A diferença final da disputa do segundo turno das eleições presidenciais deixou bem claro: ninguém ganharia de Jair Bolsonaro (PL), a não ser uma pessoa: Luiz Inácio Lula da Silva. Felizmente, era ele quem estava no polo oposto do duelo.

O petista arregimentou um contingente de apoiadores que gerou, no primeiro turno, uma vantagem de mais de 6 milhões de votos. Esteve a pouco mais de 1,5 ponto porcentual de ganhar o pleito logo ali, o que não aconteceu.

Sabia-se que o segundo turno seria uma nova eleição, em que a máquina governamental trabalharia diuturnamente para eleger o inquilino do Palácio da Alvorada. E foram inúmeras as benesses para fabricar votos, desde créditos em bancos públicos a antecipação de remunerações, promessas inexequíveis dentro de um ordenamento fiscal sério, além de muito assédio eleitoral por parte de empresários e pastores.

Ninguém conseguiria sobreviver competitivamente a tantas investidas, a não ser que tivesse uma grande ascendência sobre o eleitorado. E o único com esse background era exatamente Lula.

Muitos falam da grande rejeição do ex-presidente, mas convenientemente se esquecem que sua aceitação era ainda maior. Durante toda a campanha, o objetivo do grupo de Jair Bolsonaro (PL) foi fazer com que, pelo menos, a resistência ao nome do petista se tornasse tão grande quando aquela sofrida pelo presidente – merecidamente, diga-se, depois de tanto desgoverno, de forma mais notada durante a pandemia.

Conseguiram, em parte: antes de iniciar o primeiro turno, a rejeição a Lula girava em torno de 40%. Com a maciça campanha de linchamento, o índice chegou a algo entre 45% e 47%. Bolsonaro, porém, não desceu do patamar de 50%.

Foi uma vitória contra tudo e contra todos

Foi uma vitória contra tudo e contra todos, ainda que, inacreditavelmente, os governistas digam para sua base que lutaram contra o “sistema” – este simbolizado, como acusam, na figura de Alexandre de Moraes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) incubido de presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante o período de campanha. Ora, o candidato “antissistema” utilizou de todas as armas que o poder lhe dava às mãos para virar o resultado, como já foi descrito acima.

E basta ver os números para entender que realmente conseguiram sucesso: reduziram bastante a vantagem de Lula, que caiu de 6 milhões para 2,1 milhões em menos de um mês. Bolsonaro, mesmo perdendo a eleição, foi mais bem votado do que no segundo turno em que foi eleito ganhando de Fernando Haddad (PT), em 2018.

Por isso, é fácil afirmar: qualquer outro nome – de Ciro Gomes (PDT) a Simone Tebet (MDB), passando pelo mesmo Haddad – teria sido trucidado pela máquina bolsonarista no duelo final. Lula resistiu porque é Lula: o povo mais humilde ainda se lembra de como seus governos foram mais humanos com que tem menos. Nessa conta, o Nordeste mostrou toda a sua grandeza.

O resultado do pleito, de certa forma, paga a pena da última eleição: Lula derrotou, além de Bolsonaro, também Sergio Moro, o ex-juiz parcial que o condenou em um processo eivado de falhas para meses depois se tornar ministro do governo do vencedor beneficiado com a condenação. Moro agora é senador pelo União Brasil, e mais político do que nunca.

A democracia como a conhecemos seria o maior alvo de um segundo mandato de Bolsonaro e ele já deixava isso às claras, com seus planos contra o STF, contando para isso com a ajuda de um Senado com mais aliados. Somente pelo carisma de Lula, hoje, a democracia ganhou sobrevida. Agora, porém, vem o mais difícil: reconstruí-la em bases fortes.

Lula terá de fazer um governo de aliança e já adiantou isso. Vai ter consigo todos os grupos não radicalizados, desde o PSOL do agora deputado federal eleito Guilherme Boulos até os partidos mais ao centro e até à direita, dependendo da pauta.

Muito provavelmente, o que veremos será algo similar ao que fez Itamar Franco ao assumir a Presidência na vaga de Fernando Collor, que havia sofrido processo de impeachment por corrupção. Menos PT e mais colaboração dos demais partidos e da sociedade organizada na composição dos quadros.

Por enquanto fica o alívio e o agradecimento: obrigado, Lula, por ter se colocado à disposição para salvaguardar a democracia. Seus oito anos de governo mostram que os medos do “comunismo” e da “ditadura socialista” logo se tornarão fantasmas evaporados pelo trabalho que terá de ser feito arduamente.