Projeto de Fernando Henrique Cardoso para o Brasil escapar da crise que produz descrença

“É hora de sonhar com 2018 e” preparar “o futuro juntando pessoas, lideranças e movimentos num congraçamento que balance a modorra dos partidos e devolva a convicção e esperança à política”

Foto: Reprodução

Quando o notável economista Celso Furtado sugeriu que a expansão da economia era in­com­patível com o regime autoritário, quiçá atuando mais como combatente político do que como analista, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu um livro, “O Modelo Político Brasileiro”, apontando que a análise era equivocada. Era possível, e o fenômeno era visível para os que não usavam viseiras ideológicas, conciliar crescimento econômico e ditadura. O dever da intelligentsia é dizer a verdade mesmo quando não é produtivo para seu interesse político circunstancial.

Aos 86 anos, Fernando Henrique Cardoso permanece um intelectual de rara lucidez, às vezes idiossincrático, como é de praxe entre os que escrevem tanto e se aventuram a interferir no debate a respeito do país. Na edição de domingo, 6, escreveu um artigo no jornal “O Estado de S. Paulo”, sob o título de “É hora de sonhar com 2018, deixar de lado o desânimo e preparar o futuro”, que merece discussão. Aqui e ali, há problemas, talvez por falta de espaço para desenvolver as ideias. Tais insuficiências, por assim dizer, não serão discutidas neste Editorial — exceto uma.

A descrença em quase tudo, inclusive na própria democracia — o primado de pré-candidatos personalistas, como Jair Bolsonaro, Ciro Gomes, Marina Silva, Lula da Silva, entre outros, é um sintoma —, “não é”, assinala Fernando Henrique Cardoso, “uma crise só brasileira”. Desconfia-se das instituições, sobretudo dos partidos políticos. O problema ocorre noutras democracias. “Mesmo nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França — países centrais na elaboração de ideologias democráticas e na formação das instituições políticas correspondentes — se nota certa falta de prestígio de ambas”, afirma o ex-presidente da República.

Não se pretende polemizar com Fernando Henrique Cardoso, autor de um artigo altamente instigante. Mas cabe um comentário. Não dá para sustentar, a respeito dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França, que seus cidadãos estejam descrentes a respeito das ideologias democráticas e das instituições políticas. Nos Estados Unidos, embora Donald Trump tenha sido eleito e esteja desafiando as instituições — porém não chega a desrespeitá-las, porque tem de acatar o que determinam, respeitando seu grau de independência —, não se pode dizer, com ampla certeza, que há um sentimento de descrença generalizado. A desconfiança em Trump — que, vale admitir, não é geral; se fosse, o republicano não teria sido eleito — não equivale a uma desconfiança na democracia e nas instituições do país. Na França, apesar da derrota de políticos tradicionais, não se pode sugerir a vigência de uma descrença generalizada. Uma vitória de Marine Le Pen, e não de Emmanuel Macron — que pertence mais ao establishment do que se costuma pensar —, talvez desse razão àqueles que acreditam que a democracia francesa “está” em crise (exceto no sentido de que toda sociedade aberta está sempre em crise, mas não para se destruir). Mas o próprio fato de que Le Pen participa de eleições democráticas, acatando a derrota, mostra a crença dos franceses de que, apesar de tudo, a estabilidade política é fundamental. Na Inglaterra, com a primeira-ministra Theresa Mary May, não é muito diferente. Os ingleses atuais certamente concordam com Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas”.

Quanto ao problema da corrupção, trata-se de um fenômeno universal. Entretanto, diferentemente de Estados Unidos, França e Inglaterra, onde o “monstro” está relativamente sob controle, no Brasil, até pouco tempo, havia se tornado sistêmica, potencializada pela aspiração de um partido político que pretendia se tornar hegemônico por longos anos. O PT negociou, digamos, um pacto faustiano com determinados setores. Aos políticos, para manter o controle do poder em nível federal, distribuía dinheiro e abria-lhes espaço nos Estados. Aos empresários, os campeões e os quase campeões, “dava” dinheiro, a rodo, tanto do BNDES quanto da Caixa Econômica Federal.

No Brasil, a soma da corrupção escancarada — e, apesar dos possíveis excessos e até do moralismo pós-udenista, não há como desconsiderar a esplêndida ação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e da Justiça Federal para contê-la e penalizá-la — à incompetência administrativa do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, que gerou o descalabro econômico e financeiro, potencializaram a descrença geral dos indivíduos (tanto que pré-candidatos a presidente de matiz justiceiro estão em voga). No caso, portanto, deve se falar numa crise de cariz brasileiro.

Vale apresentar, a seguir, o que o artigo de Fernando Henrique tem de melhor. “Estamos imersos num mar de pequenos e grandes problemas e tão atarantados com eles que somos incapazes de vislumbrar horizonte melhor. É isso o que mais me preocupa, a despeito da gravidade tanto dos casos de corrupção quanto dos desmandos que vêm ocorrendo.”

Ao notar “o desastre da Quarta República francesa e a derrocada das guerras coloniais, De Gaulle disse que era preciso manter uma ‘certa ideia da França’ e mudar o rumo das coisas”. Fernando Henrique sublinha que, “aqui e agora, é preciso que alguém — ou algum movimento — encarne uma certa ideia de Brasil e mude o rumo das coisas. Precisamos sentir dentro de cada um de nós a responsabilidade pelo destino nacional. Somos 210 milhões de pessoas, já fizemos muito como país, temos recursos”. Portanto, é preciso que se volte “a acreditar no nosso futuro”. Panglossiano? Até parece, mas não é. O ex-presidente Fernando Henrique está certo.

É típico do brasileiro tratar seu país como tendo fracassado, como se fosse a pior nação do mundo. Na verdade, e não só por figurar entre as dez maiores potências econômicas globais, o Brasil avançou muito, com acertos e desacertos. É um player internacional, apesar da descrença de seu povo. Aliás, há uma crença forte mais forte no Brasil noutras plagas do que na própria terra de Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Adélia Prado e Celina Turchi. “É preciso responder com convicções, direção segura e reconstrução dos caminhos para o futuro. Isso não significa desconhecer que existam conflitos, inclusive os de classe, nem propor que política se faça só com ‘os bons’. Significa que chegou a hora de buscar os mínimos denominadores comuns que nos permitam ultrapassar o impasse de mal-estar e pessimismo”, anota Fernando Henrique.

Os partidos políticos, isolados da sociedade, não têm como apresentar uma resposta satisfatória. Até porque, com “quase 30 partidos atuando no Congresso”, joga-se mais em nome de interesses de grupos e pessoais do que do país. “O polo progressista, radicalmente democrático, popular e íntegro precisa se ‘fulanizar’ numa candidatura que em 2018 encarne a esperança. As dicotomias em curso já não preenchem as aspirações das pessoas: elas não querem o autoritarismo estatista nem o fundamentalismo de mercado. Desejam um governo que faça a máquina burocrática funcionar, com políticas públicas que atendam às demandas das pessoas. Um governo que seja inclusivo, quer dizer, que mantenha e expanda as políticas redutoras da pobreza e da desigualdade (educação pública de maior qualidade, impostos menos regressivos); que seja fiscalmente responsável, atento às finanças públicas, e ao mesmo tempo entenda que precisamos de maior produtividade e mais investimento público e privado, pois sem crescimento da economia não haverá recuperação das finanças públicas e do bem-estar do povo.” Há, aí, um programa de governo e, corolariamente, de país.

Políticos personalistas, como Lula da Silva e Ciro Gomes, que tendem a reduzir a importância das instituições, não são adequados para aplicar o que está proposto no parágrafo anterior. Fernando Henrique menciona apenas o petista-chefe, mas há outros parecidos.

No fecho do artigo, Fernando Henrique conclui que “é hora de sonhar com 2018 e deixar de lado o desânimo. Preparemos o futuro juntando pessoas, lideranças e movimentos políticos num congraçamento cívico que balance a modorra dos partidos e devolva a convicção e esperança à política”. Difícil discordar do sociólogo que governou o Brasil durante oito anos e foi decisivo tanto para garantir a estabilidade econômica, com o Plano Real (ainda no governo de Itamar Franco), quanto a estabilidade política.

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