Como não se reduz a pobreza de uma hora para outra, urge que o Estado assuma os cuidados assistenciais àqueles que estão à margem da sociedade

Na quinta-feira, 26, por volta das 19 horas, um repórter do Jornal Opção conversou, por alguns minutos, com uma mulher, de pouco de mais de 20 anos, que vendia chocolates próximo ao McDonald’s da Avenida 136, nas imediações do shopping Flamboyant. Desenvolta, com português escorreito, contou que trabalhou como caixa de supermercado e hoje é vendedora informal. Sustenta a si e a dois filhos (que ficam brincando na grama) com o dinheiro que arrecada e mora com a mãe (antes, pagava 450 reais de aluguel). É separada.

Retirantes, de Portinari | Foto: Reprodução

Noutros dias, no mesmo local, é possível ver e conversar com pessoas pobres que pedem um “adjutório” — algumas são venezuelanas, mas a maioria é brasileira.

A jornalista Adriana Godinho participa de um grupo que distribui alimentos para pobres na periferia de Goiânia. Ela tem ficado impressionada com a pobreza das pessoas — algumas não têm sequer documentos, como certidão de nascimento e carteira de identidade. As roupas são, em alguns casos, andrajos.

Sebastião, que trocou a carteira assinada (foi motorista de caminhão e organizador de bailes) pelo trabalho informal de faz-tudo (encanador, eletricista, pedreiro, costuma dizer que é capaz de dar jeito em tudo, menos na morte; por sinal, recentemente teve dengue), disse ao Jornal Opção que, como anda muito pela cidade — mora no Setor Universitário (em casa própria, quitada), com a mulher, um filho, a nora e as netas, trigêmeas —, tem notado que a pobreza “está crescendo”. “São pessoas sem esperança, que avaliam que não dão mais conta de fazer nada na vida”, diz. “Poderia condená-las, mas não o faço. São gente, pessoas em busca de uma oportunidade, que às vezes não chega.” Mesmo tendo pouco, tem o hábito de comprar lanche para os funcionários de um condomínio no qual presta serviço diariamente.

Segunda classe, de Tarsila do Amaral | Foto: Reprodução

No Centro de Goiânia, é possível observar que os pobres estão quase sempre sentados ou circulando nas avenidas Goiás, Anhanguera e Araguaia. Eles informam que são do Pará, do Maranhão, do Tocantins e de Goiás. Nem todos eram mendigos em suas cidades natais. Alguns são alcoólatras, outros são usuários de crack (se concentram em parte da Avenida Independência, nas proximidades da estelar Rua 44, onde há um intenso comércio de roupas). Sentem-se como “deserdados de tudo” e quase “invisíveis”. Há aqueles que dizem tentar mas não conseguem emprego. Se consideram malvestidos, faltam dentes frontais e, por isso, relatam que é difícil encontrar um trabalho formal.

O que se disse acima é confirmado por uma pesquisa do Gallup. Segundo o levantamento do instituto americano, a insegurança alimentar no Brasil em 2021, batendo o recorde anterior, ultrapassou, pela primeira vez, a média global. E afetou mais mulheres, famílias pobres e indivíduos com idade entre 30 e 49 anos.

Criança morta, de Portinari | Foto: Reprodução

A pesquisa do Gallup, que abrange 160 países (a maioria), constatou que a insegurança alimentar no Brasil dobrou desde 2014. A recessão do governo Dilma Rousseff, do PT, colaborou com o aumento da pobreza. Mas a situação piorou no governo de Jair Bolsonaro, em parte por causa da pandemia da Covid-19.

O Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisou os dados do Gallup e aponta que a taxa de insegurança alimentar passou de 17% em 2014 para 36% em 2021. Trata-se de um salto gigante. É a primeira vez que supera a média global (35%).

Segundo o Gallup, 75% dos 20% mais pobres do Brasil disseram que faltou dinheiro para a aquisição de alimentos em 2021. O diretor da FGV Social, Marcelo Neri, afirma que “a insegurança alimentar mais elevada nesses segmentos [a taxa chegou entre as mulheres a 47%; e, entre pessoas com idades de 30 a 49 anos, foi de 45%] tem efeitos de longo prazo preocupantes por causa do maior número de crianças envolvidas e da desnutrição entre elas”.

Marcelo Neri frisa que “o que impressiona também é o aumento abissal da desigualdade de insegurança alimentar. Entre os 20% mais pobres no Brasil, o nível é próximo dos países com maiores taxas, como Zimbábue [80%]. Já os 20% mais ricos experimentaram queda [para 7%], ficando pouco acima da Suécia, país com menos insegurança alimentar”. Noutras palavras, os ricos e as classes médias estão vivendo bem, em níveis dos países mais ricos da Europa, e os pobres vivem tão mal quanto determinados países africanos. Ou seja, persiste uma “Belíndia” no Brasil (e é preciso ressalvar que a Índia está crescendo mais, em termos de economia, do que o Brasil e a Bélgica. O economista Delfim Neto fala em “Ingana”: impostos da Inglaterra e serviços públicos de Gana).

Pintura de Iberê Camargo

De acordo com o coordenador da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), Renato Maluf, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, “o desemprego segue elevado e a renda, em baixa, sobretudo entre os informais. Temos um benefício social [Auxílio Brasil, que paga 400 reais por mês] menor do que em 2020 [quando chegou a R$ 600 mensais] e uma guerra entre dois grandes produtores de alimentos” (Ucrânia e Rússia).

“Para completar, não há política de governo estruturada contra a fome, só reações voluntariosas, com medidas pontuais, como a redução de tarifas de importação. Não há nenhuma razão para acharmos que as coisas possam melhorar”, assinala Renato Maluf.

Todos reclamam da inflação, e com razão. Porém, a inflação é ainda mais danosa para os pobres e parte das classes médias. A consultoria MB Associados disse à “Folha de S. Paulo” que “a inflação de alimentos neste ano deve chegar a 12%, bem acima do IPCA, contribuindo para agravar o quadro de insegurança alimentar”. (Por isso há quem acredite que será preciso reinventar o Plano Real, que, nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, debelou a inflação, criando, depois de muitos anos, uma economia estável. Recentemente, setores do PT se aproximaram do economista Pérsio Arida, um dos criadores do Plano Real. Reduzir a inflação é, em si, um vigoroso “programa social”.)

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, postula que, “embora haja alguma desaceleração nos preços de commodities metálicas por conta da perspectiva de desaceleração econômica na Europa, na China e nos Estados Unidos, os preços dos alimentos seguem outra dinâmica, com pressões persistentes e descoladas dos índices de atividade”.

Bolsonaro e Lula certamente farão uma campanha tendo em vista o que as pesquisas, sobretudo as qualitativas, estão revelando. Os eleitores, sejam ricos, sejam das classes médias, sejam pobres, não estão minimamente interessados no debate ideológico sobre direita e esquerda, sobre socialistas e capitalistas. O que todos querem saber é se os candidatos a presidente vão apresentar projetos para melhorar suas vidas, no dia a dia. Sua atenção não será voltada para o debate sobre se Lula é “comunista” — não é, nunca foi (mas é de esquerda, a socialdemocrata) — e se Bolsonaro é “fascista” (de cariz autoritário, e apesar de certas similitudes com o fascismo do italiano Benito Mussolini, do espanhol Francisco Franco e do português António de Oliveira Salazar, e de sugerir que pode seguir o modelo político de Putin na Rússia, falta-lhe “estofo” para ser fascista. Na prática, é um nacionalista autoritário, com vocação golpista). O que se quer saber, de verdade, é se se terá alimentos no prato, se se conseguirá pagar o plano de saúde privado, a escola dos filhos, a prestação mensal do automóvel (e se terá condições de abastecê-lo) e da casa própria ou do lote.

O debate intelectual, se Lula é de esquerda e se Bolsonaro é de direita — e até de extrema direita —, é para poucos. É para aqueles que já resolveram seus problemas corriqueiros, como fome e dificuldade de pagar as contas mensais (os que já se tornaram “cidadãos”, e não são mais meros “indivíduos” que vivem ao deus-dará, assistidos pontual mas não estruturalmente pelo Estado).

O que os eleitores, a maioria, querem discutir, de fato, são problemas concretos, as agruras do dia a dia.

Recentemente, o chargista Nando Motta publicou um quadrinho sugestivo. Um homem, de camiseta cavada, diz: “Prefiro calor!”. Outro homem, de blusa de frio, cachecol e gorro, postula: “Prefiro frio!” Um mendigo, com roupas e um cobertor puídos, afirma, num realismo implacável: “Deve ser bom poder escolher…”.

É isto: chegou a hora (está passando da hora) de a sociedade pensar nos deserdados de tudo — os que sofrem com o calor, com o frio e, sobretudo, com a fome. É hora de falar dos “invisíveis” que pedem esmolas nos semáforos — um dos poucos lugares em que podem ter acesso aos que têm alguma (ou muita coisa) — ou ficam sentados ou deitados nas ruas.

Os jornais, tão preocupados se Bolsonaro ou Lula vão ganhar a eleição para presidente, deveriam voltar os olhos para o que está acontecendo com os que vivem, digamos, à margem. Há uma Amazônia de pobreza no Brasil que, além de ser vista, precisa ser assistida. Deve ter acesso a comida (e, sim, o Estado tem uma missão crucial), a saúde e a educação.