Projeto do PSDB é usar oposições pra presentear Marconi Perillo com mandato de deputado

Políticos hábeis como Daniel Vilela e Alexandre Baldy certamente não vão carregar a alça do caixão do tucanato. Jânio Darrot deve ir para o Patriota

As eleições para governador, senador, deputado federal e estadual serão realizadas daqui a um ano, sete meses e 21 dias. As desincompatibilizações devem ser feitas nos primeiros dias de abril de 2022. Políticos que não estiverem filiados ou que queiram trocar de partido devem começar a procurar novos pousos. Por isso o presidente Jair Bolsonaro está apressando as conversações com líderes de alguns partidos, como Adilson Barroso, do Patriota, e o deputado federal Marcos Pereira, do Republicanos. Uma facção do PSL também trabalha com o objetivo de reconquistar seu passe esboçando uma tese racional: com Bolsonaro como aliado, na linha de frente das campanhas, o partido pode manter sua grande bancada de deputados federais. Hoje, tem 53. Sem Bolsonaro, acredita-se que a legenda tende a apequenar-se.

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado opera para ampliar sua base política, tentando atrair o MDB do ex-deputado Daniel Vilela, além de líderes de outros partidos. O líder do Democratas articula uma recomposição de sua base, tanto para fortalecê-la quanto, logicamente, para enfraquecer as oposições. Pode-se sugerir, sem risco de equívoco, que, neste momento, a política do Estado deriva das movimentações do gestor estadual.

Como Ronaldo Caiado abriu conversações com os líderes de alguns partidos, num movimento que diz respeito à disputa eleitoral de 2022, um grupo político, do PSDB, decidiu mover suas peças no xadrez da política. Insista-se: num movimento que tem de ser visto mais como reação do que como ação.

Marconi Perillo: ex-governador de Goiás

O ex-governador Marconi Perillo, que mora em São Paulo, como funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), reapareceu em Goiás depois de dois anos de hibernação com o objetivo de “reativar” o PSDB e, aparentemente, incentivar as oposições a firmarem um pacto anti-Ronaldo Caiado.

Uma análise racional da realidade sugere alguns problemas, que Marconi Perillo parece não perceber, ou melhor, não quer perceber. Às vezes, quando não se aprecia o real, com o qual se tem de conviver, cria-se uma realidade paralela — uma ficção — e passa-se a “viver” nela, como se fosse uma espécie de Marte tropical. Apontemos as pedras no caminho da suposta união das “oposições”.

Primeiro problema

O que significa realmente oposições? O PSDB e quem mais? Na verdade, em termos políticos, o tucanato está só, solamente só. Quais partidos, ao menos os de grande e de médio porte, querem efetivamente se alinhar com os tucanos?

O resultado das eleições para prefeito em 2020 mostra que o PSDB não ressurgiu, não é Fênix. Pelo contrário, depois do terremoto eleitoral de 2018, quando não elegeu o governador, nenhum dos senadores e apenas um deputado federal (Célio Silveira, que vai se filiar ao MDB ou ao Democratas), chegou-se a falar em “renascimento” em 2020.

Entretanto, pelo contrário, não se deu ressurgimento algum. O PSDB não elegeu nenhum prefeito em cidades com mais de 50 mil habitantes. Em Goiânia, a capital de Goiás, o partido ficou na lanterninha, com uma votação humilhante. Em Aparecida de Goiânia, a cidade com o segundo maior eleitorado do Estado, não se mostrou capaz sequer de lançar candidato. Em Anápolis, outro vexame: seu postulante “disputou” os últimos lugares. Na maior cidade do Entorno de Brasília, Luziânia, sequer disputou a eleição. Em Rio Verde, como ninguém queria ser candidato, recrutaram um menino de 21 anos, que obteve uma votação vexatória.

O resultado é que, quando deveriam ter trabalhado para montar as bases para a disputa de 2022, os líderes do PSDB, como Marconi Perillo e José Eliton, aparentemente se “esconderam” dos eleitores e, sobretudo’’’, de seus aliados. Agora, depois da debacle, com que cara vão chegar no interior para pedir o apoio das lideranças locais? Ah, dizem: “Elegemos o prefeito de Morrinhos”. A verdade é outra: Joaquim Guilherme, de fato, é filiado ao PSDB. Mas não recebeu nenhuma ajuda substancial da cúpula. A vitória é mais sua do que do partido e dos ditos líderes. Líderes, insista-se, “desaparecidos”. Possivelmente, ainda estavam curtindo a ressaca eleitoral de 2020.

Marconi Perillo e Aécio Neves: casos parecidos | Foto: Reprodução

Os “abandonados” de 2020 vão realmente subir nos palanques de Marconi Perillo e José Eliton em 2022? O que se fala, entre tucanos do interior, notadamente prefeitos e líderes partidários, é numa possível debandada rumo ao governo do Estado. Prefeitos tucanos, entre outros, querem aderir, não por fisiologismo, e sim porque, ao lado do marconismo-elitonismo, não têm, digamos assim, nem presente e muito menos futuro. Um prefeito do PSDB chegou a dizer a um repórter do Jornal Opção: “Caiado vai ser reeleito em 2022 e nós vamos ficar na chapada”.

Voltando ao plural “oposições”. Os dados eleitorais indicam que, se o PSDB quase morreu em 2018 e permaneceu na UTI, ficou em estado grave, em 2020. Há possibilidade de “morte” para 2022? Não dá para assegurar. Mas as oposições, pluralizadas, vão acompanhá-lo, talvez segurando a alça do caixão? Se nem prefeitos tucanos querem acompanhar Marconi Perillo e José Eliton, os dois principais líderes do partido, por que integrantes de outros partidos, como o PP de Alexandre Baldy, o MDB de Daniel Vilela e o PSD de Vilmar Rocha, vão participar, metaforicamente, do velório? Certamente, por serem ases da política, sequer irão ao velório. Porque, se forem, correm o risco de caírem na cova e, portanto, serem enterrados juntos.

As oposições, inclusive o PSDB, têm o direito de lançar candidato a governador. Mas, se lançarem, a inteligência e o pragmatismo sugerem que se mantenham distantes do PSDB de Marconi Perillo.

Segundo problema

Na reunião do PSDB, festiva, com uma alegria de pose, vulgarizou-se a informação de que o ex-prefeito de Trindade e empresário Jânio Darrot será o candidato do partido a governador.

Por que Jânio Darrot? Porque é um gestor eficiente e um homem decente. Em 2020, enquanto o PSDB naufragava no Estado — Marconi Perillo não conseguiu eleger nem mesmo o prefeito de Pirenópolis —, Jânio Darrot conseguiu eleger Marden Júnior, um garoto de menos de 30 anos, para prefeito. Mostrou que, como político, não é um mero cabo — é um verdadeiro general eleitoral.

Pois bem, então o PSDB tem um candidato forte a governador. Ora, até as crianças de 10 anos sabem que Jânio Darrot, apesar do cortejo de Marconi Perillo e José Eliton, não será candidato a governador pelo tucanato. Se for postular mandato, possivelmente será pelo Patriota. Político hábil, empresário de grande sagacidade, o ex-prefeito de Trindade não quer carregar a alça do caixão do tucanismo. Teme o óbvio: ser enterrado junto.

Sem Jânio Darrot, quem o PSDB bancará? Não tem nenhum nome destacável. Fala-se em Paulo Rezende, presidente da Associação Goiana de Municípios (AGM). Mas como bancar para governador um político que não conseguiu eleger nem mesmo o prefeito de sua cidade, Hidrolândia?

Sem nomes próprios, porque, a rigor, ninguém quer carregar a alça do caixão, o que o PSDB fará? No fundo, a cúpula do partido quer apoiar Daniel Vilela para governador ou um candidato de outro partido, como Alexandre Baldy. Na prática, Marconi Perillo, o verdadeiro articulador do tucanato — o homem do proscênio e dos bastidores —, quer contribuir para a construção do anti-Ronaldo Caiado. Será possível? Parece que ninguém quer. Talvez nem o PSDB.

No momento, dado um breve contencioso, Alexandre Baldy é o político que, de aliado, posta-se como possível opositor de Ronaldo Caiado — o que o partido Progressistas não quer. Mas vai colocar sua cabeça a prêmio, em termos políticos, para salvar o tucanato? Não vai, é certo, porque se trata de um político jovem mas habilíssimo.

Daniel Vilela reaproximou-se de Ronaldo Caiado — foram aliados em 2014 —, mas não significa que já tenha fechado qualquer acordo. Porque é cedo para definição de alianças incontornáveis. Embora tenha apenas 37 anos, o emedebista sabe que, se doar oxigênio para o paciente PSDB, o MDB pode ficar sem oxigênio para si.

Por serem articulados, é pouco provável que, irmanados, Alexandre Baldy e Daniel Vilela irão ao cemitério da política para carregarem, cada um de um lado, as alças do caixão do tucanato. Eles sabem que não podem brincar com as cruezas e o realismo da História — com “H” maiúsculo.

Terceiro problema

Minas Gerais tem o segundo maior eleitorado do país, com 15.889.559 pessoas aptas a votar. Ainda assim, e depois de ter sido governador de Minas Gerais por dois mandatos, Aécio Neves foi eleito deputado com apenas 106.702 votos — ou 1,06% dos votos válidos. Votação tão fraca que o tucano teve de ser arrastado pelo quociente eleitoral. Ele apostava que, dada sua história, seria eleito e ainda contribuiria para eleger mais uns dois deputados. Mas quase não se elegeu. Os mineiros não esqueceram os escândalos de corrupção nos quais o ex-governador se envolveu.

Goiás tem 4.606.112 eleitores. Bem menos do que Minas. Aos aliados, Marconi Perillo tem sugerido que vai disputar mandato de deputado federal e espera obter entre 200 e 300 mil votos — o que o elegeria e contribuiria para eleger mais um parlamentar. Mas o tucano corre o mesmo risco de Aécio Neves, que se elegeu com uma votação pífia. O líder tucano responde a várias ações judiciais, inclusive pode ser condenado em alguma delas — e até sua candidatura poderá ser impedida pela Justiça —, e poderá ter uma surpresa nas urnas.

Marconi Perillo, porém, é uma raposa e sabe o risco que corre. Por isso, ele está tentando montar uma chapa, com vários candidatos, única e exclusivamente para eleger apenas um deputado federal — ou seja, o tucano-chefe. Ele.

A rigor, o projeto da cúpula do PSDB não é partidário. É um projeto para tentar eleger Marconi Perillo, que, na visão dos aliados, precisa ser amparado, por um mandato, para escapar da Justiça. Portanto, o projeto partidário tem de ser subordinado ao projeto Marconi Perillo. É, repita-se, uma operação para tentar “salvar” o ex-governador, e não exatamente o partido. E, rigorosamente, o marconismo quer uma chapa para governador só para oferecer sustentação a Marconi Perillo, ou seja, para que ele tente obter um mandato de deputado federal e, deste modo, ganhe alguma “imunidade”. Pode ser uma tentativa de criar obstáculo à ação da Justiça.

O PSDB, liderado por ele e ex-auxiliares, pode embarcar no projeto para tentar “salvar” Marconi Perillo da Justiça. Mas as oposições vão seguir pelo mesmo caminho? Pela lógica, não vão. Porque, se o fizerem, tendem a soçobrar. Daniel Vilela e Alexandre Baldy, sardinhas que estão se tornando golfinhos, vão ser seduzidos pelo canto do tubarão-sereia Marconi Perillo? De bobos, os dois não têm nada.

Para evitar mal-entendidos, esclareça-se que não se disse acima que o PSDB está morto. O que se está dizendo é que, ao tentar “salvar” Marconi Perillo das garras da Justiça, dando-lhe um mandato, o PSDB corre o risco de desaparecer no vazio da História. O que se está dizendo também é que Alexandre Baldy e Daniel Vilela, se embarcarem no navio de Marconi Perillo, seduzidos como os companheiros de Ulisses, o da Odisseia, podem ter o mesmo destino do tucano-chefe — o ostracismo. Os eleitores estão cada vez mais vigilantes.

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