Papa Francisco, controle de natalidade, Obama, falta de água e superpopulação. Tudo tem a ver

O papa Francisco não culpa os pobres, mas, como se tivesse lido os cientistas americanos E. O. Wilson e Jared Diamond, sugere que famílias menores são importantes para a segurança do ser humano na Terra. Ao se reproduzir sem controle, o homem está destruindo outras espécies

Papa Francisco, nas Filipinas: ao atualizar a Igreja Católica, tornando-a contemporânea, o religioso mostra-se preocupado com o mundo espiritual mas também com o mundo real | Foto: Vaticano

Papa Francisco, nas Filipinas: ao atualizar a Igreja Católica, tornando-a contemporânea, o religioso mostra-se preocupado com o mundo espiritual mas também com o mundo real | Foto: Vaticano

O papa Francisco é um homem e um religioso respeitável. Talvez seja possível compará-lo ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em um ou mais aspectos. São, no momento, os dois estadistas mais importantes da religião e da política mundiais.

Por ser negro e um suposto “outsider”, inicialmente Barack Obama parece que foi visto, interna e externamente, como um político heterodoxo e, até, idealista. O que não se quis perceber, desde o início, é que o presidente de um império como o americano, que drena recursos de outros países, não permitiria que um político de fora do establishment assumisse a Presidência.

O mais provável é que, depois de George W. Bush, com sua retórica bélica, e devido à “crise” do capitalismo, o establishment americano — composto de figuras formadas em Harvard, Columbia, Yale, Stanford, Princeton e MIT — “sacou” que era preferível uma retórica mais liberal, num mundo cada vez mais antiamericano. Barack Obama, formado em Harvard e liberal (é uma ilusão, não atípica, acreditar que o Partido Democrata representa uma espécie de socialdemocracia à americana), era o homem certo para os novos tempos.

A missão de Barack Obama era e é, portanto, fortalecer o império americano. Não é liquidá-lo, ou criar uma espécie de socialdemocracia similar à europeia. Aqui e ali, por exemplo no setor de saúde, o presidente pode deixar sua marca, aproximando-se da socialdemocracia e distanciando-se dos republicanos. Entretanto, no geral, seu objetivo número um é recuperar a economia americana, criar uma imagem mais positiva para seus país e, sobretudo, manter os Estados Unidos como potência hegemônica.

Barack Obama é, portanto, a face relativamente doce (o caso da morte de Osama bin Laden mostra sua faceta determinada), ou amena, de um império duro e que, para continuar como o mais rico do mundo, não pode e não vai mudar. Pelo menos não muito. No máximo, pode adaptar sua retórica, como tem sido feito. A “força” ainda é importante, e os Estados Unidos não vão renunciar à sua dominância político-militar, mas seus ideólogos, verdadeiros antropólogos na arte e na ciência de entender as diferenças entre países e povos, sabem que a retórica tem mesmo de ser outra. China, Alemanha e Japão constituíram economias sólidas, altamente competitivas, sem disparar um tiro. Sem Hitler, apenas com uma economia forte e uma retórica liberal, a Alemanha subjugou a Europa, sua colônia, ou, como diria o nazista-chefe, espaço vital.

Papa Francisco

O papa Francisco, argentino, é um homem extraordinário. Fala-se, mais nos bastidores, que pode ser “morto” por afrontar a cúpula da Igreja Católica. Há quem pense que se trata, ao contrário de Joseph Ratzinger — este, sem dúvida, um intelectual altamente preparado —, de um religioso provinciano. Não o é. Trata-se de um homem do mundo, mas que tem plena compreensão de que o indivíduo vive sempre numa aldeia — Púchkin e Tolstói acertaram quando disseram que, para compreender o universal, é preciso antes conhecer a própria aldeia. É também um realista em tempo integral e, por isso, não se intimida com discursos internos e externos contra sua gestão na Igreja Católica.

Diferentemente do papa João Paulo I, que avaliava que era possível mudar a Igreja Católica, uma instituição milenar, às pressas, para dinamitar os setores ditos reacionários — o conservantismo religioso, filosófico e político —, o papa Francisco, um humanista, é um progressista moderado. Quer dizer, vai mudar a Igreja Católica aos poucos, de maneira contundente, mas sem mexer nas suas estruturas básicas.

Por que, se há reação a Jorge Mario Bergoglio, os cardeais — sim, eles são o poder na Igreja Católica — escolheram-no para papa? Bergoglio não escolheu ser o papa Francisco. Como não era e continua não sendo um religioso dissimulado — pelo contrário, tinha (e tem) fama de ser franco e direto —, sua eleição não foi aleatória ou equivocada. A Igreja Católica é, além de uma empresa privada gigantesca — capitalista, diga-se, daí ter sua própria instituição financeira, o Banco do Vaticano —, é uma instituição religiosa poderosa e que se pretende porta-voz de milhões de homens e mulheres em quase todo o mundo.

Bergoglio foi escolhido para tornar a Igreja Católica mais contemporânea de seus fieis e do homem em geral. Uma Igreja Católica distante dos homens comuns, com pregações distanciadas de seu dia a dia, não interessava mais à cúpula. Um líder asséptico, praticamente numa torre de marfim, ainda que admirável, pessoal e intelectualmente, como Joseph Ratzinger, não era mais vital à modernização da instituição. Um homem mais simples, de contato imediato e direto com as pessoas, foi chamado para “atualizar” a Igreja Católica, sem mudar, porém, as estruturas básicas. Se modificá-las — se deixar de mostrar desconforto com certas coisas absurdas criadas pelos homens —, descaracteriza-se.

O papa Francisco está atualizando a Igreja Católica, deixando-a um pouco mais parecida com as pessoas de seu tempo — e não uma instituição démodé, passadista —, mas, como dirige um império, como Barack Obama, não vai, não pode e não quer mudar as estruturas básicas. No limite, a Igreja Católica vai continuar uma instituição conservadora — e dizer isto não é uma crítica, e sim uma constatação —, porém gerida por um papa progressista, atualizado, contemporâneo.

O papa Francisco é um sopro de renovação, dentro da ordem, às vezes na superfície da Igreja Católica. O religioso não precisa de marqueteiro, porque, formatado por uma estrutura milenar e devido à sua experiência individual — trata-se de um comunicador nato, que fala sem tergiversar —, é seu próprio, digamos assim, marqueteiro. Com jeito moderado, gentil e, ao mesmo tempo, duro, o papa Francisco está tentando adaptar a Igreja Católica à vida real, às agruras do dia a dia. Há quem avalie que isto se deve ao fato de que está perdendo integrantes para as igrejas evangélicas. Quem pensa assim está parcial mas não inteiramente certo. Os ideólogos não querem apenas conter uma suposta “sangria”, mas “sensibilizar” os católicos, por assim dizer, “desgarrados”. A “atualização” da Igreja Católica pode reabsorver católicos recalcitrantes e atrair novas pessoas, notadamente jovens. O papa quer “rejuvenescer” a Igreja. Ele próprio, embora tenha 78 anos, parece um jovem de 30 anos.

Recentemente, ao voltar de uma visita às Filipinas, o papa Francisco fez um comentário que provocou manchetes de jornais pelo mundo afora: “Algumas pessoas pensam — e desculpem minha expressão aqui — que, para ser um bom católico, eles precisam ser como coelhos. Não. Paternidade tem a ver com responsabilidade. Isto é claro”. Ele disse que, ao conversar com uma grávida de seu oitavo filho, ouviu: “Confio em Deus”. O papa contrapôs: “Mas Deus nos deu os meios para sermos responsáveis”.

Diante da repercussão de sua declaração, o papa não mudou sua opinião — o que determinados jornais não perceberam —, tão-somente nuançou-a. “Ouvi dizer que famílias com muitos filhos e que o nascimento de muitos filhos estão entre as causas da pobreza. Acho que esta é uma opinião simplista”, sublinhou Francisco.

Para o papa Francisco, o sistema capitalista, ao pôr o dinheiro como centro da vida, criou uma “cultura descartável” e seria a principal causa da pobreza. Talvez não seja, mas é a opinião do religioso, um homem sensato.

Persiste certa dubiedade, mas é que, na verdade, a Igreja Católica, que não fala para pequenos grupos, às vezes é assim mesmo. Porém, ao não culpar os pobres, por terem muitos filhos, o papa Francisco não recuou da história dos “coelhos” e admitiu que especialistas em populações sugerem que cada família deve ter no máximo três filhos. Especialistas, por certo, católicos. Porque há uma tendência a se sugerir famílias menores, com no máximo dois filhos.

Várias espécies estão desaparecendo da Terra — inclusive alimentos — na mesma proporção em que cresce a população mundial. O planejamento familiar — independentemente dos métodos anticonceptivos — é vital para a sobrevivência do homem e outras espécies. Cientistas, como Edward Osborne Wilson e Jared Diamond, que não são radicais de esquerda, estão preocupados com a expansão sem limites do homem em todo o globo.

Por que está faltando água potável em São Paulo e em vários países? Devido a “desastres naturais” ou às interferências e necessidades do homem? As duas coisas. Por mais que os céticos duvidem — há cientistas que contestam as chamadas teses “catastrofistas”, que outros denominam de “realistas” —, o homem está dilapidando seu próprio habitat e destruindo outras espécies, que, de algum modo, são concorrentes diretas ou indiretas. É a expansão ilimitada do homem sobre a Terra que está provocando o fim de várias espécies.

O papa, cercado de cientistas dentro do próprio Vaticano, certamente concluiu que a população humana não vai parar de crescer, mas, como homem racional — a religião não o cega para a realidade —, sabe que precisa crescer menos, precisa de controle. Sua voz, poderosa e de rara credibilidade — trata-se de um líder que é ouvido e respeitado não apenas pelos católicos —, certamente vai ser ouvida. A Terra, para que todos vivam, precisa de menos homens. É o recado do papa.

E. O. Wilson, autor do excelente “A Criação — Como Salvar a Vida na Terra” (Companhia das Letras), afirma que a defesa do meio ambiente precisa, para que seja efetivada, da participação do público religioso. Porque este é fanático? Não. Porque, quando se convence de que uma ideia é verdadeira, defende-a com unhas e dentes. O papa Francisco, com seu jeito suave e doce, está lançando suas ideias. Talvez tenha lido E. O. Wilson.

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Rafael Carneiro Rocha

O autor do editorial também não soube interpretar corretamente a declaração do papa. Quando o papa falou de três filhos por casal, ele não quis endossar a interpretação de analistas que sugerem que as famílias devem ter no máximo três filhos. Pelo contrário, o Papa afirmou que trata-se de um número mínimo de filhos para assegurar a estabilidade da população. Inclusive, para ressaltar que trata-se de um número mínimo e não máximo, o papa afirmou que pensa, de acordo com os peritos, que quando o número de filhos por famílias é menor do que três pode ocorrer, no futuro, dificuldade… Leia mais

gabrieldesousah

Teria como vocês aumentarem a fonte do texto? Está tuim para ler pelo celular…

Epaminondas

“Para o papa Francisco, o sistema capitalista, ao pôr o dinheiro como centro da vida, criou uma “cultura descartável” e seria a principal causa da pobreza.” Para uma instituição que viu nascer o sistema feudal, normal ser contra esta novidade, o capitalismo. Então o cristianismo a-d-o-r-a a miséria. Quanto maior a marginalidade social, mais fiéis se tem. Se o sujeito começa a ter tempo livre (esta oficina do diabo), começa a se refinar, se aculturar, e a tendência mostra que ele se afasta das crenças supersticiosa. E a humanidade não conheceu o tempo livre antes do capitalismo. Minto, quando a… Leia mais