O primeiro Cabral descobriu o Brasil e o último Cabral ajudou a afundar o Brasil

Filho de Carlos Miranda, braço-torto de Sérgio Cabral, bancou famosa faculdade de cinema do filho, nos Estados Unidos, com dinheiro da corrupção. No fim do curso, ele deveria fazer um filme sobre o Propinosil

Pedro Álvares Cabral e Sérgio Cabral Filho: o primeiro iniciou o processo de rapinagem dos portugueses e o segundo rapinou o Rio de Janeiro e guardou dinheiro em paraísos fiscais da Europa e outros

Ao fidalgo e explorador português Pedro Álvares Cabral é atribuída a descoberta do Brasil — onde, claro, já moravam várias tribos, os supostos índios —, em 1500. Lá atrás, quando Portugal era uma potência marítima e econômica, os recursos naturais das terras patropis, aquilo que chamam hoje de commodities, começaram a ser transferidas para fortalecer a economia da Corte e, também, de parte da Europa, notadamente da Inglaterra. Durante um longo período, a colônia serviu à metrópole, até que se iniciasse a ruptura, com a chegada da Corte, em 1808, e finalmente com a Independência (dentro da ordem), em 1822 — menos de 200 anos.

Pedro Álvares Cabral nasceu em Belmonte, em 1467 (ou 1468), e morreu em Santarém (Portugal), em 1520. Aos 53 anos. Se o hábil navegador descobriu o Brasil, outro Cabral, quiçá seu parente, contribui para afundá-lo, sobretudo para afundar o Rio de Janeiro. Sérgio de Oliveira Cabral Santos Filho, de 54 anos, se confirmadas as investigações das operações subsidiárias da Operação Lava Jato — como a Calicute e a Eficiência —, poderá ser arrolado entre os homens que, durante séculos, exploraram o Brasil.

Filho de Sérgio Cabral, um dos criadores do jornal “Pasquim” (onde brilhou ao lado de Jaguar, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Paulo Francis, Ziraldo, Sérgio Augusto e Ivan Lessa) e autor de vários livros sobre a música brasileira — biografou Ary Barroso, Pixinguinha, Tom Jobim, Nara Leão, Elisete Cardoso e Ataulfo Alves —, Sérgio Cabral Filho, do PMDB, governou o Rio de Janeiro, durante oito anos, e esperava-se muito do jovem político. Não fosse sua paixão por dinheiro e pela acumulação de bens, às custas de recursos públicos — criou uma espécie de propinobral —, teria ido longe, talvez até muito longe, como uma candidatura a presidente da República. Tornou-se um explorador — como o primeiro Cabral, o Pedro, e os portugueses subsequentes, que levaram ouro e diamantes para a Corte, além de terem introduzido aquilo que o escritor americano William Faulkner, autor de “O Som e a Fúria”, “Luz em Agosto” e “Absalão, Absalão”, denunciou como uma maldição poderosa e imperdoável: a escravidão.

O Cabral do momento, o Sérgio Filho, reinventou os Cabrais do período colonial. Ah, é de bom alvitre lembrar da música “Fado Tropical”, de Chico Buarque: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!” Pois o Cabral, o brasileiro — o que descobriu a Suíça e outros paraísos fiscais, nos quais lavam o dinheiro das falcatruas com verbas públicas —, amealhou uma fortuna, não só em dólares, mas também, como os portugueses, em ouro e diamantes.

A Operação Calicute (nesta cidade da Índia, o primeiro Cabral, o Pedro, guerreou com árabes) descobriu 100 milhões de dólares nas contas de Cabral, o Sérgio, no exterior. Para a felicidade dos brasileiros, 80 milhões de dólares (265 milhões de reais) já foram retomados e estão numa conta da Caixa Econômica Federal, à disposição da Justiça e, daí, do Erário. Acrescente-se que, nos próximos dias e meses, outros milhões de dólares desviados por Sérgio Cabral serão repassados ao Judiciário. Além de quilos e quilos de ouro e diamantes. No meio do caminho dos políticos patropis não há pedras nem drummonds — só ouro e diamantes. Até nisso o Cabral atual repete os Cabrais de outrora e dilapida o patrimônio dos brasileiros.

Ante o agravamento do quadro (o empresário Eike Batista também propinou o ex-governador do Rio de Janeiro), Sérgio Cabral deve fazer delação premiada, o que, se deve facilitar sua vida — poderá cumprir prisão domiciliar (sua situação em Bangu pode se tornar grave) —, poderá agravar a vida de alguns de seus aliados políticos e auxiliares no governo do Rio.

Cinema e Hollywood

Se os diamantes são eternos, como sabem James Bond e seus inimigos, o trágico às vezes é mais bem compreendido quando é tratado de maneira cômica. Ao investigar as falcatruas de Sérgio Cabral, a Polícia Federal descobriu que, breve, o Brasil — o Bananão, diria, se vivo, Ivan Lessa — poderá ter um novo cineasta, Lucas Miranda. Aluno do curso de cinema na prestigiosa New York Film Academy, Lucas Miranda terá cabedal suficiente para dirigir um filme sobre como se rouba fácil no Propinosil, às vezes conhecido, no exterior, como Brasil.

A Polícia Federal descobriu, sem esforço, que Carlos Miranda, apontado como braço-direito — ou braço-torto, sabe-se lá —, de Sérgio Cabral, o político do bolso de ouro, financiou o curso de Lucas Miranda, seu filho, na faculdade New York Film Academy com dinheiro sujo da corrupção. Ele usava uma conta bancária das Bahamas para repassar dinheiro ao pupilo, nos Estados Unidos. Relato do jornal “O Globo”: “Documentos entregues pelos operadores do mercado financeiro Renato Chebar e Marcelo Chebar — que fecharam delação premiada com a força-tarefa da Operação Eficiência — revelam que Lucas Miranda e até sua namorada Iasmine Bon tiveram pelo menos a mensalidade de janeiro deste ano do curso na renomada escola de cinema paga com dinheiro da conta Andrews Deve­lopment, nas Bahamas”.

É provável que Lucas Miranda e Iasmine Bon, que devem ser jovens, nem saibam direito o que está ocorrendo. Mas, ao término do curso, poderão fazer um filme ou documentário com o título de “O Cabral Que Fundou o Brasil e o Cabral Que Afundou o Rio”. Cômico, não é, leitor? Sim, ainda que trágico, sobretudo considerando-se as contas públicas do Rio de Janeiro e o sistema de saúde precário do Estado.

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