Quem precisa de um salvador da pátria?

Em Goiânia, no Brasil ou no comando da principal cadeira do planeta, a figura do super-herói que vem para redimir tudo e todos precisa ser combatida. Por quê? Simplesmente porque crer nisso é se iludir – e caminhar para um lado sombrio demais para ser experimentado

Sobre as figuras de Waldir Soares, Jair Bolsonaro e Donald Trump paira sempre o mesmo referencial: o Superman, que só existe na ficção

Sobre as figuras de Waldir Soares, Jair Bolsonaro e Donald Trump paira sempre o mesmo referencial: o Superman, que só existe na ficção | Fotos: reprodução/ Jornal Opção

Elder Dias

Na semana passada, o deputado Júnio Al­ves Araújo, conhecido politicamente co­mo Major Araújo (PRP), causou polêmica ao defender o porte de arma de fogo para todos os cidadãos de Goiânia que quisessem ter uma. Mais do que isso, propôs o “bolsa arma”, um mecanismo “facilitador” do acesso ao equipamento. Para tanto, o município iria custear as despesas com a obtenção do porte e também daria uma ajuda de custo de R$ 1 mil para a compra de uma pistola ou revólver. Araújo é pré-candidato à Prefeitura de Goiânia e diz que a atual administração não tem feito nada para solucionar o drama da insegurança.

Este Editorial poderia começar pelo fim, com seu último parágrafo. Daria na mesma para a pretensão do texto: fazer crítica à figura do salvador da pátria como aquele que tem a solução para todos os problemas da sociedade. Eis que surge o vídeo do deputado-major como que a dizer “tenham sua própria arma e assim acabarão seus problemas com a violência”.

Ser o salvador da pátria é uma autoatribuição de uma certa casta de políticos, especialmente os que flertam com o populismo de alguma forma. Eles cultivam o arquétipo do “herói”, como bem explicou o consultor político Carlos Manhanelli, em entrevista na edição passada do Jornal Opção. Manhanelli citou, como referência do perfil, o ex-presidente Fernando Collor de Mello, que, para vestir a fantasia, corria a pé por esporte, com frases estampadas na camiseta, e voava em caças de guerra. Todos os brasileiros sabem como terminou sua gestão acidentada: sem terminar.

Antes de acabar pela metade, porém, deixou um saldo de confisco da poupança dos brasileiros e de falta de credibilidade nos políticos da nova geração.

Como sugere Carl Jung, em sua teoria dos arquétipos, o herói é, entre outras figuras, uma espécie de imagem inserida de modo profundo no inconsciente coletivo. De Jesus Cristo ao Superman, ele aparece sob várias nuances. Geralmente sua prevalência sobre os outros arquétipos se dá em situações limítrofes. Não é por acaso que nos cenários local, nacional e mundial vejamos hoje a ascensão de tipos com essa configuração.

Nunca houve uma ascendência tão grande do crime na capital goiana. Não é à toa, portanto, que um policial, embora não militar como Major Araújo, seja o destaque nas intenções de voto no período de pré-campanha. Waldir Soares (PR) tem feito uso de suas armas – aqui no sentido não literal – para obter popularidade. Age como o mocinho, o xerife de uma história de bangue-bangue. Para seus fãs, posa sempre fazendo um gesto de pistola com a mão – o mesmo que marcou seu voto a favor da abertura do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff (PT). Quem o conhece mais de perto diz que incorpora um personagem ao tomar a frente de um microfone e desfaz a performance assim que acaba a sessão midiática.
No cenário nacional, ainda que reduzida a certo gueto, cresce a popularidade do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), um militar reformado que se compraz em atacar comunistas e defender nomes simbólicos do período de ditadura. Ganhou mais popularidade ainda ao bradar que “bandido bom é bandido morto” e ao dar voz a quem queria fazer um discurso homofóbico e elitista, mas não tinha um arauto. A partir daí, cresceu como um produto reacionário das redes sociais, alçando voo como meme perfeito de certo tipo de pensamento político que se escondia – e que evoca os mais sombrios tempos.

Mas nada que se compare a Donald Trump. Mais do que qualquer um dos citados, é ele quem está mais perto de assumir a posição de super-herói de papelão. O problema é que isso ocorre na eleição para o chefe da aldeia global. É preciso convir que é bem mais grave ter o destino do mundo nas mãos de um ególatra que se acha um perfeito “self-made man” do que o mesmo fato em uma cidade do Centro-Oeste de um país periférico. Trump era, de início, apenas uma brincadeira. Que agora se revelou, até pelas dificuldades da concorrente democrata, Hillary Clinton, uma clara ameaça.

O que faz tais figuras ascenderem de modo tão proeminente? Por que, a despeito de não demonstrarem conteúdo relevante para os cargos que pretendem ou para os quais são cogitadas, seguem elas com tal destaque e popularidade? A resposta pode estar na falta de esperança, na falsa certeza de que todos os caminhos “normais” já foram tentados e fracassaram. Um erro que vale para a violência em Goiânia, para a corrupção no Brasil e para o terrorismo no mundo.

A filósofa Hannah Arendt, em “As Origens do Totalitarismo” diz que “o desamparo organizado é consideravelmente mais perigoso que a impotência organizada de todos aqueles que são governados pela vontade tirânica e arbitrária de um único homem”. Continua a pensadora judia, focada no exemplo de Adolf Hitler: “Seu perigo é que ele ameaça devastar o mundo como o conhecemos – um mundo que em toda parte parece ter chegado a um fim – antes que um novo início surgindo desse fim tenha tido tempo de se estabelecer.”

O super-herói de plantão é o mesmo super-herói de papelão. Não existe e não pode existir além dos filmes e das HQs, para a saúde do mundo. A confirmação de sua não existência – e do quão ridículo pode ser apostar nessa possibilidade – pôde ser materializada no “voo” malsucedido de Jair Bolsonaro: ao arriscar um “mosh” (salto sobre a plateia que certos músicos, especialmente de heavy metal, fazem em shows) durante uma manifestação para convertidos, acabou se estatelando no chão. Seus eleitores-fãs não foram capaz de segurá-lo. E ele não foi capaz de voar. l

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Adalberto De Queiroz
Danilo Beckson

Que texto ridículo kkk principalmente o final que diz que o Bolsonaro tentou pular na plateia de seguidores como em um show de heavy metal mas eles não o seguraram e ele caiu no chão, qualquer um que tenha visto o vídeo do que aconteceu viu que ele não estava querendo pular para ser pego pelos seus seguidores mas sim ele queria pular do pequeno palanque ao chão, e pediu para que as pessoas que estavam lá se afastassem para que eel pulasse pqp