Quando uma refugiada nos ensina a ser pessoas melhores

A vida é, quase sempre, muito dura. Histórias inspiradoras nos fazem continuar a tentar. Mesmo que o horizonte não nos aponte um caminho muito animador

A advogada venezuelana Francis Salazar, de 41 anos, precisou deixar os filhos e pais para trás em busca de uma vida melhor no desconhecido e continental Brasil | Foto: Reprodução/TV Folha

No dia 28 de julho de 2018, a venezuelana Francis Salazar, com 39 anos, decidiu mudar sua vida radicalmente. Depois de ver a fome a atingir enquanto buscava tratamento para a filha doente no colo, a moradora da pequena cidade de Pariaguan decidiu que precisava sair do país. Em uma carona de 14 horas chegou à fronteira com o Brasil. “Voltei para casa e ao chegar me senti quase desfalecer. E foi ali que lembrei que não tinha comido nada o dia todo. Parece estranho como coisas tão importantes nos passam batido quando alguém mais nos preocupa.”

Hoje, aos 41 anos, a venezuelana em São Paulo conta sua história no “Diário de Uma Refugiada”, recordações publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo na noite de sábado, 12, a pedido da repórter Flávia Mantovani, que cuidou com robustez de informar sobre o assunto na reportagem “Diário de uma refugiada: venezuelana relata experiência de migrar ao Brasil” e traduziu as memórias da advogada que trabalha na limpeza de um restaurante na maior cidade brasileira. “Que coisas me fazem falta? Me faz falta minha família e meus amigos”, escreveu Francis no dia 28 de setembro de 2020.

A história da refugiada em muitos pontos se assemelha à dos brasileiros que viram seus empregos e negócios esfarelarem diante da crise econômica agravada pela pandemia da Covid-19. Francis, que já havia sido impactada pela situação da Venezuela, o que a forçou a sair de seu país e buscar a sorte no gigante da América Latina, também sofreu com a queda econômica que a doença trouxe ao Brasil. “A quarentena gerou escassas oportunidades de emprego, maior isolamento social, o que restringe o contato humano, nos fez mudar nossas prioridades.”

Entre a esperança e a culpa

“Voltei para casa e ao chegar me senti quase desfalecer. E foi ali que lembrei que não tinha comido nada o dia todo” | Foto: Reprodução/TV Folha

“O coronavírus não distingue classe social, sexo, raça. A ideia de morrer longe da minha família, não permitir a eles fechar esse ciclo, me entristece. Não queria nunca causar essa dor a eles.” A história de Francis no Brasil se divide entre a esperança e a culpa. A dor por ter deixado os filhos e pais para trás e a tentativa de conseguir dias melhores para sustentar a família, aqui ou na Venezuela. “Sou mãe solteira de duas crianças lindas, Jorge, de 12 anos, e Emily, de 4 anos. Mas minha família não se limita a eles. Sou o apoio de meus pais. Minha mãe, de 64 anos, se ocupa de minha avó, que já tem 93 anos, e meu pai, de 71 anos, que sofre de câncer de próstata”, descreve.

Mesmo com todo o impacto no bolso dos brasileiros, os auxílios emergenciais concedidos pelos governos federal, estaduais e municipais evitaram que 23 milhões de pessoas entrassem para a faixa da pobreza nas metrópoles. É o que aponta o boletim “Desigualdade das Metrópoles”, elaborado por pesquisadores da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), do Observatório das Metrópoles, ligado ao programa INCT (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia), e do RedODSAL (Observatório da Dívida Social na América Latina).

Sem o benefício temporário, a população pobre de Goiânia poderia ter chegado a 21,9%, de acordo com os dados levantados. Com o auxílio emergencial, a pobreza diminuiu de 12,9% dos goianienses para 11,3%. Possibilitou que muitas pessoas alcançassem uma renda que nunca tiveram, três vezes maior do que tinham antes da pandemia. Os R$ 200 do Bolsa Família se tornaram cinco parcelas de R$ 600, depois reduzidas para quatro pagamentos de R$ 300 até dezembro. A renda de toda a sociedade brasileira foi achatada, mas camadas inferiores receberam um cobertor necessário, nem sempre suficiente em cada uma das regiões do País, mas que evitou uma catástrofe maior entre os mais pobres.

Dificuldades no Brasil

“A ideia de morrer longe da minha família, não permitir a eles fechar esse ciclo, me entristece. Não queria nunca causar essa dor a eles” | Foto: Reprodução/TV Folha

“Nestes dias, ouvi vários de meus conterrâneos pensando em voltar para a Venezuela, sem importar as condições ou consequências, e repetem uma frase constantemente: se vou morrer, que seja na minha terra. Cada vez que escuto isso lembro quão longe estou de casa e de alguma maneira me faz sentir indefesa.” O relato de Francis mostra que arriscar a sorte em solo desconhecido, mesmo que seja na 9º maior economia do mundo, não garante a certeza de uma vida melhor.

Mais de 5 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015 em decorrência das crises econômica e política. A pesquisa “Covid nas Migrações Internacionais”, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), revela que 62,8% das venezuelanas que vieram para o Brasil recebem muito abaixo do necessário para os gastos do mês. 21,9% das refugiadas da Venezuela no Brasil conseguem cobrir parcialmente as despesas, 13,1% ganham exatamente o que gastam e apenas 2,2% conseguem guardar dinheiro com o salário em cidades brasileiras.

Francis é um exemplo de exceção para refugiados. Advogada, administradora de empresa e locutora na Venezuela, veio para o Brasil sem saber falar português. Passou por dificuldades em Boa Vista, no fronteiriço Estado de Roraima. “Tenho ampla experiência profissional na Venezuela, mas isso de que me serve em outro país? Esquecer quem sou e me reinventar de novo foi o único que me ocorreu e que até agora tem funcionado.”

Futuro de incerteza

“Esquecer quem sou e me reinventar de novo foi o único que me ocorreu e que até agora tem funcionado” | Foto: Reprodução/TV Folha

Mesmo com toda preocupação, a venezuelana descreve sua peregrinação por uma vida melhor com um misto de sofrimento e esperança. “Depois de três semanas em Boa Vista, começou outra etapa da minha viagem. Ninguém escolhe para onde irá quando entra na Operação Acolhida. Eles estudam o perfil de cada pessoa e a direcionam para algum Estado do Brasil. Escolheram São Paulo para mim e ali começa a outra parte da minha história.”

No início de setembro, Francis escreve no diário como as pessoas a viam. “Meço 1,58 metro de estatura e pesava 45 quilos ao chegar. Todos pensavam que estava muito doente. Como lhes explicar que a falta de alimento, o estresse, e não uma doença, provocavam minha magreza?” A dor da fome foi praticamente o combustível para chegar na situação em que se encontra hoje, dividida entre uma nova oportunidade de emprego, a descoberta de um novo amor no Brasil e a ansiosa espera pela chegada dos filhos. “Meus filhos são meu maior motivo para sair, mas não sei para onde vou nem o que posso encontrar. A segurança deles é minha prioridade”, revela.

Muitas vezes pequenas coisas podem ser mais importantes do que olhar para o sofrimento que ainda não passou e precisa ser enfrentado no dia seguinte. A maior alegria recente de Francis veio quando conseguiu, com ajuda de um primo que está na Venezuela, um celular que permite fazer chamadas de vídeo. O dia 7 de setembro foi não apenas o feriado de Independência do Brasil, mas de voltar a ver os filhos. “Pude ver meus pais, meus filhos e meu irmão. Colamos no telefone como se pudéssemos entrar e nos abraçar. Foi difícil, mas consegui, e o melhor, consegui não chorar na frente deles. Ao terminar a chamada, fiquei pensando no tanto que quero dizer e no muito que devo calar.” Francis descreve aquele momento como “maior das minhas conquistas neste ano”.

Passado distante

“A Venezuela e o Brasil compartilham quilômetros de fronteira. São países vizinhos. Ter ao lado um ditador é algo que inquieta o brasileiro, e tem razão de se sentir assim” | Foto: Reprodução/TV Folha

“Desde que comecei a trabalhar na minha área me apaixonei pela minha carreira. Gosto de ser produtiva. Aos 30 anos tinha um filho, trabalhava como assessora jurídica de uma construtora, gerente de uma lavanderia e administradora de uma emissora de rádio. Tinha três trabalhos.” 11 anos depois da boa realidade vivida no passado em sua terra, Francis diz que “parece que foi em outra vida, em outro mundo” aquela experiência profissional. “Apesar de não negar que seja frustrante sentir que tantos conhecimentos não sejam aproveitados só pelo fato de não ter nascido aqui, sei que posso dar mais. Sou útil para este país. Poder produzir para mim, para minha família e servir o Brasil de outra maneira é meu sonho”, reconhece.

A venezuelana em São Paulo afirma que, “por agora”, se limita a “lavar pisos e esfregar pratos para levar o pão à mesa e pagar as contas”. Mas mantém a esperança. “Sei que como eu estão muitos dos meus conterrâneos, mas continuo trabalhando no que consigo, esperando pela minha oportunidade, ter um trabalho estável e bem remunerado é minha próxima meta.” No fim da reportagem, Flávia Mantovani conta os passos dados pela personagem depois de concluir o diário escrito para a Folha: “Depois de terminar o diário, Francis conseguiu um emprego como monitora de segurança de uma escola e comprou passagens para trazer seus filhos da Venezuela. A viagem está prevista para março de 2021”.

Sabemos que a história de Francis é um registro da chance ofertada para poucos. Mas serve de exemplo de persistência. Aqui ou na Venezuela, as pessoas anseiam por dias melhores. “A Venezuela e o Brasil compartilham quilômetros de fronteira. São países vizinhos. Ter ao lado um ditador é algo que inquieta o brasileiro, e tem razão de se sentir assim. Meu país está em mãos de um ditador medíocre e nefasto que arruinou a vida de milhões de pessoas. […] Só me limito a deixar uma reflexão. Lhes peço que levem a sério tudo o que se refere à política. Um mau gerente pode acabar com o futuro de várias gerações. Sou a prova viva disso.”

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