Ronaldo Caiado e Daniel Vilela vão continuar sendo Rip Van Winkle da política de Goiás?

Dirigentes oposicionistas “dormem” há 20 anos, fazem críticas equivocadas e pregam o ódio, o que sugere que estão em profunda desconexão com os eleitores

Ronaldo Caiado e Daniel Vilela | Foto: Arte

As oposições — notadamente PMDB, DEM e PT — perdem eleições para o grupo liderado pelo PSDB, que inclui PP, PTB, PSB, PSD e PR, há quase 20 anos. Mesmo assim, seus líderes não fazem a autocrítica necessária e, portanto, não se responsabilizam pelas sucessivas derrotas. Pelo contrário, contentam-se com argumentos frágeis e insuficientes.

As duas explicações apresentadas com mais frequência chegam a ser pueris e é surpreendente que ainda sejam feitas.

Primeiro, afirmam que a frente liderada pelo governador Marconi Perillo, do PSDB, reúne, nas campanhas, mais recursos financeiros. A tese é parcialmente falha. Em 1998, o tucano, então com 35 anos, fez uma campanha mambembe contra a campanha milionária de Iris Rezende. Mesmo assim, obteve uma votação consagradora. Por que ganhou? Basicamente, por duas razões: o peemedebista havia se tornado símbolo do arcaico, desconectado do novo Goiás, e o tucano havia apresentado um programa de crescimento e desenvolvimento do Estado que agradou a população.

Na eleição de 2010, o tucano enfrentou o governo federal, comandado pelo PT de Lula da Silva, o governo estadual, dirigido por Alcides Cidinho Rodri­gues, e a estrutura das três maiores prefeituras de Goiás — a de Goiânia, controlada pela aliança PT-PMDB, a de Aparecida de Goiânia, sob a gestão do PMDB, e a de Anápolis, chefiada pelo PT. Mais uma vez, e com estrutura bem menor, Marconi Perillo derrotou estruturas muito mais azeitadas financeiramente. Aliás, estrutura não é só dinheiro. Máquinas poderosas trabalharam para tentar vencer o tucano, mas não conseguiram.

Segundo, quiçá na falta do que expor, alguns oposicionistas dizem que perderam eleições consecutivas porque não se uniram contra o poder do governo, quer dizer, do tucanato. Uma coisa é certa: se Marconi Perillo é forte fora do poder — ganhou duas eleições como oposicionista —, no poder, com sua capacidade de articulação e percepção de como funciona a política e a cabeça dos eleitores, tem se mostrado imbatível.

Eleitor subestimado

Ao pregar que não ganham porque não se unem, líderes oposicionistas, como o deputado estadual José Nelto e o prefeito de Catalão, Adib Elias, subestimam a independência dos eleitores goianos. Tratam-nos como se fossem crianças, como se não tivessem capacidade de decidir por si mesmos. Na verdade, os eleitores não se deixam convencer de que as oposições têm um “projeto” de modernização melhor para Goiás do que aqueles que estão no poder. Por isso, no lugar de apoiá-las, fazem opção pela continuidade. O que falta às oposições, portanto, não é união, e sim um projeto de governo convincente, que atraia os goianos. DEM e PT unidos? Não dá para acreditar, pois os dois partidos não têm nenhuma identidade. Aliás, o PT não quer a união. O que de fato une Iris Rezende e o senador Ronaldo Caiado, do DEM, que representam grupos que se combatem em Goiás há várias décadas? O que une os dois é o “ódio” que têm por Marconi Perillo? Qual a origem do ódio? Um psicanalista certamente diria que ambos querem ser Marconi Perillo e, como não podem ser, preferem odiá-lo, no nível do consciente, porém, no nível do inconsciente, é provável que, invejando, amam o tucano. Iris Rezende não explicita a origem do ódio, mas é fácil explicá-lo: Marconi Perillo aposentou-o da política estadual, transformando-o num político meramente de Goiânia. Ronaldo Caiado, seguindo a tradição da família, não quer mais ser deputado federal e senador, e sim governador. Aos 68 anos, parece acreditar que as vitórias sucessivas de Marconi Perillo impediram sua ascensão ao governo de Goiás. Daí, possivelmente, a “raiva” ou, até, “ódio”.

Durante as campanhas, oposicionistas transformam Goiás numa “terra devastada”. Porém, como não são T. S. Eliot, ao sugerirem que tudo vai muito mal, não convencem a sociedade. Os eleitores pensam realmente que o Hospital de Urgências 2 e o Hospital de Reabilitação, o Crer, são ruins? Não pensam. Eles sabem distinguir que os problemas na saúde pública de Goiânia, para mencionar apenas uma cidade, são de responsabilidade da prefeitura, e não do governo do Estado. A gestão de Iris Rezende na saúde, dirigida por uma médica que não tem mais autoridade nenhuma — o prefeito não sabe mais o que fazer com ela —, é uma das piores da história do município. Os eleitores sabem disso e, portanto, sabem que o problema não é da órbita do governador Marconi Perillo. Qual o “projeto” dos oposicionistas, na área de saúde, que se assemelhe ao Hugol e ao Crer? Não apresentam nenhum. Há algum tempo, um deputado oposicionista, crítico visceral do setor de saúde, adoeceu e, apesar da gravidade de seus problemas, sobreviveu graças ao atendimento do Hugo e recuperou-se no Crer. Há um deputado do PMDB, que tem plano de saúde particular, que critica, de maneira frequente, as organizações sociais na gestão dos hospitais públicos estaduais. Mas, mostrando desconexão com a realidade, nunca se deu ao trabalho de verificar (falta de uma cabeça mais científica) o grau de satisfação das pessoas — eleitoras ou não — com a qualidade do atendimento. A crítica é o sol da vida, por isso é bem-vinda, mas a crítica pela crítica, que não apresenta o quadro real, forçando uma realidade paralela, ficcional, não funciona — nem eleitoralmente. Os eleitores desconfiam da crítica excessiva, que percebem como “ataque”, como politiquice.

O que falta às oposições, então, não é união, como insistem alguns de seus próceres, e sim projeto e a capacidade técnica de apresentar uma interpretação verdadeira do que ocorre em Goiás. Digamos que um eleitor pergunte ao deputado José Nelto: “O que o sr. tem a dizer dos dois piores governadores do país, o do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, e do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori?” (Ressalve-se que Sartori é vítima da incompetência de gestões anteriores.)

Acrescentando em seguida: “O sr. sabe que eles são do PMDB?” Não são perguntas retóricas. São questionamentos pertinentes, os governos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, dirigidos por políticos do PMDB, estão inteiramente falidos. “Ah”, dirá o deputado, “não temos nada a ver com os dois Estados”. De fato, não tem. Mas o que fica evidente é que o partido quer o poder, chega a conquistá-lo, como nos Estados do Sul e do Sudeste, mas não sabe o que fazer com ele. Saberá em Goiás? Não se trata de desacreditar o PMDB (ou seus líderes), e sim de indicar que seu caminho, o de antes e o atual, tem caráter suicida. O partido perdeu cinco eleições e permanece fazendo a mesma coisa.

Discurso do ódio

O discurso do ódio e a denúncia pela denúncia não têm levado as oposições a lugar algum. Porém, apesar disso, em todas as campanhas, no lugar de adotar um marketing inteligente, sugerindo que se dará um passo adiante, os postulantes oposicionistas encarnam a crítica agressiva e rancorosa e os eleitores, ao contrário do que eles pensam, conseguem entender perfeitamente o que está acontecendo. Mais: ao examinar o que foi feito, e o que tem sido feito, os eleitores, nas últimas cinco eleições, têm optado pela continuidade. Significa que entendem o projeto de modernização de Goiás e, sobretudo, percebem que as oposições, ao falarem contra, não têm um projeto alternativo. A conclusão é que, ao contrário da maioria dos políticos oposicionistas — que não entendem que precisam fazer uma interpretação do que aconteceu em Goiás de 1999 para cá, e não meras críticas —, os eleitores definiram uma posição.

Ronaldo Caiado terá 69 anos, em 2018, quando pretende disputar o governo, mas comporta-se, com seu discurso agressivo, como se fosse um político da República Velha. Não à toa, por ser mais conhecido, começa em pri­meiro lugar, mas, durante a campanha, desidrata e não ganha eleição para cargo executivo. Em 1994, fez uma campanha na qual atacou Maguito Vilela, do PMDB, de maneira excessiva, mas acabou perdendo a eleição. De primeiro colocado, terminou em terceiro, atrás de Maguito Vilela e Lúcia Vânia.

O deputado federal Daniel Vilela, do PMDB, tem pouco mais de 30 anos. Mas até agora não apresentou um discurso moderno e uma interpretação verdadeira, não politiqueira, do que está acontecendo em Goiás. Às ve­zes, passa a impressão de que, em ter­mos políticos e de ideias, é tão arcaico quanto Iris Rezende e Ronaldo Caiado.

O que falta tanto a Daniel Vilela quanto a Ronaldo Caiado, insistamos, é um projeto de crescimento e desenvolvimento para Goiás e conectarem-se aos goianos reais e não aos goianos que eles pensam existir. Quando criticam o programa Goiás na Frente, que apresentam como “eleitoreiro”, não percebem que é, na verdade, um amplo programa de “salvação” de todos os municípios do Estado, que, devido à crise nacional, estão quebrados. Em 1994, o PT perdeu a eleição para presidente da República porque criticou o Plano Real e não admitiu que era decisivo para a estabilidade econômica do país. O Goiás na Frente é fundamental para os prefeitos — inclusive os do PMDB e do DEM — e a crítica das oposições se torna um verdadeiro bumerangue. É o municipalismo na prática.

Será que as oposições — leia-se Ronaldo Caiado e Daniel Vilela (ou Maguito Vilela) — vão permanecer como Rip Van Winkle (personagem de um conto do escritor americano Washington Irving) da política do Cerrado? Rip Van Winkle, como se sabe, saiu de sua cidade e desapareceu. Ele dormiu 20 anos e, quando reapareceu, a sociedade havia mudado e ele estava desconectado da realidade. Em 2018, as oposições vão completar 20 anos fora do poder. Será que vão continuar dormindo, desconectadas da realidade do Estado e fazendo críticas politiqueiras que já cansaram os eleitores?

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