Vitória de Daniel Vilela sobre Iris Rezende mostra que o tempo novo demorou 17 anos pra chegar ao PMDB

O jovem peemedebista impôs uma vitória acachapante ao decano do partido. Agora precisa entender que seus principais rivais, daqui pra frente, são José Eliton e Ronaldo Caiado, e não o governador Marconi Perillo

Daniel Vilela e Iris Rezende no dia da vitória do primeiro sobre um preposto do segundo. A política é uma guerra de posições; o deputado federal avançou uma, e muito bem, mas o decano peemedebista ainda tentará dar o troco | Foto: Cristiano Borges/Divulgação

Daniel Vilela e Iris Rezende no dia da vitória do primeiro sobre um preposto do segundo. A política é uma guerra de posições; o deputado federal avançou uma, e muito bem, mas o decano peemedebista ainda tentará dar o troco | Foto: Cristiano Borges/Divulgação

O PMDB envelheceu com Iris Rezende e seus aliados mais próximos, todos com idades superiores a 70 anos. Mas o problema não é a velhice física — que é incontornável para todos (note-se que, aos 84 anos, Fernando Henrique Cardoso permanece lúcido, escrevendo livros, atualizando-se. Há jovens que são mais velhos do que certos velhos). A questão central é que as ideias do partido encaneceram junto com Iris Rezende e com alguns de seus principais aliados (um dos poucos que estudam é o engenheiro e ex-senador Mauro Miranda, leitor atento do filósofo francês Michel de Montaigne) e esta falta de rejuvenescimento de seu ideário contribuiu para embotar sua capacidade de entender a economia, a política e a cultura de Goiás. É muito provável que, se um estudante de Letras perguntar se leu ao menos uma poesia, um romance ou um conto de Heleno Godoy — talvez o principal modernista do Estado, valorizado pelo maior teórico literário do país, Luiz Costa Lima —, Iris Rezende indagará: “Quem é Heleno Godoy?” (leitor, observe a fotografia acima e veja um detalhe não relevante, mas que indica descuido com a Língua Portuguesa: a palavra “presidência” não está acentuada). Pode-se dizer que falta identidade entre alguns líderes do PMDB e seus contemporâneos. Pode-se dizer que certos peemedebistas estão um passo atrás dos goianos e que, a partir de agora, terão de apertar e acertar o passo. Os goianos são cada vez mais cosmopolitas e os danielistas, ao menos eles, precisam entender isto com rigor. Veja-se o caso do deputado estadual Adib Elias: só pensa em Catalão, como se Goiás e o mundo não existissem. Embora formado em medicina, e não seja um beócio, fala como se fosse caipira. Não é o retrato exato de Goiás e, talvez, nem mais de Catalão. É mais o retrato de um certo PMDB.

Ao assumir a presidência do Diretório Estadual do PMDB de Goiás — depois de uma vitória em que sua chapa obteve uma vitória com 73% dos votos —, na sexta-feira, 5, o deputado federal Daniel Elias Carvalho Vilela impôs talvez a primeira grande derrota interna ao ex-peemedebista-chefe Iris Rezende. É uma derrota real, avassaladora, e, ao mesmo tempo, é simbólica. Pois significa que, finalmente, o tempo novo do PMDB venceu as forças que impedem sua renovação.

Depois da vitória, os desavisados que viram as fotografias, com Daniel Vilela de mãos dadas com os adversários que havia acabado de derrotar, por certo não entenderam a dissimulação da cordialidade patropi, tão bem examinada pelo historiador-pensador Sérgio Buarque de Holanda no livro “Raízes do Brasil”. Depois de uma vitória interna, busca-se a paz, com o objetivo de reagrupar o partido e enfrentar o adversário comum — o grupo que governa o Estado há pouco mais de 16 anos. Mas a ascensão interna de Daniel Vilela, um jovem de 32 anos, não está inteiramente consolidada. Depois dos salamaleques, do teatro encenado pós-eleição, o novo peemedebista-chefe perceberá que as resistências continuarão e terá de enfrentá-las com energia redobrada.

O senador Ronaldo Caiado (DEM), um político de valor e com forte presença nacional, parabenizou Daniel Vilela pela vitória. Por dois motivos, possivelmente. Primeiro, trata-se de um gesto de civilidade. Segundo, por entender, finalmente, que, se quiser disputar o governo em 2018, numa aliança com o PMDB, terá de tratar com o deputado federal e não só com Iris Rezende (o poder tem sua liturgia). Este, com a terceira derrota para o governo, em 2014, e agora, com uma derrota interna — não conseguiu eleger Nailton Oliveira, o “rezende-boy”, para o comando do PMDB —, praticamente descredenciou-se da política estadual, tornando-se um político exclusivo de Goiânia. Por sinal, se eleito prefeito da capital, em 2 de outubro deste ano, se tornará uma pedra no sapato de Daniel Vilela.

Iris Rezende tem duas obsessões. A primeira é, um dia, derrotar o governador Marconi Perillo, do PSDB. No caso, a obsessão está próxima do ódio. Mas dificilmente os dois vão disputar eleição outra vez. A segunda é encontrar alguém, um preposto, para tentar “destruir” o tucano-chefe. A aliados mais íntimos, não dos que frequentam seu escritório, e sim seu apartamento, ao lado do restaurante Tribo, no Setor Marista, o decano peemedebista diz, de maneira não muito moderada, que não confia na lealdade política do prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, e de seu filho, Daniel Vilela. O motivo é prosaico: ele acredita que, por baixo dos panos, trama-se uma aliança entre Maguito Vilela e Marconi Perillo. Não há quem retire esta provável paranoia de sua cabeça. A um ex-deputado federal lamentou que, nos últimos anos, Maguito Vilela tem elogiado mais Marconi Perillo do que a ele, Iris Rezende.

Frise-se que a palavra “preposto”, que será usada a seguir, não tem conteúdo pejorativo, até por que o senador Ronaldo Caiado é um político consolidado, em termos locais e nacionais — com referenciais próprios. Mas Iris Rezende o vê como o “preposto” adequado para tentar derrotar o candidato a governador apoiado por Marconi Perillo em 2018. No fundo, o peemedebista gostaria de disputar, porque acredita que será capaz de derrotar um postulante que não seja o tucano-chefe, mas sabe também que o partido não o bancará para uma quarta eleição, depois de três derrotas acachapantes. Por isso, é o que dizem seus três ou quatro amigos íntimos — sabe-se que os amigos do peito do ex-prefeito de Goiânia são contáveis nos dedos de uma mão, dada sua visão utilitarista das relações pessoais —, especialmente se for eleito prefeito, trabalhará para bancar Ronaldo Caiado para governador. Não gostaria de apoiá-lo se permanecer no DEM, mas, se aceitar filiar-se ao PMDB, Iris Rezende certamente tentará bancá-lo para o governo.

José Eliton (PSDB) e Ronaldo Caiado (DEM): o vice-governador e o senador deverão ser os principais adversários de Daniel Vilela na disputa pelo governo de Goiás em 2018. Estratégia e táticas do deputado federal devem ser definidas a partir disto | Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

José Eliton (PSDB) e Ronaldo Caiado (DEM): o vice-governador e o senador deverão ser os principais adversários de Daniel Vilela na disputa pelo governo de Goiás em 2018. Estratégia e táticas do deputado federal devem ser definidas a partir disto | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

O que é que une Ronaldo Caiado e Iris Rezende? Uma espécie de raiva visceral por Marconi Perillo. O motivo é que, na prática, o tucano-chefe travou a ascensão dos dois políticos. O peemedebista não conseguiu voltar o governo e o senador nem mesmo conseguiu mais disputar o governo, desde 1994 — quando perdeu para Maguito Vilela. A raiva, como o mito, é paralisante e impede, por vezes, as pessoas de compreenderem quadros políticos reais. Fica-se com a impressão de que Ronaldo Caiado e Iris Rezende falam de um Marconi Perillo imaginário, que só existe na mente deles. Mas deixam escapar o tucano real, que, com uma grande capacidade de mutação e visão do Estado — talvez porque aposte em planejamento e examine as pesquisas com atenção redobrada —, impôs cinco derrotas consecutivas ao grupo de Iris Rezende.

Portanto, Daniel Vilela não deve pensar que a fatura está liquidada, que não precisa consolidar outras posições. Quem pensa só no presente é criança. Adultos têm de conectar o passado ao presente, avaliar possíveis cenários, articular interpretações do que poderá acontecer — com pesquisas e exames racionais do processo — para estabelecer posições. Político que trabalha apenas com um cenário fixo, sem anotar possíveis variações, em geral não consegue apreender as possibilidades do futuro, que se define no presente, nunca no futuro. Porque, na prática, o futuro não existe, ou melhor, vai sendo construído no presente. Daí as necessidades de intervenções pontuais, como a luta travada por Daniel Vilela para se tornar presidente do PMDB, ganhando posição interna e destaque externo, passando a ser visto pela sociedade, a partir de agora, como um líder político. Sobretudo, o primeiro líder que de fato derrotou Iris Rezende de maneira fragorosa.

Ao ganhar de Iris Rezende, derrotando o preposto Nailton Oliveira — por sinal, um jovem de valor —, Daniel Vilela e alguns de seus aliados deram a entender que não avaliaram a vitória de maneira precisa. A política é, também, uma guerra de posições. Ganha-se uma posição, firma-se uma tese, e aí tenta-se consolidar a posição seguinte — até se chegar à vitória que se considera final ou definitiva. Os discursos, que a imprensa não examinou com atenção, sugeriram que Daniel Vilela, mesmo sem ter disputado com políticos da base governista, teria vencido um marconista — quiçá o próprio Marconi Perillo. Quem faz política assim, sem examinar o quadro real com perspicácia, corre o risco de, em 2018, perder a sexta eleição consecutiva.

Fica-se com a impressão de que, para Daniel Vilela e para seus aliados, como José Nelto — porém não para Maguito Vilela, que é muito mais perspicaz do que parece, no estilo de Lula da Silva —, o adversário a ser batido em 2018 é Marconi Perillo. Claro que não é. Daniel Vilela, se quiser ser candidato a governador, terá de redefinir sua interpretação da realidade e armar sua estratégia de batalha a partir de outro quadro real: seu principal adversário tende a ser o vice-governador, José Eliton (PSDB). Trata-se de outro político jovem, de matiz renovador, mas muito diferente de Marconi Perillo. Para enfrentá-lo, o jogo será diferente. Se agir com inteligência, talvez astúcia — e, frise-se, Maguito Vilela é uma raposa política —, Daniel Vilela terá de adotar um marketing diferente, deixando, assim, de “puxar” Marconi Perillo para um debate do qual este, como possível candidato a senador, não terá como participar, ao menos não diretamente. Chamar Marconi Perillo para o debate é aumentar a musculatura de José Eliton (houve um tempo em que, para agradar Iris Rezende, peemedebistas se sentiam compelidos a “atacar” o tucano-chefe. Era a senha para se tornar irista. Agora, imagina-se, isto não é mais necessário. Criticar o governo de Marconi Perillo é necessário e iluminador, mas atacá-lo pura e simplesmente não leva a nada). Daniel Vilela terá de “disputar”, partir de agora, é com José Eliton. A “guerra” será entre eles. Com uma ressalva: Ronaldo Caiado, visto hoje como aliado, pode amanhã ser adversário, no primeiro turno. Há inclusive a possibilidade de que, na hipótese de segundo turno, Daniel Vilela tenha de tentar remover Ronaldo Caiado para enfrentar José Eliton. Mas aqui, é evidente, se está avançando por demais no terreno da especulação.

Aos poucos, ao examinar a política com mais frieza, Daniel Vilela por certo perceberá que os eleitores não querem que o PMDB passe apenas por uma plástica. Porque, se o jovem peemedebista não renovar seu discurso e se apresentar um projeto que seja uma volta ao passado, e não um avanço em relação a Marconi Perillo, aos poucos a sociedade vai interpretá-lo meramente como um Iris Rezende mais jovem e mais bonito. A vitória de Daniel Vilela ainda não é a renovação do PMDB. É o seu início. Ele precisa entender isto bem, porque é assim que a sociedade, neste momento, por certo está interprendo os fatos.

Eleitores, e não apenas os que são considerados formadores de opinião, têm bom senso e não apreciam políticos que falam tão-somente dos outros, propondo críticas velhas, viciadas e que não interpretem nada e não convencem ninguém. É hora de o PMDB, com Daniel Vilela na presidência, falar menos de Marconi Perillo e falar mais das ideias do PMDB e de seu líder. As críticas excessivas ao tucano-chefe por vezes têm efeito contrário: levam-no ainda mais para o cérebro dos eleitores, tornam-no mais examinado do que aqueles que o criticam. A política exige certo egocentrismo: é preciso falar de si, e menos dos outros. Fica-se com a impressão que a obsessão de certos peemedebistas com Marconi Perillo trata-se, diria um psicanalista atento às coisas da política, de certo encantamento, de uma forma de mesmerização.

O tempo novo de 1998 chegou finalmente ao PMDB, com a ascensão de Daniel Vilela. Mas o peemedebista terá de examinar o quadro atual e conectá-lo ao que poderá acontecer em 2018. Vinte anos depois de 1998. A vitória do jovem indica que o PMDB não morreu, mas não significa que já está a caminho do poder. O percurso é longo e é preciso consolidar e conquistar novas posições. O garoto tem tutano, mas a política — a batalha pela conquista do poder — exige mais do que isto.

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