal. Buscamos explicar o que é de fato essa data: a encarnação do Filho de Deus. Em um determinado momento da história, Deus quis que seu filho viesse ao mundo e assumisse nossa própria natureza. Cristo se fez homem como qualquer um e teve todas as necessidades biológicas que nós temos, sendo diferente de todos nós em apenas um ponto: Cristo não pecou, Ele foi igual a nós em tudo, exceto no pecado.

Hoje em dia, temos um esforço muito grande por parte da Igreja – e é uma palavra até um pouco pesada – de “cristianizar” o Natal, principalmente tendo em vista o consumismo dessa época. Aliás, o Papa Francisco vem falando sobre o consumismo não só em tempo de Natal, mas é algo que está presente desde o início de seu pontificado, mesmo em outros momentos.

Marcelo Mariano – E o que a Igreja de Goiânia tem feito, particularmente, para celebrar esse período de uma forma ativa?

Uma coisa que a gente tem trabalhado de forma especial – tanto em Goiânia como em toda a Região Centro-Oeste, com bom resultado – são as novenas de Natal nas famílias. São textos muito simples, folhetos fáceis de serem lidos e de partilhados, permitindo a participação de pessoas de todas as idades – idosos, jovens, crianças. As famílias se reúnem para rezar em suas ruas, em seus prédios e condomínios, durante nove dias corridos ou alternados. A gente percebe que isso dá resultado porque, depois do período de Natal, aumenta o número de pessoas que vai à paróquia, que procuram a Igreja. Assim, em muitos lugares tem havido um acréscimo de fiéis na Santa Missa, assim como na Vigília de Natal, tudo favorecido pela novena. Por isso, a Arquidiocese tem sempre incentivado a novena de Natal ano após ano, fazendo o livrinho e mostrando aos párocos a necessidade de propagar seu uso, com o fim de que as pessoas voltem a ter na figura de Jesus Cristo o centro de suas comemorações neste período. Que seja uma festa espiritual e que todos parem para pensar um pouco nos grandes problemas que nos afligem.

Marcelo Mariano – Quais são as outras atividades que a Igreja promove durante essas quatro semanas de preparação?

A partir deste ano, por iniciativa do Papa Francisco para toda a Igreja, no último domingo do Tempo Co­mum do ano litúrgico – ou seja, o ime­diatamente anterior ao primeiro domingo do Advento –, celebramos o Dia do Pobre, que aqui em Goi­â­nia celebramos na igreja do Atheneu Dom Bosco. É algo que estamos tentando viver de uma forma especial também como preparação para o Natal. Afinal, a figura de Jesus na manjedoura. O Rei do Universo, Rei de todo criado, quis nascer pobrezinho, dentro daquilo que nós, que conhecemos fazenda, chamamos aqui de estábulo, de paiol – um lugar insalubre, geralmente com mau cheiro. Por isso, o Dia do Pobre agora abre essas quatro semanas do Advento como uma forma de mostrar que as pessoas devem ter a consciência de não marginalizar ninguém.

Elder Dias – Em seu pontificado, o Papa Francisco vem demonstrando grande preocupação em fazer a Igreja retornar a um estado de despojamento, tanto em relação a poder como em relação às posses. Na Idade Média, o papa era uma figura quase sobre-humana e Fran­cisco traz hoje um exemplo de líder que tem de ser o “servo dos servos”. Recentemente, ele doou uma Lam­borghini para uma casa de leilões transformarem seu valor em doações para caridade e obras sociais. O papa tem conseguido promover essa transformação também com efeitos na hierarquia e nos próprios leigos?

Marcelo Mariano – Complemen­tando, procede que ele tem sofrido resistências na cúpula do Vaticano?

A Cúria Romana é uma instituição milenar, tem uma forma de proceder já estabelecida. De fato, o papa é despojado e encontra resistências, sim. O Vaticano tem duas funções: além e ser a sede espiritual da Igreja, também é um Estado. Sendo um país, tem um banco, tem rádio, TV, até uma ferrovia, que chega pelos fundos dos jardins do Vaticano, com alguns quilômetros de extensão. Tem também um corpo diplomático e funcionários graduados, com bons salários. Muitas dessas pessoas não estão ligadas à finalidade espiritual da Igreja Católica, mas a outros aspectos, mais administrativos. São indivíduos que têm suas regalias. Natural que mudanças enfrentem resistências, portanto.

O interessante do papa, o que ele realmente inova, é em dar o exemplo, em ir à frente. Começou já ao assumir o pontificado, quando trocou o Palácio Apostólico, que seria sua morada, com um apartamento enorme, pela Casa Santa Marta, vivendo em um quarto comum, em que religiosos se hospedam quando vão a Roma. Mais do que promover uma cam­panha, digamos assim, o desejo de Francisco é que olhem para ele, vejam seu desprendimento e o imitem.

Em Roma, no verão, faz muito calor. Os papas anteriores seguiam, nessa época, para a casa de Castelgandolfo, que fica a algumas dezenas de quilômetros do Vaticano e é um lugar mais arejado, fresco. Mas Francisco não tem ido, apenas diminui seu ritmo de trabalho. Penso que faz isso justamente para dar ênfase ao convívio com as pessoas. Pobres, claro devem tirar férias, mas o papa quer passar a imagem de que é possível fazer tudo de forma mais simples, às vezes até mesmo sem viajar. Lá na Casa Santa Marta, ele faz suas leituras, preparando pregações. Por isso mesmo, enfrenta resistências, porque aquelas pessoas de que falamos há pouco, esses funcionários graduados do Vaticano, fazem viagens caras pelo mundo inteiro. Então, o papa Francisco não buscou cortar esse tipo de comportamento, mas deu outro exemplo.

Elder Dias – E é um procedimento que ele tem consigo mesmo antes de ser papa…

Realmente. Ele sempre falou que, ao assumir o pontificado não alterou o que era o Jorge Bergoglio [nome de batismo do papa Francisco] de Buenos Aires, onde foi arcebispo. Lá, na Quinta-Feira Santa, ele já visitava os presídios e fazia a celebração do Lava-Pés com os condenados. Em Roma, apenas continuou a fazer. Então, não foi por algo midiático, por ser papa. Francisco faz apenas o que ele fazia desde quando era bispo auxiliar. Toda a vida dele em Buenos Aires foi assim.

Elder Dias – Quando se diz fala em Natal, lembra-se também da questão da caridade e da solidariedade. As pessoas parecem mais sensíveis nessa época. Como o sr. avalia esse tipo de comportamento.

O Natal tem uma forte carga caritativa, sempre foi assim – o que não é ruim, pior é se as pessoas nunca se sentissem solidárias e sensíveis. Vemos que muita gente compra cestas básicas para distribuir aos mais carentes, brinquedos para as crianças. Isso é uma boa tradição, em todo o País. Aqui em Goiânia, de forma particular, há grupos muito criativos, que fazem outras ações também.

Elder Dias – Uma delas são os “médicos da alegria”…

Exatamente. Aqui na cidade, algumas paróquias recebem tantas cestas básicas que há dificuldade em encaminhá-las. As pessoas, vendo essa realidade, começaram a perceber que seria possível fazer outras coisas, como os médicos da alegria, que, nos fins de semana, visitam clínicas e hospitais, principalmente os que têm mais crianças e idosos. Assim, por meio de representações teatrais e música, levam um pouco de alegria e conforto a quem está hospitalizado.

Elder Dias – A Igreja de Goiânia tem um grupo dela que faz um trabalho assim, de forma sistemática?

Sim, as pessoas se reúnem na Pa­róquia Universitária [Igreja São João Evangelista, na Praça Universitária].

Marcelo Mariano – O sr. falou que o Vaticano é um país e, como em todo país, também enfrenta problemas com a corrupção. Foi o que ocorrem em relação ao Banco do Vaticano. Até que ponto isso é prejudicial à imagem da Igreja?

Sem dúvida, isso é algo muito prejudicial. Mesmo sendo um país, o Vaticano é sustentado por uma doutrina, moral e ética cristãs. Comba­temos a corrupção de forma muito forte e, se pregamos isso e a mesma coisa ocorre em nossa própria casa, é um fracasso e um mau exemplo grave. De fato, essa questão do Banco do Vaticano e outras, que en­volvem negociações e relações com o Estado, são uma preocupação do pa­pa. No fundo, o que ele precisa é de homens de confiança que o ajudem, que sejam pessoas boas, porque o pontificado às vezes pode se tornar uma função muito isolada. Então, o pontífice está lá, dando seu exemplo, o povo o aclama, mas os colaboradores não dão sequência ao que ele faz. Fazer chegar aos fiéis o que o papa fala e faz é um problema.

Um exemplo disso é a “Laudato Sì” [em latim, “Louvado Seja”], uma encíclica muito importante que Francisco publicou, sobre o cuidado com o meio ambiente. Mas quais foram as ações concretas da própria Igreja, do próprio Vaticano? Claro é um documento que ficará para sempre, mas vemos que existe muita morosidade para que tudo aconteça, algo que ocorre também pelo tamanho da Igreja.

Elder Dias – É como um corpo muito grande ao se mover…

E penso que isso assustou um pouco o Papa Francisco quando se deu conta. Talvez ele tenha pensado que as coisas seriam mais fáceis. O Vaticano é um país com muitíssimos representantes em todo o mundo, mais até do que a ONU [Organi­zação das Nações Unidas]. Em número de países com quem tem rela­ções, creio que a Santa Sé só perca para a Fifa. Na Igreja quem ocupa o principal cargo diplomático não é chamado de embaixador, mas de núncio apostólico. Cada núncio vive uma realidade diferente, o Brasil é uma coisa, a Argentina é outra, a Ásia e a África têm suas particularidades. Em tempo, um dos locais em que o catolicismo mais cresce hoje em dia é a Coreia do Sul.

Marcelo Mariano – Em alguns países, como a Arábia Saudita, as igrejas são proibidas. Como se dá a relação da Santa Sé com esses países?

O núncio é o representante do papa e as relações diplomáticas são fei­tas em nível de governo. Diante das autoridades da Arábia Saudita, por exemplo, ele representa o chefe de Estado e é recebido, acolhido e pode desempenhar sua função. Mes­mo em lugares assim há estrangeiros católicos, embora com todas as restrições e, ainda que não haja igrejas, eles têm missas, pastoral voltada para eles. Não é nada feito co­mo uma religião que queira entrar ali e se impor, nada disso, mas há um re­lacio­namento entre Estados constituídos.

Elder Dias – Uma questão diplomática, série e cara para a Igreja, é a situação de Jerusalém. É uma cidade sagrada para três religiões – além do cristianismo, também o judaísmo e o islamismo. Como encarar, agora, a atitude dos Estados Unidos, por meio de seu presidente, Donald Trump, de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel?

Com relação a Jerusalém, o que a Igreja sempre buscou foi a paz. Procuramos a convivência entre as três religiões monoteístas que ali se reúnem. A Igreja Católica nunca quis expulsar ninguém, ou avançar em qualquer território. Para nós, é um lugar santo, onde ocorreu a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e onde se deu sua morte. Que seja uma terra santa também para os judeus e os muçulmanos. O que queremos apenas é poder visitar os lugares santos em Israel, de por ir lá rezar, fazer romarias, assim como se faz a Roma.

­Marcelo Mariano – O plano inicial da ONU era tornar Jerusalém uma cidade internacional. Seria inviável pensar nela como um Estado nos moldes do Vaticano, mas abrangendo as três grandes religiões?

Em vista do que vemos hoje, seria impensável, por conta da intolerância. Se fosse um plano bem feito, poderia de fato funcionar de forma pacífica. Quando o Vaticano se instalou em Roma, com o Tratado de Latrão, não havia problemas étnicos e religiosos tão sérios, apenas questões ideológicas.

Marcelo Mariano – A maioria dos cristãos com quem converso apoiou a decisão dos Estados Unidos em relação a Jerusalém. Entretanto, especialistas ressaltam que no lado palestino também há uma considerável população cristã. A ex-prefeita de Ramallah [Janet Mikhail], que é a capital da Palestina, é cristã; da mesma forma, a mulher do líder palestino Yasser Arafat [morto em 2004], Suha Arafat. Esses especialistas costumam dizer que os cristãos ocidentais ignoram os cristãos orientais. Como apaziguar essa questão?

Infelizmente, não só em Jerusa­lém, os cristãos não sabem o que o­corre com nossos irmãos pelo mundo, muitas vezes passando por grandes perigos e necessidades. Temos perseguidos na Síria, no Egito e em vários outros lugares. Preo­cu­pamos muito com o que está ao re­dor – o que não é errado, claro –, mas sabemos muito pouco de nossos irmãos que estão distantes. Por par­te da Igreja, quem sabe, deveria haver uma ação humanitária mais for­te para com esses irmãos, que às ve­zes perdem suas casas, perdem tudo.

Marcelo Mariano – A Igreja de Goiânia tem alguma parceria nesse sentido?

Temos um projeto com Guiné Bis­sau, por enquanto somente no nível de ajuda material. Lá falta tudo, às vezes mandamos até material de construção, que muitas vezes não chega. A Diocese de Anápolis envia, digamos, reforço humano – padres, freiras, leigos. Há também uma parceria com a Santa Casa de Misericór­dia, que dá formação a alguns africanos. Guiné Bissau é um país de língua portuguesa, o que facilita um pouco.

Elder Dias – É um país de maioria católica?

Não, eles têm uma religião própria, são animistas. Há também uma grande quantidade de muçulmanos. Os católicos, na verdade, são minoria, talvez 10%.

Elder Dias – A África se tornou um continente de predominância muçulmana, especialmente no norte e no centro. Mas, no cristianismo, há uma influência muito forte dos evangélicos. O continente é um desafio para a Igreja Católica?

É um desafio, mas também a África também nos dá muita esperança, por outro lado. Em muitos países o catolicismo está crescendo, como na Nigéria e no Quênia – este, talvez o país mais desenvolvido, depois da África do Sul. De qualquer forma, lá existe um grande problema com a diversidade de tribos e dialetos, muitas guerras, o que torna qualquer missão muito difícil.

Marcelo Mariano – Em 2015, o Papa Francisco esteve na República Centro-Africana em meio a uma guerra civil.

Exatamente. Na África e na Ásia, um grande objetivo da Igreja é suscitar vocações religiosas e sacerdotais que sejam nativas. Talvez o catolicismo não tenha tido grande sucesso até hoje por ter evangelizado a partir do ponto de vista europeu, que tiveram dificuldade para lidar com a cultura da África e também de alguns países da Ásia.

Elder Dias – E como está o catolicismo no Brasil? O que se observa nas últimas décadas é um crescimento muito grande dos evangélicos, especialmente dos neopentecostais. Há um avanço do que dissemina a teologia da prosperidade – uma proposta que segue no rumo o oposto, que vai de encontro ao que propõe o Papa Francisco. Como a Igreja tem lidado com isso?

É um tema que nos preocupa muito e está sempre presente em nossas reuniões, seja na Arquidio­cese, seja na assembleia anual dos bispos em São Paulo. Os evangélicos vêm ocupando o espaço deixado pelos católicos, seja por falta de vocações, seja por falta de recursos. Com essa brecha, os evangélicos foram abrindo suas igrejas, principalmente na periferia, e formando suas comunidades. Em outros lugares, chegamos muito tarde. Porém, um fato interessante é ver que justamente nas periferias, quando se monta uma capela, uma pequena comunidade, conseguimos trazer muita gente de volta para a Igreja Católica. Então, de fato é muito mais um problema de nos estruturarmos pastoralmente para minimizar essa questão.

Outro desafio que enfrentamos, todos nós, cristãos, é o número de pessoas que hoje se diz sem religião. É um índice que, em Goiás, já chega a cerca de 10%. Muitos desses foram batizados e receberam até outros sacramentos da Igreja. O grupo que mais cresce no Brasil não é mais o dos evangélicos, mas o das pessoas que dizem não ter religião.

Marcelo Mariano – Nesse grupo são incluídos apenas os ateus ou também os agnósticos?

Por enquanto, estão juntos, não há divisão, embora haja o pensamento de separá-los em categorias diferentes.

Elder Dias – No momento atual, qual é a grande preocupação da Igreja de Goiânia? Qual é o problema que precisa ser enfrentado localmente?

Temos várias frentes. Uma delas é missionária, que quer fazer a Igreja voltar a ter uma participação efetiva na vida da periferia. Como no tempo dos primeiros cristãos, a ideia nessas paróquias é fazer visitas às casas, às famílias, saindo dois a dois, rezando e explicando nossa fé.

Outra frente que buscamos atuar é a da formação. Precisamos primeiramente formar muito bem nossos padres. Alguns fizeram seminário há muitos anos, outros sacerdotes vieram de outras dioceses. Temos semestralmente uma formação permanente para todo o clero, no sentido de uniformizar o que pensa nosso arcebispo, Dom Washington Cruz, para nossa Arquidiocese.

Uma terceira preocupação que trabalhamos são as vocações sacerdotais. Delas depende o futuro da Igreja, assim como também é fundamental a formação dos leigos. Esses, bem formados, terão um papel cada vez mais importante na Igreja. Necessitamos, porém, dos ministros ordenados. Há um esforço muito grande aqui na Arquidiocese para reformar e ampliar os três seminários que temos: o Seminário Menor, para jovens que começam o ensino médio e sentem o chamado de Deus; o Seminário Propedêutico, para o que chamamos de “ano zero” da formação; e o Seminário Regional São João Maria Vianney, interdiocesano, onde podem morar seminaristas de outras dioceses.

Este ano que vem, na Arqui­diocese de Goiânia, será o Ano Jubilar dos Seminários, para que as pessoas conheçam melhor essa estrutura e também para despertar nos jovens o chamado à vocação sacerdotal. Essas vocações estão aí, existem, mas é preciso descobrir quem tem e quem não tem. Dom Washington, de forma especial, se empenha muito nessa questão e teremos três seminários praticamente novos: o Menor foi construído e os dois outros, reformados. Enviamos uma carta a Roma, para o papa, e veio uma resposta positiva em relação a nossa disposição. Ficaram muito contentes com a iniciativa.

Elder Dias – Em certas igrejas de Goiânia, temos um número maciço de católicos. Um deles, mais tradicional, é a Matriz de Campinas, especialmente às terças-feiras; outro é a Igreja Sagrada Família, na Vila Canaã, que já há décadas recebe muita gente; e agora, mais recentemente, a Igreja Nossa Senhora da Assunção, na Vila Itatiaia, que de uns anos para cá tem recebido um grande contingente de fiéis. Um senão, no entanto, é que nesses lugares se perde bastante o sentido de comunidade, já que o afluxo é muito grande, quase se tornando um centro de peregrinação. As pessoas moradoras da paróquia, em boa parte, acabam se sentindo perdidas. Como a Igreja lida com situações como essa, positivas por um lado, mas com esse desafio, por outro?

Sempre analisamos essas situações. Não vou dizer que seja exatamente uma preocupação, mas é objeto de nossas considerações. São locais que aglutinam muita gente, pessoas que vão pensando em uma cura ou em algo personalista, sem sentido de comunidade. Da parte da Arquidiocese, fazemos aquilo que nos cabe. Por exemplo, insistimos que as pessoas recebam os sacramentos em sua própria paróquia. Em relação ao batismo, à crisma e à primeira Eucaristia, é uma exigência da Igreja que sejam sacramentos recebidos na comunidade de origem da pessoa. Não podemos proibir as pessoas de ir à missa onde quiserem. Muitas vezes, infelizmente, as pessoas “vão atrás” do padre e não do sacramento.

Elder Dias – Esse culto personalista a algum padre, como ocorre nacionalmente com Marcelo Rossi ou Fábio de Melo, também acontece em algumas paróquias. Mas a missão do padre é sempre finita. Ou seja, toda a estrutura para receber aquele afluxo pode ficar subutilizada em algum momento. Como a Igreja lida com isso?

Existe uma indicação da Igreja, embora não uma lei rígida, para que um pároco fique por, no máximo, seis anos em determinada paróquia. Depois disso, deveria ser transferido. Porém, quando ocorre essa mudança, a reação das pessoas por vezes é de muita revolta com o arcebispo. Mas o que fazer com a estrutura grande que fica quando o padre, nessa situação, finalmente tem de sair e a paróquia volta a um ritmo “normal”? É um problema, o custo fica para a Cúria, porque todas as igrejas são da Arquidiocese e sempre acaba sobrando para ela cuidar disso.

Elder Dias – Qual é a missão do sr. dentro da Igreja de Goiânia?

Minha função básica é o que o cargo diz: ser bispo auxiliar. Em tudo aquilo que Dom Washington necessita estou à disposição. Eu e Dom Moacir [Silva Arantes, o outro bispo auxiliar de Goiânia] fazemos as vezes também de conselheiros do arcebispo. Temos muita conversa, muito diálogo. Em termos concretos de minhas funções, a principal é ser o ecônomo da Arquidiocese, pela qual cuido das finanças. Temos um patrimônio muito grande e, por ser grande, se torna muito problemático. Por minha formação de canonista, sou vigário judicial, ou seja, presidente do Tribunal Eclesiástico; e, por estar no tribunal, sou também moderador da Cúria, uma espécie de gerente-geral da Cúria, cuidando da parte de pessoal. Sou ainda diretor da Escola Dia­conal, para diáconos permanente e coordeno um trabalho com o Ides [Instituto Católico de Desenvolvi­mento Social], com executivos católicos.

Além do trabalho na Arqui­diocese, também atuo pelo Regional da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], na qual sou secretário e bispo referencial para a Pastoral da Educação, especificamente voltada para professores e pedagogos, muito bem estruturada, embora muita gente a confunda com a Pastoral do Ensino Religioso, que atua com colégios e universidades e agora está às voltas com as mudanças nas BNCC [Bases Nacional Comum Curricular].

Marcelo Mariano – Vemos, com frequências, os noticiários darem ênfase à chamada “bancada da bíblia”, cujos deputados até realizam cultos dentro do Congresso. Como o sr. vê essa mistura de religião e política?

Elder Dias – Em tempo, essa bancada tem grande predominância dos evangélicos e costumam demonstrar um comportamento dúbio ou confuso: em algumas matérias, principalmente relativas à moral, votam de acordo com certa leitura que fazem sobre os princípios cristãos; em outras, como a de um presidente acusado de corrupção ser mantido no cargo – o que não deixa de ser uma questão moral, também –, acabam votando contra o sentimento da população e a favor do que lhes interessa. Como fica isso?

Vejo com muita preocupação. Primeiramente, vamos ao problema inicial: eles são eleitos, geralmente, por pessoas que não parecem livres, que votam de acordo com o que são direcionadas por um líder, para este ou aquele candidato.

Elder Dias – Uma espécie de “voto de cabresto”.

Sim, pelo menos é a realidade que trago de Curitiba, não conheço ainda a fundo a realidade de Goiânia. Infelizmente, lá o pastor decidia em qual candidato os fiéis deveriam votar e aquela igreja, em massa, dava seu voto para aquele nome. Ou seja, perde-se a liberdade do voto, misturando política e religião de uma forma muito ruim.

Sobre a bancada formada a partir dessa condição, realmente atua com dois pesos e duas medidas. Ao que interessa, eles votam a favor de uma medida que eticamente não é correta. Existe aí também uma falta de liberdade por parte desses deputados. Afinal, a ética cristã é ou não é, senão vira relativismo. De fato, a política, mesmo para os candidatos católicos, gera problemas assim, pois, no fundo, é um jogo de interesses. Às vezes o deputado pode agir de acordo com o que prega a Igreja Católica em um tema como a defesa da vida, mas, em uma votação de orçamento, mais técnico, acaba por “escorregar” na ética.

Marcelo Mariano – Não existe outra grande religião monoteísta que tenha uma figura central, como o papa representa para os católicos. Os protestantes não têm essa figura, nem os muçulmanos. Seria um fator que poderia ajudar aos fiéis dessas religiões a andarem em comunhão?

Se houvesse uma figura central nas outras religiões, para nós, católicos, isso seria muito bom. Digo isso porque um grande empenho de nossa parte, hoje, é o ecumenismo, o diálogo inter-religioso. A Igreja está muito envolvida com isso, mas, por exemplo, entre os evangélicos há tantas denominações que não tem com quem conversar. Há o Conselho Mundial de Igrejas, mas, mesmo assim, é complicado. O diálogo se torna muito difícil porque as denominações estão pulverizadas.

Por outro lado, nossa unidade chama a atenção deles. O papa é o líder religioso com mais prestígio no mundo hoje. Claro, existe todo o carisma pessoal que ele possui, notadamente no caso do Papa Francisco, mas isso também vem do cargo que ele ocupa. A Igreja é unida em torno de um pastor, que, para nós, é mais do que isso: é o vice-Cristo na Terra, está na cadeira de São Pedro e tem a assistência do Espírito Santo. Isso explica por que a Igreja tem se mantido firme e forte durante esses dois milênios, embora com suas crises e problemas. No fim, sempre encontramos a solução para tudo e avançamos. Isso é muito interessante.

Marcelo Mariano – Que mensagem o sr. teria para os fiéis para o Natal e o fim do ano?

É preciso que mantenhamos a esperança, todos nós. Dirijo-me especialmente aos cristãos católicos. A esperança é o que nos guarda para que dos tempos difíceis passemos para tempos melhores, com a ajuda de Deus. l

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