Pedro Machado: “Ana Paula faltou com a verdade com a população goiana para justificar uma posição que vai contra tudo aquilo que Iris defendeu”
22 agosto 2026 às 21h00

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Entre a política e o Direito, Pedro Machado Gonçalves acumula quase duas décadas de experiência nos bastidores do poder. Advogado formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), começou a trajetória política ainda no movimento estudantil e, desde então, passou pela Assembleia Legislativa de Goiás, pela Câmara dos Deputados, pelo Senado Federal e pelo Ministério da Justiça. Hoje, preside a Fundação Ulysses Guimarães em Goiás (FUG-GO), instituição político-partidária ligada ao MDB.
A relação com Daniel Vilela (MDB) não começou agora. Pedro foi assessor legislativo do atual governador quando ele exercia mandato de deputado federal e acompanhou de perto sua trajetória política. À frente da FUG-GO, voltou a percorrer o Estado para ajudar na elaboração das diretrizes do plano de governo de Daniel Vilela. Foram 51 municípios visitados para ouvir prefeitos e lideranças sobre problemas que vão do lixo à infraestrutura.
Em entrevista ao Jornal Opção, Pedro Machado também falou sobre a disputa eleitoral. Defendeu Daniel Vilela como o nome capaz de dar continuidade ao legado do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), hoje candidato ao Palácio do Planalto, mas imprimindo uma marca própria de inovação e modernidade.
E não poupou os adversários. Segundo ele, Marconi Perillo (PSDB) “ainda deve muitas explicações”, questionou o preparo de Wilder Morais (PL) para governar Goiás e fez duras críticas a Ana Paula Rezende, sobretudo pela saída do MDB e aproximação com o PL.
Ton Paulo — O MDB tem um legado grande no Estado, o que coloca o partido em um espaço de muita relevância na memória da população. Mas a legenda perdeu alguns nomes de peso, como Iris Rezende e Maguito Vilela. Há cerca de cinco anos, especulou-se que estaria surgindo um vácuo de liderança. Chegaram a apontar Ana Paula Rezende como possível sucessora, mas ela acabou se aliando à oposição. Há também Daniel Vilela, que é governador e pleiteia a reeleição. Na sua avaliação, Daniel preenche esse vácuo deixado pelos líderes emedebistas em Goiás?
Com certeza. Daniel Vilela não surgiu hoje, e muita gente insinua que ele quis construir a carreira à sombra do pai. Daniel Vilela foi vereador em Goiânia enquanto o pai dele era prefeito de Aparecida de Goiânia. Ele poderia muito bem ter sido candidato em Aparecida, onde seria mais fácil e teria toda uma estrutura política montada em torno do pai, mas optou por disputar na capital.
Além disso, foi deputado estadual e deputado federal. Em Brasília, ainda em seu primeiro mandato, foi presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Olha a relevância disso, porque é a comissão mais importante da Casa e uma das mais relevantes e disputadas do Congresso. Isso demonstra a capacidade de articulação dele, a confiança que os líderes depositam nele e o rápido amadurecimento que desenvolveu. Ele conquistou uma respeitabilidade impressionante.
Em 2018, quando foi candidato a governador, enfrentou, de um lado, um candidato à reeleição que integrava um grupo político vitorioso nas cinco eleições anteriores e, do outro, o senador Ronaldo Caiado (PSD). Embora não tenha alcançado uma votação tão expressiva, apresentou um desempenho extremamente consistente, enfrentando os adversários de igual para igual nos debates e mostrando a força do MDB no interior.
É bom lembrar também que, quando perdemos os principais líderes históricos, em 2021, Daniel Vilela já era presidente estadual do MDB. Isso demonstra que ele não veio para ocupar esse vácuo quando ele surgiu; ele já ocupava esse espaço antes, com qualidade, mostrando lealdade aos companheiros e reconstruindo um partido que estava um tanto quanto cabisbaixo em razão das derrotas que havia sofrido.
Ton Paulo — E a ida de Ana Paula para a oposição foi até criticada porque ela seria uma sucessora natural dentro do partido. Uma das justificativas apresentadas por ela foi a falta de espaço dentro da sigla. Concorda com isso?
Muita gente dizia que Ana Paula poderia ocupar esse espaço, e ele foi concedido a ela. Quem não se lembra de que, em 2022, Daniel a convidou e até insistiu para que ela fosse candidata à Prefeitura de Goiânia?
Além disso, como você bem pontuou, ela era vice-presidente do partido. Estava na linha sucessória da legenda. Pelo estatuto partidário — e foi o que aconteceu —, Daniel Vilela, ao assumir o governo, automaticamente teve que se licenciar da presidência do partido. Quem estava como vice-presidente agora? Haroldo Naves, que assumiu a legenda. Essa era a posição em que Ana Paula estava. Ela seria presidente do partido.
Como ela pode dizer que não teve espaço nesse partido? Na verdade, a senhora Ana Paula faltou com a verdade com a população goiana para justificar uma posição ideológica dela que, a propósito, vai contra tudo aquilo que Iris Rezende defendeu durante toda a vida. A trajetória de Iris foi pautada pela defesa da democracia.

Enquanto isso, vemos que o partido ao qual Ana Paula se filiou, em sua história recente, flertou com o autoritarismo e com tentativas de supressão da democracia brasileira. Isso já está muito bem documentado, inclusive com o lançamento recente do livro de Baptista Júnior, que era comandante da Aeronáutica, em que ele relata as pressões que teria sofrido, vindas do Planalto, para que aderisse aos intentos golpistas e às quais, naquele momento, resistiu.
Portanto, Ana Paula trai a verdade, trai a população goiana, trai o seu partido e trai a memória de Iris Rezende.
Ton Paulo — Na convenção do PL, Ana Paula fez um discurso muito contundente, comparou Iris Rezende ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e pediu respeito ao legado do pai. Isso é contraditório, tendo em vista que foi o próprio Iris Rezende quem trabalhou pela união entre Ronaldo Caiado e Daniel Vilela?
O discurso de Ana Paula é 100% contraditório. Nós já apontamos duas contradições. Primeiro, a questão do espaço: ela poderia ter sido candidata à Prefeitura de Goiânia, e eu acho que seria eleita, porque era notória, naquele momento, a saudade que a população de Goiânia sentia de Iris, tendo em vista que tivemos um governante completamente inoperante, que foi Rogério Cruz.
O nome dela teria o apoio do governador Ronaldo Caiado, que, não somente naquele momento, mas como se confirmou posteriormente, estava à frente de um governo muito bem avaliado. O nome dela seria fortíssimo para a disputa.
Além disso, existe o fato de que o grande mentor dessa união do grupo político de Ronaldo Caiado com o MDB foi Iris Rezende. Ronaldo foi candidato a senador na chapa em que Iris Rezende foi candidato a governador. Em 2014, quando ele foi eleito senador com o apoio do MDB, Iris bancou essa aliança porque, no interior, a união foi vista com certo receio, já que Caiado havia sido adversário do MDB durante uma vida inteira.
Daniel Vilela já era presidente estadual do MDB. Isso demonstra que ele não veio para ocupar esse vácuo quando ele surgiu; ele já ocupava esse espaço antes
Mas Iris enxergou que o caminho para que o MDB voltasse a dirigir os rumos do Estado de Goiás passava por aquela aliança com Ronaldo Caiado, o que, como vemos, demonstrou a sabedoria dele. É mais uma contradição dela.
Ela pede respeito à memória do pai quando, na verdade, foi a primeira a desrespeitá-la. Ela desrespeita a história de Iris, assim como tudo o que ele construiu. Desrespeita, inclusive, o legado do pai para o Estado de Goiás, para o Brasil e para o partido.
João Paulo Alexandre — No discurso, ela também chegou a criticar o antigo partido, dizendo que teria se tornado um “balcão de negócios”. Essa associação que ela tenta fazer entre a própria imagem e a de Iris pode trazer algum retorno positivo para ela, já que tem sido tão contraditória e está agindo de uma maneira completamente diferente de como Iris Rezende agiria se estivesse vivo?
Sinceramente, vejo que ela perdeu a chance de se tornar uma líder política de peso no momento em que deixou de disputar a eleição para a Prefeitura de Goiânia. Porque, até então, sem ter ocupado nenhum cargo eletivo ou de relevância dentro da administração pública, como uma secretaria de Estado ou uma secretaria municipal, havia em torno dela — e acho que existe até hoje — apenas uma expectativa “de”. Ela é apenas a filha “de”.
Ana Paula perdeu a chance, de fato, de se tornar uma liderança política ao não disputar a eleição em Goiânia. Ganhando ou não, ela se tornaria uma personagem da política. E, hoje, o peso que Ana Paula tem — e falo isso com muita tranquilidade, porque rodamos o interior e temos contato constante com as lideranças — é completamente nulo. Não é pequeno, é nulo.

O efeito da adesão de Ana Paula à chapa de Wilder Morais (PL) foi nulo. As pessoas do interior desconhecem quem é Ana Paula. As pessoas se perguntam: “Essa moça é quem mesmo?”. Foi o que mais ouvimos no interior. E veja que não estou falando do eleitorado como um todo. Estou falando de lideranças políticas, de prefeitos, de pessoas que leem jornal. As pessoas não sabem quem é Ana Paula.
A adesão de Ana Paula ao projeto de Wilder Morais foi vista como uma forma de tentar alavancar a candidatura dele em um momento em que ela estava claudicante, o que não aconteceu. Só mostrou uma contradição no discurso, uma sede de poder pelo poder.
E, quando ela diz que o MDB se tornou um “balcão de negócios”, talvez esteja se referindo ao próprio processo político dela, uma vez que se sabe que o marido dela é um grande empresário em Goiânia. Eu não posso afirmar, mas muito se diz que existe uma sociedade entre a empresa dele e alguns empreendimentos de Wilder, o que responderia muito mais a uma lógica comercial do que política. Portanto, o balcão de negócios não está no MDB, está no processo político que foi liderado pela senhora Ana Paula.
Ton Paulo — Vemos Wilder ainda com uma pontuação nas pesquisas abaixo da esperada entre os bolsonaristas e Flávio Bolsonaro com atos esvaziados. O bolsonarismo está perdendo força? Como você avalia esse cenário?
Eu vejo que as cabeças pensantes da política e aqueles que acompanham esse cenário e tentam elaborar saídas para esses impasses políticos, sim, estão cansados. Mas, infelizmente, ainda não vejo na população um arrefecimento dessa polarização.
Isso se demonstra pelos próprios números das pesquisas, embora saibamos que grande parte dos eleitores de Lula não é lulista: vota em Lula porque não quer a volta de Bolsonaro. Da mesma forma, grande parte dos eleitores de Bolsonaro não é bolsonarista: vota em Bolsonaro para tentar superar Lula.
Vemos ainda que a polarização está muito latente nos debates dos quais participamos, nos grupos de WhatsApp e em várias rodas de conversa.
Quem não se lembra de que, em 2022, Daniel a convidou e até insistiu para que Ana Paula fosse candidata à Prefeitura de Goiânia?
Sobre Wilder, o próprio marqueteiro diz que ele tem dificuldade de falar. Eu diria mais: de falar e de pensar, porque a participação dele naquele debate foi vexatória, de um vazio de dar eco. Ele já começa o debate pedindo desculpas, alegando ser o primeiro debate. É como se já dissesse: “Se eu der bobeira aqui, vocês me desculpem”. Se ele não está preparado para participar de um debate, vai estar preparado para ser governador de Goiás?
Tínhamos três candidatos: Luiz César Bueno (PT), Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL). Luiz César é uma pessoa muito preparada, um professor muito competente, e está fazendo o papel dele porque não é candidato para ganhar a eleição; é candidato para dar palanque a Lula e, dentro desse propósito, está fazendo muito bem.

Wilder também não é candidato para ganhar a eleição. Ele não está preparado para ser governador e é candidato para dar palanque a Flávio Bolsonaro. Tanto é que disse isso muito claramente, sendo totalmente sincero ao afirmar que a prioridade dele é defender o Flávio e não defender nem trabalhar pelo Estado de Goiás.
Na minha ótica, quando o sujeito vai ao hospital e não encontra um médico, ele não quer saber de direita ou de esquerda. A falta de médico não é de direita nem de esquerda. O buraco que existe na rua não é de direita nem de esquerda.
Ana Paula trai a verdade, trai a população goiana, trai o seu partido e trai a memória de Iris Rezende
Eu costumo dizer que ser gestor de uma cidade ou de um Estado é como ser o motorista de um ônibus muito grande. A população está dentro dele, e o governante está dirigindo esse veículo. Se o motorista olhar demais para a direita ou para a esquerda, vai esquecer de olhar para a frente, cair no buraco e tombar o ônibus. Então, é preciso olhar para a frente e entregar resultados.
Acho que a população está cansada disso. E, ao referendar o nome de Ronaldo Caiado em Goiás, o povo mostra que o que valoriza é o resultado, e o governo dele deu resultado para a população goiana. Aqui existe, sim, uma parcela da população, que estimamos entre 15% e 20%, que se identifica com uma direita mais extrema, assim como há entre 8% e 10% que se identificam com uma esquerda mais extrema. Mas o grande eleitorado está no centro.
Plano de governo do MDB foi elaborado em conjunto com os prefeitos e lideranças das cidades
Ton Paulo — O senhor está à frente da Fundação Ulysses Guimarães (FUG) e, recentemente, houve um evento em que vocês entregaram ao hoje candidato à reeleição, Daniel Vilela, um conjunto de diretrizes para a elaboração do plano de governo. Como foi feita essa elaboração? Quais foram os principais pontos sugeridos e quais estão sendo acompanhados de perto por vocês?
Todos os partidos têm fundações congêneres que cuidam de educação e política, e cada um deles pode destinar 20% do fundo partidário para essas fundações. A Fundação Ulysses Guimarães cumpre essa dupla função: primeiro, a da educação, em que temos MBAs, pós-graduações e diversos cursos sobre gestão pública. Paralelamente a isso, a fundação também tem o papel de pensar em novas políticas públicas que podem ser propostas pelo Executivo ou por parlamentares, por meio de projetos de lei.
Pensando nisso e tendo em vista as eleições deste ano, colocamos o pé na estrada, passando por 49 municípios administrados pelo MDB e outros dois — Porangatu e Piracanjuba — que, apesar de não serem administrados pelo partido, têm prefeitos parceiros. Foram mais de 7,5 mil quilômetros rodados. Levamos aos prefeitos o conhecimento sobre os cursos, tendo em vista a existência de uma lacuna no interior para a contratação de pessoas mais qualificadas, e fomos ouvir as demandas deles. Porque sabemos que tem candidato que contratou agência de São Paulo para fazer o plano de governo e não conhece nada do Estado. Isso tem que ser feito olhando nos olhos daqueles que serão atingidos.
Daniel, hoje, tem muito mais experiência política e de vida do que Marconi tinha quando assumiu o governo aos 35 anos
Nessas visitas, ouvimos prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, secretários e líderes que estão próximos das pessoas. Fizemos o seguinte questionamento: se você estivesse falando hoje com o governador, o que pediria para ser feito na sua cidade para melhorar a qualidade de vida da população?
Uma preocupação muito grande foi com o lixo. Os prefeitos estão até assustados com essa questão porque, segundo a legislação federal, já terminou o prazo para acabar com os lixões, e há cidades que ainda não conseguiram encerrá-los.
Conversei com a secretária Andréa Vulcanis, e ela me relatou que a Semad já tem um projeto muito adiantado e moderno para criar pontos de transbordo regionais, evitando que o lixo percorra vários quilômetros até ser descartado. A ideia é espalhar esses pontos por todo o Estado de Goiás e contratar, por meio de uma PPP, uma empresa que fará o aproveitamento do lixo a partir do momento em que ele for depositado no ponto de coleta.

Esse aproveitamento poderá ocorrer por meio da fabricação de adubo, da geração de energia ou do reaproveitamento de materiais passíveis de reciclagem, como alumínio, vidro e outros resíduos sólidos que podem ser reutilizados e ter aproveitamento econômico. A expectativa é que a licitação seja lançada até o final deste ano para que esse problema seja resolvido de uma vez por todas e que terá continuidade por parte do governador Daniel Vilela.
João Paulo Alexandre — E como era essa receptividade?
Foi uma experiência fantástica e muito enriquecedora, porque destinamos um tempo de qualidade aos prefeitos e aos líderes. Já tivemos uma situação em Goiás em que o sonho de uma cidade era a pavimentação de uma rodovia, mas o governador construiu um ginásio no município. Na inauguração, ele foi mal recebido e não entendeu o motivo, que foi justamente a falta de ouvir a real demanda da população.
Na minha visão, na visão do MDB e de Daniel Vilela, a gestão pública é verdadeiramente democrática quando existe participação. Nós somos de um partido que tem a democracia em seu nome e a luta pela redemocratização em sua história.
Então, não basta ser eleito pelo voto, que é a democracia eleitoral. É preciso haver participação para ouvir o que as pessoas querem, que é a democracia administrativa. Um ponto interessante é que muitas das reivindicações se repetem nas cidades, como a construção de anéis viários, a questão do lixo e a preocupação, na área da educação, com o aumento dos diagnósticos de crianças com autismo e TDAH.
Isso já vem endereçado no plano de governo de Daniel, em que pensamos na criação de centros regionais similares às policlínicas e, em alguns locais, na implantação de salas de atendimento a esse público dentro das próprias policlínicas, aproveitando a infraestrutura já instalada.
Outro gargalo que ouvimos é a questão da energia elétrica. Infelizmente, a governança do Estado sobre a infraestrutura energética é muito pequena, tendo em vista que, hoje, a concessionária é uma empresa privada. O que resta, muitas vezes, é cobrar a realização e a execução do plano de investimentos. Mas essa é uma preocupação em todo o Estado de Goiás e está travando o desenvolvimento.
Eu diria que temos investimentos bilionários represados hoje em Goiás. Recebemos pessoas da Comigo, por exemplo, que nos disseram que a cooperativa tem cerca de R$ 1,2 bilhão em investimentos projetados que não conseguem ser instalados por falta de energia elétrica em Goiás.
Goianésia tem uma planta já instalada da Fricó Alimentos, uma estrutura enorme com potencial para oferecer 500 vagas de emprego, mas que está parada porque não há energia elétrica suficiente. Ela está pronta desde dezembro do ano passado, mas ainda não foi inaugurada nem entrou em operação por causa desse gargalo.
João Paulo Alexandre — Já noticiamos sobre esse problema recorrente da falta de energia elétrica. Na sua visão, qual pode ser o maior risco para Goiás caso isso não seja solucionado?
Tendo em vista que, ao final de 2032, será encerrado todo esse arcabouço de incentivos fiscais, o que vamos fazer a partir desse período? Ou desenvolvemos a nossa infraestrutura, principalmente na questão energética, ou podemos chegar a um ponto em que as indústrias começarão a repensar a permanência em Goiás.
O que segura as empresas aqui é justamente a questão dos incentivos fiscais, assim como a infraestrutura, que avançou muito nos últimos anos, e a melhora nos índices de segurança pública, que é outro atrativo para manter investimentos no Estado.
Mas, sem os incentivos, vamos ficar em uma situação de grande vulnerabilidade, porque estamos distantes dos maiores centros econômicos e consumidores, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Ton Paulo — Qual vai ser o tema ou o segmento que vai dar o tom das eleições deste ano aqui em Goiás?
Acho que o primeiro ponto, tendo em vista a grande aprovação do ex-governador Ronaldo Caiado, é entender quem tem condição de dar continuidade a esse governo e quem tem compromisso com o legado deixado por ele. Pesquisas qualitativas mostram que a população enxerga a questão da segurança pública como resolvida, mas tem medo de um retrocesso.
Na minha ótica, essa é a maior barreira para o crescimento do ex-governador Marconi Perillo, porque o enxergam como leniente com a bandidagem em Goiás, muitas vezes pelas suas relações mal explicadas com figuras do submundo da política.
Daniel é talhado para a política. Quem o conhece sabe do perfil diplomático dele, além de ter raciocínio rápido, uma inteligência extremamente afiada e uma enorme capacidade de armazenamento de dados e informações
Marconi é identificado com um período crítico da segurança pública, quando não se podia andar com o celular na rua e havia medo de circular com o próprio veículo por causa do risco de assalto. Caiado teve pulso e firmeza para mudar essa realidade, e Daniel, nesses poucos meses, já demonstrou que tem essa firmeza, que tem esse pulso e que está avançando.
Além de dar continuidade, vejo que ele vai mostrar uma característica própria, que é a inovação e a modernidade.
Ele está investindo pesadamente nesse projeto da IA Contra o Crime, que já está mostrando resultados e dando à polícia o instrumental necessário para desvendar crimes e auxiliar na persecução penal. Estamos vendo crimes de roubo serem desvendados em poucas horas porque você tem a imagem do carro e da pessoa que cometeu o crime. Isso é uma revolução na segurança pública e a população está sentindo isso na prática.
João Paulo Alexandre — Tenho notado que a oposição pode apostar no segmento da saúde para atacar o atual governo. Marconi Perillo traz feitos como o Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) e o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), mas houve obras que começaram no mandato dele e foram finalizadas já no governo de Caiado, como os hospitais de Águas Lindas e de Uruaçu. Como vocês vão trabalhar para mostrar os feitos da gestão Caiado e Daniel e rebater esse discurso?
A campanha é um campo muito pródigo em espaço. Daniel vai ter, se não me engano, pouco mais de cinco minutos. Se há algo que vamos ter é espaço para mostrar à população, e não precisamos inventar: temos números para apresentar.
Você tem um hospital como o Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás (Cora). Até então, a questão do tratamento oncológico em Goiás era um desastre. Ainda que tenhamos a excelência do Hospital Araújo Jorge, que tem uma qualidade enorme de atendimento — quem vai lá sai satisfeito e reconhece essa qualidade —, ele não consegue atender a toda a demanda. O Cora veio para preencher essa lacuna.
Hoje, temos o Hospital de Águas Lindas, o Centro-Norte, em Uruaçu, e as policlínicas, que o governador anterior entregou apenas com o esqueleto. Foi Ronaldo Caiado quem terminou as obras e colocou essas unidades para funcionar, porque a construção é o de menos. Colocar para funcionar e manter é a questão.
Então, quando o ex-governador Marconi Perillo quer alegar que esses hospitais já estavam prontos, ele falta com a verdade.
Além disso, tivemos o anúncio recente de uma grande oportunidade, que é a aquisição do prédio da Oncoclínicas para a transferência do Hospital de Urgências de Goiás (Hugo) para lá, aumentando em praticamente 50% a capacidade de atendimento, tanto em número de leitos quanto em leitos de UTI, além de levar a unidade para um prédio moderno, construído recentemente.

E há um ponto que vale ressaltar: uma das maiores críticas feitas ao poder público quando ele vai erguer novos prédios públicos diz respeito à morosidade, seja na construção de um hospital, seja em uma obra de pavimentação.
Aqui surgiu uma oportunidade porque essa empresa, que está construindo o prédio, se viu em dificuldade financeira e quer sair do negócio. Você tem um prédio praticamente pronto, que, basicamente, no próximo ano já poderá estar preparado para receber os pacientes.
E quem é atendido no Hugo sabe o pavor que é o funcionamento naquele prédio. Quero deixar bem claro: não é culpa dos médicos nem da direção. É que a estrutura física já não comporta mais a demanda. É um prédio muito antigo e que ficou pequeno.
Além dos avanços já obtidos por essa gestão, você vai ter esse novo Hugo, e a ideia é pegar o prédio atual e transformá-lo em um grande hospital materno-infantil, que também ofereça atenção à saúde da mulher. Então, aquele prédio será reformado e remodelado.
De uma tacada só, o governo Daniel Vilela está abrindo duas novas grandes unidades de saúde para desafogar essa demanda.
Ton Paulo — Em pesquisas anteriores, Marconi Perillo aparecia com 38% de rejeição, mas, em levantamentos mais recentes, já está com 40%. Por que a rejeição continua tão alta? Esse índice tende a subir?
A imagem cristalizada do senhor Marconi Perillo, no Estado de Goiás, é a de uma pessoa que foi um governador realizador, mas que cometeu deslizes do ponto de vista da ética pública. É uma pessoa que tem muitos negócios mal explicados, por assim dizer.
Então, as pessoas olham para Marconi e reconhecem que, no período em que governou, muita coisa foi realizada, mas que isso passou, porque ele se envolveu em negócios muito mal explicados. Vejam: neste ano, mesmo estando fora do governo há tanto tempo, ele está envolvido na questão do Banco Master, que, pelo modus operandi, roubou a população brasileira, e o senhor Marconi prestava serviços para esse pessoal.
Mais recentemente, foi noticiado que ele foi convocado por uma CPI da Câmara Municipal de São Paulo para prestar esclarecimentos acerca, mais uma vez, de negócios mal explicados.
E digo “negócios mal explicados” porque, de fato, do ponto de vista jurídico, até o momento, nada foi comprovado contra ele, mas são negócios nebulosos. Marconi Perillo participa de negócios nebulosos, inclusive envolvendo Carlinhos Cachoeira, com processos em andamento.
Ele ainda deve muitas explicações à população, inclusive sobre o fato de ter ido para São Paulo depois de perder as eleições em Goiás, em vez de permanecer aqui e enfrentar o debate político.
João Paulo Alexandre — Marconi Perillo tem dito que Daniel Vilela não tem experiência política e associa isso ao fato de ele ser jovem. No entanto, o tucano foi eleito governador pela primeira vez aos 35 anos. A fala leva a uma interpretação da juventude como sinônimo de inexperiência. Ao colocar dessa forma, Marconi não entra em conflito diretamente com um público importante e que está cada vez mais presente nas redes sociais, um espaço que também se tornou relevante para o debate político?
Não só entra em conflito como também é uma contradição em si. Marconi, quando foi eleito, em 1998, tinha 35 anos. Hoje, Daniel tem 42 anos e faz 43 em outubro. Então, assumirá um eventual novo mandato com 43 anos.
Mas, volto a dizer, ele já foi vereador da capital, deputado estadual, deputado federal e presidente da CCJ, a Comissão de Constituição e Justiça mais importante do Congresso Nacional. Aliás, um espaço que Marconi nunca havia ocupado quando assumiu o governo.
Além disso, Daniel Vilela tem uma escola política dentro de casa. Teve um pai governador, que também foi vereador, deputado estadual, deputado federal, prefeito da segunda maior cidade do Estado de Goiás por dois mandatos e senador da República. Ele nasceu e cresceu em um lar que respira política. Daniel é talhado para a política. Quem o conhece sabe do perfil diplomático dele, além de ter raciocínio rápido, uma inteligência extremamente afiada e uma enorme capacidade de armazenamento de dados e informações.
Daniel, hoje, tem muito mais experiência política e de vida do que Marconi tinha quando assumiu o governo aos 35 anos. Basta ver os cargos que Daniel ocupou, a sua linhagem e a sua origem para chegar a essa conclusão. Daniel já ocupou, neste momento da vida, cargos mais relevantes do que Marconi havia ocupado quando se tornou governador do Estado de Goiás.


