Tiros contra Lula empurram democracia do Brasil na ladeira da intolerância

Você pode até acreditar, por qualquer motivo, que o ex-presidente seja o maior criminoso do País, que isso não lhe dá direito a fazer “justiça” por conta própria

Foto: Ricardo Stuckert

Está para surgir manifestação mais curiosa – pa­ra não dizer que de­ve ser estudada pela psi­quiatria – do que bater panela na frente de uma televisão enquanto um presidente da República se pro­nuncia ou fechar a Praça do Ban­deirante contra a Reforma da Pre­vidência. Concorde ou não, as duas são formas de protesto legítimas e devem ser respeitadas, até mes­mo se parecerem incompreensíveis e com pouca eficácia.

Se os movimentos de demonstração pública do descontentamento a determinada política governamental, fi­gura partidária ou sigla seguissem o script do campo das ideias, da importunação das vias in­terditadas por marchas de pessoas ou com barulho nas janelas, es­taríamos no caminho natural dos pro­testos de uma sociedade participativa e que pressiona por meios de­mocráticos de usar o direito à voz. A triste realidade é que, pe­quenos grupos ou individualidades fascistas, tem crescido em escala assustadora a intolerância e interpretado a garantia da opinião como im­posição do posicionamento. Do mais ignorante ao extremamente es­clarecido.

A raiva contra o diferente e o in­dividualismo extremo atingiram ní­veis intoleráveis e inexplicáveis. Ao ponto de a violentada expressão “direitos humanos” ter se tor­nado moeda de troca na distorção ideológica que desafia a capacidade intelectual das pessoas a entender – sabe-se lá como – que o estabelecimento da cidadania seria o mesmo que defender bandido. A interpretação nada racional do ter­mo gerou uma série de manifestações de ódio e comemorações incompreensíveis quando foi noticiada a execução da ve­re­a­dora do PSOL do Rio de Ja­nei­ro, Marielle Franco, e o motorista An­derson Gomes, na noite de 14 de março.

O desafio à inteligência e o respeito às diferenças tomaram um gol­pe fortíssimo ao serem confrontados com a crueldade desrespeitosa das notícias inventadas e fatos que nunca existiram, mas co­me­çaram a ser atribuídos à imagem da vítima de assassinato, única e exclusivamente pelo fato de que “direitos humanos” seriam coisas inventadas por “esquerdopatas” para defender bandido. Não adiantaram institutos de verificação de in­formações comprovarem com to­das as provas e fatos possíveis que todas as invenções contra Ma­ri­elle se tratavam de fake news. A frase “eu disse a verdade, se você não acredita é problema seu” tem to­mado força desproporcional e des­leal frente aos acontecimentos. Eu defendo aquilo que é favorável à verdade de mundo que eu construo de acordo com minhas convicções, se isso é uma invenção da minha cabeça pouco importa, o meu universo particular fica mais confortável assim.

Não bastasse o ódio agravado pelos algoritmos das redes sociais na internet, pelos quais só se tem acesso a conteúdos favoráveis e tranquilos para a sua vida diária, sem qualquer chance de ser confrontado com uma realidade oposta às suas crenças, as pessoas têm se engajado de corpo e alma – quando não com punhos, pontapés, xingamentos, armas e sangue – na violenta atitude de evitar a fadiga do desgaste cerebral do debate de ideias e partido para a comprovação anencéfala da deturpação por meio da agressão.

Bastaram 13 dias – curiosamente o mesmo número do PT nas urnas – depois da morte de Marielle e Anderson para que dois dos três ônibus da caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Sul, depois de ataques, vidros quebrados, ovos e pedras arremessados contra os participantes dos eventos, sofressem um ataque a tiros. Você leu isso mesmo: disparos de arma de fogo. Quando se esperava a reação intolerante e simplista de quem deseja a salvação do Brasil pelos discursos rasos de um pseudomártir ou ao coro de “mito” em saguões de aeroportos, o despejo de frases infelizes e raivosas surgiu da boca dos que deveriam ser os mais co­me­didos e que aguardava-se demonstração de in­dignação em defensa da apuração imediata do grave ocorrido em Quedas do Iguaçu (PR) na noite da terça, 27: pré-candidatos a presidente adversários de Lula.

É justo e natural que aqueles que en­xer­­gam na pessoa do ex-presidente um bandido em liberdade se revoltem com a de­mo­ra da Justiça em, depois da con­denação em segunda instância, ainda permitir que ele excursione pe­lo Brasil na posição de pré­-candidato a Presidência da Re­pú­bli­ca. O que não torna justificável, mes­mo que por parte de um pe­que­no gru­po, que alguém atente contra uma reunião de pessoas ou em con­fronto à vi­da de Lula – ou mesmo de Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB) e João Dória (PSDB), que ironizaram o caso em suas declarações iniciais.

“Lula quis transformar o Brasil num galinheiro. Agora está colhendo os ovos.” A frase do pré-candidato Jair Bolsonaro não surgiu das falas de um internauta metido a comediante criador de memes ou veio da página do Movimento Brasil Livre (MBL). Nem mesmo a tentativa desastrada de Alckmin ao se retratar criticando o petista um dia depois de afirmar que “estão colhendo o que plantaram”: “É papel de ho­mens públicos pregar a paz e a uni­ão entre os brasileiros. O país es­tá cansado de divisão e da convocação ao conflito”. Quem completa o termômetro da ladeira es­cor­regadia pela qual a democracia bra­sileira despenca rumo à caverna da intolerância é o pré-governadoriável por São Paulo, João Dória. O quase ex-prefeito que queria ace­lerar a capital paulista afirmou que “o PT sempre utilizou da violência, agora sofreu da própria violência”.

Que o Partidos dos Trabalha­do­­res, em momentos específicos, incentivou o extermínio da oposição – na condição de ocupante do espaço político – e chegou a dizer que pegaria em armas para evitar a prisão de Lula, isso não há como negar. Quem tentar será traído pe­las gravações e notícias publicadas em diversos veículos de comunicação. O problema está justamente em defender que a fala do ou­tro justifique um ato violento, um xingamento, uma agressão ou até uma tentativa de homicídio em bus­ca do que se acredita ser a “justiça”.
Não. Isso nem de longe é fazer valer o direito à justiça, no sentido de algo legal e justo. Atirar contra um ônibus, matar uma política su­pos­tamente por sua atuação parlamentar em defesa dos oprimidos e sem voz ou agredir alguém porque de­clarou que votará em Lula, Dó­ria, Alckmin, Bolsonaro, Marina Silva (Rede), Ciro Go­mes (PDT), Flávio Rocha (PRB) ou João Amoedo (Novo) é jo­gar fora o que o ser humano tem – ou deveria – de mais precioso, que é a capacidade de síntese. Vol­te­mos a ser uma espécie racional, sai­bamos dialogar ou em pouco tem­po estaremos presos na caverna de Platão armados com ovos, pe­dras, chicotes e correntes. Ou até mesmo pistolas, que estarão apon­tadas para pedestres, ciclistas, ou­tros motoristas, vizinhos, colegas de trabalho e parentes.

Sobreviveremos até outubro pa­ra votar no melhor populista, com soluções simplistas para nossas vidas, embalado em uma boa pro­dução de discurso e imagem na pro­paganda eleitoral de rádio e TV? Podemos também aprender a res­peitar a opinião do outro e en­tender que as pessoas são diferentes e precisam usar o poder do diálogo para enfrentar a complexidade dos desafios que um país em crise nos obriga a encarar.

Deixe um comentário