O filho do Mourão, os primos do Caiado e a eterna injustiça contra a mulher de Cesar

Por trás do “mimimi” nas redes sociais, resiste uma hipocrisia que tenta ignorar a importância dos laços de confiança para a administração pública

Pompeia Sula, segunda mulher de Julio Cesar, em gravura do século VIII: sem provas do adultério, ele apelou em nome das aparências | Foto: Reprodução

Pompeia Sula era a segunda esposa de Julio Cesar que, em 62 a.C., originou a famosa frase do ditador romano: a de que sua mulher deveria estar acima de qualquer suspeita. Ou, na forma como se consagrou em português: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Um aforismo injusto, repetido até hoje como verdade inquestionável, inclusive em um ambiente tão eticamente relativo quanto o da política. Que o diga o vice-presidente Hamilton Mourão, que foi ao inferno da opinião pública por conta da nomeação de um filho para um cargo no Banco do Brasil, e o governador Ronaldo Caiado, que indicou primos em sua administração.

A frase de Cesar, dita ao oficializar seu pedido de divórcio, não passava de um arrazoado para justificar sua intenção de terminar o casamento com Pompeia. Dias antes da separação, ela teria se encontrado furtivamente com Públio Clódio, seu admirador, que se disfarçou para entrar em uma cerimônia exclusiva para mulheres que ocorria na casa de Cesar. Os dois, Pompeia e Públio, somente conversaram, de acordo com testemunhas. Tal fato foi confirmado pelo próprio Cesar que afirmou publicamente não dispor de nenhum elemento concreto para dizer que houve ou não o adultério.

O que Cesar dispunha de sobra era retórica, pois nunca deixou de ser um excelente advogado (e escritor) enquanto construía uma trajetória como político e comandante militar sem precedentes. Sapecou a frase proverbial que passou à história como uma lição de conduta a ser respeitada na vida pública, consagrando, na verdade, uma injustiça: não importa se há subsídios legais evidentes quanto a determinada situação, mas simplesmente o que ela aparenta.

E mais: é sempre prudente desconfiar de quem costuma sacar esse argumento, normalmente para criticar adversários ou para obter alguma vantagem. Como, aliás, aconteceu no próprio exemplo original. Julio Cesar foi injusto e hipócrita porque se sabe que ele queria o divórcio muito antes da “Bona Dea” – a tal festa exclusiva para mulheres. O fim do casamento foi tramado junto com sua amante, Servilia Cipião – que tinha ciúmes da jovem e bela Pompeia.

Além disso, como bem registrou Suetônio, primeiro historiador dos imperadores romanos, Cesar nunca poderia reclamar de adultério (ou qualquer arranhão à aparência de fidelidade da esposa): orientado por sua mãe, Aurélia, Cesar (quando jovem e atraente) costumava investir sobre mulheres casadas. O objetivo era aumentar seu prestígio e afastar a errônea fama de homossexual que os adversários políticos de sua família tentaram lhe impor para impedir que assumisse o comando de missões militares importantes.

Descontando-se a militância feminista (quase sempre acertada), a pobre Pompeia Sula, em tempos atuais, seria esculachada impiedosamente nas redes sociais apesar de sua inocência. Como aconteceu com o vice-presidente Mourão na semana passada, ao vir a público a nomeação de seu filho, Antônio Hamilton Rossell, para um cargo de confiança na assessoria direta da presidência do Banco do Brasil. Ele é funcionário de carreira do banco há nada menos que 18 anos, sendo que há 11 anos atuava na diretoria de Agronegócios (área na qual se especializou com um MBA).

Claro que a diferença salarial foi o que mais chamou a atenção do público: a remuneração de Rossell Mourão vai triplicar, passando de R$ 12 mil para R$ 36 mil no novo cargo. Críticas implacáveis apareceram em todos os lugares, desde a mídia convencional até o subterrâneo das redes. E não apenas de adversários. Até bolsonaristas notórios publicaram comentários mostrando descontentamento, decepção e a cobrança de que a nomeação seja revista imediatamente.

O impacto também foi sentido no próprio Palácio do Planalto. O presidente Jair Bolsonaro divulgou que só ficou sabendo da promoção do filho do vice pela imprensa. Não teria sido avisado e, com o comunicado, tentou lavar as mãos. Não faltou quem lhe lembrasse, em meio à repercussão negativa, que sua chapa foi eleita com a promessa de moralização da máquina pública e que o nepotismo desse episódio mancharia de imediato sua gestão.

A reação de Mourão, o vice, foi de firmeza resoluta. Rebateu as críticas pelo viés técnico, abordando sempre o currículo do filho, e também pelo viés político: segundo o general, Rossell Mourão era merecedor dessa oportunidade no banco há muitos anos e que isso só não ocorreu antes porque ele nunca foi alinhado aos governos do PT. Mourão ainda quis levantar uma teoria meio conspiratória: a de que o barulho com a nomeação era marola provocada pelo “sindicalismo do Banco do Brasil”.

A frase da mulher de Cesar foi lembrada em várias críticas ao caso do filho do Mourão. E, de novo, sendo usada para embalar certa hipocrisia corrente quanto aos critérios das nomeações para cargos de confiança. O termo hipocrisia não é usado aqui para censurar quem não gostou da escolha feita pelo novo presidente do BB, Rubem Novaes. Significa mais um convite para uma análise menos passional dos fatos, pensando no pragmatismo e no oportunismo do recém-empossado gestor do banco.

Um convite, por exemplo, para que o leitor se coloque no lugar de Rubem Novaes por alguns instantes. Imagine-se responsável pelo maior banco público do país, tendo de resolver demandas internas enormes, com a obrigação de emplacar projetos nacionais que confiram relevo à sua gestão. Agora imagine a oportunidade de contar em sua assessoria direta com um técnico de carreira que está inteiramente compromissado com o sucesso da atual administração e que tem acesso direto à cúpula do governo. Alguém capaz de garantir ou ao menos facilitar uma interlocução privilegiada, que pode solicitar apoio político a alguma iniciativa durante um almoço de domingo.

Novamente, alguém com certo purismo poderia indagar: mas é eticamente correto utilizar essa “engenharia social”? Não significaria certo favorecimento, já que outras instâncias do governo não contariam com a mesma predileção? A essas indagações é mais fácil responder com a seguinte reflexão: governos nunca serão máquinas weberianas perfeitas, que funcionam com o tic-tac de uma burocracia imune a sentimentos e interesses. É ilusão pensar assim. A escolha de Rubem Novaes foi um gol e ponto.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a algumas escolhas do governador Ronaldo Caiado, que também causaram polêmica (bem menor que a do filho de Mourão, diga-se). É o caso das nomeações de dois primos seus para postos-chave da Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas (Agetop). Um será presidente (Ênio Caiado Rocha Lima) e outro, diretor (Aderbal Ramos Caiado). Muitos criticaram essa preferência por parentes, mesmo que os currículos de cada um mostrem experiência administrativa razoavelmente adequada.

Esses críticos deixaram de avaliar um aspecto importante nessas escolhas. A Agetop é um órgão decisivo para o sucesso de um governo. Não apenas pela relevância que as obras públicas assumem para o desenvolvimento do Estado e ainda pelo que representam no imaginário dos cidadãos. Para o senso comum, o raciocínio é o seguinte: um governo que não realiza grandes obras é um fracasso. Sim, o veredito é duro e difícil de reverter posteriormente. Ter gestores compromissados, até “no sangue”, com o bom funcionamento da agência pode fazer a diferença lembrando-se que, para questões eminentemente técnicas, o órgão conta com um corpo de gestores com competência para as principais demandas.

Mas mais do que isso: é pela Agetop que circulam os maiores montantes de investimentos públicos, sujeitos inerentemente ao risco da corrupção. Ao colocar sob essa responsabilidade pessoas da sua mais completa confiança, Caiado demonstra enfaticamente que pretende proceder com probidade na área de obras. Sabe que o mínimo deslize pode ter gravíssima repercussão em sua imagem. Não estão ali executivos com meras relações políticas ou administrativas. O vínculo é total e indissociável. Sem dúvida, uma coragem para poucos.

PS. Sobre o universo feminino em torno de Julio Cesar, interessante ao leitor procurar a série sobre Roma antiga, da escritora best-seller Colleen McCullough – autora do melodramático romance “Pássaros Feridos” (1977). Em “Mulheres de Cesar” (1996), com uma linguagem às vezes rasteira demais mas sempre envolvente, ela reescreve as fofocas de Suetônio sobre o ditador romano como se fossem uma trama de novela das oito. Livro difícil de largar.

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Shirley Torres

A tá vão ver o que essa gente fez e o que ainda vai fazer nesses órgãos públicos, de realmente útil para TODA A POPULAÇÃO E DE MODO GERAL, só isso!!!😉😘