O petista Marcelo Arruda e o bolsonarista Jorge Guaranho: final chocante para uma tragédia que começa no discurso

No Editorial da edição anterior, o tema era sobre uma disputa política entre adversários que soubesse ter limites. O mote – que, no jornalismo, convencionamos chamar de “gancho” – para o texto foi a morte de Ronaldo Ramos Caiado Filho, herdeiro do governador Ronaldo Caiado (União Brasil) que, no dia 3 de julho, foi encontrado sem vida na fazenda da família em Nova Crixás.

O luto da autoridade máxima do Estado causou a paralisação temporária das articulações entre os aliados em um momento crucial para as negociações e mostrou solidariedade vinda de arquirrivais na briga pelo poder, que, às vezes, é dura demais. Isso demonstra que certas questões ainda são mais importantes do que qualquer discordância eventual ou mesmo sistemática entre pares na política.

Uma semana depois da morte de Ronaldo Filho, o Brasil é sacudido com uma notícia chocante por outra morte envolvendo a política: o guarda civil Marcelo Aloizio de Arruda comemorava meio século de vida com a família e amigos em um espaço de festas em Foz do Iguaçu (PR), quando foi provocado por um desconhecido, na entrada do local: era o policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho.

O motivo: a festa de Arruda era temática e celebrava o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no sábado, 9. Ele era tesoureiro do diretório local do partido e havia sido candidato a vice-prefeito do município nas últimas eleições. Guaranho, por sua vez, apoiador militante do presidente Jair Bolsonaro (PL). As imagens de vídeo mostram como tudo se desenrolou até virar uma tragédia que chocaria o País. Com a filha e a mulher dentro do carro, da porta do evento ele começou a gritar palavras de ordem contra o PT e em favor de Bolsonaro. Arruda saiu para entender aquilo e eles discutiram. Guaranho manobrou o carro e voltou à porta para continuar a gritar com as pessoas dentro do evento.

Arruda saiu novamente à porta e desta vez reagiu, de acordo com a imagem do vídeo, jogando alguma coisa na direção do carro. Foi o momento em que o policial penal sacou uma arma e a apontou. Sua mulher clamou para irem embora e ele, então, jurou os presentes: “Vou voltar e matar todos vocês”. E saiu com o carro.

Vinte minutos depois, o bolsonarista Guaranho cumpria o que prometera. Invadiu a festa, mesmo com a mulher de Arruda, Pamela Suelen Silva, uma policial civil, tentando contê-lo na entrada. Alvejou o aniversariante, que caiu, mas, mesmo ferido, também o atingiu – Marcelo Arruda havia se precavido contra uma possível volta do agressor, pegando sua pistola no carro. Foi levado para o hospital, mas não resistiu. Guaranho, que foi dado como morto oficialmente, de acordo com as autoridades policiais, até a tarde de domingo, seguia internado em estado grave até o fechamento desta edição.

Resumo da história: um militante radical, da forma mais radical possível, não tolerou que pessoas de um perfil oposto fizessem uma festa celebrando o político e o partido com o qual se simpatizavam.

Mas não é de agora que as rivalidades políticas estão se acirrando no Brasil. O quadro é grave pelo menos desde as jornadas de junho de 2013, quando manifestantes passaram a inibir bandeiras de partidos nos protestos. “Sem partido! Sem partido!” passaram a ser palavras de ordem. Começava ali o processo mais acentuado de negação da política, que culminaria com a eleição, em 2018, de um suposto “outsider”. O “suposto” vem do fato de que o capitão da reserva Jair Bolsonaro já era político havia três décadas quando venceu o petista Fernando Haddad naquele segundo turno.

O fato é que Bolsonaro venceu, mas nunca desceu do palanque: seu discurso continuou sendo de contestação, mesmo sendo ele, agora, o “status quo”. Um episódio recente que mostra isso de forma clara foi a briga que comprou com a Petrobrás – uma empresa sob controle do Estado, ou seja, do governo federal – por causa dos sucessivos aumentos nos preços dos combustíveis.

Mas se o palanque de Bolsonaro fosse composto apenas de um discurso “contra tudo que está aí”, mesmo sendo ele o próprio mandatário, tudo se tornaria apenas de questão de estratégia político-eleitoral. A questão é que o presidente nunca viu seus opositores apenas como adversários. O discurso agressivo contra quem o contestasse foi a tônica, especialmente os do polo oposto: os “comunistas”, a “petralhada”, os “marginais vermelhos”. Certa vez, em agosto de 2019, ao discursar em Parnaíba (PI), disse que iria “acabar com o cocô” no Brasil. “O ‘cocô’ é essa raça de corruptos e comunistas”, explicou.

Antes disso, ainda em campanha, falou em “fuzilar a petralhada” do Acre. Uma semana antes do segundo turno, prometeu “varrer do mapa esses bandidos vermelhos” e mandá-los “para a ponta da praia”, como era chamado um lugar conhecido por desova de corpos na Restinga de Marambaia, no Rio de Janeiro, onde há uma base da Marinha. Isso foi transmitido, ao falar por videoconferência, a uma multidão de apoiadores que o acompanhavam na Avenida Paulista, em São Paulo.

Não bastava vencer os adversários. Era preciso “fuzilar”, “varrer”, “acabar”. Termos usados de forma agressiva, muitas vezes, saem da boca de políticos. Em 2010, O então presidente Lula disse que era preciso “extirpar o DEM da política brasileira”, durante um comício, com a então candidata e futura presidente Dilma Rousseff a seu lado. Ora, o DEM, hoje União Brasil, não era uma pessoa, mas, por associação, poderia se fazer uma leitura mais direcionada a seus filiados.

Qual é o problema de Bolsonaro usar os termos que usa, então? O problema é que a linguagem do presidente não é agressiva esporadicamente: ele é continuamente agressivo em suas falas. Em tempo: a primeira vez em que se soube ter saído de sua boca a palavra “fuzilar” isso ocorreu em 1999 e ele se referia ao então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB)

Junte-se a isso o incentivo ao armamento civil que promove ainda mais frequentemente – a ponto de triplicar o número de armas de fogo nas mãos da população durante seu mandato – e cria-se uma mistura explosiva. Tão explosiva que a ligação entre o crime do bolsonarista Guaranho e o discurso de ódio de origem presidencial foi praticamente automático.

Questionado por uma repórter dois dias depois da tragédia, sobre se o seu discurso não teria, de alguma forma, incentivado a violência a ponto de acarretar aquele tipo de consequência, Bolsonaro reagiu, irritado: “Você sabe o que é sentido figurado? Você estudou português na sua faculdade ou não?”.

Se a repórter estudou português na faculdade ou não – até por ser uma disciplina de ensino básico e não superior –, não se sabe. Mas quem pesquisa falas e discursos pode dizer, com propriedade que palavras são também uma forma de ação: a Pragmática, com a teoria dos atos de fala desenvolvida ainda nos anos 60 e que teve como mestre o linguista britânico John Austin entende a linguagem como uma forma de ação. “Todo dizer é um fazer”.

Não é de agora, nem “apenas” desde o início de seu mandato, que Bolsonaro “faz” essas falas. O discurso de apologia às armas e à morte do inimigo é parte constitutiva de seu ser. O cargo máximo da Nação deu-lhe o poder de reverberá-lo gigantescamente. Guaranho é só um exemplo de como a linguagem pode performar. E relembrando: esse discurso, associado às armas, é extremamente danoso ao tecido social de uma nação.