Ronaldo Caiado barraria um empréstimo para o aliado político Iris Rezende?

O pré-candidato a governador trabalha para travar um empréstimo da Caixa Econômica Federal para o governo de Goiás

Otávio Lage, Leonino Caiado, Irapuan Costa Junior, Iris Rezende, Henrique Santillo, Maguito Vilela e Marconi Perillo: os sete ex-governadores buscaram apoio tanto nacional quanto internacional para viabilizar infraestrutura que garanta o crescimento econômico e o desenvolvimento de Goiás

O Estado precisa ser gerido com métodos da iniciativa privada para se tornar mais eficiente e menos dispendioso para a sociedade. Há um clamor por mais concursos públicos — quer dizer, mais cargos — mas os indivíduos não imaginam que o custo da folha de pagamento dos funcionários está inviabilizando os governos estaduais e prefeituras municipais. Há uma grita contra os impostos, mas não há como o Estado se financiar, com seu custo crescente e sem controle, sem aumentá-los e sem criar novos. Um Estado que custe menos significa que sobrarão recursos para aplicar em benefício da maioria.

Posta a questão de que o Estado precisa ser mais enxuto — o que não é, no momento, e, por muitos anos e anos, não será — e gerido com métodos privados, inclusive para conter a burocracia, é vital ressaltar que a respeito de determinados investimentos há uma diferença crucial entre os setores público e particular. O objetivo do empresário é manter os investimentos e, ao mesmo tempo, obter lucros. Portanto, seus investimentos exigem critérios rígidos. Porque, em caso de prejuízos frequentes, pode falir. Empresário que não lucra tende a ser expurgado pelo mercado.

Não há sociedade capitalista sem a margem adequada de lucro — aquela que permite a retirada mensal dos empreendedores (além dos executivos e, em certos casos, acionistas) e mantém a capacidade de a empresa investir para manter-se estável ou crescer. Mas com o Estado é diferente. Até muito diferente.

A mão invisível

Há obras que demandam alto investimento e, apesar de necessárias, são caras. Os governos de Iris Rezende, Henrique Santillo, Maguito Vilela e Marconi Perillo fizeram investimentos em eletrificação rural, com financiamento estrangeiro, durante anos. O Estado bancou tudo. Porque, se não bancasse, os produtores rurais teriam de comprar geradores elétricos ou viver à luz de lamparinas a querosene e lampiões a gás.

A infraestrutura criada pelo Estado, a um custo certamente elevado, possibilitou que empresas fortes, como a Perdigão-BRF Foods, se instalasse em Rio Verde, na próspera região Sudoeste. A Perdigão funciona com uma rede de parceiros — como se fosse uma poderosa cooperativa, com um grupo majoritário —, que é a fornecedora de frangos e porcos. Tais parceiros existem, com seus empreendimentos, em larga medida por que há energia elétrica nas suas áreas de produção. O Estado aparece, portanto, como a “empresa” que deu suporte para a iniciativa privada se desenvolver.

Como sua mão parece “invisível” — porque tem obrigações às quais a sociedade já está acostumada e avalia como “naturais” —, o que se percebe, em seguida, são as ações da livre iniciativa, a mão do mercado (mão que, em tese, seria “invisível”). O “sucesso” só tem um pai, o mercado. A mãe, digamos que o Estado, é esquecida.

Além da energia elétrica, que mudou o campo em Goiás — não há mais bucolismo algum na área rural, e sim profissionalismo altamente avançado, com tecnologia de ponta —, os governos, de Iris Rezende a Marconi Perillo, para delimitar dois gestores, construíram uma infraestrutura adequada para o avanço dos negócios da iniciativa privada. Vários governadores — como Irapuan Costa Junior, que criou o maior distrito industrial de Goiás, o Daia, em Anápolis — trabalharam, de maneira formidável, para garantir o crescimento da economia local e, paralelamente, garantir o desenvolvimento (a distribuição dos frutos do crescimento para todos).

Otávio Lage, Leonino Caiado, Irapuan Costa Junior, Iris Rezende, Henrique Santillo, Maguito Vilela, Marconi Perillo trabalharam, durante anos, para conquistar recursos e construir rodovias em todo o Estado. Porque, sem estradas decentes, não há como transportar a produção e incrementar a economia. Noutras palavras, não haverá produção. Como o governo de Goiás não tem uma fábrica de dinheiro, foi (e é) preciso recorrer a empréstimos da União e até mesmo do exterior.

Se Goiás hoje tem a BRF Foods (em Rio Verde), a Mitsu­bishi (em Catalão), a Hyundai (em Anápolis), Coty (em Sena­dor Canedo), Hypermarcas (em Anápolis), entre outras grandes empresas, isto se deve, em larga medida, à visão estratégica dos governadores citados. Eles construíram estruturas — como rodovias, algumas duplicadas, e incentivos fiscais — que possibilitaram a atração de tais empreendimentos. Juntos, cada qual no seu tempo, contribuíram para qualificar a mão de obra, com o apoio do Sesi e do Senac, para os negócios dos grupos nacionais e estrangeiros. Além da educação técnica, adequada para determinada atividade econômica, houve um investimento amplo para tornar Goiás um Estado-universitário. Hoje, a Universidade Estadual de Goiás (UEG) está espalhada por quase todas as regiões. As faculdades privadas também patrocinaram investimentos — criando vários cursos —, por entenderem que educação produz crescimento e, a um só tempo, desenvolvimento.

O Estado, sob os governadores mencionados, trabalhou como indutor do crescimento econômico tendo em vista o desenvolvimento para beneficiar todos os goianos, que passaram a ter melhores empregos e ampliaram suas rendas. Dois incentivos fiscais, o Fomentar, criado por Iris Rezende, e o Produzir, formulado por Marconi Perillo, foram (e são) decisivos para a reformatação da economia de Goiás.

Para criar uma infraestrutura adequada para o crescimento e para o desenvolvimento, o Estado teve de contrair empréstimos. Para além do moralismo, de matiz mais eleitoreiro — típico da manipulação política mais chã —, não há o que lamentar. A função do Estado é mesmo investir a fundo perdido. Porque seu lucro não é dinheiro na mão rapidamente. Seu retorno é a longo prazo.

Num primeiro momento, o do investimento, há um custo alto para o setor público. Mas, em seguida, vão surgindo os empregos e a economia se torna mais dinâmica. Há, por assim dizer, uma integração econômica — com o mercado, depois do “empurrão” do Estado, crescendo sozinho e, paulatinamente, se integrando.

Sem o Estado, a iniciativa privada, na maioria das vezes, não avança sozinha. Não porque seja “preguiçosa”, e sim porque deve correr menos riscos. Porque determinados riscos — se excessivos — podem levar à falência do empreendedor. Já o Estado pode investir a “fundo perdido” — na verdade, lucro social (empregos e redistribuição de renda) e, mais tarde, econômico-financeiro (o crescimento contribui para aumentar a arrecadação) não deve ser considerado exatamente a “fundo perdido” — e arcar com financiamentos de longo prazo.

(O governo dos Estados Unidos, atual pátria do liberalismo, provavelmente tem a maior dívida entre todos os países. Na crise econômica que abalou suas estruturas, com a quebradeira dos setores imobiliário e automobilístico, que levou alguns bancos à bancarrota, o governo do ex-presidente Barack Obama agiu rápido e salvou o, digamos, mercado.)

Discurso subliminar

Para garantir crescimento, que gera desenvolvimento — este, por sua vez, produz crescimento, num jogo dialético —, o Estado tem de investir. Ninguém tem como fazer o que faz. Mas, para investir em infraestrutura — como saneamento básico e pavimentação de rodovias —, as unidades da Federação, e não apenas Goiás, precisam de recursos financeiros, dos quais não dispõem. Por isso necessitam de empréstimos do setor público, como a Caixa Econômica Federal, e eventualmente do setor privado, não raro do mercado externo.

Perdigão|BRF Foods, Hyundai e Mitsubischi dificilmente teriam instalado unidades em Goiás se não tivessem obtido apoio do governo estadual. As empresas contam com incentivos fiscais e se beneficiam da infraestrutura

No momento, o governo de José Eliton (PSDB) pleiteia um empréstimo junto à CEF de pouco mais de 500 milhões de reais. O destino é praticamente carimbado: o governo planeja investir os recursos em infraestrutura. O objetivo é garantir crescimento econômico e desenvolvimento. Mas, de repente, apontando problemas “legais”, o senador Ronaldo Caiado, pré-candidato a governador pelo DEM, posiciona-se contra o financiamento.

Por trás do discurso da legalidade, que não é o verdadeiro, há outro. Ronaldo Caiado certamente avalia que como o Estado vai bem — os salários dos servidores estão sendo pagos e o quadro administrativo do Estado é bem diferente (tanto que o crescimento da economia em Goiás supera o crescimento da economia do país) do quadro do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, mais ricos e, mesmo assim, mais problemáticos —, se conseguir mais um empréstimo para ampliar e melhorar sua infraestrutura, estará cada vez mais viabilizado e aí os eleitores poderão “dizer”, com seus votos, na eleição de 7 de outubro deste ano: “Por que trocar um governo que investe e funciona?” ou “Por que trocar o ‘certo’ pela ‘incerteza’?”

Portanto, não é o interesse público que Ronaldo Caiado está defendendo, e sim o seu interesse eleitoral. Prejudicar o Estado, com o objetivo de travar parte dos investimentos do governo, é uma ação mais mesquinha e eleitoreira do que política no sentido amplo e qualitativo do termo. Já que discorda do empréstimo por que o senador não fiscaliza, de perto, sua aplicação?

Fica a pergunta: se o empréstimo tivesse sido pedido pelo prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB) — um aliado político recente (hoje, estão em blocos diferentes, mas não se consideram adversários) —, o senador Ronaldo Caiado se posicionaria contra? É provável que não. A saúde pública da capital de Goiás, sob a gestão de Iris Rezende, é uma das piores do país. Mas não há notícia de que o presidente do DEM tenha apresentando apenas uma crítica a respeito. Por que a saúde dos goianienses não lhe interessa? Ou só por que lhe interessa proteger um aliado político?

O bardo americano Walt Whitman escreveu: “Pensar no tempo… pensar retrospectivamente,/Pensar no hoje… e nas eras e eras que estão por vir. (…)//Teve medo do futuro não ser nada pra você?”. (Vale conferir a bela tradução de Rodrigo Garcia Lopes, que está na página 149 do livro “Folhas de Relva”, 319 páginas, Editora Ilumi­nuras.) Ronaldo Caiado deveria lê-lo. Para entender que “esmagar” o presente, por causa de uma questiúncula circunstancial, pode levar a um futuro pior para todos — não apenas para os políticos que se tratam como adversários e, até, inimigos. O futuro pode não ser nada para o pré-candidato do DEM a governador, mas é muito, até tudo, para os demais goianos.

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José Lucena

Ronaldo Caiado revela, nesta ação, despreparo e oportunismo político: age contra um investimento essencial para o desenvolvimento de Goiás. Já disseram que Caiado representa o atraso na política, pela sua agressividade. Parece que o candidato acha pouco: insiste em ser o retrocesso. Cuidado, eleitor!

CONEGUNDES FILHO

Nunca votei em Marconi ou nos seus. Mas entre ele (ou seu indicado) e Caiado, jamais optarei pelo pior, que é esse doutor aloprado.

Jose Antonio

Gastar de forma irresponsaavel é que quebra o Estado exemplo auxilio alimentação em ano eleitoral, sendo que o estado está quebrado, bancar jornais, etc.