Merece pesquisa o caráter “autônomo” do eleitorado de Goiânia

Na capital de Goiás há um poderoso eleitorado de classe média que decide de maneira independente e é muito menos indeciso do que registram pesquisas

De Norte a Sul do país, os eleitores brasileiros são mais ou menos parecidos, tanto que o sociólogo Alberto Carlos Almeida pôde escrever o livro “A Cabeça do Eleitor — Estratégia de Campanha, Pesquisa e Virada Eleitoral” (Record, 308 páginas). A obra, lógico, trata o eleitorado de maneira genérica, ressaltando o que é comum e, a partir daí, como se pode trabalhar uma campanha (e uma mudança) eleitoral.

Se os eleitores são substancialmente parecidos, há, porém, determinadas especificidades. Candidatos e seus auxiliares, como marqueteiros, precisam conhecer a história dos eleitores das cidades, suas características e possibilidades de mudança, de moderada a radical, num pleito eleitoral.

Há quem aposte que uma espécie de inconsciente coletivo “leva” os eleitores a assumirem uma posição num pleito e, noutra disputa, outra posição, diametralmente oposta. Salta-se da esquerda, com Lula da Silva e Dilma Rousseff, para a direita, com Jair Bolsonaro, e os eleitores das duas facções políticas geralmente são os mesmos. O que determina a mudança? No caso, as denúncias de corrupção, que abalaram o PT, e a crise econômica. Bolsonaro apresentou-se como a continuidade política da Operação Lava Jato, como cavaleiro andante do combate à corrupção e o gestor que, com o economista Paulo Guedes ipirangamente ao lado, iria recuperar a economia do país. Deu, eleitoralmente, certo. A direita venceu a esquerda.

Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso: os dois políticos que os eleitores de Goiânia escolheram para a disputa no segundo turno. Porque são apontados como gestores experientes e eficientes | Foto: Reprodução

Os eleitores foram iludidos pela retórica de Bolsonaro? Talvez não. É provável que tenham visualizado no ex-capitão do Exército a possibilidade de se livrar do PT, o da corrupção e da crise econômica. Muito possivelmente, exceto pelos radicais — que são poucos, mas, por “gritarem” alto, parecem muitos —, a maioria dos eleitores não raciocina de maneira ideológica, em termos de direita e esquerda. Porque, no fundo, são tão pragmáticos quanto os políticos. Se a situação está ruim, em termos de consumo e a moralidade aparenta não ter importância, é hora de trocar aqueles que estão no poder.

A poderosa e autônoma classe média

Os eleitores de Goiânia são diferentes? No básico, não. Mas há uma especificidade, que, para ser afirmada de maneira peremptória, demandaria estudos detidos. Mas vamos ao menos sugerir uma hipótese: há indícios de que os eleitores da capital são mais independentes e críticos da política, dos políticos e dos gestores públicos. Qual a causa dessa autonomia posicionada?

Goiânia parece ter uma classe média forte e que, instalada na iniciativa privada, como proprietários ou trabalhadores, se comporta de maneira autônoma em relação aos poderes.

Como vota tal classe média autônoma? Vota de maneira livre, sem aceitar pressões de nenhuma espécie.

Os eleitores da capital parecem observar e avaliar os candidatos e seus projetos com extrema atenção. As pesquisas quantitativas “erram” porque não têm como não caracterizar o eleitorado que está avaliando, até bem perto do dia da eleição, como “indeciso”. As quantis são necessariamente rígidas, não há espaço para a, digamos, “indecisão avaliativa” dos eleitores. Se ainda não têm candidato, pronto, são alocados na pesquisa como “indecisos” ou “não sabem”. As pesquisas qualitativas, de caráter abrangente, tendem a mostrar que o eleitorado é mais posicionado do que, à primeira vista, parece.

Em palavras mais chãs, o eleitorado de Goiânia não aceita, em nenhuma hipótese, ser encabrestado politicamente. Qualquer marketing de campanha tem de ser feito a partir disso, quer dizer, da percepção de como os eleitores da capital decidem e votam. Por isso, a inteligência — e a intelligentsia — das campanhas precisam ter uma percepção objetiva de que tais votantes não podem ser manipulados nem iludidos. Porque, de cara, percebem a falta de lógica de determinadas propostas, seus exageros. Ao mesmo tempo, críticas destemperadas, sem nuances, são desconsideradas.

Ronaldo Caiado e Gustavo Mendanha: os dois políticos transferem votos em Goiânia, mas vale a ressalva de que o primeiro é forte em todo o Estado | Foto: Reprodução

A escolha de Vanderlan Cardoso, do PSD, e de Maguito Vilela, do MDB, para a disputa no segundo turno sinaliza que os eleitores escolheram os melhores postulantes? O que se sabe é que escolheram, de maneira racional, os dois que têm mais experiência em termos de gestão. Fica-se com a impressão de que os eleitores querem um Iris Rezende “remoçado” — menos “analógico” e mais “digital”, por assim dizer —, e não uma aventura, uma aposta no escuro. Daí a escolha por quem já administrou cidades de médio e grande porte. Uma pesquisa examinada pelo Jornal Opção mostra que Maguito Vilela é lembrado como ex-prefeito de Aparecida de Goiânia e Vanderlan Cardoso é lembrado como ex-prefeito de Senador Canedo. Ambos são vistos como administradores acima da média. São suas marcas na história.

Outra pesquisa indica que os eleitores de Goiânia avaliam de dois a, no máximo, três candidatos — os demais são esquecidos. Não se pode sugerir que os eleitores os avaliaram como ruins. Na verdade, políticos como Adriana Accorsi, do PT, e Elias Vaz, do PSB, foram deixados de lado. Curiosamente, num primeiro momento, os eleitores começaram a avaliar Vanderlan Cardoso, Maguito Vilela e Adriana Accorsi. Entretanto, rapidamente, deixaram a postulante petista de lado e se concentraram em Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso. Por quê? Não se sabe exatamente. Mas talvez porque os postulantes do MDB e do PSD têm mais experiência e, por isso, os eleitores apostaram na polarização. Sim, os eleitores decidem quem vai polarizar — e, mais uma vez, parece ser a lógica de um, na falta de melhores palavres, “inconsciente coletivo”. Não é intuição, não. É lógica, e das mais rigorosas.

Políticos e jornalistas às vezes querem que os eleitores sejam como eles, isto é, que pensem em política o tempo todo. Mas os demais cidadãos, que têm de tocar suas vidas, de cuidar de suas empresas e de seus trabalhos, precisam pensar em várias outras coisas — inclusive em seu time de futebol, no desenrolar da novela e da nova série, com a luta de Mike Tyson e Roy Jones, com a prestação do automóvel e da casa própria ou o novo romance de Edival Lourenço, Milton Hatoum ou Cristovão Tezza. O tempo dos eleitores é outro, o que não quer dizer que não estejam atentos. Estão. Só que avaliam que qualquer decisão eleitoral tem de ser feita em cima da hora, depois da avaliados os candidatos. De muito bem avaliados.

O apadrinhamento político

Há outro aspecto: os eleitores da capital de 87 anos avaliam com extremo cuidado o apadrinhamento dos candidatos. A impressão que se tem é que o padrinho pode ser mais forte, mas não muito mais forte do que o apadrinhado. Mesmo excelentes governadores — muito bem avaliados — raramente conseguem eleger o prefeito de Goiânia. Há alguma razão ainda não devidamente explicitada. Mas é possível que os eleitores queiram, de alguma maneira — consciente ou não —, dividir o poder, mantendo na prefeitura um candidato de oposição ao governador. Parecem sugerir, sem explicitar, que a democracia fica mais reforçada com a divisão dos poderes.

Nion Albernaz foi um dos primeiros a perceber o caráter autônomo do eleitorado de Goiânia; ao se afastar de Iris Rezende, se consolidou como principal líder da cidade | Foto: Reprodução

Nion Albernaz se tornou um político mais forte em Goiânia ao se distanciar do apadrinhamento do ex-governador Iris Rezende. Fortaleceu sua identidade. Ele certamente examinava pesquisas e, ao mesmo tempo, era extremamente perspicaz. Os eleitores de Goiânia não apreciam a ideia de que o padrinho, um dia, possa transformar a prefeitura numa espécie de secretaria do governo. Nion Albernaz não aceitou isto e, repetindo, se fortaleceu a partir daí.

Não se está dizendo que o padrinho não conta. Se bem avaliado, conta, e muito. Mas os eleitores costumam recear, é o que parece, que o apadrinhado vá se submeter, o que nem sempre ocorre, claro. Em Goiânia, nesta eleição, deu-se dois “apadrinhamentos”. Paradoxalmente, o prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB), se tornou padrinho daquele, Maguito Vilela, que, outrora, fora seu “criador”. Como a gestão do emedebista é bem avaliada (foi eleito com 95% dos votos válidos, o que lhe rendeu até cumprimento do presidente Jair Bolsonaro), e Goiânia e Aparecida são conurbadas (até no nome), é possível que Mendanha tenha puxado votos para o veterano Maguito Vilela. Pode-se dizer também que o governador Ronaldo Caiado, muito bem avaliado pelos eleitores, também puxou votos para Vanderlan Cardoso.

Roberto Naves, prefeito de Anápolis: um dos maiores vencedores do pleito de 2020, com o gestor impulsionando o  político e vice-versa| Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Fica, porém, a ressalva de que Mendanha é, politicamente, menor do que Maguito Vilela e que Ronaldo Caiado é, politicamente, maior do que Vanderlan Cardoso. Há alguma questão a partir disso que ainda precisa ser destrinchada pela ciência política, e não necessariamente por um editorial de jornal.

Veja-se outro caso exemplar: o prefeito de Anápolis, Roberto Naves, do partido Progressistas, recebeu vários apoios, mas não ficou caracterizado que se tornou apadrinhado. A vitória, se confirmada, é dele. É resultado da obstinação de um político que tem futuro.

O leitor-eleitor há de opor uma ressalva no raciocínio do Editorial: como explicar a vitória de Marden Júnior (Patriota) em Trindade? De fato, o jovem prefeito eleito foi apadrinhado pelo prefeito Jânio Darrot (PSDB). Mas é preciso frisar três coisas. Primeiro, Jânio Darrot se tornou um ícone político da cidade, com profunda identificação com seus cidadãos. Segundo, ao lançar um candidato jovem, mas com fama de gestor eficiente, contribuiu para desbancar candidatos tradicionais, como o Dr. Antônio Carlos Caetano (DEM) e o ex-prefeito George Morais (PDT). Marden Júnior pôde ser apresentado como a renovação, o que, de fato, é. Porque a renovação não advém necessariamente do que é considerado “novo”. Terceiro, os eleitores de Goiânia e Trindade são diferentes. Na segunda cidade, não há uma classe média tão forte.

Jânio Darrot: uma figura icônica da cidade de Trindade | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Há, quem sabe, outra lição para alguns candidatos. No primeiro turno, durante os programas do Horário Eleitoral Gratuito, alguns postulantes gritavam e atacavam seus adversários. Davam a impressão de que estavam fazendo campanha para deputado estadual e estadual (e talvez estivessem mesmo). Para a disputa do Executivo, os eleitores apreciam candidatos críticos e substantivos, mas não aqueles que fazem ataques gratuitos. Os que dizem que está tudo errado, mas não apresentam um projeto crível, acabam por serem abandonados pelos eleitores antes mesmo do dia da votação. Gritam, gritam, gritam. Mas ninguém presta atenção. O candidato que quer destruir o “outro”, e não a construção da aceitação de seu perfil, também costuma entrar para a turma dos olvidados.

Resta lamentar que, doente em decorrência da Covid-19, Maguito Vilela não teve como debater a cidade com seus adversários, notadamente Vanderlan Cardoso, no segundo turno. A longa internação do candidato do MDB dificulta uma análise ampla do que aconteceu em Goiânia no pleito deste ano. Mas não invalida o que se disse de a cidade ter uma classe média autônoma e que parece ter apreço pela divisão do poder.

Campanhas deixam as pessoas agitadas, retirando-as do padrão cotidiano, comportando-se às vezes como torcedoras e até fãs. Mas o que importa mesmo é a vitória da democracia, sua estabilidade. As arestas, como sabem os políticos e os jornalistas, são aparadas posteriormente (questionamentos duram um mês ou um pouco mais, mas acabam por cessar). Porque o convívio entre adversários, sobretudo quando se trata de administradores públicos, é decisivo tanto para Goiânia quanto para o Estado (o crescimento da economia de Goiás depende do crescimento da economia de todas as cidades). Passada a disputa, é hora de estender as mãos, em sinal de paz, respeito e senso democrático.

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