Mudança na boca de Iris parece uma palavra morta e ataque sem prova sugere que esqueceu que é advogado

Ao aceitar indicação para o secretariado-fantasma de Iris Rezende, o deputado federal Ronaldo Caiado, que não aceita estelionato eleitoral, está sugerindo que não acredita na vitória do peemedebista-chefe. Fica-se com a impressão de que, em desespero, o irismo quer organizar um Exército de Brancaleone

editorial1

Políticos que poderiam formar a Associação das Vítimas de Iris Rezende (Avir): Maguito Vilela, Henrique Meirelles, Vanderlan Cardoso, Júnior Friboi e Sandro Mabel. O primeiro foi atropelado em 1998. O segundo foi vetado para o governo em 2010. O terceiro, fritado, pediu desfiliação do PMDB. O quarto servia para financiar eleição, mas não para ser candidato a governador. O quinto deve ser o próximo da lista, pois o peemedebista-chefe teria prometido que vai apoiá-lo para a Prefeitura de Goiânia, em 2016, porém, se for derrotado para o governo de Goiás, deve ser ele o candidato

Políticos que poderiam formar a Associação das Vítimas de Iris Rezende (Avir): Maguito Vilela, Henrique Meirelles, Vanderlan Cardoso, Júnior Friboi e Sandro Mabel. O primeiro foi atropelado em 1998. O segundo foi vetado para o governo em 2010. O terceiro, fritado, pediu desfiliação do PMDB. O quarto servia para financiar eleição, mas não para ser candidato a governador. O quinto deve ser o próximo da lista, pois o peemedebista-chefe teria prometido que vai apoiá-lo para a Prefeitura de Goiânia, em 2016, porém, se for derrotado para o governo de Goiás, deve ser ele o candidato

Iris Rezende foi vereador e prefeito de Goiânia, na década de 1960, governador de Goiás por duas vezes — eleito em 1982 e 1990 —, ministro da Agricultura e da Justiça, senador e, entre 2004 e 2008, foi eleito e reeleito prefeito da capital. Entre 1982 e 2014, o peemedebista-chefe disputou cinco eleições para governador de Goiás. Das nove últimas eleições para governador, disputou cinco, quer dizer, 55,7%. Sobram exatos 44,3% para outros. O leitor poderá dizer: Franklin D. Roosevelt disputou quatro eleições seguidas nos Estados Unidos, entre as décadas de 1930 e 1940. Porém, isto dificilmente teria ocorrido sem a Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a escolha do Partido Democrata não envolvia “atropelamentos” políticos. O leitor poderá dizer, também, que o governador Marconi Perillo, do PSDB, está disputando sua quarta eleição. É fato. Mas sua escolha não afronta seu partido e sua base eleitoral. Com Iris Rezende ocorre o oposto.

Numa definição simples, pode-se dizer que Iris Rezende é o político cujo principal sonho é triturar o novo, derrotar a modernidade e instalar a vetusta política do coronelismo não-ilustrado.

Maguito, a primeira vítima

Em 1998, Maguito Vilela, do PMDB, era um governador popular. Porém, temendo a constituição de um novo grupo, o maguitista, Iris Rezende, usando o irismo como arma — ele articula para que várias pessoas comecem a “exigir” que seja candidato —, atropelou o governador, muito bem avaliado em pesquisa do Datafolha, e lançou-se candidato. Se Maguito Vilela fosse o candidato, dificilmente o PSDB teria lançado candidato a governador. No entanto, com Iris Rezende postulando, depois de anos de mando, e impedindo que um candidato mais jovem e aceito pela sociedade disputasse, o jovem Marconi Perillo — que teria disputado a reeleição para deputado federal se Maguito Vilela fosse o candidato — decidiu concorrer contra o velho cacique.

Na campanha, como de hábito, Iris Rezende falava para o passado, destacando o que havia feito, como se fosse não um homem-gestor, mas um deus-gestor, um messias de carne e osso, enquanto Marconi Perillo, então com 35 anos, era uma voz atualizada falando para o presente e para o futuro. Há 16 anos, o eleitor avaliou que Iris já era “o velho”, em termos de mentalidade, e não tinha condições de modernizar o Estado de Goiás.

Em 2002, quanto todos esperavam que o PMDB renovasse, Iris Rezende e seu Sancho Pança preferido, Mauro Miranda, foram os candidatos a senador. Os dois foram derrotados. Os goianos continuavam avaliando que Iris simbolizava “o velho”, que sua mentalidade não coadunava com os tempos modernos.

Meirelles, a segunda vítima

Em 2010, depois de uma passagem pela Prefeitura de Goiânia — que teria deixado quebrada, com uma dívida de 400 milhões de reais, segundo denúncia do ex-secretário de Finanças Cairo Peixoto, ligado ao PT do prefeito Paulo Garcia —, Iris Rezende atropelou mais um pré-candidato. Ele havia dado “garantia” — como agora está dando a Sandro Mabel de que vai apoiá-lo para a Prefeitura de Goiânia, quando, nos bastidores, sugere aos íntimos que deve ser o candidato, em 2016 — de que Henrique Meirelles, que estava muito bem no Banco Central, seria o candidato a governador.

Henrique Meirelles filiou-se ao PMDB, na sede do partido, nas proximidades do ginásio de esportes Rio Vermelho, com festa e presença de uma multidão. O ex-presidente do BankBoston disse que em maio deixaria o Banco Central e, em outubro de 2010, seria candidato a governador de Goiás. Era o novo consistente, com discurso afiado.

No entanto, no momento em que Henrique Meirelles se apresentava em Brasília como pré-candidato a governador, e já contando com o apoio de Lula da Silva, então presidente da República, Iris Rezende, mais uma vez, punha os iristas em campo para dizer que era a melhor alternativa e que o “banqueiro” não tinha chance de derrotar Marconi Perillo, então senador, e não conhecia Goiás. De repente, de Deus, o presidente do Banco Central foi transformado em Diabo. Não servia para mais nada — exceto para apoiar a candidatura de Iris Rezende. Lula não tolera Iris Rezende devido à sabotagem da candidatura de seu aliado e amigo.

Vanderlan, a terceira vítima

Terminada a eleição, com mais uma derrota, porque o eleitor o considerara um ser do passado, cada vez mais remoto — se o peemedebista disser que a Secretaria da Educação vai premiar os melhores alunos com máquinas de escrever, e não com computadores, dificilmente alguém deixará de acreditar —, Iris Rezende convocou Vanderlan Cardoso para se filiar ao PMDB, pois seria a alternativa para 2014.

No calor das derrotas, Iris Rezende torna-se humilde e permite que outros políticos ganhem o centro do debate. Tal como um anacoreta, refugia-se em seu apartamento e, às vezes, na fazenda do Xingu e recebe apenas os “escolhidos”, quase sempre aduladores. “Não sou candidato a mais nada” — é seu mantra. Ninguém acredita, nem seus animais de estimação, e nem mesmo os iristas mais fanáticos. Vanderlan Cardoso chegou ao PMDB como “salvador da pátria” peemedebista, o nome certo para a disputa de 2014, e saiu apontado pelo irismo como “trânsfuga”, “traidor”. Agora, no segundo turno, como decidiu não apoiar Iris Rezende nem Marconi Perillo, é chamado de “marconista” pelo irismo.

Pouco a pouco, ao perceber a dinâmica do partido e entendendo que tem dono, e não líder, Vanderlan Cardoso decidiu sair. Em questão de dias, começou a se sentir como móvel e utensílio do irismo. Chegou a dizer que até o piloto de seu avião já estava subordinado à deputada Iris Araújo. Decidiu desfiliar-se, antes que sua patente de “general” — já havia sido rebaixado a sargento — fosse rebaixada para a de cabo ou, até, de soldado raso. Ele percebeu, com rara felicidade, que Iris Rezende, mais uma vez, estava buscando um apoiador, e não um líder, e pediu desfiliação. Em seguida, entrou para o PSB, porque quer ser cabeça e não cauda de um partido. No PMDB, todos são caudas, e só há uma cabeça, a do cacique-mor.

Friboi, a quarta vítima

Como sabe que precisa de elementos renovadores, para reduzir sua carranca de “velho” — insistamos: em termos de mentalidade, sempre fossilizada —, após perder Vanderlan Cardoso, Iris Rezende correu atrás do empresário Júnior Friboi, da família que dirige o JBS, um dos maiores grupos empresariais do país e do mundo, com faturamento anual de mais de 100 bilhões de reais.

Desde o início, Júnior Friboi alertou ao cacique que planejava disputar o governo. Mais uma vez, Iris Rezende disse que não havia problema nenhum e que o apoiaria para governador de Goiás. No fundo, o peemedebista-chefe pretendia, tão-somente, arranjar alguém para organizar o partido em todo o Estado. Este alguém era o empresário, que, de fato, passou a visitar os municípios e a dialogar com os líderes do PMDB.

Depois de colher as reclamações mais frequentes — uma delas é de que Iris Rezende é um líder ausente e que só aparece em época de eleições, não a dos outros, e sim durante suas campanhas (há até pessoas que “quebraram” ao apoiá-lo financeiramente, com parcos recursos) —, Júnior Friboi foi aceito como líder e, portanto, como candidato “natural” a governador do PMDB.

Animado, Júnior Friboi organizou um grupo coeso e forte — com a participação do prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, dos deputados federais Pedro Chaves, Leandro Vilela, Sandro Mabel, de vários deputados estaduais, como Francisco Gedda, Daniel Vilela, Paulo Cezar Martins, Waguinho Siqueira e José Essado, e dezenas de prefeitos (não apenas do PMDB) — e se pôs a trabalhar para ser candidato, em outubro deste ano.

O ermitão do Xingu de repente apareceu e começou a receber militantes do PMDB no seu escritório político. De início, eram os mais velhos, os chamados iristas de carteirinha, como Luiz Soyer, Lázaro Barbosa, Mauro Miranda, Irondes Morais — todos qualificados e aposentados há anos —, mas depois os mais jovens começaram a ser intimados, é o termo justo, para conversar com o chefe Iris Rezende. No seu velho estilo de dizer sem dizer que é candidato, o eremita, agora citadino, monologava sobre Goiás e sobre a eleição deste ano.

Todos saíam das conversas convictos de que Iris Rezende, falando por linhas tortas e comportando-se como um messias — dizia sempre que Deus lhe havia dado uma missão, governar Goiás pela terceira vez, num flagrante desrespeito à religião cristã (nem o Papa Francisco indica “candidatos de Deus”) —, seria candidato a governador.

Inicialmente, como acredita que a palavra empenhada tem valor, Júnior Friboi, embora alertado por figuras de proa do partido, como o ex-deputado Frederico Jayme e Maguito Vilela, manteve-se em campo, como pré-candidato favorito dos peemedebistas. Era uma espécie de Trotski e Iris Rezende o Stálin do Cerrado. Cansado de enviar recados indiretos para o empresário, o peemedebista-chefe decidiu pegar mais pesado. Durante dias, um suplente de deputado estadual do PMDB rondou as redações com uma denúncia de suposta sonegação, no valor de 1,3 bilhão reais, do grupo JBS. Era uma denúncia requentada — a empresa contesta os números do governo —, mas o irista convenceu a editora de um diário, tida como “meio irista”, a publicar uma reportagem hot. Como de hábito, Iris Rezende disse que nada tinha com a divulgação da denúncia e atribuiu-a ao governo, o “Ruivo Herring” (do desenho do Scooby-Doo) da realidade. Júnior Friboi, que nada tem de bobo, percebeu que havia uma jogada com a finalidade de tirar a responsabilidade do irismo e transferi-la para o governo, quer dizer, para o governador Marconi Perillo.

O que Iris queria, de fato? Que, fragilizado, Júnior Friboi desistisse da candidatura a governador e aceitasse ser o seu vice. O empresário, além de jovem e de fortalecido na base do PMDB (e de outros partidos, como o PSB), seria o agente financiador da campanha de Iris Rezende. Só que Júnior Friboi é esperto e não aceitou a proposta. Ele não deixou de ser candidato devido à denúncia de sonegação — contestada, ressalte-se —, e sim porque sabia que, mesmo que ganhasse na convenção de Iris Rezende, teria sua campanha inteiramente sabotada pelo irismo. A deputada federal Iris Araújo não saía do Twitter com ataques destemperados, arrogantes. Ele preferiu sair do páreo e esperar a decadência do irismo, que começou com mais uma derrota, a de Iris Araújo, que teve pouco mais de 60 mil votos para deputada federal.

Há quem acredite, numa espécie de humor à Bernard Shaw, que Iris Rezende deveria trabalhar numa empresa que comercializa tapetes. Porque sua especialidade é mesmo a de “puxador de tapete”. Porém, além de puxar o tapete dos correligionários, há mais coisas que assustam no peemedebista-chefe.

Homem contra o contemporâneo

Iris Rezende e Jayme Rincon: o candidato a governador atribuiu uma fala ao presidente da Agetop. Mas trata-se de um crime torpe e, possivelmente, terá de se retratar e, até mesmo, indenizar o acusado. Agora o peemedebista tenta responsabilizar seus marqueteiros

Iris Rezende e Jayme Rincon: o candidato a governador atribuiu uma fala ao presidente da Agetop. Mas trata-se de um crime torpe e, possivelmente, terá de se retratar e, até mesmo, indenizar o acusado. Agora o peemedebista tenta responsabilizar seus marqueteiros

Iris Rezende não é nem quer ser contemporâneo dos goianos atuais. Ele nunca leu nenhuma obra de Bernardo Élis, Hugo de Carvalho Ramos, Eli Braziliense, Edival Lourenço, Gabriel Nascente, Alaor Barbosa, Ursulino Leão, Maria Lúcia Felix, Brasigóis Felício, Aidenor Aires, Darcy Denófrio, Heleno Godoy, Miguel Jorge, Geraldo Coelho Vaz, Pio Vargas, Carmo Bernardes, Luiz de Aquino, Leandro Teixeira, Cássia Fernandes, Dairan Lima, José Fernandes, Flávio Paranhos, Weslei Godoy Peres, Renan Alves Melo, Larissa Mundin, Deise Kênia, Clara Dawn, Iúri Rincon Godinho, Cristiano Deveras. Machado de Assis e Guimarães Rosa? Adeus. Iris Rezende possivelmente nunca ouviu a música de Fernando Cupertino, Cláudia Vieira, Marcelo Barra (talvez seja o único que tenha ouvido, rapidamente, em alguma recepção), Fernando Perillo (no caso, o sobrenome é proibido de ser pronunciado na casa do peemedebista, exceto com impropérios acoplados), Grace Carvalho, Mayra, Belkiss Spenziere. Villa-Lobos, nem pensar. Antônio Poteiro, Amaury Menezes, D. J. Oliveira, Siron Franco são conhecidos de nome, por serem famosos, mas o peemedebista não deve ter nenhuma opinião consistente a respeito de suas obras. Alexandre Liah e Marcelo Solá são palavrões para o político. Mas artes plásticas, sobretudo a moderna, são mesmo complicadas. Cinema? Prova­velmente nunca ouviu falar de Glauber Rocha e Fernando Meirelles. Deve ter ouvir falar de Pedro Novaes apenas agora, porque o geógrafo e cineasta está trabalhando em sua campanha. Quando governador, nomeou um fazendeiro de Rio Verde para secretário da Cultura. Agora, consta que chegou a cogitar, antes dos vetos dos aliados, em anunciar o cantor sertanejo José Rico como possível secretário da Cultura. E o nome de Maria Lúcia Felix? Nunca foi mencionado pelo candidato. É poeta. E daí? Na República de Iris Rezende os poetas não entram. Porque são tidos como nefelibatas. Iris Rezende foi governador, senador e ministro e não se interessou em aprender nenhuma língua estrangeira. Ele é uma espécie de Policarpo Quaresma sem cultura.

Há também o Iris que não viaja, que não sai de Goiás, para ver o Brasil e o mundo. Consta que, ao visitar o shopping Flam­boyant, 20 anos depois de inaugurado, ficou impressionado. Nas suas folgas, refugia-se nas fazendas — em Guapó e, sobretudo, no Xingu, sua Paságarda. Há pouco tempo, esteve em Portugal, empurrado pelas filhas, e ficou “maravilhado”. É como se não soubesse da existência do país que colonizou o Brasil. A falta de leituras e de cosmopolitismo resulta num provincianismo que assusta. Provincianos costumam se avaliar como donos das aldeias e, quando perdem o poder, se tornam rancorosos e ameaçam que, se voltarem ao mando político, serão implacáveis. Iris Rezende já fechou o “Diário da Manhã”, segundo revela o jornalista Batista Custódio, e iristas estariam sugerindo que, se eleito, fechará jornais, rádios e emissoras de TV. Falta de informação de quem mal sabe o que é Twitter e Facebook. Com o advento da internet, ditadores provinciais não conseguem mais controlar a informação e fechar jornais.

Rancor e informações falsas

Cassado em 1969, Iris juntou-se a um grupo de amigos para advogar. Não ganhou dinheiro, mas sobreviveu. Teria advogado inclusive para Nuri Andraus, o ministro da Agricultura que ficou pouco tempo no cargo, no governo de Itamar Franco, pois a imprensa noticiou que havia assassinado uma mulher.

Portanto, quando levou ao ar uma gravação entre o ex-vereador Wladmir Garcêz e o empresário Jaime Ferreira de Oliveira — os dois admitem que falaram sobre pesquisas e projetos da Prefeitura de Goiânia, e por coincidência sobre a gestão do peemedebista —, mas garantindo que se tratava do presidente da Agência de Transportes e Obras (Agetop) do governo de Goiás, Jayme Rincon, Iris Rezende, como advogado qualificado, sabia o que estava fazendo. Não era e não é nenhum ingênuo. Numa entrevista a uma emissora de televisão, ao ser questionado por um repórter, o peemedebista-chefe disse que a responsabilidade por levar o diálogo ao ar não havia sido sua, e sim do marketing de sua campanha. É evidente que Iris Rezende não fugiu às aulas da Faculdade de Direito e, por isso, sabe que, judicialmente, a responsabilidade é sua. Culpar aqueles que atuam no marketing — como o publicitário, psicólogo e ator Paulo Faria, sócio da agência Casa Brasil, o documentarista Pedro Novaes, o publicitário Jorcelino Braga e o deputado federal Sandro Mabel — significa, por certo, que Iris Rezende quer vê-los processados em seu lugar. Como Iris Rezende é um político sério, um gestor que tem história marcante, apesar de ter ficado para trás, dada sua notória contradição com o mundo contemporâneo, precisa corrigir sua fala e apresentar-se como principal responsável pela farsa montada em seu programa eleitoral. Como a gravação não é recente — é de 2011 —, sabia-se que Jayme Rincon não havia participado dos diálogos. Assim, sabem os advogados, como Iris Rezende, e os magistrados, o crime foi intencional. A ação do peemedebista-chefe é o típico crime doloso. Se Iris Rezende não fosse um cidadão respeitável, seria possível dizer que se trata de um cínico, no sentido popular mesmo.

Entretanto, quando disse que o ônus da prova, no caso de Jayme Rincon, cabe ao “denunciado”, o advogado Iris Rezende inverteu a lógica do Direito e da Justiça. O ônus da prova cabe ao acusador. Portanto, Iris apresentou uma denúncia, com prova falsa, e terá de responder judicialmente. Há algum tempo, quando interpelado pelo governador Marconi Perillo, Iris Rezende argumentou que não queria dizer o que havia dito e conseguiu livrar-se do processo judicial. No processo que Jayme Rincon moverá, o que dirá? Se culpar os marqueteiros, perderá credibilidade. Aliás, Paulo Faria e Pedro Novaes certamente serão chamados para depor. Se seus depoimentos forem incisivos, afiançando que não foram os responsáveis pela colocação da denúncia falsa no ar — exceto do ponto de vista técnico —, como ficará Iris Rezende ante a Justiça? Nenhum juiz deixará de condenar Iris Rezende, porque sua “prova” é falsa, portanto não é prova. O que ele tende a fazer? Depois da campanha, sobretudo se derrotado, deverá se retratar, para evitar uma condenação mais grave. Ou vai contar com a impunidade que tanto denuncia nos seus programas?

Exército de Brancaleone

Ronaldo Caiado (Segurança Pública), Jorcelino Braga (Secretaria da Fazenda), José Rico (cotado para a Secretaria da Cultura) e Armando Vergílio (Planejamento ou Detran): Iris Rezende estaria tentando montar um Exército de Brancaleone?

Ronaldo Caiado (Segurança Pública), Jorcelino Braga (Secretaria da Fazenda), José Rico (cotado para a Secretaria da Cultura) e Armando Vergílio (Planejamento ou Detran): Iris Rezende estaria tentando montar um Exército de Brancaleone?

Nos seus programas eleitorais, Iris Rezende afirma que é um político “verdadeiro” — o diálogo atribuído a Jayme Rincon prova que não é sempre assim — e que “não mente”. Porém, se “não mente”, ao menos é um artista da omissão. O peemedebista-chefe não diz uma palavra sobre um fato que pode ser confirmado com o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela.

Quando governador, na segunda metade da década de 1990, Maguito Vilela levou Carlos Cachoeira para gerir a Gerplan, a empresa que passou a cuidar da Loteria do Estado de Goiás. Maguito Vilela e Iris Rezende são do PMDB e foi exatamente este partido que transformou Carlos Cachoeira em homem de Estado. Por que, então, mencionar Carlos Cachoeira apenas como tendo ligações com pessoas do Tempo Novo? Política? Politiquice. Carlos Cachoeira é uma herança deixada pelo PMDB. Por que Iris Rezende não menciona também a ligação de Carlos Cachoeira com políticos do PT de Anápolis? Porque não quer contar toda a verdade. A parte que prejudica seu projeto político não é exposta. Por que Iris Rezende não diz que o ex-senador Demóstenes Torres é uma invenção política de Ronaldo Caiado? Os dois políticos eram íntimos.

No primeiro turno, Iris Rezende se apresentava como “anjo do apocalipse”. A boca espumava mais ódio do que liberava palavras. No segundo turno, reinventado por novos marqueteiros, que o convenceram de que a cara de ódio que fazia mais assustava do que conquistava eleitores, finalmente aceitou a maquiagem pesada para disfarçar as rugas, o rosto vincado, e, sobretudo, suavizou suas feições, aparecendo finalmente como um “anjo redentor”. É quase uma “vítima” dos poderosos. Aos jornais disse que investiu seus próprios caraminguás na campanha. Segundo a revista “IstoÉ”, seu patrimônio é de 185 milhões de reais; o plantador de soja afirma que é de 18 milhões. Bem menos, mas ainda assim, ao contrário do que disse à imprensa, seus recursos não são “minguados”.

Porém, mesmo apresentando-se como anjo decaído que se levantou, Iris não conquistou o eleitorado. Marconi Perillo continua liderando as pesquisas de intenção de voto. Aí alguém, supostamente o marqueteiro Jorcelino Braga — o novo ídolo de Iris Rezende, que, se eleito, o colocará na Secretaria da Fazenda —, deu a dica aparentemente salvadora: o senador eleito Ronaldo Caiado para secretário de Segurança Pública.

Na verdade, o recado de Jorcelino Braga, sempre muito esperto e sedutor, era outro. Ao apresentar Ronaldo Caiado, um político de fato sério e competente, mas instrumentalizado e subjugado pelo irismo, no programa do candidato do PMDB a governador, o marqueteiro queria e quer iludir os eleitores — sugerindo que o deputado federal do DEM será quase um governador, uma espécie de primeiro-ministro. Mais ou menos assim: se Iris for eleito, Ronaldo Caiado é quem vai governar. Pura farsa, é claro, porque Iris é um político autoritário e, se eleito, briga com Ronaldo Caiado no dia seguinte. Já que estão “brincando”, que tal seguirmos Otto Lara Resende: “Basta de intermediários, Ronaldo Caiado para governador”? Na década de 1960, dizia-se: “Basta de intermediários, Lincoln Gordon para presidente” (do Brasil, é claro).

Nos programas eleitorais, de fato, Ronaldo Caiado é mostrado praticamente, não como futuro secretário de Segurança Pública. Os marqueteiros, talvez intencionalmente, estão colocando Caiado no vídeo como se fosse um gigante — de fato, é alto, mas não é nenhum Wladimir Klitschko — e como se Iris Rezende fosse um anão.

Nos bastidores, quando dizem que, ao acatar a determinação de Jorcelino Braga e Iris Rezende, Ronaldo Caiado está cometendo estelionato eleitoral, porque foi eleito para ser senador mas não quer assumir o cargo, talvez a interpretação mais precisa seja outra. O líder do DEM, na verdade, talvez esteja insinuando outra coisa. Ao aceitar ser sugerido para a Secretaria de Segurança Pública, está dizendo, sem palavras, que não acredita na vitória de Iris Rezende de maneira alguma. Porque, se acreditasse, não aceitaria uma incumbência que vai manchar, ante seus eleitores, seu nome íntegro e importante para Goiás.

Decerto, contemporâneo de sua geração, Ronaldo Caiado lembra-se que, quando ministro da Justiça, Iris Rezende era chamado de “capitão do mato” pelo maior jornal brasileiro em circulação, a “Folha de S. Paulo”. Num período em que o governo não conseguia controlar a violência, Iris Rezende, sim, o próprio, saiu com esta pérola: “O crime, muitas vezes, é inevitável”. Agora, na oposição, assegura que é possível resolver todos os problemas de segurança pública com o aumento do efetivo policial. Desfaçatez? Cinismo? Talvez mera politiquice e falta de compromisso com a verdade.

Antônio Gomide foi mais inteligente. Ele apoia a campanha de Iris Rezende de longe, assim como Iris Rezende fez com a campanha de Dilma Rousseff no primeiro turno, e não aceitou sua indicação, que avaliou corretamente como prematura, para o secretariado caça-fantasmas de Iris Rezende. O marqueteiro Jorcelino Braga é cotado para a Secretaria da Fazenda, assim como Irondes Moraes é citado para a Secretaria de Planejamento. José Rico, o cantor, se considera cacifado para a Secretaria de Cultura. O vice de Iris Rezende, Armando Vergílio, quer o Detran, o Planejamento, mas aceita também a Secretaria de Cidadania e Trabalho. O secretariado-fantasma de Iris Rezende é um autêntico Exército de Brancaleone.

Por fim, ao estilo do Flaubert do “Tolicionário” ou “Dicionário de Ideias Feitas”, uma questiúncula das mais curiosas e verdadeiras. Na boca de Iris Re­zende, mudança é uma palavra morta. Não é uma palavra viva, dinâmica. É uma palavra sem sentido e, por conseguinte, morta e, até, obscena.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.