A morte de Aylan Kurdi sugere que a Europa, que explorou Ásia e África, precisa acolher os imigrantes

A morte do menino de 3 anos, que chocou o mundo, indica que a Europa deve criar uma política humanitária para receber aqueles que escapam de países africanos e asiáticos

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Aylan Kurdi, de 3 anos: afogado em Bodrum, na Turquia. Sua mãe e um irmão também morreram. Seu pai escapou | DHA/Associated Press

Dirigente máximo da Alemanha, entre 1933 e 1945, Adolf Hitler era austríaco. Na Primeira Guerra Mundial, conhecida como a Grande Guerra, Hitler, um pintor frustrado, lutou ao lado dos alemães, terminando a batalha como cabo, e condecorado. Em 1923, na cidade de Munique, tentou um putsch e aca­bou preso. Na prisão, escreveu “Mi­nha Luta” e sofisticou, se se pode dizer assim, sua tese de uma Ale­manha poderosa e hegemônica e reforçou suas ideias antissemitas. No poder, ao qual chegou pela via democrática, articulou uma agressiva política, por assim dizer, colonial. Hitler pretendia transformar os países da Europa em grandes colônias dos alemães. É a teoria do espaço vital.

Dentre os países europeus, Hitler tinha uma admiração especial pela Inglaterra. Pensava no país de Shakespeare talvez mais como um par do que um adversário ou inimigo. É possível que a história colonial da Inglaterra tenha inspirado o governante alemão a transformar a Europa numa imensa colônia. É provável que, se tivesse aceitado os acenos de Hitler, a Inglaterra teria sido uma parceira. Entretanto, como decidiu reagir, aliando-se à França e aos poloneses, a Inglaterra tornou-se o adversário a ser destruído.

Durante anos, a Inglaterra e a França, para citar apenas dois países — o pequeno Portugal (menor do que Goiás) também teve colônias na África e na América do Sul —, saquearam a África, a Ásia e a América. Criaram colônias, que se tornaram, a rigor, grandes despensas — em termos de alimentos — e fornecedoras de matérias-primas que foram decisivas em suas respectivas revoluções industriais. Recente­mente, documentos provaram que banqueiros da Suíça financiaram parte significativa do tráfico negreiro. Pode-se falar, por certo, de uma espécie de holocausto negro na África. Milhares de africanos foram retirados de suas terras e comercializados em vários países, como Brasil e Estados Unidos. Milhares morreram durante a captura e a travessia marítima e devido aos maus-tratos nos latifúndios da América. Nos tempos coloniais, as potências europeias saqueavam produtos africanos, asiáticos e americanos — como alimentos, madeiras, ouro, prata e diamantes. Nada tem a ver com marxismo sugerir que, hoje, impera outro tipo de dominação — às vezes deletéria, e não apenas em termos ambientais. Trata-se da dominação econômica. Empresas europeias (Alemanha, França, Itália, Espanha), americanas (Estados Unidos, Canadá) e asiáticas (Japão e China) instalam-se em países africanos, asiáticos e americanos e rapinam, agora pacificamente, seus tesouros, quase todos, como petróleo e ouro, esgotáveis. A sangria continua, só que de maneira democrática, quer dizer, relativamente indolor.

O domínio por intermédio da economia gerou uma racionalidade que o justifica. Por isso “não” há “erro” (ou “maldade”) algum. Costuma-se dizer: “Ah, como africanos e asiáticos não têm recursos tecnológicos e de infraestrutura não terão condições de extrair ouro, diamante e petróleo”. Assim, é vital “convocar” aqueles que dominam as melhores técnicas — notadamente os europeus e os americanos (ou estadunidenses).

Sem novos muros

Se a Europa invadiu a África, a Á­sia e a América, num processo de rapinagem destrutiva — matando milhares de pessoas e tomando seus produtos —, o que dizer dos africanos e dos asiáticos que agora invadem a Europa, não em busca de dominação, e sim de melhores condições de vida? Há quem diga que as pessoas que se aventuram no mar, em embarcações precárias, são “malucas” e “irresponsáveis”. Há mesmo um certo grau disso. Mas, ante o conforto e a segurança da Europa — em larga medida garantidos pela exploração colonial, pai e mãe do Estado do Bem-Estar Social —, o que esperar daqueles que têm fome e vivem, em seus países, num processo de insegurança às vezes total?

Africanos e asiáticos cobiçam a boa vida dos europeus, é certo. Mas com razão. Porque seus parentes e amigos que moram na Europa — Inglaterra, França, Alemanha e Suécia, para mencionar quatro países mais atrativos — enviam notícias positivas e verdadeiras. Mesmo o subemprego — como coletar cocô de cachorros nas ruas de Paris — é mais saudável do que o abandono e o risco de morrer em seus países de origem.

Em 1961, para separar as duas Alemanha, a Ocidental capitalista e a Oriental comunista, os stalinistas criaram o Muro de Berlim. Em 1989, com a derrocada do socialismo, o muro foi posto abaixo e as Alemanhas foram reunificadas. Agora, 26 anos depois da queda do Muro de Berlim, a Europa preocupa-se em construir cercas para conter a poderosa e incontrolável imigração asiática e, sobretudo, africana. Por mais que se queira, impedi-los de chegar e morar na Europa é impossível. Muitos vão morrer, mas, enquanto houver uma possibilidade mínima que seja, africanos e asiáticos vão correr o risco e vão para a Europa.

Se é assim, e como não é possível construir cercas e muros intransponíveis, a Europa tem de repensar sua reação. Países como a Suécia e a Noruega têm políticas mais sociáveis e Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica (citada porque seu passado colonial, no Congo Belga, é de um horror espantoso) têm de adotar políticas semelhantes e acolher os que fogem de variados tipos de desastre. O que se deve fazer é elaborar uma política única, acertada com os países africanos e asiáticos, para absorver os imigrantes. Espancá-los ou mandá-los de volta — no lugar de acolhê-los —, não vai resolver nada. Eles voltarão e cada vez em maior número.
Num gesto de boa vontade, de humanismo, os colonizadores de outrora, o que se enriqueceram com os negócios coloniais, terão de acolher aqueles que, um dia, foram esbulhados de seus bens e, às vezes, até de seus corpos. A Europa, dita civilizada, terá de acolher os imigrantes. Não há outra saída. Os países que não aderirem à histeria anti-imigrantista — apostando na integração — terão uma vida mais tranquila. Os que resistirem verão a guerra nas ruas e dentro de suas casas e empresas.

O menino Aylan Kurdi

Os marxólatras — viciados em marxismo — têm um olho aceso para o coletivo e um olho apagado para o indivíduo. Mas o que empurra o mundo adiante, para o bem e até para o mal, às vezes é a energia do indivíduo. Stálin, forjado por Lênin, e Hitler não criaram sozinhos os totalitarismos (não são idênticos, embora irmãos) comunista e nazista. Entretanto, foram decisivos para que fossem mais radicalizados do que em outros países. Na semana passada, o mundo ficou chocado com a morte de Aylan Kurdi, de 3 anos. O garotinho — que aparece sorrindo em algumas fotografias, ao lado de um irmão circunspecto — fugia, com sua família, do terror na Síria. Terror criado tanto pelo governo da Síria quanto pelo Estado Islâmico (adepto do terrorismo mais cruel).

Doze pessoas, ao escapar da Síria, tentando chegar à Grécia, e daí para outros países europeus — como Alemanha, objeto de desejo de quase todos, por ser mais rica e, eventualmente, tão acolhedora quanto a Suécia —, morreram afogadas no mar, na Turquia, quando os barcos no quais escapavam do terror naufragaram. Entre elas a família de Aylan Kurdi. Um irmão de 5 anos e sua mãe morreram. O pai, Abdullah Kurdi, sobreviveu.
Jornais de todo o mundo publicaram a fotografia do menino morto. Morreram doze pessoas. Mas é a fotografia do menino que mais choca. Por quê? Porque é emblemática. A fotografia mostrando um menininho morto, solitário, em total desamparo, diz muito sobre a impotência dos indivíduos ante os poderes bélicos — fanáticos ou racionalizados — dos tempos modernos. Apesar de dizerem que a civilização “prevaleceu”, que não ocorrerá uma Terceira Guerra Mundial — o poderio bélico excessivo, nuclear, pode destruir todos os seres humanos, o que o torna impeditivo de ser posto em prática —, os homens em guerra continuam matando, torturando, violentando. Na guerra, como se sabe, ninguém é “inocente” — todos são “culpados”. As crianças, que mal sabem o que está acontecendo, são algumas das vítimas. Aylan Kurdi é mais uma vítima de um mundo que fala em civilização mas, na prática, cristaliza e expande a barbárie.

A fotografia de Aylan Kurdi, exposta de maneira crua na imprensa, provocou debate. Poucos condenaram sua divulgação, apesar de que, em si, é uma violência (a violência maior é a que gerou a morte, porém). Mas, sim, sua divulgação é fundamental para que os homens tomem conhecimento do que está acontecendo na Síria e em outros países. A foto, chocante, chamou a atenção de todos. É a força do indivíduo, de uma criança, que, mesmo morta, nos comove, nos informa e nos retira da poltrona para um protesto contra a barbárie.

Uma resposta para “A morte de Aylan Kurdi sugere que a Europa, que explorou Ásia e África, precisa acolher os imigrantes”

  1. Avatar Luiz Carlos Lomba disse:

    Nisso é o que dá a ignorância, ganância e falta de atitudes humanitárias! É muito triste, deprimente!

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