Para entender a crise da educação é preciso ir além da discussão das notas baixas em redações no Enem

bertha-worms-brasil-1868-1937-2O resultado do Enem de 2014 mostra que os jovens brasileiros vão mal em matemática e redação. O jornal “O Globo” ouviu dois estudantes que obtiveram nota máxima em redação. Carlos Eduardo Lopes Marciano, de 19 anos, diz que, acima de tudo, é um bom leitor. Aprecia, por exemplo, Jorge Amado, que, se não é um Machado de Assis ou um Guimarães Rosa, portanto pouco dado à inventividade literária, é uma espécie de sociólogo da vida brasileira, um discípulo literário, digamos, de Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro.

Quer dizer, um intérprete, quiçá indireto, da história e do cotidiano do País. “Sempre tive o dom de escrever. Escrevia poemas e outros textos e gostava de redação argumentativa”, sublinha. Ao tentar uma vaga na Universidade de São Paulo (USP), leu os nove livros indicados. Leu as obras, não resumos elaborados por professores ou encontrados na internet.

Maria Eduarda de Aquino Corrêa Ilha, de 18 anos, sugere que a paixão pelos livros contribuiu, de maneira decisiva, na elaboração de uma redação estruturada e convincente. O tema “publicidade infantil”, admitem os dois, por ter sido menos divulgado que “lei seca”, o tema de 2013, é mais “difícil”. Porém, a facilidade de lidar com as palavras e as ideias facilitou a escritura da redação.

“O Globo” ouviu professores do ensino médio, em busca de uma explicação para as notas baixas — de maneira surpreendente, o jornal praticamente ignorou a disciplina matemática — e colheu platitudes, ainda que objetivas. O mestre Bruno Rabin, do ensino médio, acredita que as notas baixas têm a ver com o tema da redação, que, por ser mais “árido”, exige uma formação cultural mais ampla. Ele sugere outra explicação: como a redação foi feita junto com as provas de linguagens e matemática, é provável que não tenha sido a prioridade de vários estudantes. “Os alunos provavelmente ficaram pressionados com o tempo, e isso influiu”, avalia.

O professor Filipe Couto, do ensino médio, atribui parte da responsabilidade a um possível rigor dos corretores das redações. Ora, o rigor é necessário e os corretores não podem ser apontados como “culpados” pelo fato de os estudantes não escreverem bem — muitos nada escreveram, daí a nota zero — ou de escreverem e argumentarem mal. Rafael Cunha, professor de redação, corrobora Filipe Couto: “Questiono se todos os corretores seriam capazes de tirar nota mil se fizessem a prova”. Destacar isto é passar ao largo do que realmente importa.

A “Folha de S. Paulo” buscou a opinião do professor Reynaldo Fernandes, da USP e ex-presidente do Inep — que organiza o Enem. Ele atribui o fato de muitas redações terem sido entregues em branco ao “peso maior das provas objetivas em algumas faculdades que usam o exame” (o texto entre aspas é do jornal, sintetizando o pensamento do mestre). “Tem instituições que não usam a nota da redação em seus vestibulares”, afirma Reynaldo Fernandes.

O ministro da Educação, Cid Gomes, entra de maneira apressada no debate. “Eu arriscaria uma tese: o tema de 2013 foi lei seca. Essa questão foi muito debatida, discutida. O tema da publicidade infantil [no ano passado] não teve um grande processo de discussão como o outro.”

O que se depreende do exposto acima? Que os dois estudantes que obtiveram nota máxima na redação têm mais razão do que os especialistas e o ministro da Educação. Eles disseram, sem firulas, que estudar (ler), e de maneira lógica e atenta, é fundamental.

Os especialistas, ao discutirem certas minúcias, deixaram de enfatizar que a educação precisa de reformas, que incentivem o estudo mais detido da própria língua — a falta de domínio da Língua Portuguesa (o populismo de especialistas como Marcos Bagno faz um mal enorme àqueles que precisam competir por vagas em boas universidades e, depois, no mercado de trabalho) talvez esteja na base dos textos caóticos, sem sentido e sem lógica, e não precisamente o domínio do tema — e, sim, de matemática. Não se chega a Estados Unidos, Japão, Alemanha com estudo deficiente de matemática. A China e a Coreia do Sul investem pesado no ensino de matemática, incentivando competições entre os estudantes.

A falta de qualidade da educação é geral. Porém, como há escolas, privadas — como o WR, do professor Rubão — e públicas, como as administradas pela Polícia Militar, para ficar com exemplos goianos, de qualidade inquestionável; é preciso verificar, com estudos específicos, sem desconsiderar o geral, o que de fato está acontecendo.

Há mestres, dados a manipular e distorcer a realidade por meio de ideologias, que consideram o WR, o Visão e o Olimpo como “amestradores” de estudantes para o vestibular ou, agora, para o Enem. É uma infantilidade pensar assim. Na verdade, o ensino dos colégios é de qualidade e seus alunos são, no geral, os melhores. Claro que, para lá, vão os mais qualificados, mas deve-se dizer, para além das ideologias ditas educacionais, que, de tais escolas, saem ainda mais qualificados, e não apenas para exames.

A disciplina do WR, ao contrário do que comumente se pensa, não cria robôs; pelo contrário, forma estudantes mais comprometidos com a aprendizagem. Nas escolas militares, como o Colégio Hugo de Carvalho Ramos, a disciplina atua em favor da aprendizagem. Educação não é festa — é transpiração, diria o poeta João Cabral de Melo Neto.

É evidente que não se deve discutir tão-somente nichos de qualidade. A educação do País como um todo precisa melhorar. O ministro Cid Gomes, embora muito combatido, talvez devido ao seu destempero verbal, fez um trabalho de qualidade na educação do Ceará, garante o ex-reitor da Universidade Federal de Goiás Edward Madureira.

Veremos se terá energia para dobrar o corporativismo — que sempre aposta no quanto pior, melhor — e consegue implantar mudanças graduais na área. Se começar a falar em mudanças profundas — ao estilo dos socialistas —, o leitor deve ficar desconfiado. Em geral, aqueles que falam em “mudanças profundas” ou “mudanças estruturais” não querem mudar nada. Nas escolas públicas, um bom começo é ter aulas todos os dias, sem greves, com professores qualificados e mais exigência, sem populismo e adulação, na avaliação dos estudantes e, também, do corpo docente.

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Reinaldo Assis Pantaleão

Com uma experiencia de quarenta e três anos de sala de aula(aposentado,e continuando no batente),tendo participado tanto da escola pública,estadual e municipal,e,andado o Brasil trabalhando em vários Estados,me sinto a vontade para dar uma pequena contribuição.Analisar o processo educacional,por notas de redação [e de uma pobreza incalculável.O exagerado número de zeors,não só mostra uma dura realidade,sim da escola pública.Só dar uma pequena olhada nas escolas mais bem avaliadas no exame do ENEM.Todas as colocações feitas por profissionais da área e estudantes entrevistados,tem o seu valor.Aliás não falam nenhuma novidade. Agora querer insinuar que os renomados Colégios particulares (e essa realidade… Leia mais

Angela Silva

Concordo prof. nós trabalhadores e alunos das escolas públicas somos massacrados com ENEM, pois por mais de lutemos não teremos o exito sonhado por vários motivos, mas doi-me a alma em ver meus alunos se sentirem fracassados por notas baixas e agora serem penalizados, pois não poderão cursar um curso numa Universidade Federal , porque a mesma só usa a nota do Enem como seleção… O ENEM aumentou a exclusão do aluno de escola pública…