Procura-se um líder da estirpe de Juscelino Kubitschek para resolver a crise do Brasil

O presidente Michel Temer convocou uma equipe que sabe como articular a retomada do crescimento da economia. Mas a resolução da crise política depende de pulso firme e paciência

"Juscelino tinha um charme muito forte. Era uma figura realmente adorável e admirado pelas mulheres”

Na biografia “JK — O Artista do Impossível” (Objetiva, 800 páginas), o jornalista Claudio Bojunga assinala que o governo do presidente Juscelino Kubitschek, na segunda metade da década de 1960, deve ser considerado um período de exceção na história brasileira. Exceção democrática, frise-se. Sob bombardeio pesado da União Democrática Nacional (UDN), em conluio com militares golpistas, o político mineiro em nenhum momento ousou adotar medidas autoritárias para conter as oposições radicalizadas. Até os excessos verbais de Carlos Lacerda, o político mais venenoso da história do país, eram levados na “esportiva” pelo presidente bossa nova.

Ao contrário do presidente Getúlio Vargas, que preferiu se matar — e, ao fazer isto, paralisou a oposição golpista —, Juscelino Kubitschek era um conciliador por natureza e, apesar das pressões e tentativas de golpe, governou com relativa tranquilidade, inclusive com o apoio de udenistas menos radicais. Era de uma paciência infinda. Só não apreciava quando o palavroso Leonel Brizola pedia uma audiência. Aí, para evitar uma conversa tediosa sobre a transformação do Céu e do Inferno, arranjava uma viagem e colocava um ministro, dos mais pacientes — dotado de ouvidos de aço —, para atender o político gaúcho.

Por que Juscelino Kubitschek conseguiu governar em relativa paz, num tempo turbulento? Porque era um líder. O verdadeiro líder dialoga com todas as forças políticas, inclusive com as oposicionistas, mas, ao final das conversas, ainda que incorpore algumas ideias dos demais, implementa o projeto que avalia como correto não para os aliados, e sim para o país. O líder é um guia, que, se criativo e positivo, puxa o país para a frente. Era o caso de Juscelino.

Ernesto Geisel

Ernesto Geisel: o general, que matou a ditadura, impediu a tortura e mais mortes no II Exército, em São Paulo: Resulado: foi execrado pela Comissão Nacional da Verdade

Há quem não perceba a grandeza de alguns militares que governaram o país — e, de fato, ditaduras, à esquerda ou à direita, são nefastas. Pode-se até sugerir que uma ditadura é “ditabranda”, como fez a “Folha de S. Paulo” — ao comparar a ditadura patropi com as ditaduras chilena e argentina (muito mais letais para as esquerdas) —, mas não é positiva para a organização política, institucional, social e cultural de uma nação. Ainda assim, é possível assinalar que o general Ernesto Geisel pode, assim como Getúlio Vargas — um ditador civil —, ser incluído na galeria dos grandes presidentes.

Ao assumir a Presidência da República, na década de 1970, Ernesto Geisel adotou, desde o início, uma ideia: iria “matar” a ditadura que havia ajudado a criar. Na sua perspectiva, para não criar uma crise institucional e até para evitar uma caça às bruxas, o processo deveria ser lento e gradual. Sobretudo, o líder militar queria evitar a reação da “linha dura”, que não queria nenhuma Abertura — mínima, média ou máxima.

Quando Ernesto Geisel sinalizou que iria desmontar a ditadura, uma tarefa hercúlea, militares, como o ministro do Exército, Sylvio Frota, planejaram derrubá-lo e chegaram a articular o assassinato do ministro-chefe da Casa Civil, Golbery do Couto Silva, que seria o mentor da tese de distensão e Abertura. Militares radicais orquestraram o sequestro (não levaram a ideia adiante) da mulher de Golbery do Couto e Silva e chegaram a divulgar um desenho do ministro-general enforcado.

Sob pressão, o presidente Ernesto Geisel poderia ter recuado. Não o fez. Exonerou o poderoso general Sylvio Frota, evitou um golpe militar (muito bem contado pelo jornalista Elio Gaspari no livro “A Ditadura Encurralada”), impôs João Figueiredo como presidente e consolidou a Abertura. Por que conseguiu “matar” a ditadura, depois de ter participado de seu nascimento? Porque era um líder e, como tal, tinha um plano — a distensão que desembocaria na abertura — para restabelecer a democracia no país.

O general João Figueiredo não era um líder, ao menos não do porte de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Ernesto Geisel, mas cumpriu a missão que lhe havia sido designada: levou a Abertura, aos trancos e barrancos — o atentado do Riocentro é um deles (o presidente não puniu seus mentores e executores, mas conseguiu controlá-los) —, até o fim.

Tancredo Neves

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A transição do regime, que era civil-militar — os civis foram responsáveis por grande parte das ações dos governos (na Fazenda, no Planejamento, na tessitura do arcabouço constitucional) —, poderia ter sido mais complicada. Os militares, com o apoio dos civis do PDS, derrubaram o projeto das Diretas Já — a Emenda Dante de Oliveira — na Câmara dos Deputados. Mas, no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves foi eleito presidente da República, com José Sarney como vice, enfrentando Paulo Maluf, o candidato de parte dos militares (como, estranhamente, Golbery do Couto e Silva).

Se Tancredo Neves não fosse um líder hábil — que conseguiu conquistar para sua aliança um homem da ditadura, José Sarney, e atraiu militares e civis do regime anterior — não teria sido possível a criação de uma aliança moderada e estável, o que garantiu uma transição sem grandes problemas. Os generais Leônidas Pires Gonçalves e Ivan de Souza Mendes foram “fiadores” do novo governo. Mas, sem um líder como Tancredo Neves, moderado e sensato, dificilmente a transição teria sido, surpreendentemente, tão tranquila. Mais uma vez, afigura-se a presença do líder, do político que conduz, puxando a responsabilidade das ideias e ações para si.

Itamar e FHC

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A queda de Fernando Collor, em 1992, poderia ter desaguado numa crise institucional de larga proporção. Mas, pelo contrário, o país melhorou. São vários os motivos. Apontemos dois.
Primeiro, o país não queria e não aceitava mais o governo do presidente Fernando Collor. Tanto pela incompetência quanto pelas denúncias de corrupção sistêmica. Pode-se dizer que o governo do político de Alagoas caiu de maduro, ou melhor, de podre.

Segundo, o país tinha líderes sérios, competentes e equilibrados — como Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas. O presidente Itamar Franco era irritável — e até irritante —, mas era decente e eficiente. Tanto que soube montar uma equipe de governo de qualidade que, com o Plano Real, estabilizou a economia, que voltou a crescer. Não se acreditava mais no controle da inflação, mas o governo conseguiu mantê-la em níveis baixos, o que estabilizou o país. Sobretudo, Itamar Franco era um líder. Sabia mandar e, ao mesmo tempo, montar uma equipe eficiente. No geral, seu time, com Fernando Henrique na linha de frente, era de primeira linha.

Lula da Silva

Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula

Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula

Pode-se falar mal de Lula da Silva, dada a corrupção sistêmica das gestões do PT, mas, no governo, comportou-se de modo moderado e não comprometeu a democracia. Pode-se tachá-lo de bolivariano? É provável que não, embora seja próximo de políticos bolivarianos. Lula, na verdade, é um nacionalista — próximo do populismo — de matiz socialdemocrata, e eventualmente acossado por forças radicais do PT. Não se pode negar que, ao contrário de Dilma Rousseff, seja um líder.

Hoje, paradoxalmente, está se comportando mais como militante do que como líder e, por isso, parece não ter uma compreensão precisa do momento político. Poderia, se quisesse, se apresentar como um elemento moderador. Por que está radicalizado? Possivelmente porque teme ser preso e, ao mesmo tempo, teme que algum de seus filhos seja preso. O ataque é sua defesa. No momento, o petista não é líder, mas sempre foi um líder.

Michel Temer

Foto Lula Marques/Agência PT

Foto Lula Marques/Agência PT

Em 2016, com o afastamento da presidente Dilma Rousseff — que parece mais confortável fora do que no poder (sua entrevista à “CartaCapital” reflete uma moderação ausente de quando era governante) —, o peemedebista Michel Temer assumiu a Presidência da República. Michel Temer é um líder, sobretudo é o líder que este momento de transição exige para levar o país a um porto seguro — à paz política e à retomada do crescimento da economia? Não se sabe ainda. Por vezes, pensa-se que sim. Por vezes, pensa-se que não. Mas políticos e jornalistas que exigirem um governo perfeito — para quem terá pouco tempo para ajustes cruciais —, sem alguns equívocos, como avanços e recuos, podem até entender de teoria política, mas entendem pouco de como funciona a vida real. Basta dizer que Michel Temer depende “mortalmente” do Congresso — até para continuar na Presidência, o que o torna uma espécie de refém. Está à mercê das alianças políticas. Assim, pode radicalizar, no bom sentido, na área econômica, mas não na política.

Se um dos méritos do líder é a montagem de uma equipe eficiente, pode-se dizer que Michel Temer é um líder. Se há problemas noutros setores, quiçá não seminais, a equipe econômica é reconhecida, nacional e internacionalmente, como das mais competentes. É evidente que os problemas são gigantescos — e não se trata apenas do rombo fiscal — e, por isso, técnicos experimentados não podem ser vistos como mágicos. Pois a recuperação do país, se depende de medidas rigorosas, que estão sendo tomadas, não está associada a alguma varinha mágica. Precisa-se de prazo, de continuidade e de compreensão dos políticos e, também, da sociedade de que, antes de alcançar a melhoria da economia, momentos difíceis virão. Cortes nos gastos do governo federal serão sentidos, num primeiro momento, negativamente. Por isso, é importante, até decisivo, a aliança público-privada que Michel Temer está propondo para retomar e fortalecer os investimentos em infraestrutura (que geram empregos, movimentação econômica em várias áreas).

Michel Temer, se quiser recuperar o país, tanto econômica quanto politicamente, precisará ter pulso, mas também a paciência de Juscelino Kubitschek. É o homem certo para o momento? Pode até não ser. Mas há outro? Não há. O fato de ter uma formação política e jurídica plural e aberta, para avaliar que precisa jogar na arena democrática, é um dos fatores que contam a seu favor e, claro, do país.

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