Pesquisa não capta “energia negativa” do eleitor e pode não refletir o quadro de outubro

No momento, os eleitores não estão interessados em pesquisas e em campanha política. Eles começam a prestar atenção nos candidatos a partir de agosto

Há uma discussão sobre os números das pesquisas eleitorais feitas pelos institutos que trabalham em Goiás. Quem está em primeiro lugar mostra-se satisfeito. Quem não está às vezes contesta os números. Mas, no geral, as pesquisas são decentes — com falhas raras e pontuais. Institutos como Fortiori (Gean Carvalho), Grupom (Mário Rodrigues), Epom (Roque Toscano) e Serpes (Antonio Loren­zo Martínez), para mencionar apenas quatro, são sérios e seus históricos são positivos. Alguns políticos e, eventualmente, até jornalistas colhem os números de vários levantamentos e comparam com os resultados das eleições — daí extraem a conclusão de que os institutos erram… muito. Mas a interpretação pode ser um pouco diferente.

Primeiro, pesquisas são aproximações. Se não fossem, seu nome seria outro — urnas. Segundo, durante a campanha, dados os debates e a apresentação dos programas de governo, os eleitores podem mudar de opinião, trocando de candidatos e reforçando um ou outro postulante. Levantamentos eleitorais refletem o momento, o quadro fixo. Não têm como “eternizar” a circunstância.

Postas as questões, pode-se dizer que as pesquisas quantitativas são desnecessárias e superficiais? Não. São úteis para apurar como, em dada circunstância, os eleitores pretendem votar. O que os indivíduos devem ter em mente é que não são sinônimos de definições eleitorais. A expectativa de poder, um ou dois meses depois, pode ser outra, e eventualmente as pesquisas poderão apresentar novos números. Hoje, segundo todas as pesquisas, o senador Ronaldo Caiado (DEM) aparece em primeiro lugar para governador de Goiás, com o governador José Eliton (PSDB) e o deputado federal Daniel Vilela (MDB) em segundo e terceiro. Mais tarde, com os postulantes se tornando mais conhecidos e os eleitores sabendo o que propõem para melhorar suas vidas, o quadro pode ser outro. Ou pode permanecer o mesmo.

O problema, portanto, não são as pesquisas de intenção de voto em si. Mas o uso que se faz delas — como se refletissem um quadro fixo, inerte. Dito isto, há, de fato, institutos que manipulam números? É possível que sim. Mas, no geral, já estão desmoralizados o suficiente.

Há, por fim, um fetiche com as pesquisas qualitativas. Por serem mais abrangentes, possibilitam uma compreensão menos imprecisa do que quer o eleitor e de como deve se comportar ao votar. Mas refletem também momentos, que podem mudar quando os candidatos forem conhecidos de todos os eleitores e, especialmente, quando suas propostas forem avaliadas e assimiladas. Como os programas não são muito diferentes, se forem racionais e realistas, às vezes o que importa mesmo, para os eleitores, são os candidatos. Inspiram confiança e é possível acreditar que vão fazer o que estão prometendo? Por isso o histórico dos candidatos certamente será examinado pelos eleitores.

Não basta, por exemplo, ser “novo”. O candidato precisa convencer o eleitor de que, sendo novo, terá condições de governar de maneira eficiente. Os eleitores votam em “maluquetes” para o Legislativo, ao qual conferem menos importância, mas não para o Executivo.

A cabeça do eleitor

Há vários livros nos quais os eleitores são discutidos e esquadrinhados de maneira ampla por cientistas políticos e sociólogos. O expert Alberto Carlos Almeida publicou recentemente “O Voto do Brasileiro” (Record, 280 páginas) e há algum tempo “A Cabeça do Eleitor — Estratégia de Campanha, Pesquisa e Vitória Eleitoral” (Record, 308 páginas). São livros cruciais para se entender como funciona a cabeça dos eleitores patropis e como eles de fato votam.

Em termos de voto — ou melhor, de empolgação com o processo eleitoral —, a cabeça dos eleitores não funciona como a dos políticos e dos jornalistas. Nos escritórios políticos, nos parlamentos e palácios e nas redações de jornais, sobretudo nas editorias de política, fica-se com a impressão de que a discussão eleitoral é o centro do universo. Para a maioria das pessoas, não é. Um repórter do Jornal Opção pegou um ônibus do transporte coletivo de Goiânia, na Avenida T-63, desceu a Avenida Araguaia, passou pelas avenidas Paranaíba e Avenida Tocantins e, finalmente, subiu a Avenida 85 e voltou à T-63. O objetivo era registrar e verificar as conversas dos indivíduos.

Dois homens, torcedores do Vila Nova, conversavam animadamente sobre futebol. Reclamavam que o Vila começou bem o Campeonato Brasileiro-Série B, mas acabou caindo de rendimento. Um deles concluiu: “Pelo menos estamos melhores do que o Goiás”. Do Atlético, nada disseram. O mais velho — cerca de 35 anos — comemorou: “O Flamengo está bem, felizmente”. Um baiano de Cor­rentina (trabalha no Restaurante Madero) interferiu: “O Bahia e o Vitória são uma vergonha”. O repórter deu um pitaco: “A Seleção Brasileira vai ganhar ou vai tremer?” Os “torcedores” olharam de soslaio e o mais jovem redarguiu: “O Brasil só vence se o Neymar estiver inspirado”. O outro acrescentou, sem se explicar: “O Tite é meio time”. E as eleições? A dupla disse que nada sabe sobre o assunto e não quer saber. “Tô fora!”, disse um deles. “Político, para mim, é igual bandido!”, quase gritou o outro. O baiano pontuou: “Vamos ser campeões e o Neymar vai ser o artilheiro da Copa”. Uma mulher, sentada ao lado, balbuciou: “Benza Deus!”

O repórter adianta-se, senta-se numa cadeira próximo de duas mulheres — uma delas bem maquiada. A prosa é mais animada. “Preciso cortar meu cabelo como o da Giovanna Antonelli. Ela está muito bonita.” A outra riu e disse: “Menina, já viu os novos batons da Quem Disse, Berenice?” “Não. Você tem aí?” A moça, de cabelos crespos, exibiu dois batons. O repórter entra na conversa: “Vocês vão votar em quem para governador?” A resposta de uma delas: “Que nojo! Não vou votar, não!” A outra emendou: “Os políticos são todos ladrões. Vou viajar no dia da eleição. Me disseram que a multa é pequena para quem não votar”. Deixaram o jornalista de lado e continuaram o papo a respeito de esmaltes e da novela “O Outro Lado do Paraíso”. E uma delas cutucou o repórter: “Você está sentado no assento para idosos”. A outra suspirou, com ar de quem parece pensar: “Que cara chato!”

Na Avenida Araguaia, dois jovens sobem no ônibus, com mochilas e uniforme escolar. Falam de um novo game e de uma diretora “chata” que impede o uso de celular — para jogos e bate-papo — em sala de aula. “Não vivo sem meu celular”, diz um. O outro complementa: “Minha vida está no meu celular. Vou ao banheiro só para responder mensagens das meninas”. O repórter inquire: “Vocês votam em quem para governador?” “Não sei se vou votar, embora já tenha título eleitoral. Adianto que não voto no Iris Rezende, pois ele não é bom prefeito”, afirma o jovem (paraense) de 18 anos. O de 19 anos (maranhense) é incisivo: “Detesto política e políticos. Vou votar no Jair Bolsonaro para presidente, mas não sei quem é candidato a governador”.

O repórter ouviu outras conversas. Nenhuma delas tinha como centro a política e as eleições de 7 de outubro de 2018 — que serão realizadas daqui a três meses e 21 dias. Deve-se concluir que as pessoas são alienadas — por não falaram de saúde, educação, segurança pública e, claro, política? Não.

O que se deve concluir é que o “tempo” dos eleitores não é o dos políticos e o dos jornalistas. Eles estão noutra “frequência” — cuidando de suas vidas, de seu cotidiano. Às vezes, ao embelezar, um batom pode ser mais importante do que a citação do nome de um político. Traz alguma felicidade, prazer.

Mas, no momento que julgarem apropriado, os eleitores vão examinar os políticos com bom senso e pertinácia. Quando? Depois da Copa do Mundo de Futebol? A Copa não está “atrapalhando” em nada. Com ou sem ela, os brasileiros passarão a discutir eleições nos 45 dias reservados à campanha pela Justiça Eleitoral. É tempo suficiente. Há quem postule que os eleitores decidem os nomes de seus candidatos — verificando ou não atentamente seus programas de governo — a 15 dias das eleições. Há casos de eleitores que decidem em cima da hora. Se o voto não fosse obrigatório, muitos viajariam para rever familiares em outras cidades ou iriam pescar (embora a eleição seja no domingo e, na segunda-feira, tenham de voltar ao trabalho). Em países como Estados Unidos, de longa tradição democrática, parte significativa dos eleitores não vota e, portanto, não dá a mínima importância aos políticos.

Punir o sistema

O professor de Harvard Steven Levitsky, autor do livro “Como as Democracias Morrem”, disse, numa entrevista a Eduardo Salgado, da revista “Exame”, que, no Brasil, “as pessoas parecem querer punir o sistema com seu voto”. Ele acrescenta que “uma democracia pode morrer de várias formas. Uma delas é a eleição de um outsider autoritário, como [Jair] Bolsonaro”.

Fica-se com a impressão de que às vezes os eleitores são tratados como “categorias” e, até, “classes sociais”. Mas claro que se trata de impressão. Os eleitores não são classes sociais e nem sempre reagem em bloco. Porque os indivíduos, embora tenham interesses coletivos em determinadas áreas — segurança pública, saúde e educação (ainda que existam estudantes em escolas públicas e privadas) —, pensam de maneira diversa sobre vários assuntos. O consenso é raro.

Os eleitores, quando avaliam que chegou o momento “certo”, para eles, examinam as propostas dos candidatos, sobretudo para cargos executivos, de maneira racional. Eles deixam a bola rolar, esperam os políticos guerrearem, com a apresentação do que pretendem fazer, examinam os históricos de todos os postulantes, e aí decidem. Podem decidir mal? Podem. Mas sabem avaliar e decidir. Por que muitos querem Jair Bolsonaro na Presidência da República? Possivelmente porque, sendo militar, “colocará”, na opinião de seus apoiadores, ordem no Brasil. Seria um militar no poder — quase uma “intervenção” —, mas sem ditadura. Uma espécie de Getúlio Vargas (que era civil) pós-Estado Novo, entre 1950 e 1954.

Tocantins e desprezo

O governador Mauro Carlesse (PHS) e o senador Vicentinho Alves (PR) não representam, para os eleitores, nem o conservantismo nem a mudança — receberam um voto que talvez possa ser chamado de inercial

Na eleição suplementar para governador do Tocantins, o governador Mauro Carlesse (PHS) — era presidente da Assembleia Legislativa e assumiu devido ao afastamento de Marcelo Miranda (MDB) — e o senador Vicentinho Alves (PR) foram para o segundo turno. A leitura dominante sugere que o eleitor não investiu em renovação, na mudança. Mas depende do que se entende por renovação-mudança. Como os dois não haviam sido governadores, portanto “novos” na disputa para o Executivo, os eleitores podem ter interpretado que, apesar de já serem políticos, são uma novidade.

Mas há uma outra leitura. Parte significativa dos eleitores ignorou o pleito, sugerindo que estava se “lixando” para todos os candidatos — os “novos” e os “velhos”.

Mais do que “sim” para Mauro Carlesse e Vicentinho Alves, os eleitores disseram “não” para todos os postulantes, tanto os conservadores quanto os ditos progressistas. Foram tratados como “iguais”. A maioria pensa assim mesmo: “Os políticos são todos iguais”. O que difere, costumam acrescentar, “é que uns estão roubando e outros estão querendo roubar”. Não é bem assim, pois há políticos que são estadistas e não são venais. Mas, no caso, a voz das ruas quer ser, em definitivo, a voz de Deus.

Portanto, no Tocantins, os eleitores não ficaram a favor nem contra a mudança. Mostraram, com seu “cansaço” e “desânimo”, que querem mudar, mas não consideram os políticos atuais, todos eles, como capazes de modificar a política e a gestão do Estado de maneira qualitativa. Pode-se dizer que os eleitores, os que não votaram (não votar é quase um voto, uma atitude) e os que votaram, deram um “voto” não de aprovação, e sim de desprezo.

Por fim, o mandato-tampão parece não interessar aos eleitores do Tocantins. É provável que o resultado da eleição de 7 de outubro seja diferente da eleição antecipada? Não se sabe. Mas os eleitores têm razões que às vezes não são percebidas pelos cientistas políticos — que, seriíssimos, não raro desconhecem a importância que têm um batom, um corte de cabelo, um time de futebol, uma série de televisão e um game para os indivíduos, homens e mulheres. A política é um dos interesses dos brasileiros, mas não figura entre os principais. Deveria ser diferente? É provável.

Porque a política interfere na vida de todos os cidadãos — gostando-se ou não das ações dos políticos. São eles, por exemplo, que aprovam as leis que, depois, os juízes têm de aplicar e todos têm de cumprir.

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