Daqui a algum tempo, quando Luís Roberto Barroso estiver escrevendo seu livro de memórias, certamente vai dedicar um capítulo para um dos episódios dos quais já terá se arrependido de todo o coração desde agora: é aquele em que, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), faz o convite para as Forças Armadas integrarem a Comissão de Transparência Eleitoral (CTE) para o processo de acompanhamento do pleito de 2022.

Era boa a intenção do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF): ele queria mostrar boa vontade com os militares diante da escalada de ataques do presidente da República – e capitão da reserva do Exército –, Jair Bolsonaro (PL), contra a credibilidade das urnas eletrônicas.

De boas intenções, o ditado ensina que o inferno está cheio. E foi assim que o chefe de governo, também comandante supremo das Forças Armadas, se utilizou do flanco aberto por Barroso para, por meio do Ministério da Defesa – que hierarquicamente subordina as três Armas (Exército, Marinha e Aeronáutica) –, fustigar direta e oficialmente o sistema eleitoral.

O general Paulo Sérgio Nogueira, no comando da pasta, teve a ingrata (e desnecessária, para si) missão de tentar conciliar os interesses paranoico-eleitoreiros de Bolsonaro com a realidade irrefutável das urnas eletrônicas: se elas não são perfeitas, até hoje, após 26 anos em uso no Brasil, continuam se mostrando à prova de fraudes. Aqui nestas terras, o período de mudar resultado de eleição literalmente carregando votos nas costas e dando sumiço em urnas ficou para trás.

Por isso, o relatório final sobre as últimas eleições não poderia ser diferente do que foi: o Ministério da Defesa não tinham como inventar – e nem faria isso – uma fraude, mas não podia deixar o “chefe” de todo descontente. Assim, os militares confirmaram o resultado das urnas, mas colocaram o asterisco de que o sistema “parece” ter brechas.

Em cima do muro, desagradaram a todos: os que confiam no sistema torceram o nariz para as observações (pois todas as outras entidades fiscalizadoras aprovaram com louvor o processo eleitoral); já aos que tinham no relatório das Forças Armadas a esperança de melar as eleições e pôr os tanques nas ruas para impedir o “comunismo” restou chorar recostado no poste do acampamento patriota em frente ao quartel.

E assim fecha-se mais uma página supérflua na discussão eleitoral. As urnas são um orgulho da Nação, um dos poucos distintivos mundiais que o Brasil tem. Barroso, em suas memórias, fará seu mea-culpa por não ter medido as consequências de um convite que, feito com a melhor das intenções, levou o País ao purgatório.