O jornalismo crítico do Jornal Opção completa quarenta anos

O Jornal Opção é produto de uma grande ideia. Mas uma grande ideia pede um grande homem. E este é o jornalista e economista Herbert de Moraes

Herbert de Moraes: jornalista que criou o Jornal Opção há 40 anos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Herbert de Moraes: jornalista que criou o Jornal Opção há 40 anos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém

Ao completar 40 anos na segunda-feira, 21, o Jornal Opção se torna pós-balzaquiano. O ex-deputado federal Vilmar Rocha, secretário das Cidades e Meio Ambiente do governo de Goiás e presidente do PSD no Estado, brincou, depois da sessão especial da Assembleia Legislativa em homenagem ao jornal: “Mas o corpinho é de 20 anos”. O que quis dizer com a brincadeira séria um dos mais experimentados políticos do Centro-Oeste? Que as ideias, as grandes ideias, não envelhecem — se tornam eternas e, daí, são sempre modernas. O que há de comum entre a “Odisseia” e a “Ilíada”, de Homero; “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (que influenciou um romance do escritor americano Philip Roth), de Machado de Assis; “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust; “Ulysses”, de James Joyce; “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann; “O Som e a Fúria”, de William Faulkner; “Aquela Confusão Louca na Via Merulana”, de Carlo Emilio Gadda, e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa? Simples: parecem, todos, terem sido escritos ontem — tal o frescor tanto do texto quanto das ideias. São eternamente modernos.

Portanto, ao realçar que o Jornal Opção tem 40 anos num corpinho de 20 anos, Vilmar Rocha sugere que o jornal não envelheceu. Por que, à medida que “envelhece”, o jornal fica ainda mais jovem, como se fosse quase um Benjamin Button? À diferença do personagem da formidável história de Scott Fitzgerald, o jornal não soçobra — permanecendo firme, sólido e, mesmo sem a pretensão e a vaidade, reverberando em vários outros jornais.

O Jornal Opção resiste, jovem e atento às coisas de seu tempo, porque nasceu, mais do que de um sonho, de uma ideia. Em 1975, jornalista consolidado — mais tarde, para aprimorar-se, formou-se em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) —, depois de ler atentamente vários jornais, sobretudo os da chamada imprensa “alternativa”, Herbert de Moraes decidiu criar um jornal. Passou a ler com atenção o semanário “Opinião”, fundado pelo empresário Fernando Gasparian — dono da Paz e Terra e amigo de Fernando Henrique Cardoso — e editado por Raimundo Rodrigues Pereira. Gasparian e Rodrigues Pereira se inspiraram nos jornais britânicos “The New Statesman” e “The Guardian Weekly”. Entre os articulistas estavam Adelto Gonçalves, Antonio Candido, Antonio Callado, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Paul Singer, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Otto Maria Carpeaux, Hélio Jaguaribe, Paulo Francis, Lauro de Oliveira Lima, Jean-Claude Bernardet, Aguinaldo Silva, Millôr Fernandes, Oscar Niemeyer, Júlio Cesar Mon­tenegro, Marcos Gomes, Antonio Carlos Ferreira, Bernardo Kucinski, Dirceu Brisola e Maurício Azedo. O jornal, com uma seleção do que havia de melhor em termos intelectuais, sobreviveu, em plena ditadura civil-militar, de 1972 a 1977. Sempre crítico ao regime discricionário.

Com o objetivo de criar um jornal de ideias, que se tornasse um veículo iluminista no Estado, Herbert de Moraes viajou com Nanci Guimarães de Melo Ribeiro, sua mulher, para o Rio de Janeiro. Ao voltar, era um homem decidido: faria um jornal moderno e capaz de lutar contra o atraso e a modorra para defender aqueles que tivessem propósitos modernizadores do Estado. Havia quem, adepto do comodismo, sugerisse que fazer jornal de ideias — sempre incontroláveis — em plena ditadura não era “bom” para o jornalismo e para os negócios. Obstinado, Herbert de Moraes acreditava que, com o uso inteligente das frestas, era possível fazer jornalismo crítico e responsável e contribuir para a redemocratização.

Um dos desideratos de Herbert Moraes era exatamente editar um jornal para tornar o debate mais aberto e inteligente e, de algum modo, contribuir para a redemocratização do país. Por isso abrigou em suas páginas intelectuais e jornalistas críticos. Uma de suas virtudes é ter faro para descobrir novos talentos. De rara inteligência — uma inteligência metódica, às vezes impaciente com a incompreensão dos néscios —, aprecia conviver com jornalistas inteligentes, que tenham capacidade intelectual e não sejam meros “ajuntadores” de frases e “coletores” de fatos. Editor competente, perfeccionista dos mais extremados, distingue, em questão de segundos, se um texto tem qualidade ou não. Mesmo exigente, dos mais exigentes, tem a qualidade dos diplomatas — convive muito bem com seus subordinados na redação.

Ao montar a primeira redação, tanto em termos de equipe fixa quanto de colaboradores, não patrulhava ideias. Pelo contrário, incentivava a divergência e o debate livre. Contratou como editor José Luiz Bittencourt Filho, dos jornalistas mais categorizados de sua geração.

Contundente e articulado, José Luiz era um garoto — como o próprio Herbert Moraes, que mal havia passado dos 30 anos de idade — prodígio. Ao lado de Herbert de Moraes e outros jornalistas, como Marco Antônio da Silva Lemos (hoje, desembargador em Brasília), fez história no jornalismo de Goiás. Escritores consagrados, como Anatole Ramos e Antônio José de Moura, pontificaram nas páginas do jornal. Assim como o polêmico Joaquim Rosa. Haroldo de Britto, com sua pena shakespeariana, escreveu textos memoráveis.

Entretanto, o Jornal Opção, nos seus primórdios, não era meramente um jornal intelectual, afeito a igrejinhas acadêmicas. Os grandes temas do momento eram discutidos da maneira mais ampla possível e suas análises e furos ganhavam as páginas dos demais jornais — como ocorre até hoje. O repórter Frederico Vitor, da geração atual, ao consultar edições de 1975 e 1976, para escrever uma reportagem sobre o que o jornal discutia, ficou perplexo. “Parece que o jornal está falando de hoje”, disse, desconcertado. Uma reportagem publicada em 1975, há 40 anos, discute o transporte coletivo de Goiânia e menciona Curitiba. O jornal enviou um repórter à cidade na qual pontificava o arquiteto Jaime Lerner, devidamente entrevistado, e mostrou o que poderia ser útil para Goiás, e certo modo foi. O sistema integrado de transporte, que resiste ao tempo, foi esquadrinhado, talvez pela primeira vez, ao menos de maneira tão ampla, pelo Jornal Opção. Numa das primeiras edições, o jornal discute a possibilidade de se construir um metrô na capital. O que se discute hoje? A construção de um veículo leve sobre trilhos (VLT) na Avenida Anhanguera.

Em termos políticos, não era fácil fazer jornal naquele tempo. Mas, contornando com inteligência as pressões da ditadura, o Jornal Opção abriu espaço para a oposição, ampliou o debate sobre a redemocratização — a distensão e a Abertura —, entrevistou vários políticos, inclusive os cassados Iris Rezende e Pedro Ludovico Teixeira. As entrevistas históricas são citadas inclusive em trabalhos acadêmicos e livros. Há várias reportagens e artigos sobre a luta pela Anistia. João Divino Dornelles, apóstolo da Anistia, aparece várias vezes em suas páginas.

Cada edição do jornal era mais ousada e contribuía de alguma forma para ampliar a democracia. Pode-se sugerir, até, que havia mais democracia em suas páginas do que nas ruas do país.

Com o país redemocratizado, com novas pautas colocadas — aliás, colocadas é uma palavra que Herbert de Moraes não aprecia, pois sempre cobra o uso da palavra justa, seguindo o estilo de Flaubert —, o jornalista-editor reformatou sua equipe, mas sempre com a mesma linha editorial (jornalistas como José Maria e Silva, hoje em São Paulo, e Guillermo Rivera, hoje diplomata nos Estados Unidos, brilharam no jornal). Ou seja, trata-se de manter o veículo como um jornal de opinião e com certa multiplicidade de ideias — o que não quer dizer populismo — para evitar uma espécie de entropia e a hegemonia do pensamento único.

Herbert de Moraes sempre diz para seus editores e repórteres — como se sabe, só há uma profissão no jornalismo: a de repórter; editor é cargo — que é preciso ter coragem para enfrentar as adversidades, sangue frio para superar as intempéries políticas e inteligência para entender o que é a história. Quem pensa exclusivamente no presente, ao modo das crianças, não consegue perceber que os poderosos do momento passam e que o jornal continua. A adulação nasce da falta de perspectiva histórica, da incapacidade de entender os ventos da mudança. A inteligência verdadeira, que não é pose, faz as pessoas entenderam que os indivíduos passam, os poderosos são tragados pela história, mas as ideias, quando relevantes, arejadas e sólidas de fato, ficam, reverberam e contaminam, positivamente, o ambiente. O Jornal Opção é uma ideia que germina o tempo inteiro e, por isso, permanece ativo e crítico, sempre incomodando até aqueles que o veem como aliado. Umberto Eco escreveu sobre apocalípticos e integrados. O Jornal Opção não quer ser apocalíptico, para parecer up to date, e não é nem será integrado. Quer ser sempre uma coisa viva, sempre atraindo a sociedade para se ver e para ver que é possível fazer as coisas de modo diferente, útil para todos, e não apenas para alguns. Quadros mentais fixos e fossilizados nada têm a ver com os que escrevem e editam o Jornal Opção.

Resta dizer que, se nasceu de uma ideia — de se fazer jornalismo de opinião, crítico e sempre atento —, o Jornal Opção não teria nascido sem a disposição de um grande homem, Herbert de Moraes. Fala-se dele como “visionário” e “realista”. Talvez seja possível sintetizá-lo de outra maneira: trata-se de um homem que pensa e faz. É um intelectual que aprecia mais agir do que reagir. É um agente da antecipação. Saiba, leitor, que, longe de ficar contente com este Editorial, Herbert de Moraes — homem reservado e de rara decência — não lhe dará tanta atenção assim. Porque não tem paixão por adjetivos, advérbios e textos encomiásticos. Mas, no momento em que se comemora 40 anos do jornal, não seria lícito deixar de fazer referência ao seu criador. Ele é o pai da “ideia” Jornal Opção. Ideias não nascem na grama. Nascem de grandes cérebros. É o caso.

Sobre o Jornal Opção, vale mencionar o poeta Carlos Drummond de Andrade: “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno”. O fraseado do bardo mineiro é a cara do jornal criado por Herbert de Moraes e hoje gerido pela jornalista Patrícia Moraes Machado.

Agradecimento

O Jornal Opção agradece ao presidente da Assembleia Legislativa, Helio de Sousa (DEM), e a Vilmar Rocha, representante do governador Marconi Perillo, pela sessão especial em homenagem aos 40 anos do jornal e por suas palavras carinhosas. O jornal também agradece a presença da senadora Lúcia Vânia, dos deputados Giuseppe Vecci (PSDB), Daniel Vilela (PMDB), Virmondes Cruvinel (PSD), Francisco Júnior (PSDB) e Luis Cesar Bueno (PT), ao presidente do PT, Ceser Donizete, e aos advogados Miguel Cançado e Reinaldo Barreto.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Adalberto De Queiroz

Viva o Sr. Herbert. 40 x Viva o Opção.