Operação Lava Jato não matou Marisa Letícia, mas o indivíduo, morto ou vivo, merece respeito

A morte da ex-primeira-dama, se não deve suspender o espírito crítico do brasileiro e o respeito às instituições, não deve ser tema para ataques bárbaros e cruéis

Lula da Silva, ex-presidente da República e Marisa Letícia: o respeito à dor da família não significa uma suspensão da crítica, e sim o exercício da tolerância, que é uma característica democrática e de civilidade | Foto: Ricardo Stuckert

O dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues escreveu que “o brasileiro só é solidário no câncer”. A frase, ainda que não verdadeira, é divertida — do tipo prêt-à-porter em conversas de amigos em bares e churrascos. Para ser verificável no dia a dia patropi deveria se retirar o “só” e trocar “câncer” por “doença”: “O brasileiro só é solidário na doença”. A palavra “morte” no lugar de “doença” se encaixaria ainda mais. Tanto que inimigos e/ou adversários históricos, quando morrem alguém da família, ensarilham as armas, inclusive as verbais, e confraternizam-se, de maneira respeitosa. “Meus pêsames” e “lamento muito” — é o que se diz. A morte produz, às vezes, civilidade, cortesia e cordialidade. Ao menos momentaneamente, suspende o espírito agressivo. Observe-se que o presidente da República, Michel Temer, e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso solidarizaram-se, pessoalmente e não meramente por telegrama, com o ex-presidente Lula da Silva, dada a morte de sua mulher, Marisa Letícia. O petista-chefe, que não mantém relacionamento positivo com o peemedebista e com o tucano — que teriam conspirado para a retirada do PT do poder —, aceitou e agradeceu o conforto, digamos, espiritual.

Há, claro, as ruas e as redes sociais. Mas o que se diz lá é cada vez mais o que se pensa realmente ou pode-se falar em mera catarse coletiva? É possível que em parte seja catarse e, até, purgação de ressentimentos pessoais e históricos. Há, de fato, pensamento orgânico, portanto norteador, não raro apresentado como produto de comentários espontâneos. O que se repete, muitas vezes, é resultado de criação esmerada. Porém, não tudo: há certa espontaneidade radical nas redes, o que às vezes é positivo, às vezes não é. Entretanto, tentar tolher a liberdade das redes sociais é, possivelmente, mais grave do que “permitir” — e a palavra justa não é esta — a quase anarquia generalizada. Antes uma rede livre, com sua costumeira radicalização, primária ou não, do que uma rede controlada e asséptica. Quanto às manipulações, como são variadas — não se tendo o controle de um grupo —, não há por que temê-las.

Jornal isentão

No caso da morte de Marisa Letícia, há dois tipos de comportamento que são mais perceptíveis, ambos radicalizados. De um lado, há os que defendem Marisa Letícia e Lula da Silva, que teriam sido injustiçados pela Operação Lava Jato e pela Imprensa. Os indivíduos dizem que a mulher do ex-presidente era uma “guerreira” e associam sua morte à “perseguição” da Operação Lava Jato, com a citação expressa de um suposto carrasco, o juiz Sergio Moro, da Justiça Federal em Curitiba. Do outro lado, há os que “atacam” — a palavra “criticam”, que deveria ser mais precisa, no caso não é regra (críticas não fundamentadas ou excessivas são puros ataques) — Lula da Silva, o PT, Dilma Rousseff e, até, Marisa Letícia.
O meio-termo, uma posição mais consequente e analítica, é atacado por ambos os lados. O Jornal Opção, ao analisar o quadro de maneira equilibrada — sugerindo que o caso de Marisa Letícia, que estava internada no Hospital Sírio-Libanês, precisava ser tratado com respeito e humanidade —, ganhou o epíteto de “isentão” de um leitor qualificado, integrante do Poder Judiciário. Pois bem: a palavra “isentão”, quiçá um neologismo, talvez seja adequada para nominar quem não cede à barbárie, ainda que seja uma barbárie puramente linguística. A brutalidade não rara começa na linguagem e, daí, pode chegar ao desforço físico… Nem sempre, felizmente.

Os que “atacam” Sergio Moro e atribuem a morte de Marisa Letícia à Operação Lava Jato têm alguma razão? Na verdade, nenhuma. Imagine se toda pessoa que fosse processada — e o processo judicial é a forma legítima e legal, portanto civilizada, de se resolver pendências — fosse internada e, em seguida, morresse. Se isto fosse verdadeiro, seria preciso instalar um hospital ao lado de cada unidade do Tribunal de Justiça.

As pessoas têm AVCs por vários motivos (problemas de saúde históricos, vida sedentária, cuidados não especiais com a saúde a partir de certa idade), como, na semana passada, os jornais e sites se esmeraram em explicar. Poucos casos, raríssimos certamente (não se deve ter nem estatísticas), têm a ver com ações judiciais. Não se quer negar, ao se dizer isto, que processos rumorosos, como os da Lava Jato, não contribuam para que uma pessoa possa adoecer. Mas, no geral, não são causas, ou melhor, não são causas decisivas do problema.
Culpar a Lava Jato é uma maneira, estudada ou não, de tentar reduzir a sua força e, quem sabe, de intimidar juízes, policiais federais e procuradores da República. A operação, que resultou em vários processos, investiga o maior escândalo de corrupção do país. Numa prova de que o país funciona, por ter instituições independentes aos controles políticos e empresariais — e isto, anote-se, está surpreendendo todos os brasileiros, não apenas os ricos —, a Lava Jato prendeu e condenou figurões da República. Num caso raro, portanto seminal, milhões de reais já foram devolvidos ao Erário.

Um país é moderno de fato não porque tem em suas ruas automóveis importados de marcas como Mercedes, BMW, Volvo, Toyota, Ferrari, Hyundai, Porsche e Land Rover e arranha-céus que, de tão altos, quase dialogam com o Céu. Um país se torna moderno, na realidade, quando seus indivíduos se pautam por um comportamento institucional e quando todos, do rico ao pobre (e não deixa de ser um paradoxo que, às vezes, o pobre, assim como o rico, avalie que não precisa cumprir a lei; basta “agarrar” os ricos), podem e são penalizados, desde que infrinjam as leis.

A Lava Jato não muda tudo, não modifica o comportamento de todos os brasileiros, mas prova, o que é decisivo, que o país começa a se pautar pelo comportamento institucional. A Lava Jato não cria o “homem-institucional” — que não equivale ao homem perfeito, e sim ao homem que a sociedade deseja ou precisa —, porque não deve ser vista como a “deusa da mudança”. Mas indica que o “homem-institucional” é possível. É o seu legado para todos nós, brasileiros, e por isso é inspiradora. Por muito tempo se dirá — no futuro, quase como se conta uma lenda —, provavelmente, que o Brasil terá de dividir sua história assim: A.L.J. (Antes da Lava Jato) e D.L.J. (Depois da Lava Jato). Há um certo exagero no que se diz, mas não é maléfico. Trata-se de uma crença, produzida pela razão, de que o Brasil é viável, ao entender, cada vez mais, que fora das instituições, da obediência às leis, não há escapatória. A lei acatada, tornada inconsciente coletivo, é que esconjura a barbárie. Não há outro caminho.

Respeito e civilidade

Porém, se a Lava Jato merece o arrazoado acima, uma defesa até tímida, é preciso assinalar que Lula da Silva e a memória de Marisa Letícia merecem respeito. “Atacá-los”, e sobretudo num momento de dor aguda, nada acrescenta à construção de uma nação moderna. Uma palavra sobre os processos. Frise-se que não há nenhum processo transitado em julgado a respeito de Marisa Letícia e Lula da Silva. Eles não foram condenados pela Justiça. Eles foram processados, o que é diferente. Tratar o ex-presidente como “bandido” não é apenas desrespeitoso — é um crime, considerando que a Justiça não o condenou. Provas, mesmo que apontadas como contundentes, devem ser examinadas de maneira cuidadosa por juízes — que não devem ter o mesmo comportamento de procuradores de justiça, policiais e advogados. Ademais, mesmo se condenado, o petista-chefe poderá continuar sua defesa em tribunais superiores — dado o fato de que juízes, e aliás nem ministros do Supremo Tribunal Federal, não são infalíveis. Os brasileiros agirão com mais lhaneza se esperarem um pouco mais para que, julgados Lula da Silva e seus filhos, se tenha um quadro preciso do que realmente fizeram.

Se os verbos e os substantivos são os músculos da língua, porque são responsáveis por seu movimento, os adjetivos e os advérbios são o viço da pe­le e, igualmente, espécies de faro, ins­tinto. O que torna a vida mais bela e pra­zerosa são os adjetivos — como “be­la” — e os advérbios, que conferem mais textura, cores, densidade e es­plendor às palavras. A frase “muita bo­nita”, com um advérbio e um adjetivo, ganha alegria, vivacidade. Se verbos e substantivos informam, porque são mais precisos e objetivos, adjetivos e advérbios divertem e tornam a língua mais viva, dando à vida mais ambiguidade e à língua mais elasticidade, vibração e sonoridade. Mas os adjetivos usados sem parcimônia para a desconstrução do indivíduo não são civilizatórios nem modernos. São uma afronta à beleza e a certa delicadeza da vida.

Evita Perón

Assim, se a morte não deve suspender as críticas argumentadas ao PT, ao PSDB (está passando da hora de uma capa da “Veja” com os tucanos da Lava Jato), ao PMDB e, mesmo, a Lula da Silva, é vital que se evitem “ataques” tanto a Marisa Letícia e ao petista-chefe. No caso específico de Marisa Letícia, nem é preciso dizer que o processo acabou. Mas vale perguntar: qual era mesmo seu envolvimento nas eventuais falcatruas cometidas pelos governos dos petistas? Talvez nenhum. Muitas mulheres e filhos não sabem nem participam de maneira ativa dos negócios políticos e empresariais de maridos e filhos.

Cabe uma pergunta: a ira, a do momento, de Lula da Silva é justificada? Ele quer tirar proveito político da morte de sua mulher? Perguntas difíceis de responder de maneira precisa. Mas quem, sendo normal, não fica irado com a morte da própria mulher, sobretudo quando se está sendo criticado por mais de meio país? A ira, então, é aceitável. Quanto ao uso político, para não cometer nenhum exagero, talvez seja mais respeitoso sugerir que o ex-presidente está se comportando mais como marido que se tornou viúvo do que como presidenciável. Trata-se de sofrimento. O comportamento de Lula da Silva, por mais que não se goste do petista, é defensável. Mas não o será se transformar Marisa Letícia numa espécie de Evita Perón.

Por fim, uma pergunta que não é retórica: o jornalista e político Carlos Lacerda, ao fazer críticas destemperadas, pode ser responsabilizado pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto de 1954? Na época, há 62 anos, muitos diriam que “sim”. Já os principais historiadores do período e os biógrafos mais equidistantes não atribuem a morte ao líder da UDN, que, embora tendo sido o crítico mais radicalizado, era apenas um dos que usavam o verbo para vergastar o líder do PTB.

No momento, o país precisa ter calma, paciência e civilidade com Lula da Silva e filhos. Isto não é o mesmo que perdoá-los e aceitar o que fizeram, ou supostamente fizeram. É, isto sim, o exercício da tolerância — o “vício” supremo da democracia.

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Adalberto De Queiroz

Equilibrado e sensato, este editorial é tudo o que nosso país não está sendo.