Recado dos negros George Floyd, João Pedro e Miguel Otávio: “Acorde, democracia não é só votar”

Três policiais militares mataram um menino de 14 anos. A polícia americana matou um homem. E um menino de 5 anos caiu de um edifício. Todos são negros

Apontada como Shakespeare dos Estados Unidos, a poeta Emily Dickinson viveu apenas 55 anos, entre 1830 e 1886, quase sempre reclusa. Publicou menos de 10 poemas em vida — num verso sugere que “publicar é como leiloar a consciência humana” — e guardou, para a eternidade, quase duas mil poesias. Devido às mortes dos brasileiros João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, e Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, e do americano George Floyd, de 46 anos, transcreve-se uma criação da dama de branco de Amherst: “Dizem, ‘com o tempo se esquece’,/ Mas isto não é verdade,/ Que a dor endurece,/ Como os músculos, com a idade.// O tempo é o teste da dor,/ Mas não é o seu remédio —/Prove-o e, se provado for,/É que não houve moléstia” (tradução de Aíla de Oliveira Gomes).

A bala que matou o sonho do menino que queria ser advogado

João Pedro, um menino, um adolescente, tinha um sonho: ser advogado. Possivelmente para, em primeiro lugar, defender os seus, pois os pobres, numa democracia tão desigual quanto a brasileira, têm pouco acesso à Justiça, devido aos custos tanto do Judiciário quanto de advogados realmente interessados nos processos.

João Pedro Mattos Pinto: assassinado aos 14 anos por policiais militares | Foto: Reprodução

Mas no dia 18 de maio, numa segunda-feira, enquanto brincava com outros meninos, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o sonho de João Pedro foi esmagado, em definitivo, pela Polícia Militar, com o apoio da Polícia Federal. Ao perceber que os policiais estavam atirando, os garotos correram para dentro de casa. Os tiros não cessaram.

Um dos adolescentes relatou: “A gente foi, deitou no chão, levantou a mão. Matheus começou a gritar que só tinha criança… Aí, eles tacaram duas granadas assim na porta da sala, que quem tava mais perto da porta era eu e João. Aí, eles deram muitos tiros nas janelas. (…) Assim, a gente saiu correndo pro quarto. As polícias deram tiro no Matheus enquanto levava João no carro pro helicóptero pegar ele”.

João Pedro estava gravemente ferido. Talvez tenha morrido no helicóptero, pois tiro de fuzil não é brincadeira. Os pais, Neilton Pinto e Rafaela Mattos, nem sabiam onde estava o corpo do adolescente.

O delegado Allan Duarte, que investiga o caso, disse: “De acordo com o apurado, a vítima era inocente, não registrava passagens anteriores [pela polícia]. A Polícia Civil lamenta muito e entende o desespero da família. A gente vai trabalhar duro para esclarecer o fato”.

Por que João Pedro foi assassinado? Aos olhos dos policiais que o mataram, João Pedro “cometeu” dois crimes graves: nasceu negro e pobre. Eduardo Benones, procurador do Ministério Público Federal, talvez esteja sendo preciso ao avaliar que o caso pode ser visto como “racismo institucional e estrutural”. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, agora denunciado por corrupção, transformou (talvez já fosse) a Polícia Militar em James Bond: com ampla licença para matar e perguntar depois. Não há mais inocência presumida. Todos são “culpados” por morarem bairros onde supostamente quadrilhas traficam drogas.

No momento, há dois tipos de manifestações públicas no Brasil. Uma pede intervenção militar e, portanto, a retomada da ditadura. A outra defende a democracia, quer dizer, é um contraponto ao golpismo. Mas há uma democracia mais funda, que não é só política, e que precisa ser buscada pelos manifestantes. Os negros e os pobres, vistos como cidadãos de segunda classe — se cidadãos são —, não têm os mesmos direitos dos cidadãos brancos e das classes média e alta.

A duras penas, a democracia política foi conquistada. O país abandonou a ditadura há 35 anos. Todos podem votar e serem votados. Agora, é preciso ampliar a democracia socioeconômica e a percepção de que todos são cidadãos de fato. Tratar os moradores de bairros pobres, favelas ou não, como criminosos é uma prova de que a democracia brasileira exclui mais do que inclui. A Polícia Militar acaba sendo a ponta de lança — com seus fuzis poderosos e letais — de preconceitos seculares, profundamente enraizados na cultura patropi.

Observe-se um detalhe: os nomes dos três policiais que atiraram na casa onde estava João Pedro não foram divulgados. Eles não vão ser demitidos da corporação?

A Polícia Militar precisa ser dura com criminosos, mas, para combatê-los de maneira incisiva e eficiente, deve ser mais bem qualificada para evitar injustiças, excessos. Liberados para matar, como se fossem James Bond da vida real, os policiais não pensam duas vezes. Frise-se que a PM já matou 76 pessoas em São Gonçalo, em 2020. Seriam todas “bandidas”?

Ruas dos Estados Unidos tentam sensibilizar um governo que não escuta

O policial branco Derek Chauvin asfixiando e matando George Floyd | Foto: Reprodução

No dia 25 de maio deste ano, também numa segunda-feira, o policial Derek Chauvin, americano branco, matou, por asfixia, George Floyd, americano negro. Policiais ameaçando e batendo em afro-americanos é rotineiro nos Estados Unidos, apesar das leis. Eventualmente, chegam a matá-los, mesmo quando pedem clemência, como George Floyd, que alertou o homem que pressionava seu pescoço com um joelho: “I can’t breathe!” (“Não consigo respirar”).

Derek Chauvin matou, foi exonerado pelo governo — imediatamente — e indiciado por homicídio culposo (sem intenção de matar). O caso pode ser revisto. Há juristas que avaliam, dado o tempo da asfixia — quase dez minutos —, que o ex-policial deve ser indiciado por homicídio doloso (com intenção de matar). Se George Floyd havia tentado comprar mercadorias com dólares falsos, cerca de 20 dólares (pouco mais de 100 reais), cometeu um crime. Então, que fosse levado para um distrito policial para se explicar. Mas um policial decidiu torturá-lo publicamente. O vídeo, felizmente divulgado, chocou os Estados Unidos e o mundo. A imagem é muito forte e pode ser vista e revista.

Antes de qualquer decisão judicial, parte significativa de americanos saiu às (e não sai das) ruas para protestar contra a violência que matou George Floyd e atinge outros negros. O que estão condenando não são apenas atos esporádicos, mas sim ações sistêmicas. Em alguns Estados, se a pessoa for negra é, por assim dizer, “culpada por antecipação”.

As ruas estão condenando, não apenas o assassino de George Floyd, mas uma sociedade que, apesar das lutas de Martin Luther King e tantos outros negros, como a corajosa Rosa Parks, ainda discrimina, com ou sem violência, quem não é branco.

As manifestações nas ruas dos Estados Unidos parecem não ter norte, mas têm. As pessoas, a maioria jovens, estão dizendo, de maneira peremptória: “Basta! Parem de tratar os negros de maneira discriminatória e violenta”. As mensagens são de paz, de integração. A rebeldia não é violenta — o que o presidente Donald Trump não quer entender. O republicano, reacionário, acredita, por certo, que se criticar os manifestantes, se falar em colocar o Exército nas ruas, pode ser reeleito em novembro deste ano. Talvez seja um tiro pela culatra. A manifestação, vê-se de imediato, é negra e branca, quer dizer, inclui negros e brancos irmanados contra a injustiça, contra a barbárie. O “Basta!” é, portanto, coletivo.

Em certos momentos, algumas pessoas desgarram-se da onda pacifista e depredam e roubam lojas. É um fato. Mas não é a regra. É exceção. Os manifestantes circulam por cidades americanas e querem ser ouvidos, cobram que as dores dos negros sejam aplacadas e que novos George Floyds não sejam barbarizados nas ruas e em suas casas. Elas gritam por uma democracia de fato inclusiva. Uma democracia que respeite a vida e os direitos de todos.

Ao visitar os Estados Unidos, no século 19, o escritor, historiador, político e magistrado francês Alexis de Tocqueville (1805-1859 — viveu 53 anos, sete a mais do que George Floyd) ficou impressionado com a vitalidade da democracia do país, daí escreveu o livro “A Democracia da América”, um clássico. Hoje, ante o assassinato de George Floyd, o que diria? Não dá para saber, claro, mas certamente concluiria que a democracia americana tem problemas, e um deles é que, embora parte significativa de sua população seja negra (cerca de 40 milhões de afro-americanos, ou 13,8% da população) e tenha contribuído para que o país se tornasse o mais rico e poderoso da Terra, parte das pessoas é racista e rejeita os negros. O que sugere que o racismo estrutural ainda é forte nos Estados Unidos. Muito forte.

Derek Chauvin (seria descendente de Nicolas Chauvin, o francês que deu origem ao termo chauvinismo?), ao asfixiar George Floyd, na frente de outros policiais — que assistiram o crime de maneira impassível, ou melhor, dando apoio ao colega —, numa rua, certamente acreditou que estava “fazendo a coisa certa”. Não era, claro. Mas, se os próprios companheiros de farda não o retiraram de cima de George Floyd, é sinal de que havia alguma coisa pactuada, consensual, entre eles. Por sorte, uma pessoa gravou a cena. Mas fica absolutamente claro que os policiais não se sentiam incomodados com o que estavam fazendo.

O menino Miguel Otávio e o cachorro bem cuidado

Miguel Otávio e Mirtes Renata: o menino morreu aos 5 anos | Fotos: Reproduções

Por fim, algumas palavras sobre Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos. Sua mãe, Mirtes Renata Santana de Souza, trabalhava como empregada doméstica na casa de Sarí Mariana Gaspar Hacker Corte Real, em Recife, capital de Pernambuco.

Mirtes Renata saiu para passear com o cachorro da família e deixou Miguel Otávio com sua empregadora. Por causa da pandemia, as creches estão fechadas. O menino decidiu procurar a mãe e Sarí Mariana abriu o elevador para ele entrar. Entretanto, por ter apenas 5 anos, Miguel Otávio certamente não soube apertar o botão que indicava térreo e foi parar no nono andar. Saiu do elevador, subiu numa janela e, de lá, caiu e morreu.

Miguel Otávio e Mirtes Renata, assim como George Floyd e João Pedro, são negros. Sarí Mariana é branca, loira. Mirtes Renata cuidou bem do cachorro da patroa, que voltou intacto das ruas. Sarí Mariana não cuidou do filho da empregada.

Começamos com Emily Dickinson, e vale terminar com a poeta, cercando o trágico de alguma beleza: “Eu sou Ninguém. E você?/ É Ninguém também?/Formamos par, hein? Segredo —/ Ou mandam-nos p’ro degredo.// Que enfadonho ser alguém!/Tão público — como o sapo/ Coaxando seu nome, dia vai, dia vem/Para um boquiaberto charco” (“Uma Centena de Poemas”, de Emily Dickinson, tradução de Aíla de Oliveira Gomes). É o nosso “réquiem” para João Pedro, George Floyd e Miguel Otávio.

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