Vitória de Vanderlan Cardoso em Goiânia pode renovar o PMDB e o PSDB para a disputa de 2018

Se retirar Iris Rezende do páreo, enfraquecendo Ronaldo Caiado, o candidato do PSB fortalecerá o novo, Daniel Vilela. Se reduzir a estrutura do senador, que perderá o PMDB para o vilelismo, fortalecerá José Eliton, outra força política nova

Vanderlan Cardoso, candidato do PSB: uma força política nova, avessa a controles políticos, poderá, se eleito prefeito de Goiânia, contribuir para definir as forças que disputarão o governo de Goiás em 2018 | Foto: Renan Accioly

Vanderlan Cardoso, candidato do PSB: uma força política nova, avessa a controles políticos, poderá, se eleito prefeito de Goiânia, contribuir para definir as forças que disputarão o governo de Goiás em 2018 | Foto: Renan Accioly

Cada eleição tem sua história e, portanto, suas especificidades. Mesmo assim, e ainda que os laços por vezes sejam invisíveis sem a lente de aumento da análise, as eleições são conectadas, em maior ou menor proporção. O jogo político articulado em 2016 — como a criação de novas alianças políticas — tem a ver com a disputa de 2018. Os que estão no poder sabem que é preciso ampliar o exército de aliados, com a incorporação de novas forças quantitativas e qualitativas — como Vanderlan Cardoso (PSB) e, quem sabe, Humberto Machado (PMDB), prefeito de Jataí, segunda cidade mais importante do Sudoeste de Goiás —, para tentar superar o desgaste de tantos anos no governo do Estado. Novos nomes, se representam um salto de qualidade, se tornam forças oxigenadoras, ampliando a ideia de que se pode renovar dentro da ordem, quer dizer, a partir do grupo que está no poder (vinte anos em 2018, praticamente uma geração).

Os que não estão no poder tentam, a partir das eleições para prefeito, constituir novas forças para o exercício da política e para disputas futuras. A conexão entre Ronaldo Caiado, do DEM, e Iris Rezende, do PMDB, é uma tentativa de unir forças que antes se atacavam para enfrentar um adversário (ou um postulante que tenha o seu apoio), Marconi Perillo, que não perde eleições desde 1998. Trata-se de uma aliança complicada, porém racional. Sem uma união ampla não se tem como derrotar o grupo criado, unido e solidificado pelo tucano-chefe. Mas há problemas: a aliança entre Ronaldo Caiado e Iris Rezende seria considerável, ou mais considerável, se incorporasse a dupla Maguito Vilela e Daniel Vilela, que, eleitoralmente, são as forças mais respeitadas do PMDB.

Ronaldo Caiado

Iris Rezende e Ronaldo Caiado: se perder a Prefeitura de Goiânia, o primeiro poderá detonar a candidatura do senador para o governo de Goiás em 2018. Líder do DEM está nas mãos do ex-prefeito

Iris Rezende e Ronaldo Caiado: se perder a Prefeitura de Goiânia, o primeiro poderá detonar a candidatura do senador para o governo de Goiás em 2018. Líder do DEM está nas mãos do ex-prefeito

Mas retomemos o fio da meada. A eleição de Goiânia deve mexer com o quadro das eleições de 2018 — e em todos os grupos políticos, tanto da situação quanto da oposição.
No caso de vitória de Iris Rezende para prefeito de Goiânia, a aliança liderada pelo PMDB (e seus aliados, como DEM) tende a ganhar nova configuração. Com um orçamento estimado em mais de 400 milhões de reais por mês, a prefeitura da capital é um Estado dentro do Estado. Não se trata de dizer que o prefeito vai usar este dinheiro para fazer campanha. Não é isto que se está sugerindo. O que se está afirmando é que o político que for eleito prefeito da cidade mais rica de Goiás terá poder, tanto político quanto financeiro, para interferir no processo de 2018.

Se Iris for eleito prefeito, o PMDB pode passar por um processo de ruptura de ampla gravidade. Porque o decano peemedebista praticamente já definiu que vai apoiar Ronaldo Caiado para o governo do Estado, em 2018, independentemente da filiação do senador do partido Democratas. Estando no DEM ou no PMDB, Ronaldo Caiado é o nome que o irismo planeja bancar. Por que Iris Rezende prefere o democrata a um peemedebista?

Por três motivos. Primeiro, Iris Rezende considera Ronaldo Caiado como um de seus mais fieis aliados. Segundo, acredita que o democrata é o único que fará uma combate cerrado contra o marconismo, na campanha e, se eleito, no governo. Terceiro, planeja derrotar uma ala do partido que, em sua visão, seria mais marconista do que peemedebista. Trata-se do maguito-vilelismo, que inclui, entre outros, Maguito Vilela, prefeito de Aparecida de Goiânia, e o presidente do PMDB, o deputado Daniel Vilela.

Como é mais visceral, e menos racional — no sentido exclusivo de falta de frieza no manejo das palavras —, a ex-deputada Iris Araújo costuma verbalizar, aos seus aliados, que Maguito Vilela e Daniel Vilela, não sendo iristas, são marconistas. É, por certo, uma visão redutora e estreita das contradições e diferenças políticas. O prefeito e o deputado não são, evidentemente, marconistas, mas também não querem ser definidos como iristas. Por quê? Porque sabem que o irismo recebeu extrema unção e não é um grupo que tem força política estadual. A força política do irismo advinha da força de Iris Rezende. A fragilidade atual de Iris Rezende está levando o irismo à inanição.

Daniel Vilela

Daniel Vilela e Maguito Vilela: uma vitória de Iris Rezende pode retirá-los da disputa para o governo do Estado, mas uma vitória de Vanderlan Cardoso fortalecerá o vilelismo, sobretudo o nome novo do PMDB

Daniel Vilela e Maguito Vilela: uma vitória de Iris Rezende pode retirá-los da disputa para o governo do Estado, mas uma vitória de Vanderlan Cardoso fortalecerá o vilelismo, sobretudo o nome novo do PMDB

Maguito Vilela e Daniel Vilela não são dados a teorias políticas, sobretudo a filigranas ideológicas, mas são hábeis. São raposas políticas discretas mas eficientes. Recentemente, sem alarde, o deputado federal confrontou Iris Rezende, com o apoio do pai, e derrotou seu candidato a presidente do PMDB, Nailton “Rezendinho” Oliveira. Num ato de inteligência, ou contrição, o vilelismo — ou maguitismo — não tem o hábito de cantar suas vitórias, nem em verso nem em prosa. Mas espreita, pensa e age. Por isso, mais do que muitos peemedebistas, sabe que, se Iris Rezende for eleito prefeito de Goiânia, o candidato do PMDB será Ronaldo Caiado.

Mas uma derrota de Iris Rezende catapultará Daniel Vilela — ou Maguito Vilela — para a disputa do governo em 2018. De alguma forma, embora o vilelismo não possa dizer isto agora, uma vitória de Vanderlan Cardoso será uma porta aberta para Daniel Vilela (ou Maguito Vilela, mas, se for este, o PMDB não terá como falar em renovação) se firmar como “o” candidato do PMDB. Uma vitória de Iris Rezende tende a retardar a ascensão política do jovem deputado federal. Uma vitória do irismo, portanto, significa uma derrota do vilelismo.

Quem mais ganha com uma vitória de Iris Rezende é Ronaldo Caiado, que, de cara, sai consagrado como candidato bancado pelo prefeito de Goiânia. Porém, uma derrota do peemedebista pode até não abortar o projeto do senador, porque ele tem luz própria, mas o deixa sem estrutura e, sobretudo, não terá o apoio do PMDB para a disputa do governo.
Sem o PMDB, Ronaldo Caiado terá disposição para disputar sozinho, sem aliados, o governo de Goiás? Pode até ser que sim, pois se trata de um político obstinado. Mas, isolado e sem estrutura política, dificilmente será eleito. Poderá se tornar o delegado Waldir Soares de 2018. A diferença é que o senador é um político perspicaz e dificilmente entrará numa “roubada” política que o tornará menor e não maior.

Vanderlan Cardoso

Curiosa ou sintomaticamente, uma vitória de Vanderlan Cardoso para prefeito de Goiânia, assim como uma derrota de Iris Rezende, tende a mudar o xadrez político de 2018. (Acrescente-se que, com quase 1 milhão de eleitores, Goiânia é decisiva para qualquer candidato a governador. Além disso, a capital exerce uma influência maciça na opinião do eleitorado do interior. O que acontece na capital reverbera na maioria das cidades.)
Primeiro, porque enfraquece o irismo, daí também enfraquece Ronaldo Caiado, e fortalece o vilelismo. Pode-se dizer que uma vitória de Vanderlan Cardoso vai abrir as portas para a renovação definitiva do PMDB — coisa que os líderes mais jovens do partido, e até mesmo Maguito Vilela, não conseguem, dada a força castradora de Iris “Muro de Berlim” Rezende. A ascensão do líder do PSB, em verdade, significa mais do que sua vitória pessoal. Significa uma barragem do projeto que não quer renovar o PMDB, o de Iris Rezende, e planeja terceirizá-lo para Ronaldo Caiado.

Marconi Perillo e José Eliton: uma vitória de Vanderlan Cardoso em Goiânia resultará em fortalecimento político do primeiro e em fortalecimento eleitoral do segundo na disputa para o governo de Goiás em 2018

Marconi Perillo e José Eliton: uma vitória de Vanderlan Cardoso em Goiânia resultará em fortalecimento político do primeiro e em fortalecimento eleitoral do segundo na disputa para o governo de Goiás em 2018

Segundo, uma vitória de Vanderlan Cardoso significa uma renovação do grupo político que está no poder. Por quê? Porque, ao contrário do que insinua o irismo, o candidato do PSB a prefeito não é um epígono do governador Marconi Perillo. Pelo contrário, é um político com perfil próprio, independente. Não se trata de um agregado do marconismo e o eleitor percebe isto — sabe que, se eleito, vai governar a cidade, não será monitorado pelo governador ou pela senadora Lúcia Vânia, presidente do PSB.

Na verdade, Vanderlan Cardoso foi derrotado para o governo do Estado, duas vezes, para Marconi Perillo, entre 2010 e 2014, porque não havia conseguido constituir aliança com um grupo político sólido. Agora, com o apoio do governador Marconi Perillo e da senadora Lúcia Vânia, além do deputado federal Marcos Abrão, o postulante do PSB conseguiu o que mais precisa para se cacifar para eleições majoritárias importantes — um grupo político. Mas não chegou a este grupo como serviçal, e sim como aliado privilegiado. Ninguém o controla — e o eleitor percebe isto. O irismo não entende que seu discurso atual, que tenta apresentar Vanderlan Cardoso como subordinado a Marconi Perillo, não está “colando”. O que é uma ilusão, na vida e em campanha eleitorais, é visto como falso pelo eleitor e, por isso, “não pega”.

Constituindo-se numa terceira força política, mas combinado com outra força política, o marconismo, se for eleito prefeito de Goiânia, Vanderlan Cardoso será uma peça decisiva para a disputa eleitoral do governo em 2018. Se o candidato da base marconista for José Eliton (PSDB), vice-governador e secretário da Segurança Pública (seu trabalho é reconhecido pela sociedade como eficiente e participante), ele vai contar com um importante aliado, o líder do PSB, além, claro, da presença imprescindível de Marconi Perillo.

O paradoxo que não se calará até a próxima eleição para governador é: uma vitória de Vanderlan Cardoso para prefeito de Goiânia poderá renovar o PMDB e o PSDB para a disputa de 2018. Se “retirar” Iris Rezende do páreo, enfraquecendo Ronaldo Caiado, fortalecerá “o novo”, quer dizer, Daniel Vilela, o segundo grande nome do vilelismo. Ao “atingir” a estrutura do senador, que perderá o PMDB para o vilelismo, poderá fortalecer José Eliton — que, sublinhe, é também “o novo”. A eleição de 2018 poderá ser um enfrentamento entre o novo do PMDB, Daniel Vilela, e o novo do PSDB, José Eliton. Quem não entender isto com liberdade de pensamento, sem a adoção de análises dogmáticas, enxergará a realidade de maneira desfocada e, portanto, não a compreenderá. A realidade não pode ser entendida pela lente da ideologia, e sim pela lente da verdade, da independência de pensamento, pela liberdade crítica.

Não há como negar: 2016 não define inteiramente 2018, que terá sua própria história, mas mexerá com as estruturas dos que vão disputar as eleições para governador. Como dizem os filósofos pagãos, o futuro nem a Deus pertence, mas quem viver, se quiser, verá: 2018 está sendo definido, ao menos parcialmente, agora. O futuro não se define no futuro, como dizem os filósofos mais sábios, mas no presente. É o presente que constrói o futuro. É isso, como resumem os jovens.

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Mauro de A. Costa

Brilhante editorial, porém, caso seja vencedor o candidato Iris Rezende, o mesmo sairá fortalecido (No próprio raciocínio!) para a sua candidatura para governador em 2018, mais um vez “passando a perna” em aliados , no caso, Ronaldo Caiado, em nome do “desejo dos eleitores e da população do Estado”, usando sua força dentro do PMDB.