Mendanha “namora” Perillo, mas demora a assumi-lo em público

Os eleitores sabem que o prefeito de Aparecida de Goiânia e o ex-governador estão umbilicalmente ligados e que não dá para esconder um elefante

Pode-se sugerir que há uma modernização política e administrativa em Goiás. Há uma moralidade nas contas do governo do Estado poucas vezes vista antes. Há um novo padrão moral, por assim dizer. Até agora, não há notícia de propina, de aditivos avultados nas obras.

Ronaldo Caiado: o governador está organizando o Estado para que possa crescer de maneira equilibrada e com responsabilidade fiscal | Foto: Divulgação

A rigor, pode-se dizer que o governador Ronaldo Caiado recebeu uma verdadeira “bomba” — um rombo excepcional nas contas públicas, por imperícia na gestão —, que deveria explodir em seu governo. Talvez não seja inadequado postular que aqueles que “deixaram” o governo sabiam que o Estado estava com a, digamos, “contabilidade” em frangalhos.

Sendo assim, Ronaldo Caiado poderia ter se acomodado, deixando o Estado se arrebentar. Poderia transferir a culpa para os gestores anteriores — que são, de fato, os principais responsáveis pelos problemas financeiros de Goiás.

Lissauer Vieira, presidente da Assembleia Legislativa, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado / Foto: Felipe Cardoso/Jornal Opção

Entretanto, como gestor responsável, Ronaldo Caiado optou por enfrentar os problemas, inclusive os de maior gravidade — como a questão da dívida —, de frente, quer dizer, como prioridade. Amparado na lei, em decisão do Supremo Tribunal Federal, o governo suspendeu, em caráter provisório, o pagamento dos juros da dívida.

Aos poucos, com uma política rigorosa — exemplo para outros Estados —, Ronaldo Caiado ajustou a máquina. Frise-se que a ação do ministro Gilmar Mendes, do STF, e a sustentação da Assembleia Legislativa, operada por Lissauer Vieira, foram (e são) decisivas para o sucesso dos ajustes.

No meio do caminho havia, porém, um drummond — a pandemia do novo coronavírus. No lugar de reclamar, Ronaldo Caiado optou por reestruturar o sistema de saúde de todo o Estado — adequando-o, em tempo recorde, para atender as pessoas que contraíram a Covid-19. Desde o primeiro momento, o governador se preocupou, em primeiro lugar, com a vida das pessoas, por considerar que a vida é uma só — não tem estepe. Recursos tiveram de ser redirecionados para o combate à Covid.

Ronaldo Caiado e o ministro Gilmar Mendes | Foto: Reprodução

Mesmo tendo de gastar mais com saúde, Ronaldo Caiado não parou o governo. Pelo contrário. Melhorou a segurança pública — hoje considerada um modelo. As estradas estão sendo recuperadas e a malha rodoviária ampliada. E, repetindo, preservando a moralidade pública. Os escândalos de outros governos não estão se repetindo. Os aditivos que faziam fortunas de alguns também desapareceram do mapa. A Educação deu um salto qualitativo. Goiás obteve a melhor nota do Ideb. Mérito do governador, da secretária da Educação, Fátima Gavioli, dos professores e dos alunos. O grau de satisfação de pais e alunos com o apoio que têm recebido na área de Educação ainda não foi devidamente avaliado pela mídia. É provável que o carro-chefe do sucesso do governo de Ronaldo Caiado seja a Educação.

Goiás vai bem, em termos administrativos e de moralidade. Pode se falar em modernização dos hábitos de gestão e de se tratar o patrimônio público. Os defensores de Ronaldo Caiado postulam um novo mandato para o governador tendo em vista a ideia de modernização continuada. Com a casa em ordem, com a restauração da seriedade no trato do dinheiro público, argumenta-se que se poderá fazer mais entre 2023 e 2026.

Não se esconde um elefante

A oposição, no momento, tem dois nomes — Gustavo Mendanha (de saída do MDB) e Jânio Darrot (Patriota) — e poderá surgir um terceiro, Kátia Maria ou Wolmir Amado, ambos do PT, para a disputa do governo do Estado.

O petismo gostaria de apoiar um candidato de outro partido, desde que oferecesse palanque para Lula da Silva, o postulante do PT a presidente da República, em Goiás. Como dificilmente haverá uma composição com a esquerda, é provável que Wolmir Amado (ou Kátia Maria), ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), seja o candidato a governador pelo PT.

O projeto da dupla Mendanha-Perillo não é com o presente e o futuro, e sim com uma espécie de restauração do passado. Estão em busca do “tempo perdido” — o do marconismo — e não da descoberta de novos tempos

O ex-prefeito de Trindade e empresário Jânio Darrot (Patriota), inicialmente, demonstrou forte interesse em disputar o governo. Mas já não parece tão animado. Tanto que seu principal articulador, Jorcelino Braga, já mantém conversações com Gustavo Mendanha, prefeito de Aparecida de Goiânia.

Gustavo Mendanha e Marconi Perillo: aliados nos bastidores, mas, por enquanto, escondidos dos eleitores | Foto: Reprodução

Mendanha vai sair do MDB, brevemente, para disputar o governo. Ele tem convites do Podemos, do Patriota, do PL e do PSDB. E mantém conversações com o Republicanos, partido presidido pelo deputado federal João Campos, mas controlado, na verdade, pela Igreja Universal.

Adolf Hitler chegou ao poder, na Alemanha, em 1933, sem golpe político, ou seja, pela via democrática. Era o “novo”. Sim, o “novo” que levou o país a uma guerra de destruição. No poder, matou milhões de seres humanos — 6 milhões deles eram judeus, assassinados brutalmente nos campos de concentração e extermínio (como Auschwitz e Treblinka) — em batalhas cruentas com ingleses, russos, norte-americanos e brasileiros (25 mil soldados patropis lutaram na Itália contra o nazifascismo — 111 deles goianos). Ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a Alemanha estava destroçada. O país acabou por ser dividido, um pouco mais tarde, em Alemanha Ocidental (capitalista) e Alemanha Oriental (comunista). Só com queda do Muro de Berlim, em 1989, se processou a reunificação.

O “novo”, portanto, nem sempre é o melhor. Às vezes é o “velho” sob carapaça nova. Veja-se o caso de Mendanha — que, claro, não deve ser comparado a Hitler (o político goiano, embora seja conservador, é democrata, não é adepto de ideias totalitárias).

Mendanha apresenta-se como o “novo” — e, frise-se, que o “novo” tem pouco a ver com idade (porque há jovens que são mais retrógrados, em termos de ideias e práticas, do que pessoas mais velhas). Às vezes, o “novo” nada tem a ver com “renovação”.

Mas Mendanha realmente é o “novo”? Talvez seja, mas não parece. Em termos comportamentais, o prefeito talvez seja tão retrógrado quanto o presidente Jair Bolsonaro.

Como não tem o apoio do ex-deputado federal Daniel Vilela e de nenhum prefeito do MDB, Mendanha procurou outra turma, numa espécie de pacto faustiano, por meio do qual, acreditando que subordinará, tende a se subordinar às raposas do PSDB, notadamente Marconi Perillo.

Wolmir Amado: o ex-reitor da PUC-Goiás pode disputar o governo do Estado ou mandato de deputado federal | Foto: Edilson Pelikano/Jornal Opção

Mendanha está se deixando levar para um projeto que, a rigor, nem é seu. Na verdade, ele está se tornando instrumento de Perillo — que quer voltar ao poder, ainda que de modo indireto, via um preposto.

O projeto da dupla Mendanha-Perillo não é com o presente e o futuro, e sim com uma espécie de restauração do passado. Estão em busca do “tempo perdido” — o do marconismo — e não da descoberta de novos tempos.

Mas há um drummond no meio do caminho. Mendanha “namora” — sublinhe-se, no sentido político e metafórico — Perillo, mas nas sombras. Eles se encontram com frequência, há inclusive notícia de que o prefeito frequenta o apartamento do ex-governador em São Paulo, mas não há fotografias recentes da dupla dinâmica.

Porque Mendanha quer o conforto de “namorar” Perillo, mas não ousa apresentá-lo à sociedade. Há lógica na ação escorregadia do prefeito. A rejeição de Perillo permanece alta. Há registro, em pelo menos uma pesquisa qualitativa, que a junção deles é “positiva” para Perillo e “negativa”, até muito negativa, para Mendanha. Seria altamente “contaminante” para o prefeito e relativamente “limpante” para o ex-governador. Por isso se falou acima de pacto faustiano.

Katia Maria: um dos nomes do PT para o governo | Foto: Divulgação

As pesquisas mostram que os eleitores sabem que Perillo responde a processos judiciais e chegou a ser preso pela Polícia Federal, a pedido da Justiça Federal. Por sinal, recentemente, apoiadores de Mendanha sugeriram que são contrários a uma coalizão com a participação do prefeito, de Perillo e do ex-ministro Alexandre Baldy (que também chegou a ser preso pela Polícia Federal). Seria, na opinião deles, a “aliança das algemas”.

Mas Mendanha não terá condições de esconder o “namoro” com Perillo por muito tempo. Porque, como se sabe, não dá para camuflar um elefante numa loja de louças.

Espaçoso, até pelo histórico de quatro vezes governador de Goiás, Perillo hoje praticamente controla a “pré-campanha” de Mendanha — na verdade, uma campanha extemporânea ainda não devidamente examinada pelo Ministério Público e pela Justiça Eleitoral. Não pense o prefeito que, quando acordar do sonho mesmerizante, será o senhor de seus passos.

Jânio Darrot: o ex-prefeito de Trindade não estaria muito animado | Foto: Divulgação

Nas visitas ao interior, por exemplo no Norte goiano, a recepção tem sido feita por tucanos — regiamente controlados e orientados por Perillo e sua estrutura. Talvez se possa dizer que Mendanha é, hoje, o mais tucano dos não-tucanos. É possível postular, até, que o prefeito é o mais novo dos marconistas.

Se Perillo está aceitando ser “escondido” por Mendanha, por uma questão tático-estratégica, não o admitirá para sempre. A partir de determinado momento, o tucano vai aparecer publicamente ao lado do prefeito. Ele forçará a barra e não haverá escapatória.

Por se considerar uma espécie de “mito”, Mendanha não percebe que, dada sua história, Perillo é maior do que ele. O ex-governador sente-se “inferiorizado” pelo desgaste político — derivado em parte de sua prisão pela Polícia Federal —, mas, na campanha do prefeito, vai ocupar o centro do palco, mesmo não fazendo parte da chapa majoritária (tende a disputar mandato de deputado federal).

Na campanha, durante todo o tempo, Mendanha será apresentado como “o candidato de Marconi Perillo”. Ao mesmo tempo, aqui e ali, terá de explicar inclusive os problemas judiciais de Perillo, o que pode ser constrangedor. Se não fizer a defesa do aliado, ficará mal, porque passará a ideia de que o considera “culpado”. Se fizer a defesa, estará atacando, de maneira frontal, tanto a Justiça Federal quanto o Ministério Público Federal e a Polícia Federal. Será complicado.

Aliados de Perillo sugerem que, no caso de Mendanha continuar escondendo-o em público — mas mantendo um diálogo efetivo e afetivo privadamente —, há inclusive a possibilidade de o tucano disputar o governo. Mas é uma hipótese remota, pois o ex-governador “precisa” do prefeito. Porque, com ele concorrendo ao governo, poderá disputar mandato de deputado federal. Perillo é a rêmora de Mendanha e este é a rêmora daquele. Se há uma perillodependência, há também um mendanhadependência. Os dois políticos certamente, daqui a pouco tempo, terão de assumir que o “namoro” — ainda que relativamente escondido — deve virar “casamento” em 2022. O divórcio? Virá logo, em caso de derrota. Porque, se Mendanha for derrotado, ficará na chapada. Talvez volte a tomar Mioranza, em Paris-Cida. O tucano continuará a tomar, por certo, Romanée-Conti — quiçá em Paris, França.

Fica-se com a impressão de que Mendanha acredita que os eleitores não sabem de sua ligação com Perillo. Convém não subestimar a inteligência deles. Goiás, em peso, sabe que Perillo é a eminência parda das articulações políticas de Mendanha. É melhor assumir o “namoro”.

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