Lula da Silva trabalha para ganhar no 1º turno pra evitar golpismo de Bolsonaro?

Uma vitória no segundo turno, se apertada, pode gerar contestações, com a possível sugestão de que houve fraude nas urnas eletrônicas

Jornalistas e petistas moderados — a direita da esquerda, diz-se — criticam o discurso supostamente “radicalizado” do pré-candidato do PT a presidente da República, Lula da Silva. O que, exatamente, estão chamando de “radicalização”?

O petista-chefe estaria fazendo a defesa do aborto e sugeriu que o povão obtenha os endereços dos parlamentares e bata à porta de suas casas pressionando-os a contribuir para melhorar o país.

“O que eu disse é que é preciso transformar essa questão do aborto em uma questão de saúde pública. Mesmo eu sendo contra o aborto, ele existe”, afirma Lula da Silva. De fato, só hipócritas “ignoram” que há “clínicas” que fazem aborto, em todo o país, desde que as pessoas tenham condições de pagar em dinheiro vivo (não se costuma aceitar cartão de crédito e cheque). Em Goiânia, durante anos, três “clínicas” funcionaram no Setor Universitário (os médicos D. e A.L. se tornaram “celebridades”), nas proximidades do Hospital das Clínicas, na Rua 3, no Centro, e no setor Cidade Jardim. Médicos contam que estavam sempre cheias. Mulheres pobres, pelo contrário, não têm acesso a tais lugares relativamente refinados e, quando tentam abortar (inclusive com agulhas de croché e uma série de medicamentos e chás), eventualmente morrem. Portanto, como disse o postulante petista, o “aborto” precisa ser visto como “uma questão de saúde pública”.

Sobre a recomendação de que o povão incomode os parlamentares, de quaisquer partidos, Lula da Silva está dizendo aquilo que, na prática, já tem sido feito com frequência. Pode-se falar, até, que muitos políticos, quase todos, sofrem bullying com frequência. As redes sociais promovem verdadeiros massacres verbais.

Quanto à proposta de regular a mídia, trata-se de um “sonho” antigo do PT e de Lula da Silva. Chegou-se a tentar aprovar a regulação, durante os governos presidenciais do petismo, mas, ante a resistência da sociedade e dos jornais e emissoras de rádio e televisão, houve um recuo estratégico. Agora, vinte anos depois da primeira vitória eleitoral do petista, retoma-se a mesma cantilena.

Não há dúvida de que o presidente Jair Bolsonaro, do PL, e o ex-presidente Lula da Silva não são iguais. Mas, quando se trata de imprensa, o comportamento de ambos é autoritário. Porém, apesar de atacar jornalistas, de criticá-los de maneira desrespeitosa, Bolsonaro não atuou, em termos de aprovação de projeto, para controlar a imprensa, ou, como costumam dizer, a mídia. O petista, pelo contrário, insiste com o tema da regulação da imprensa. Há, inclusive, jornalistas que o defendem, cometendo uma espécie de “jornalisticídio”.

Se há uma Constituição, se há leis, com a Justiça à disposição de quem se sentir ofendido por algum excesso, ou erro doloso, não há a mínima necessidade de presidente da República se preocupar com regulação da imprensa. Petistas que cobram “moderação” de Lula da Silva, que sugerem que o PT se aproxime do centro e do mercado — até a presidente do partido, Gleisi Hoffman, que é vista como radical, tem conversado com empresários e banqueiros —, deveriam convencê-lo de que a tese de “controle” da imprensa é tolice rematada. Primeiro, se eleito, dificilmente conseguirá aprovar uma lei neste sentido. Segundo, o tema gera um desgaste inútil. Entretanto, não deixa de ser estranho que a mídia, exceto a “Veja” e o “Estadão”, trate o “pré-autoritarismo” do PT com luvas de pelica. Como se seu posicionamento fosse irrelevante.

Há pouco tempo, com proposta de um deputado do PT, o Congresso iniciou uma discussão sobre um certo controle do Ministério Público. Se eleito, por motivo de vingança, Lula da Silva se voltará contra o MP, que, errando e acertando, é um dos maiores avanços da sociedade brasileira, sobretudo por contribuir para a redução da impunidade dos poderosos? Talvez não. Porque a sociedade brasileira estará de olho no seu governo e qualquer avanço autoritário será tanto denunciado quanto combatido. E, claro, o petista teme as Forças Armadas — que voltaram a se envolver com a política partidária. O limite a uma possível onda autoritária, um dique institucional, certamente estará nos poderes Legislativo e Judiciário. E há o paredão militar.

Por sinal, uma das declarações mais importantes de Lula da Silva tem a ver com os militares. O petista disse que, se for eleito, vai “desmilitarizar” o governo federal. Ou seja, planeja retirar “quase 8 mil militares que ocupam cargos comissionados”. Trata-se mesmo de um número vultoso e devolvê-los aos quartéis (ou à aposentadoria) não será fácil, sobretudo por causa dos altos salários que estão recebendo, há três anos e quase quatro meses.

Mas devolver militares aos quartéis, à proteção do país, é uma tarefa crucial (a fala de Lula da Silva: “Exército não serve para política, ele deve servir para proteger a fronteira e o país de ameaças externas”. É provável que a maioria dos generais, dos almirantes e dos brigadeiros pensa a mesma coisa). É importante para a democracia. Ter um “exército” dentro do governo, com alta remuneração, pode, eventualmente, contribuir para uma tentativa de golpe? Não se sabe ao certo. Mas qualquer que seja o próximo presidente, exceto Bolsonaro, terá como missão desmobilizar as Forças Armadas que estão nos poros do governo federal. Dizia-se que o PT havia aparelhado o governo, e de certo modo a crítica não é falsa. Mas também não é falso que Bolsonaro “militarizou” o governo, ou seja, o aparelhou.

Lula da Silva e Geraldo Alckmin: uma chapa de centro-esquerda | Foto: Reprodução

A coragem de Lula da Silva de expor um tema espinhoso, e neste momento — quando Bolsonaro ancora seu poder no Centrão e nos militares —, é louvável. Porque já se fica sabendo o que ele, uma vez no poder, pretende fazer. Quer dizer, não está enganando os militares nem os eleitores.

Mas Lula da Silva deveria seguir o exemplo de Tancredo Neves e José Sarney, na primeira metade da década de 1980, quando se aproximaram de alguns militares e, deste modo, conseguiram uma transição pacífica para a democracia. Há uma certa resistência ao ex-presidente nas Forças Armadas. Por dois motivos. Primeiro, por causa da questão da corrupção dos governos petistas. Segundo, porque os militares apoiam, no geral, Bolsonaro. Porém, o presidente, de maneira inadvertida, tem entrado em choque com referências ético-morais das Forças Armadas — como o vice-presidente Hamilton Mourão (que tem uma paciência de Jó, comportando-se, mais do que Bolsonaro, como estadista), Santos Cruz, Fernando Azevedo e Silva, Edson Pujol, Otávio Rêgo Barros e, mais recentemente, Joaquim Silva e Luna (defenestrado, de maneira vexatória, da presidência da Petrobrás por Bolsonaro). Todos são generais seriíssimos, respeitados pelos colegas e pela sociedade.

Uma interlocução serena com militares será uma garantia de que, no caso de vitória de Lula da Silva, não se terá um golpe de Estado.

Por que Lula da Silva trabalha a montagem de uma frente política para tentar ganhar a eleição já no primeiro turno?.

Primeiro, pelo motivo óbvio de que uma eleição de primeiro turno sai menos “dispendiosa” financeira e politicamente. Os compromissos na estruturação do governo, da equipe, serão menores.

Segundo, há a questão de que uma vitória no primeiro turno, mesmo sem larga maioria, é mais difícil de contestar do que uma vitória apertada no segundo turno. Bolsonaro, se perder no segundo turno por uma margem estreita de votos, pode começar uma campanha contra a posse de Lula da Silva (há um precedente: em 1955, Juscelino Kubitschek venceu com 35,68% dos votos, e mesmo os líderes da UDN, como Carlos Lacerda, sabendo que não havia segundo turno, começaram uma campanha para evitar a posse do presidente eleito pelo PSD). Vão culpar a urna eletrônica, alegando que houve fraude? É possível. As forçadas Armadas, sobretudo o Exército, podem bancar um golpe de Estado? Não dá pra saber. O general Braga Neto, o provável vice de Bolsonaro, poderia operar uma resistência à posse do petista? Também não dá para saber. Até agora, apesar dos arroubos autoritários, tanto de Bolsonaro quando de Braga Neto, os militares que os apoiam seguem no sendeiro democrático.

Na segunda-feira, 4, Lula da Silva disse: “Não vai ser fácil, não é uma guerra que está ganha. É uma guerra que a gente pode ganhar”.

O petista tem razão. Não será fácil vencer Bolsonaro, que está crescendo aos poucos, aproximando-se do líder nas pesquisas de intenção de voto. No momento, a liderança ainda é folgada, mas, enquanto o postulante da direita vai subindo, progressivamente, o pré-candidato da esquerda estagnou.

Petistas moderados, como Jaques Wagner, assustaram-se com as palavras recentes de Lula da Silva — por exemplo, a respeito do aborto. Não porque sejam contrários ao que o pré-candidato disse, e sim porque uma posição “aberta” em relação ao tema choca e afasta o eleitorado conservador, sobretudo o evangélico. O momento é de agregar, de “ciscar para dentro”, dizem os políticos. Mas, ante uma posição relativamente confortável, o ex-presidente estaria “falando demais”.

Lula da Silva está errado? Do ponto de vista eleitoral, talvez sim. Porém, é importante que os eleitores, progressistas ou conservadores, saibam qual é o verdadeiro pensamento do petista. Noutras palavras, não se deve enganar a sociedade com palavras doces que, mais tarde, serão acres. Portanto, deixemos o petista falar, abertamente, sobre os temas que interessam ao cidadão.

Há petistas “acalmando” o mercado, que também anda agastado com Bolsonaro, mas Lula da Silva apresentou duas ideias que chocam empresários e banqueiros.

O pré-candidato sublinhou que é contrário ao teto de gastos. O mercado se posiciona de outra maneira: o teto de gastos, cumprido, melhora a imagem do Brasil interna e externamente. Porque, de acordo com esta visão, ajuda a equilibrar a economia.

O petista de 76 anos desagradou quando disse que planeja “‘colocar o pobre no orçamento’ e os ricos no imposto de renda com a taxação de lucros e dividendos, que hoje são isentos”. Parece coisa de comunista? Nada que os países nórdicos, onde impera a social-democracia, não façam há anos, com chiadeira mas também apoio da sociedade.

Falta a Lula da Silva, é claro, dizer se vai apostar numa “ampliação” do poder do Estado. Ao contrário do que pensam certos liberais, o Estado é crucial num país com vagas de extrema pobreza. Mas um Estado gigantesco, com uma fome pantagruélica, drena recursos da sociedade. Arrecadar mais? Tudo bem. Mas o que se vai fazer do dinheiro acumulado? (distribui-lo em tratoraços pelo interior do país, até para cidades que não estão precisando de tratores, como estão fazendo com os recursos do Orçamento Secreto?). É a questão. As classes médias, escorchadas pelo governo federal, pagam um imposto de renda relativamente alto, mas não recebe em troca educação e saúde de qualidade. Tanto que são obrigadas a recorrer a escolas particulares e a planos de saúde privados.

De resto, o quadro da eleição presidencial continua aberto, mas Lula da Silva e Bolsonaro permanecem como favoritos. O tucano Eduardo Leite seria uma alternativa? Pode até ser. Mas primeiro precisa conseguir ser pelo menos pré-candidato, o que ainda não é. Ciro Gomes e Simone Tebet, políticos articulados e respeitáveis, parecem não ter a mínima chance. Vale lembrar que a eleição será disputada daqui a cinco meses e 20 dias. O tempo é suficiente para que ocorram reviravoltas.

Uma resposta para “Lula da Silva trabalha para ganhar no 1º turno pra evitar golpismo de Bolsonaro?”

  1. Avatar Denis Robson disse:

    Ninguém vence o Bolsonaro!!!

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