Ronaldo Caiado é o candidato que mais deve desconfiar das pesquisas extemporâneas

Pré-candidato do DEM não tem estruturas no interior, as pesquisas revelam um quadro inercial e as forças progressistas vão se unir contra ele num possível segundo turno

Ronaldo Caiado (DEM), José Eliton (PSDB), Daniel Vilela (MDB) e Kátia Maria (PT): no caso de segundo turno, todos devem ficar contra Ronaldo Caiado, que não atrai apoio progressista; situação do senador é complicada | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

O resultado do primeiro turno no Tocantins contrariou as pesquisas iniciais e o governador Mauro Carlesse e o senador Vicentinho Alves foram para o segundo turno. Eram mesmo os melhores? Na verdade, a maioria dos eleitores não aprovou os dois candidatos — dando prova de desmotivação generalizada. Há um fenômeno que, na falta de uma palavra menos imprecisa, talvez possa ser nominado de “inercial”. Num determinado momento, quando políticos e jornalistas estão discutindo eleições — como se fossem o centro da vida dos cidadãos —, a sociedade está debatendo a própria sobrevivência, seu cotidiano. Portanto, a pesquisa que apresenta um postulante em primeiro lugar pode representar menos popularidade e mais conhecimento de um e desconhecimento do outro. Na prática, é possível que apenas um pré-candidato esteja sendo avaliado, pelo fato de ter seu nome consolidado, e os outros amplamente ignorados. Na campanha, isto tende a mudar. Vale, portanto, discutir três questões, que são conectadas, mas que, para efeito didático, serão discutidas separadamente.

Pesquisas eleitorais

No momento, as pesquisas de intenção de voto indicam o pré-candidato do DEM a governador, senador Ronaldo Caiado, como o “preferido” dos eleitores. O governador José Eliton, pré-candidato do PSDB, e o deputado federal Daniel Vilela, pré-candidato do MDB, disputam o segundo lugar. Kátia Maria, do PT, e Wesley Garcia, do PSOL, vêm a seguir.
Não se deve depreciar as pesquisas e os institutos (Fortiori, Grupom, Serpes) que as fazem, pois, no geral, são sérios e competentes. O que se deve dizer é que as pesquisas são um retrato do momento, não da campanha, que ainda não começou. Os nomes são ventilados como candidatos, mas ainda não foram absorvidos como tais pelos eleitores. A tendência, então, é que o nome mais conhecido, que está na política há mais tempo, seja referendado. Mas, com o confronto de projetos e com a exposição inclusive física dos candidatos, o quadro pode mudar. Em 1994, Ronaldo Caiado era o primeiro colocado, com Lúcia Vânia em segundo lugar e Maguito Vilela em terceiro. As urnas mostraram o candidato do DEM — na época, PFL — em terceiro lugar e Lúcia Vânia e Maguito Vilela foram para o segundo turno. O emedebista foi eleito governador.

Não se está dizendo que o quadro de 2018 será idêntico, e sim que é preciso ter cautela com pesquisas extemporâneas. Há políticos que não querem estabelecer alianças agora porque sabem que não podem ser definidas com base nas pesquisas atuais. Ronaldo Caiado é o líder, digamos, “inercial”. Lidera, mas ele mesmo não sabe explicar as razões dos eleitores. É possível que os próprios eleitores não saibam explicar seu posicionamento. Ou falta de posicionamento.

Se as pesquisas apontarem Ronaldo Caiado com 29%, abaixo da linha dos 30%, a expectativa de poder tende a mudar. Porque sua queda poderá significar, por contradição, um crescimento dos adversários. Nos períodos eleitorais, quando um candidato começa a despencar, não há táticas, por melhores que sejam, que conseguem segurá-lo. Estruturas políticas amplas, com apoio consolidado em todas as cidades, podem fazer a diferença. Mas o postulante do DEM não tem prefeitos na maioria das cidades que possam ajudá-lo a estancar uma queda paulatina ou rápida.

Político inteligente e perspicaz, Ronaldo Caiado sabe que, mais do que Daniel Vilela e José Eliton, é ele que tem de desconfiar das atuais pesquisas. Não por que devem ser consideradas falsas, e sim porque refletem um quadro que pode ser momentâneo, circunstancial — e nada fixo.

Estruturas municipais

Eleições proporcionais, para deputado, permitem que outsiders sejam eleitos. Mas eleições majoritárias, para governador, são muito diferentes. Ronaldo Caiado criou um personagem, o Caiadinho Paz e Amor, com o objetivo de conquistar o apoio do MDB. Passou a articular, a visitar até políticos que, no passado recente, havia atacado duramente. É o caso do deputado estadual José Nelto, que trocou o MDB pelo Podemos (conhecido no meio político como “Caiademos”). O parlamentar foi chamado de “mentiroso”, mas hoje são aliados umbilicais.

Ronaldo Caiado acabou não conquistando o apoio do MDB, e sim de alguns prefeitos que, a rigor, nem têm afinidade com o partido, exceto Adib Elias, de Catalão. O prefeito de Formosa, Ernesto Roller (é parente do senador), tem origem familiar na Arena, no PDS e no PP. A família do prefeito de Goianésia, Renato de Castro, era do PDS. O jovem político depois se filiou ao PT e, para disputar a prefeitura, trocou o partido pelo MDB. O prefeito de Rio Verde, Paulo do Vale, era do PSDB. A rigor, a “Arena” do MDB aderiu ao senador. Tais prefeitos têm alguma força em seus municípios, não podem ser desconsiderados, mas maioria dos emedebistas não saiu do partido e está com Daniel Vilela.

O MDB conta com estrutura partidária nos 246 municípios de Goiás. São prefeitos, vereadores e candidatos a deputado. Isto pode fazer a diferença. Ronaldo Caiado, ao visitar um município, poderá ser recebido por algumas pessoas, mas não deixará lá grupos organizados para repassar sua mensagem e pedir votos no dia a dia. Já Daniel Vilela deixará verdadeiros exércitos eleitorais para levar suas ideias à população.

Com José Eliton ocorrerá o mesmo. O tucano conta com uma armada eleitoral gigante, e em todos os 246 municípios. Citemos um exemplo. Ao passar por Porangatu e se apresentar aos eleitores, divulgando sua mensagem e expondo-se ao conhecimento público, quando for embora, se não contar com uma estrutura local, logo estará esquecido. Mas isto não acontecerá. Porque, em Porangatu, o prefeito Pedro Fernandes (PSDB) e o deputado Júlio da Retífica (PTB), além de vereadores e líderes locais, continuarão reafirmando suas realizações e projetos para o próximo governo. Noutras palavras, sua mensagem será disseminada e, portanto, sedimentada.

Com exércitos amplos, cada vez se movimentando mais, José Eliton e Daniel Vilela devem crescer. A tendência é que conquistem votos dos indecisos? Sim. Mas também podem retirar eleitores de Ronaldo Caiado — a rigor, são eleitores inerciais. Quer dizer, estão com o pré-candidato do DEM, mas não são eleitores rígidos, daqueles que não mudam de posição. É possível que, no caso do senador, “seu” atual eleitorado não seja caiadista; a única coisa fixa talvez seja sua rejeição. Porque há um eleitorado progressista em Goiás — inteiramente urbano e cosmopolita — que não combina com as ideias do presidente do Democratas.
Há um problema grave para Ronaldo Caiado. Se não montar chapas consistentes de candidatos a deputado estadual e federal, o senador terá dificuldade para levar sua mensagem a todas as regiões do Estado. Em larga medida, são os postulantes ao Parlamento que fazem a campanha pesada dos candidatos a governador. São eles que, visitando todos os municípios, cristalizam as mensagens dos postulantes. Até o momento, o líder do DEM não tem três candidatos a deputado federal que podem ser incluídos na lista dos imbatíveis. A base governista tem Jovair Arantes (PTB), Lincoln Tejota (PROS), Jean Carlo (PSDB), Giuseppe Vecci (PSDB), Flávia Morais (PDT), Fábio Sousa (PSDB), Magda Mofatto (PR), Célio Silveira (PSDB), Marcos Abrão (PPS), Heuler Cruvinel (PP), Roberto Balestra (PP), Thiago Peixoto (PSD), Francisco Júnior (PSD) e Sandes Júnior (PP). É um verdadeiro exército. E há também os candidatos a deputado estadual. O MDB tem Iris Araújo — e só.

Forças progressistas

Por ser um político tradicional, tendo sido presidente da União Democrática Ruralista — cujos integrantes, em tempos idos, orgulhavam-se de criticar, de maneira acerba, movimentos de trabalhadores, não necessariamente invasores de terras —, Ronaldo Caiado não tem o apoio das forças progressistas da sociedade.

No caso de um segundo turno contra José Eliton ou Daniel Vilela, apontados como figuras iluministas e modernas, é provável que as forças progressistas de todos os partidos, e até cidadãos sem militância partidária, se unam contra Ronaldo Caiado. O PC do B da deputada estadual Isaura Lemos e da vereadora Tatiana Lemos jamais subiriam no palanque do agente do ruralismo e do conservantismo no Senado. O PDT de Flávia Morais certamente não o apoiaria. Porque, se o fizesse, Leonel Brizola, o criador do partido, se “levantaria” do túmulo para criticá-los. Dadas divergências políticas e ideológicas inconciliáveis, o PT de Antônio Gomide, Luis Cesar Bueno, Kátia Maria e Adriana Accorsi, políticos qualitativos de Goiás, sequer cogitará apoio ao ex-presidente da UDR.

Portanto, se está praticamente isolado no primeiro turno, é provável que, se for para o segundo turno, Ronaldo Caiado estará ainda mais isolado. A tendência é que todos, inclusive o PSDB e MDB, se unam contra a postulação do pré-candidato do DEM.

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