Porque Joesley e Wesley Batista precisam assistir os filmes O Poderoso Chefão e O Leopardo

Os irmãos Batista ganharam bilhões, mas, no processo de enriquecimento, comportam-se como arrivistas. Falta grandeza aos chefões da J&F

Wesley Batista, Michael Corleone (o ator Al Pacino), Joesley Batista, dom Fabrizio Corbera (o ator Burt Lancaster): a limpeza dos negócios pode até ocorrer, mas é preciso ter certa grandeza, o que falta aos corruptores-corruptos (o próprio Joesley se apresenta como “criminoso”) que dirigem a holding J&F, que comanda empresas, como a JBS-Friboi, que faturam bilhões de reais

O americano Mario Puzo escreveu um romance, “O Po­de­roso Chefão”, que teria passado quase despercebido se não fosse a adaptação ci­ne­matográfica de Francis Ford Cop­pola. O filme, por sinal, é mui­to superior ao livro — o que é incomum na relação entre literatura e cinema. Um dos pontos nodais da história, estendida pelo cineasta, às vezes com apoio do escritor, diz respeito à tentativa da personagem central, Michael Corleone, de “limpar” os negócios da Máfia — até descobrir que os negócios tidos como limpos, inclusive alguns da Igreja Católica, não eram tão limpos assim. A diferença é que a milenar Igreja Católica teve tempo suficiente para enobrecer seus negócios, até os, digamos, menos católicos. O papa Francisco, religioso e estadista admirável, eventualmente critica a “gula” do mercado, mas o Vaticano não renuncia a ter banco (consta que “lavou” até dinheiro da máfia) e a manter negócios imobiliários. Porque fazer diferente, para uma empresa — igrejas gigantes são empresas religiosas, mas não deixam de ser empresas comerciais —, não é racional. Vito Corleone queria que o filho Mike, que pertenceu às Forças Armadas americanas na Segunda Guerra Mundial, fosse o responsável pela “limpeza” do grupo. Seria a personagem que re­construiria o nome Corleone, legitimando-o e legalizando-o. Não deu tempo. Mike teve de assumir os negócios sujos da família, para impedir que fosse assassinada, às custas de ações violentas. Quando tentou limpar os negócios, para que os filhos (ou melhor, a filha) não mafiosos pudessem assumi-los, era tarde. Negócios, para serem limpos, demandam tempo, o que Mike não teve. Grandes riquezas, sobretudo aquelas que foram acumuladas a toque de caixa, com atividades não inteiramente legítimas, demoram para serem limpas e seus “do­nos” aceitos de maneira integral pela sociedade. O tempo é o detergente que limpa as grandes fortunas. Só o tempo.

Corte para uma segunda história, diferente ma non tropo da pri­meira. O escritor Tomasi di Lam­pedusa escreveu um ro­man­ce seminal sobre a decadência da nobreza e a ascensão da burguesia italianas. “O Leo­pardo” (que ganhou excelente tradução recentemente, feita por Maurício Santana Dias e lançada pela Editora Companhia das Letras) relata a história do charmoso mas falimentar dom Fabrizio Corbera, príncipe de Salina, em conexão com uma família burguesa. A nobreza era decadente, por falta de dinheiro. Embora com os “negócios” em ruína, a aristocracia era admirada pela burguesia. Os novos ricos queriam ser nobres, no comportamento e na estampa, e burgueses, em termos financeiros. A saída era arranjar um casamento entre o nobre Tancredi, sobrinho de dom Fabrizio — um intrépido jovem que lutava, ao lado de Garibaldi, pela unificação da Itália —, e a bela Angelica Sedàra, filha do burguês don Calogero Sedàra. Era um negócio, mas com certo charme, porque “positivo” para os dois grupos sociais. O objetivo dos nobres — supostamente parasitas sociais — era sobreviver por intermédio dos homens do dinheiro. O objetivo dos burgueses era refinar seus modos pelo convívio com os nobres. Aquele que não quiser ler o romance, de excelente qualidade — e não só pela frase vade mecum “se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude” (há uma frase menos icônica de dom Fabrizio: “Nós fomos os Gattopardos, os leões, os que nos substituirão serão os chacais, as hienas”) —, pode assistir o filme “O Leopardo”, do conde italiano Luchino Visconti. Poucas vezes um livro foi tão bem adaptado, com sua “alma” absolutamente capturada, quanto na película italiana. Burt Lancaster faz um excepcional dom Fabrizio, assim como estão muito bem Claudia Cardinale, como Angelica Sedàra, e Alain Delon, como o espevitado Tancredi. Percebe-se, tanto no livro quanto no filme, que os burgueses “amam” a elegância “natural”, cristalizada, dos nobres, mas não se sentem à vontade ao lado deles. Até suas roupas são usadas de maneira inadequada.

Brothers Batista

Os livros e os filmes são retratos fictícios, porém baseados nas experiências de seus autores e diretores no trato com as ambiguidades e complexidades do real. Podem ser usados para discutir, de maneira rápida, a ascensão e (quase?) queda da família Batista, os bilionários que começaram como pequenos burgueses em Anápolis, segundo município mais importante do Estado de Goiás, com um mero açougue, e se tornaram potentados. Não se pode dizer, para não pecar pelo excesso, que os brothers Batista, Joesley e Wesley — o primogênito, José Batista Júnior, o Júnior Friboi, teria caído fora ao perceber que os irmãos, notadamente Joesley, o mais arrivista do grupo, estavam “exagerando” —, são mafiosos da estirpe de Vito e Mike Corleone. Há um certo gangsterismo no comportamento deles? O mais provável é que entraram no jogo do real do capitalismo — que, em termos de grandes negócios, é brutal e não tem limites. Ninguém sai incólume depois de participar de “batalhas” capitalistas em termos transnacionais. Os Batista são capitalistas empedernidos e, por isso, perderam a noção de limite. Quiçá por falta de cultura, nos embates terríveis que tiveram de travar para a consolidação globalizada do seu empreendimento, perderam a suavidade, a leveza e introjetaram a brutalidade, que se tornou uma segunda pele.

Não é verdadeiro sugerir que o grupo dirigido pelos Batista — não será mais daqui pra frente, pois perderam a credibilidade local e internacional (as empresas estão nas bolsas, que são implacáveis) — cresceu unicamente às custas de verbas públicas. Mas é verdadeiro dizer que recursos públicos, por meio do Banco Nacio­nal de Desen­vol­vimento Eco­nô­mico e Social (BNDES), anabolizaram seus negócios (ao ter acesso a “capital” menos “ca­ro”), tornando-os, em termos globais, mais competitivos. As empresas reunidas sob a égide da holding J&F (José e Flora, os pais de Joesley e Wesley) compraram empresas de grande porte no mercado dos Estados Unidos — o mais agressivo do mundo — e venceram por lá. O que prova a eficiência dos Batista, sobretudo de Wesley, tido como o principal gestor do grupo, tanto que é admirado pelos executivos americanos.

No percurso para se tornarem capitalistas globais, os Batista seguiram dois caminhos. Primeiro, avaliaram que podiam tudo, que o dinheiro, tornando-se capital em valor de bilhões de dólares, não tem limites e compra tudo. Daí, para não serem incomodados e para obter recursos públicos, saíram as compras de políticos e executivos. Pagaram bem e levaram tudo, ou quase. Pode-se sugerir que, ante a falta de pudor dos políticos, como as turmas do ex-presidente Lula da Silva (PT), do presidente Michel Temer (PMDB) e do senador Aécio Neves (PSDB), Joesley e Wesley Batista também perderam o pudor. Ganharam dinheiro a rodo e deram dinheiro a ro­do — como se a famiglia fosse uma espécie de Robin Hood dos políticos e o Estado o Ro­bin Hood deles. Arran­ca­vam re­cursos do Estado, ficavam com a maior parte e distribuíam uma parte generosa para políticos.

Segundo, os Batista decidiram que, depois de ganhar dinheiro, era hora de refinarem-se. Compraram ilha, iate, aviões, apartamentos em Nova York e casas luxuosas no Brasil. Os alpinistas sociais se tornaram, pelos bens a serem exibidos, “alvos” de admiração e inveja. Joesley Batista, tido como o mais afoito e o que mais deseja ser admirado pela alta sociedade, casou-se com a refinada Ticiana Villas Boas. Em entrevistas, a jornalista Tici, como é conhecida, não esconde que tem trabalhado para refinar o plebeu-caipira que ganhou dinheiro mas ainda não tem bons modos. Observe, leitor, as roupas de Joesley. Dá para ver que são de qualidade, das melhores grifes. Mas fica-se com a impressão de que o empresário não está à vontade — assim como dom Calogero, do livro de Lampedusa e do filme de Visconti, não se sente bem vestido num fraque. O fraque não parece bem cortado, de fato, mas o problema não é a roupa em si, e sim o modo como é vestida. Falta “sintonia” entre o chique da vestimenta e o comportamento do novo rico, que, no caso, parece um robô.

Aa gravações recentes, nas quais Joesley Batista exibe uma grosseria inaudita, levam a uma conclusão: as “aulas” de Tici não foram assimiladas pelo empresário. Pelo contrário, fica-se com a impressão de que o empresário não quer assimilar nada da finura que tem sido ensinada pela dama — conhecida entre os “nobres” paulistanos como a “Jacqueline Ken­nedy Onassis da carne”. Talvez seja a resistência do plebeu que, apesar da conta bancária polpuda, não aceita inteiramente a vida dos nobres como dom Fabrizio. A violência verbal contra as mulheres — quando afirma que vai manter relações sexuais com duas “velhinhas de 50 anos” — sugere que sua imagem de empresário moderno deve ser revista. Urgente. Ticiana, a don Fabrizio (ou Tancredi) de saia, não retirou dom Calogero de dentro de Joesley Batista.

Jorge Paulo Lemann e Antônio Ermírio de Moraes: o segundo, já falecido, fez um excelente trabalho na Beneficência Portuguesa e recuperou teatros; e o primeiro está patrocinando cabeças talentosas do país

Antônio Ermírio

Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), o empresário que tornou o grupo Votorantim poderoso e moderno, não se preocupava com refinamentos de fachada. Seus ternos sugeriam, como diz o vulgo, que o “morto era maior”. Mas ele era um homem refinado, de matiz clássico. Dedicava parte de seu tempo à Beneficência Portugue­sa. Chegou a comprar aparelhos para o hospital, sem se preocupar em descontar o “investimento” no imposto de renda. O dinheiro era seu, não da empresa. Escreveu peças de teatro e artigos semanais na “Folha de S. Paulo”. Reformou teatros de São Paulo (e não exigia divulgação do que fazia) e deu emprego a meninos de rua. Quando candidato a governador de São Paulo, ouvia dos marqueteiros que era preciso usar um discurso mais “plástico” — mais ficcional e atrativo —, mas perdeu porque só dizia a verdade. Falava, com todas as letras, que ia exigir mais dedicação do funcionalismo público, que iria cobrar mais dos médicos. Num país em que todos querem ter mais direitos do que deveres, era um péssimo sinal, e de, líder nas pesquisas de intenção de voto, acabou derrotado por Orestes Quércia, que, depois de passar pelo governo, se tornou um dos homens mais ricos do país. Antônio Ermírio parecia dom Calogero, mas, na prática, era um dom Fabrizio — um verdadeiro nobre, e não apenas no sentido de classe social. A diferença era que, ao contrário do príncipe italiano, não era um parasita social. Seu hobby, na verdade, era o trabalho.

Jorge Paulo Lemann, o empresário e banqueiro, é um bilionário em escala internacional. Poderia aparecer nas colunas sociais, circular pelos lugares mais aprazíveis do mundo — o que pode até fazer —, mas prefere tocar seus negócios sem excesso de alarde (é o oposto de Eike Batista). Mais: repassa, anualmente, recursos financeiros para universidades americanas, como Harvard, e tem dificuldade, dada a burocracia, de repassar para as universidades brasileiras. Ao mesmo tempo, está procurando contribuir para formar uma elite técnica brasileira, incentivando jovens brilhantes a estudarem em Harvard, Columbia e Yale, e, nos últimos tempos, têm sugerido que os garotos se envolvam também com política. Uma nova geração de políticos, que pense de maneira institucional mais no país do que nos próprios ganhos, pode surgir daí? É provável.

A família Batista parece acreditar que, apenas por empregar milhares de pessoas, já está fazendo muito, e, de fato, está. Mas o grupo da família de Antônio Ermírio de Morais e o grupo de Jorge Paulo Lemann empregam milhares de pessoas, mas entenderam que têm uma função socioeducativa e que devem contribuir para melhorar o país. Tornar o mundo mais civilizado, ameno e pacífico é uma missão de todos. Mas quem tem dinheiro sobrando, como Bill Gates e os brasileiros citados, às vezes pode contribuir mais.

Os Batista, pelo contrário, estão contribuindo para piorar o Brasil (o corruptor às vezes se comporta como “santo”, mas é também corrupto). Até quando? É provável que, depois da debacle inicial, mesmo tendo de vender todos os negócios — não têm mais credibilidade para dirigi-los no Brasil e no mundo —, continuem ricos, até riquíssimos. Mas o nome não vai sair da lama. O registro da história política e econômica do país vai deixá-los mal. Os Batista jogam para si, não beneficiam a sociedade — ao contrário dos grupos de Jorge Paulo Lemann e da família de Antônio Ermírio de Moraes — e contribuem para arranhar a imagem do país tanto interna quanto externamente. Pergunte aos reitores da USP, da Unicamp, da UFG e da PUC-Goiás: os Batista deram um livro — apenas um — para suas bibliotecas? Ganharam bi­lhões, em parte graças ao BNDES, um banco público de fomento, mas o que ofereceram em troca para a sociedade?

A queda dos Batista, notadamente de Joesley e Wesley, sugere que os burgueses iniciantes, talvez pela pressa em ganhar dinheiro e pela falta de cultura em geral (inclusive histórica) — e pelo investimento mais em esperteza do que em valores sólidos —, são amantes da decadência sem elegância, típica dos arrivistas. Apesar dos bilhões, os Batista despontam, depois da cadeia, para o anonimato.

Nexus e Friboi

Júnior Friboi e Ilézio Inácio Ferreira: com uma espécie de “má consciência” acesa, os dois empresários estão construindo um megaempreendimento, entre os setores Sul e Marista, que piora a qualidade de vida, e não só a trafegabilidade, dos goianienses

Por fim, veja-se o caso de outro integrante da família Batista, José Batista Júnior, o Júnior do Friboi — tido como o mais simplório dos irmãos. Hoje, além de dono do frigorífico Mataboi — não há notícia de que tenha sociedade nem mes­mo com o pai, José Sobrinho Batista, o Zé Mineiro — e de várias fazendas, Júnior Friboi, tido como espertíssimo e bon vivant, associou-se ao empresário Ilézio Inácio Ferreira, dono da Construtora Consciente, para a construção do megaempreenedimento Nexus, na confluência dos setores Marista e Sul, na proximidades do viaduto da Praça do Ratinho.

Um laudo dos peritos da Polícia Civil, elaborado de maneira competente e exaustiva, constatou que o relatório de impacto de vizinhança contém falsificações grosseiras. Não só. A construção do shopping, hotel, lojas corporativas e salas para escritório, entre as avenidas D e 85, tende a contribuir para engarrafamentos monumentais e, portanto, para prejudicar a qualidade de vida dos goianienses. Dono da JFG Incorpo­rações, Júnior Friboi teria sido moderno se convocasse Ilézio Inácio Ferreira e dissesse: “Vamos construir o Nexus na região tal com o objetivo de desenvolvê-la”. Os dois empresários pensaram pequeno, e só nos seus negócios, esquecendo-se de que deveriam e devem pensar na sociedade.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) — autor de um relatório impecável — demonstrou por “A” mais “B” que o Nexus piora a qualidade de vida das pessoas que residem nos setores Sul e Marista (e não só delas). Mas Júnior Friboi e Ilézio Inácio Ferreira, pensando “pequeno”, contam com o provincianismo típico dos que pensam que desenvolvimento é sinônimo de edifícios grandes e altos.

O que dizer a Joesley, Wesley e Júnior Friboi? Que, como não têm o hábito da leitura, assistam os filmes “O Poderoso Chefão”, especialmente a parte 3, e “O Leo­pardo” (custam, diria João Vaccari Neto, pixulecos). Talvez entendam um pouco por quais motivos estão caindo, caindo, caindo… Ilézio Inácio Ferreira, que teria mais cultura do que Júnior Friboi e seus irmãos, deveria ver os filmes e ler os livros… Talvez ajude a entender o que está fazendo com Goiânia — com o “apoio” do prefeito Iris Rezende e, até, de um desembargador (que parece avaliar que o interesse da sociedade está aquém do interesse de grupos privados e poderosos).

O nome da empresa de Ilé­zio Inácio Ferreira é Consciente. “Má Consciência” talvez seja mais apropriado.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Um belo editorial e com a erudição que caracteriza o editorialista. Naturalmente, o Ilézio se “apequena” quando se junta a um dos mais rudes empreendedores que a província de Goyaz conhece(u) – o sr. Júnior Friboi Batista. Quanto ao restante do texto, é um primor quando compara as personalidades dos irmãos Batista com empresários éticos e de sucesso – como os irreparáveis J.P.Lehman e o Dr. Antônio Ermírio, de saudosa memória. Crême de la crême é este trecho: “Observe, leitor, as roupas de Joesley. Dá para ver que são de qualidade, das melhores grifes. Mas fica-se com a impressão de… Leia mais