Depois de ser reeleito para o governo de Goiás, em 2022, Ronaldo Caiado (União Brasil) não fez mais questão de esconder de ninguém: é, sim, pré-candidato à Presidência da República nas próximas eleições.

Mesmo (ou até principalmente) no próprio Estado, a primeira impressão que se pode ter é de que o maior cargo majoritário do País seria muita ambição para alguém que venha de uma unidade periférica da União.

De fato, de Goiás nunca saiu um presidente. Mais do que isso, para ter ideia, em mais de 130 anos de República, o Centro-Oeste só teve dois nomes que alcançaram o cargo: em 1945, o general Eurico Gaspar Dutra, eleito para suceder Getúlio Vargas (de quem havia atuado pela deposição, mas por quem, curiosamente, foi apoiado – levada em conta a conjuntura política – na disputa contra outro militar, o brigadeiro Eduardo Ramos); e Jânio Quadros, eleito em 1960 na disputa contra o marechal Henrique Lotti, este apoiado pelo então presidente Juscelino Kubitschek.

Dutra nasceu em Cuiabá, em 1883; Jânio, em Campo Grande (hoje capital de Mato Grosso do Sul, mas que era então município do Mato Grosso ainda não dividido), em 1917. Ambos, porém, não havia feito política em seus Estados de origem. O general teve na Presidência seu único cargo eletivo e fez carreira militar entre Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro; já o homem da “vassourinha” foi de vereador a governador em São Paulo antes de chegar ao Palácio do Planalto.

Ronaldo Caiado, ao contrário, se projetou nacionalmente tendo sempre Goiás como sua base. Com a morte de Iris Rezende e de Maguito Vilela e o ostracismo de Marconi Perillo, o governador é o único goiano com ressonância e importância política na discussão nacional. Teve um inegável papel de destaque durante a pandemia, sendo o esteio de resistência da ciência no bloco da direita, tornando-se opositor involuntário do negacionismo das medidas sanitárias praticado do governo federal. Como médico e gestor, não abriu mão de seus princípios e, melhor eleitoralmente, ao fim do processo continua respeitado pelo principal puxador de votos de metade da população, o próprio Jair Bolsonaro.

E como estão hoje os principais concorrentes em seu espectro ideológico para a disputa?

Tarcísio de Freitas (Republicanos)

Em tese, o governador de São Paulo é sempre o “número 1” numa bolsa de apostas para a Presidência. Primeiramente, por comandar o Estado mais rico, mais populoso e mais influente do País. No caso de Tarcísio, para postular a vaga, ele tem o adicional, bastante importante para a conjuntura, de ser o nome mais próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro – a quem, na última semana, foi cedido um dos aposentados do Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista, para sua convalescência pós-cirúrgica.

Ser candidato nas próximas eleições presidenciais, para ele, significaria abrir mão da reeleição, deixando seu posto antes de completar o primeiro mandato. Foi o que fez José Serra, em 2010, mas depois perdendo para Dilma Rousseff (PT). Geraldo Alckmin (PSB), hoje ex-tucano, foi outro a deixar mandatos inconclusos – no caso, sempre o segundo – em 2006 e 2018 para tentar, por duas vezes e sem sucesso, buscar a cadeira presidencial.

Tarcísio pode até se lançar já para 2026, mas a prudência indica que, até mesmo eleitoralmente, será melhor deixar essa guerra para quatro anos depois. E a prudência tem nome: Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e uma das maiores raposas da política nacional contemporânea. Ele já conversou com o ex-ministro de Bolsonaro e sinalizou que o ideal é ir para mais quatro anos gerindo São Paulo e, assim, evitar um eventual embate com Lula.

Michelle Bolsonaro (PL)

Com a inelegibilidade do marido, a ex-primeira-dama passa a ser a bola da vez para Valdemar Costa Neto. O partido já decidiu que vai investir o que puder para torná-la viável para a disputa. Michelle é a presidente do PL Mulher e tem viajado por todo o País para promover a sigla e, claro, a própria pré-candidatura. A grife “Bolsonaro” faz os olhos da direita mais radical brilhar, mas outra parte da direita, mais moderada e racional, não vê nela experiência e estofo para ser uma Cristina Kirchner do mundo reverso.

Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro, Romeu Zema e Eduardo Leite: nomes possíveis da direita para 2026 | Foto: Reprodução

Romeu Zema (Novo)

O empresário que, estreante em campanhas eleitorais, surfou na onda da antipolítica de 2018 a ponto de ser eleito governador do segundo Estado mais rico do País conseguiu a reeleição em 2022. Se na primeira disputa eleitoral era uma novidade, já no segundo confronto com as urnas passou a sofrer desgaste. Ainda que tenha sido bem avaliado – a ponto, obviamente, de ser reeleito –, como qualquer gestor que tenha algum tempo de história na vida pública, virou vidraça e parece não lidar muito bem com essa posição. Meses atrás propôs uma frente dos governos do Sul e do Sudeste contra o Nordeste, cujos Estados considerou ““vaquinhas que produzem pouco”.

Zema já havia produzido outras gafes que mostraram ignorância quanto à gramática e à literatura, mas nenhuma tirou tanto capital político quanto essa declaração, dada ao jornal “O Estado de S. Paulo”. Antes, já havia dito que “há uma proporção muito maior de pessoas trabalhando do que vivendo de auxílio emergencial” nas regiões Sul e Sudeste. Sua participação no pleito presidencial de 2026 acabou entrando em xeque por ter se “carimbado” como separatista.

Eduardo Leite (PSDB)

De todos os atuais pré-candidatos que tem a centro-direita, nenhum foi mais escancarado no propósito de buscar a Presidência do que o atual governador do Rio Grande do Sul, que conseguiu a “proeza” de ser sucessor do próprio mandato, depois de ter renunciado a ele. Chega a ser difícil explicar, mas Eduardo concorreu ao cargo depois de não absorver o resultado das prévias tucanas, em que perdeu para João Dória, ainda em 2021. Deixou o cargo para se candidatar por outro partido, mas não conseguiu legenda nem apoio substancial para o propósito. O jeito foi colocar seu nome de volta na disputa local, disputando o cargo que estava então ocupado por seu vice, Ranolfo Vieira Júnior (PSDB).

As idas e vindas, somadas a algumas declarações nada adequadas – o gaúcho ficou ao lado de Romeu Zema na polêmica “sulistas x nordestinos” –, tiraram muito do poder de fogo do tucano para um voo maior.

E Caiado?

Em busca de ser referendado pela direita nacional, o governador tem muito o que apresentar. Sua liderança política é incontestável, bem como sua experiência como gestor desde 2019 tem avaliação muito positiva. À frente de Goiás, Ronaldo Caiado conseguiu organizar as contas, obteve a aprovação do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) e reduziu em muito os índices ligados à violência, além de expandir pelo interior a rede pública de saúde – processo catalisado pela pandemia. A segurança pública e a saúde eram as maiores preocupações do eleitorado em 2018 e o sucesso das políticas públicas nesses setores foi um dos fatores que o fez ser referendado nas urnas quatro anos depois – e ainda em primeiro turno.

Dentro do partido, hoje, o nome que seria um concorrente à postulação nacional seria ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e candidato derrotado ao governo da Bahia – Estado dominado há décadas pelo PT, com a maior população do Nordeste e a 4ª maior do País, e que também nunca teve alguém à frente da Presidência da República.

A política é dinâmica, a relação de poder está em constante mudança, mas hoje, sim, é possível afirmar que o nome de Caiado está em ascensão para se firmar como o candidato a disputar, pela direita, a vaga ao Palácio do Planalto.