O povo brasileiro — e não Bolsonaro — vai tornar obrigatória a vacina contra a Covid-19

As pessoas não querem saber de discussões ideológicas e brigas político-eleitorais. Todas querem sobreviver, trabalhar e se divertir

Quanto mais você olha para trás, mais longe vê adiante” — Winston Churchill

Covas coletivas em Manaus: mortes por Covid-19 | Foto: Michael Dantas/AFP

A Covid-19 matou 157 mil brasileiros, em pouco mais de nove meses, e certamente matará milhares mais até que uma vacina bem-sucedida se torne um meio de contenção. Para preservar vidas, não interessa a “nacionalidade” da vacina (a preferida do presidente Jair Bolsonaro, a de Oxford, tem ingrediente farmacêutico ativo feito num laboratório da China). O que importa, frise-se, é sua eficácia. Portanto, pode ser chinesa, inglesa, americana, alemã ou francesa. No geral, mesmo que tenha sido desenvolvida num país, sua feitura se dará em várias nações, aproveitando a expertise local. No Brasil, por exemplo, será feita no Instituto Butantã e na Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) — centros de excelência.

Se as vacinas salvarem vidas, insistamos, será perda de tempo discutir onde foram formuladas. Os brasileiros não estão nada preocupados com o debate ideologizado e partidarizado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Estão mais interessados em evitar mortes. Por isso, quando a vacina estiver pronta, pode-se apostar que (quase) 100% deles vão se vacinar. Simplesmente porque querem sobreviver e já verificaram a letalidade da Covid-19. Os brasileiros, como os demais povos, querem retomar suas vidas — manterem contatos e se divertirem em grupos — como antes. Mas só poderão fazê-lo quando forem imunizados em alta escala.

Bolsonaro afirma que a vacinação contra o coronavírus não será obrigatória. Winston Churchill, primeiro-ministro da Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), disse: “Quando mais você olha para trás, mais longe vê adiante”. Então, seguindo seu conselho, voltemos, rapidamente, ao passado. No início do século 20, o presidente Rodrigues Alves enviou um emissário a Paris com o objetivo de atrair um cientista competente para o combate às epidemias, como a peste bubônica, a febre amarela e a varíola. No Instituto Pasteur, o cientista Émile Roux — discípulo de Louis Pasteur — explicou que não era preciso procurar um especialista na Europa, pois o Brasil contava com um profissional de rara excelência, Oswaldo Cruz¹.

João Doria, governador de São Paulo, e Jair Bolsonaro, presidente da República: os “amigos” de 2018 se tornaram rivais por causa da disputa eleitoral de 2022 | Foto: Reprodução

Na volta, o emissário informou o governo, que mandou chamar Oswaldo Cruz, o brasileiro que havia se especializado no Instituto Pasteur de maneira meritória. Além de implantar medidas profiláticas, o médico-cientista, seguindo o exemplo dos pares europeus, optou por fazer vacinas e aplicá-las na população. Entretanto, os Bolsonaros daquele tempo insuflaram o povo, que, rebelado, se recusou, em parte, a se vacinar. Houve o que se convencionou chamar de a “revolta da vacina”. Por trás da campanha anti-vacina, bem articulada, estavam políticos que eram contrários ao governo e queriam derrubá-lo. A casa de Oswaldo Cruz foi atacada e ele teve de fugir. Recomendarem a Rodrigues Alves que se escondesse, mas o presidente decidiu resistir.

Aos poucos, com o número de mortes crescendo, as pessoas começaram a se vacinar. Oswaldo Cruz se tornou uma instituição — tanto que a instituição que vai participar da confecção da vacina anti-Covid-19 se chama Fundação Oswaldo Cruz. Rodrigues Alves, o grande presidente da República (criou o Instituto Butantã e a Faculdade de Medicina de São Paulo) — cujo ministro da Fazenda era um goiano, Leopoldo de Bulhões —, morreu, em 1919, de gripe espanhola.

Oswaldo Cruz e Rodrigues Alves, figuras iluministas, combateram, além das epidemias, a ignorância. Bolsonaro é aconselhado por um filósofo, Olavo de Carvalho, que avalia que a terra é “plana” e que, ao perceber um pernilongo, parece acreditar que se trata de um agente do comunismo internacional. Tanto o presidente quanto seu guru parecem personalidades de outro tempo, o da Guerra Fria — espécies de soldados invernais, seguidores de Rip Van Winkle, o personagem de Washington Irving —, mas prejudicando aqueles que vivem no século 21, no ano de 2020. Figuras retardatárias são prejudiciais àqueles que vivem no presente.

China e o pragmatismo dos negócios

O ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, não é da área de saúde, mas parece ser um gestor sensato. Por isso, sabe, mais do que Bolsonaro, que administrador não faz oposição a administrador, sobretudo por motivação eleitoral. Quando “briga” com o governador de São Paulo, João Doria, porque está de olho na sucessão de 2022 — daqui a um ano e 11 meses —, Bolsonaro não está pensando no país e nos brasileiros, e sim em seu projeto de sobrevivência política. Com tantos contenciosos, o presidente sabe que, se não for reeleito em 2022, será uma “bruxa” caçadíssima a partir de 2023. Se tornará alvo — assim como três de seus filhos. A reeleição é garantia de sobrevivência política e pessoal. Daí a ira contra João Doria, Sergio Moro e Luiz Henrique Mandetta. Os três, por sinal, não são “santos” e também estão “fazendo” política tendo em vista a disputa de 2022.

Na terça-feira, 20, Pazuello se reuniu com 24 governadores — entre eles, o de Goiás, o médico Ronaldo Caiado, do partido Democratas —, dois líderes do governo no Congresso e integrantes do Instituto Butantã e da Fiocruz. Discutiram a questão da inclusão da vacina Coronavac — de origem chinesa (do laboratório Sinovac) mas que será produzida no Brasil pelo Instituto Butantã — no Programa Nacional de Imunização. Quando aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o governo federal iria adquiri-la. Parecia que tudo corria bem. Mas, por causa do contencioso com João Doria e por sua ojeriza à China, que é comunista — na verdade, híbrida de comunismo e capitalismo, e, no concerto internacional, avessa ao debate meramente ideológico —, Bolsonaro desautorizou seu ministro. A vacina chinesa, segundo o presidente, não será mais comprada pelo governo brasileiro. Pode ser que, ante o realismo do que a China representa para a economia do Brasil, o gestor nacional mude de posição? Se ouvir os conselhos dos ministros da Economia, Paulo Guedes, e da Agricultura, Tereza Cristina, certamente mudará. Bolsonaro sabe que o limite de sua agenda ideológica é o pragmatismo nas negociações comerciais. O crescimento da economia patropi pode ajudá-lo na reeleição. E, para crescer, o Brasil precisa, em larga medida, do comércio com a China, seu maior parceiro global. Hoje, o Brasil precisa mais da China do que a China do Brasil. Isto talvez irrite Bolsonaro, mas a razão sugere que não se faz negócios com raiva e ressentimento.

Natália Pasternak, doutora em Microbiologia: “Ao invés de ficarem nessa disputa adolescente de ver quem tem a vacina maior, eles deveriam se comunicar com a sociedade para garantir que, quando a vacina estiver pronta e disponível, teremos uma boa campanha de vacinação”

Razão e sensatez dos cientistas

Doutora em Microbiologia e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak disse ao “Estadão” que a disputa política entre Bolsonaro e João Doria “tem atrapalhado muito a confiança que as pessoas têm na vacina e nas instituições”. A pesquisadora chega a ser irônica, sem perder a seriedade: “Ao invés de ficarem nessa disputa adolescente de ver quem tem a vacina maior, eles deveriam se comunicar com a sociedade para garantir que, quando a vacina estiver pronta e disponível, teremos uma boa campanha de vacinação”.

João Doria afirma que começará a imunizar os paulistas a partir de dezembro deste ano, mas Natália Pasternak recomenda cautela, considerando que é cedo para sustentar que a vacina, a Coronavac, já é inteiramente eficiente. “O que ele recebeu é uma análise interina de segurança, que realmente apontou que ela é segura. Mas a eficácia ainda está sendo testada”, pondera a cientista.

Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, segue pela mesma seara, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”: “Ainda estamos em fase de testes, que exigem avaliações criteriosas; a partir disso, será necessária a divulgação dos resultados para a comunidade científica, a necessidade de julgamento e aprovação pela Anvisa, definição de planejamento, compra, distribuição da vacina. Acredito que, na melhor das hipóteses, poderemos pensar em vacinação dos brasileiros a partir do meio de 2021”.

Governadores falam em articular um consórcio para produzir a vacina e distribui-la nos Estados. Mas o médico sanitarista Walter Cintra Ferreira, professor de Gestão de Saúde da Fundação Getúlio Vargas, sugere que é crucial que o governo federal participe do processo de imunização nacional. “Não ter a estrutura do Ministério da Saúde acompanhando uma campanha nacional de imunização é uma situação de calamidade, abre inclusive a possibilidade para tomar-se medidas legais”, afirma o mestre. Diferentemente de São Paulo — que, mais que um Estado, é um “país”, com PIB gigante —, a maioria dos governos estaduais não tem a mínima condição de bancar os custos de uma vacina dispendiosa.

Ação do partido Rede, no Supremo Tribunal Federal, busca “obrigar Bolsonaro a assinar protocolo de intenções para a compra das doses da Coronavac”. É um caminho. Mas provavelmente os militares, talvez os conselheiros que o presidente realmente ouve, consigam convencê-lo a recuar. Racionalistas e realistas, os generais Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno (radical publicamente e moderado nos bastidores) certamente refrearão a animosidade de Bolsonaro.

Quando a vacina — quatro vacinas estão sendo testadas no Brasil — estiver pronta para uso coletivo, o povo, encaminhando-se para os locais de vacinação, certamente dará uma lição nos políticos brigões. Todo mundo quer e vai se vacinar — inclusive Bolsonaro e os negacionistas da ciência (sublinhe-se que alguns negacionistas morreram e vários ficaram doentes por causa da Covid-19). Todos querem viver. Portanto, ao contrário do presidente, os brasileiros vão tornar a vacina obrigatória.

¹ Leia mais sobre o cientista Oswaldo Cruz

Biografia escrita por Moacyr Scliar revela um “homem extraordinário”, o cientista Oswaldo Cruz

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