Se apoiar Ronaldo Caiado para governador, Daniel Vilela estará praticando haraquiri político

Na política, ninguém engana ninguém. Portanto, apesar dos salamaleques habituais, uma candidatura do senador fortalece Iris Rezende e enfraquece o vilelismo

Daniel Vilela e Maguito Vilela, Iris Rezende e Ronaldo Caiado: o grupo dos dois primeiros sabe que o inimigo às vezes é, primeiramente, interno; o grupo dos dois últimos quere derrotar a estrutura de Marconi Perillo, mas antes trabalha para enfraquecer o vilelismo | Fotos: Divulgação

“O que sou não me
pertence por inteiro”,
do poema “Néon”, de Adalberto de Queiroz

Na política, como na vida, ninguém engana ninguém. Os indivíduos às vezes se deixam enganar, mas sabendo que estão sendo burlados. Há, claro, o autoengano. A frase “me engana que eu gosto”, certamente irônica, revela menos masoquismo e mais consciência do que se disse na primeira frase deste Editorial. Recentemente, o senador Ronaldo Caiado (DEM), o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (PMDB), e o deputado Daniel Vilela, presidente do PMDB em Goiás, estiveram em Trindade e chegaram no mesmo veículo. Estão unidos, por certo; eis o recado “comprado” por parte da imprensa. Estão? Quem está enganando quem? Na verdade, todos estão jogando, mas ninguém está ludibriando ninguém, com a ressalva de que políticos mais velhos quase sempre avaliam que conseguem “dobrar” a espinha dorsal dos mais jovens.

O senador Ronaldo Caiado planeja ser candidato a governador de Goiás e, ao buscar novos aliados, tem sugerido que não será abandonado por Iris Rezende. Noutras palavras, o prefeito permanece articulando pela sua candidatura. Uma de suas ações, a mais importante, é convencer Daniel Vilela de que, sendo jovem, pode esperar um pouco mais. Quer dizer: a missão do decano peemedebista é dupla. Primeiro, retirar Daniel Vilela do páreo. Segundo, fortalecer Ronaldo Caiado e, em seguida, bancar sua campanha (inclusive financeiramente; sem a Prefeitura de Goiânia, como uma espécie de base, a campanha do democrata morrerá na praia).

O argumento de Iris Rezende — que raramente formula o que pensa com clareza; trata-se do político das entrelinhas e do quase-dito — não é tolo: Ronaldo Caiado lidera as pesquisas de intenção de voto. Mesmo considerando que, no momento, as pesquisas refletem mais “conhecimento” e “desconhecimento” a respeito dos postulantes, os números do senador do partido Democratas são efetivamente muito bons. Ele tem mais de 30% das intenções de voto, beirando, por vezes, os 40%. O risco é, com a campanha, começar um período de desidratação incontornável. Por saber disto é que o senador articula o apoio de Iris Rezende, primeiro, e do PMDB, em seguida. A função do peemedebismo é dupla. Primeiro, ao fornecer estrutura política e capital financeiro, evitar a temível desidratação, como ocorreu em 1994, quando Ronaldo Caiado caiu de primeiro para terceiro lugar e não foi ao segundo turno da disputa para o governo. Segundo, a retirada de Daniel Vilela do páreo geraria uma polarização Ronaldo Caiado versus José Eliton, o postulante do PSDB. O presidente do DEM estaria garantido no segundo turno e, claro, contando com a estrutura histórica do peemedebismo.

Político hábil, de ampla experiência e plenamente maduro, Ronaldo Caiado confia em Iris Rezende mas desconfia dos políticos que comandam o PMDB, direta ou indiretamente: Daniel Vilela e seu pai, Maguito Vilela. Se não desconfiasse, estaria articulando tão-somente com o PMDB. No entanto, não está. O senador está dialogando com vários indivíduos da sociedade civil — muitos deles (empresários, médicos e advogados) sem qualquer ligação com a política partidária — e com políticos com o objetivo de constituir uma chapa alternativa caso não dê certo a articulação com o peemedebismo. A articulação em duas frentes não significa que o senador está enganando o PMDB, ou especificamente Iris Rezende, e sim que se tornou um político maduro. No fundo, sabe que Iris Rezende e três prefeitos — Adib Elias (que gostaria de ser o seu vice), de Catalão, Ernesto Roller, de Formosa, e Paulo do Vale, de Rio Verde — são importantes, mas não são necessariamente decisivos na definição de apoio ao candidato “x” ou “y”.

O que se disse acima é sobejamente conhecido por Daniel Vilela. Portanto, nem Iris Rezende nem Caiado, e muito menos Adib Elias, Ernesto Roller e Paulo do Vale, estão tentando enganá-lo. Na semana passada, um repórter do Jornal Opção ouviu de um deputado do PMDB: “Ronaldo Caiado, longe de se preocupar com a eleição de 2018, deveria se preocupar com a eleição de 2022”. O repórter perguntou o que significava realmente o que estava sugerindo e o parlamentar não se fez de rogado. “Em 2014, o PMDB tinha chance de fazer um senador, mas optou, para ampliar sua base político-partidária, por apoiar Ronaldo Caiado, que é do DEM. Nossa base se empenhou e contribuiu para sua vitória. Sem as forças do peemedebismo no interior, além de Goiânia, jamais ele teria sido eleito para o Senado. Portanto, Ronaldo Caiado nos deve um mandato. Por que, tendo lhe dado um mandato, o PMDB vai lhe dar um segundo mandato, em 2018, agora para governador? Os líderes do PMDB enlouqueceram ou tomaram uma dose excessiva de ‘bobice’? Na verdade, nem uma coisa nem outra. O que ocorre é que o grupo de Iris Rezende, no afã de retomar o controle do PMDB, está buscando um político de fora, Ronaldo Caiado, para tentar retomar o comando partidário. Será que Daniel Vilela vai se tornar instrumento de seu próprio enfraquecimento?”

O deputado disse ao repórter que estava falando em seu nome, e não no de Daniel Vilela, mas pediu o anonimato da fonte (“não quero ficar mal com Iris Rezende”, frisou). O que ele disse tem pertinência.

O grupo de Iris Rezende criou a tese — depois a enfiaram na cabeça do deputado José Nelto, que a espalha como se fosse um robô que não desliga — de que, para ganhar de José Eliton (PSDB), o candidato apoiado pelo governador de Goiás, Marconi Perillo, é preciso criar uma grande frente política. Não se fala em apresentar um projeto moderno de governo, ideias que possam conectar o PMDB aos goianos atuais — Iris Rezende está sempre “dialogando” com goianos e goianienses imaginários, “seres” que vivem, como ele, no passado, numa nostalgia sem fim —, mas a tese irista esbarra na realidade: por que o PMDB pode se unir com Ronaldo Caiado, um político de outro partido, mas o DEM não pode se unir ao PMDB para bancar Daniel Vilela para governador?

Sendo Daniel Vilela o “novo”, a “renovação” de que tanto se fala, por que apoiar um político tradicional de quase 70 anos? Parece não ter lógica. Ao contrário do que se pensa, a política não é infensa à lógica. O jovem peemedebista sabe também que o problema crucial das oposições não é o esboço de uma frente ampla, mas sim a falta de um projeto alternativo ao do grupo do tucano Marconi Perillo. Outro problema, de 1998 a 2014, é que o PMDB não renova seus candidatos. Agora, quando há a possibilidade de renovação, inclusive de nome, o PMDB vai entregar o “ouro” a um político externo, Ronaldo Caiado?

Há outra questão, que, embora sendo chave, é tratada como de somenos importância. Há algum tempo, Daniel Vilela foi eleito presidente do PMDB, impondo uma derrota ao grupo de Iris Rezende. Uma vitória pede outra vitória para ser consolidada. Porém, numa evidência de que está ativo politicamente e sabe interpretar a conjuntura, Iris Rezende sabe que seu grupo sozinho, hoje minoritário, não tem condições de enfrentar o vilelismo. Por isso, buscou Ronaldo Caiado como uma âncora . Não se trata, agora, de um Nailton Oliveira, o que perdeu o comando do PMDB para Daniel Vilela.

O que Iris Rezende está tentando impedir, ao tentar impor Ronaldo Caiado como “o” candidato do PMDB, é uma segunda vitória de Daniel Vilela. Não se está sugerindo que o deputado será eleito governador, e sim que, se for candidato a governador, será uma segunda vitória contra o irismo, o que consolidará seu grupo como realmente hegemônico no PMDB. Uma candidatura de Daniel Vilela a governador exclui, de vez, Iris Rezende da política regional e consolida o grupo vilelista como a nova e definitiva voz do partido.

Portanto, já que ninguém engana ninguém, por que Daniel Vilela vai apoiar Ronaldo Caiado para governador, exatamente o político que Iris Rezende quer usar para reduzir a força do vilelismo? Tanto Daniel Vilela quanto Ma­guito Vilela são políticos suaves, de rara finesse, mas, no momento, sabem que é tudo ou nada. Ou Daniel Vilela disputa o governo, para ganhar ou para perder, ou então abre espaço para o grupo de Iris Rezende bancar Ronaldo Caiado e, por consequência, renuncia à hegemonia no PMDB.

Em suma, apoiar Ronaldo Caiado para governador é, do ponto de vista de Daniel Vilela, praticar haraquiri. E, até onde se sabe, o deputado não tem vocação para Yukio Mishima. Pelo contrário, nas articulações, tem mostrado mais vigor do que o próprio pai, que sempre cedeu ao irismo. O jovem peemedebista, até aqui, está crescendo exatamente por enfrentar Iris Rezende.

O comentário acima não está sugerindo que Daniel Vilela é melhor candidato do que Ronaldo Caiado ou vice-versa; afinal, os dois postulantes, ainda que tenham defeitos, têm virtudes e merecem respeito. O objetivo do Editorial é sugerir que, retirado o salamaleque da política, o jogo é brutal. Insistamos: na política, como na vida, ninguém engana ninguém. Os eleitores e os leitores, portanto, também não devem se deixar enganar com os tradicionais salamaleques da política, às vezes mal registrados pela imprensa, que não raro confunde a “superfície” com o “fundo”. l

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Honrado por ter um trecho do meu poema neste editorial.
Gratidão, Euler De França Belém.
Abraço fraterno do
Beto.

Luciano Almeida

Como sempre, os atores do PMDB são o “cacique”, o “ex-cacique” e o “novo” é um “caciquinho”. E os “índios”? Só figuração. Quem já viu esse filme, sabe como termina.

Petronio

Marconi Vai Ser Eleito Senador e Vai Eleger José Eliton Governador e Base vai Fazer Maioria dos Deputados Estaduais e Federais !!! Escutaiiiii