Livro de Fernando Henrique Cardoso diz que sociedade desconectou-se dos políticos

Para se conectar aos indivíduos contemporâneos, os políticos devem articular novo diálogo, verdadeiro e direto — sem subterfúgios

Livro de Fernando Henrique Cardoso sugere uma pauta para o candidato a presidente da República: “Uma agenda progressista e contemporânea para o Brasil deve ser libertária em relação aos temas comportamentais e decididamente socialdemocrata”

A história não para. A mudança sempre ocorre — mes­mo naqueles momentos que aparentemente são de estagnação. Mas se trata de fato que há momentos em que o mundo se movimenta numa velocidade de carros de Fórmula 1. Quando a mudança é rápida há quase sempre certos descompassos. Quem não se adapta aos novos tempos se torna nostálgico — um exemplo político é o prefeito de Goiânia. Iris Re­zen­de desconectou-se, inteiramente, dos goianienses atuais — “dialogando” com indivíduos que só “existem” no passado (na memória do decano do MDB). Em determinados tempos os políticos são porta-vozes da sociedade, guiando-a na bonança e, sobretudo, no enfrentamento das tempestades. Agora, pelo contrário, falta sintonia entre os indivíduos e os políticos, com aqueles não se sentindo representados por estes. Uma coletividade que não se sente representada fica, por vezes, à deriva.

Aos 86 anos, Fernando Hen­ri­que Cardoso lança um livro que, além de discutir o presente, tenta lançar luzes sobre o futuro… imediato. “Crise e Reinvenção da Política no Brasil” (Companhia das Letras, 240 páginas) conta com a colaboração de Miguel Darcy de Oliveira e Sergio Fausto. Não se trata de uma bíblia para entender o presente — o próprio autor se mostra perplexo —, e sim de uma abertura para gerar e ampliar o debate, que tem sido infrutífero e perfunctório. Até intelectuais categorizados, como Jessé Souza, têm dito o óbvio, sugerindo que o pensamento acadêmico está se tornando mais paralisante do que iluminista. O motivo é simples: ante o contencioso político exacerbado, o discurso de vários intelectuais está se tornando mais militante — tentativa de “salvar cabeças”, como a de Lula da Silva — do que um instrumento para entender o presente e apontar saídas à crise política. A história de que a debacle do PT resulta de golpe político é de uma pobreza que assustaria até são Francisco de Assis. Nem Lula da Silva, político de rara inteligência, acredita nisso…

Num ambiente turvo, de militância disfarçada de pensamento elaborado, pontificam nulidades em busca de seguidores e, até, de fanáticos. Fernando Henrique não é um pensador isento — tal figura (a do isentão) é uma ficção na qual só creem os incautos —, mas ao menos está propondo um debate mais arejado, tanto no livro quanto em entrevistas.

Eficiência pública

Fernando Henrique Cardoso: o mundo mudou e os políticos não conseguiram acompanhar suas novas nuances

Inquirido pela repórter Maria Cristina Fernandes, do “Valor Econômico” (sexta-feira, 20), se a corrupção ou a desigualdade terá mais peso no debate eleitoral deste ano, Fernando Henrique assinala: “Ambas, porque a corrupção é momentânea, mas efervescente. A população sentiu que prejudica o serviço público. A desigualdade é perene”. Os políticos, frisa, “têm” de “falar o que interessa às pessoas. E a maioria quer emprego, decência na vida pública e serviços de qualidade”. A maioria quer, agora, “pelo menos um emprego, alguma renda. A população quer ver refletido no candidato o que está sentindo. Que os serviços públicos de educação, saúde, transporte e habitação não têm eficiência. Esse é o problema”.

Vale “abrir” o debate sugerido por Fernando Henrique. Se consideram que todos os políticos são corruptos — uns mais, outros menos —, como os eleitores vão votar? Vão escolher os não-políticos e/ou os outsiders? Se prevalecer a tradição, considerando que todos os políticos são vistos de maneira negativa — os que estão “chegando” só querem, na opinião coletiva, se apropriar de um pedaço do bolo público —, há a possibilidade de, na hora do voto, os eleitores escolherem não aqueles que são vistos como possíveis elementos da renovação, por serem novos e terem escassa ou nenhuma experiência na política partidária, e sim aqueles que têm serviços prestados ou que, no poder, estão trabalhando e tentando resolver as agruras cotidianas dos indivíduos. Observe-se que, há menos de um mês no governo de Goiás, José Eliton (PSDB) começa a ser visto como um gestor inovador. Porque, no lugar de prometer grandes coisas, como se fosse um faraó, está buscando resolver os problemas imediatos das pessoas. Nos terminais de ônibus de Goiânia, nos quais os assaltos eram frequentes, o governador José Eliton colocou policiais. A sra. Vilma Barbosa, que mora numa cidade da Grande Goiânia e trabalha na capital, afirma que sua vida melhorou, porque não corre risco de ser roubada assim que desce ou sobe num ônibus. Quer dizer, uma medida simples mas atenta, mexeu, rapidamente, no cotidiano dos indivíduos. O chamado terceiro turno na saúde, com o Estado colaborando para o atendimento — que em tese seria exclusivo da prefeitura —, indica outra preocupação com os indivíduos. A fala de Fernando Henrique: “Pro povo, é relevante se melhorou ou não melhorou sua vida”. O indivíduo, ao perceber que é tratado como cidadão, tende a aprovar o governante. É a realidade. O resto é mero jogo político.

Pensa-se às vezes que um candidato menos experiente precisa do amparo de um líder consolidado. Fernando Henrique sugere que isto precisa, nos novos tempos, ser relativizado. O mais experiente pode transferir, além de voto, desgaste. “A população pensa assim: ‘Essa pessoa me abre um espaço na vida? Abre pro Brasil? Dá um caminho de futuro?’. Quem apoia ou deixa de apoiar, conta menos. Conta você ter tempo pra falar na televisão. As alianças são feitas em função disso”.

Num trecho do livro, Fernando Henrique afirma que os eleitores (a maioria) percebem que os partidos não os representam (a fragmentação partidária indica que há uma feudalização da política — com os partidos representando nichos sociais, mas não a sociedade). A relação de representação entre partidos políticos e sociedade foi rompida. O ex-presidente sublinha que “o [atual] MDB é herdeiro da Arena e não do velho MDB”. Quanto ao PT, o sociólogo sugere que as forças tradicionais conseguiram absorvê-lo com facilidade. Com o PSDB quase ocorreu o mesmo, pois tanto Fernando Henrique quanto Lula da Silva e Dilma Rousseff governaram com o apoio das mesmas forças políticas. A diferença, na visão do crítico, é que o PSDB não tinha, ao contrário do PT, “propensão ao hegemonismo”. Talvez o intérprete tenha razão. Entretanto, não custa lembrar que Serjão Motta, braço direito de Fernando Henrique, dizia que o PSDB ficaria ao menos 20 anos no poder. Ficou oito. O PT ficou mais de 12 anos no poder, se Dilma Rousseff não tivesse sofrido impeachment poderia ter ficado 16 anos. Na verdade, PSDB e PT são irmãos socialdemocratas. A diferença é que o PT mantém como “agregados” partidos radicais — como o PC do B e o PSOL —, o MST e vários sindicatos importantes (talvez seja possível dizer que o petismo criou a República Sindicalista que supostamente João “Jango” Goulart queria criar em 1964). Seu enraizamento não é bem na sociedade, e sim nos setores corporativos. O PSDB mantém uma relação ligeiramente asséptica — distanciada — com a sociedade. Está fora do poder desde 2003 — há 15 anos — porque, apesar de ter figuras gabaritadas, como Fernando Henrique, para interpretar a realidade, não tem adotado táticas e estratégias que convençam os eleitores de que é superior ao PT. Agora, sim, o PT está mal das pernas, tornando-se uma espécie de PL, Partido do Lula. Mas não era assim. O PT, depois de só pensar nas massas (ao menos no discurso), desenvolveu um olho clínico para o indivíduo. Tanto que, aproximando-se do populismo, subordinou a Bolsa Família à persona de Lula da Silva, que se tornou um paizão, como Getúlio Vargas entre 1930 e 1954. Para evitar questionamento dos “liberais”, criou a “bolsa-empresário” para as elites, como as famílias de Emilio Odebrecht e de Joesley Batista. O BNDES foi o instrumento.

Escassez de líderes

Ciro Gomes e Joaquim Barbosa: são políticos que têm o que dizer, pois são preparados, mas há quem os avalie como “autoritários”

No livro, Fernando Henrique sustenta que faltam líderes que, percebendo o momento da sociedade, saibam liderá-la e, ao mesmo tempo, caminhar junto. “Lideranças surpreendem e se afirmam em momentos críticos da vida de um país.” O “líder” Ciro Gomes está quase sempre à beira de um ataque de nervos, como se as pessoas tivessem de se adaptar à sua maneira de pensar. O ex-presidente enfatiza que “os propósitos da mudança precisam ser explicados reiteradamente, em diálogo democrático permanente com a sociedade; em algum momento a mudança precisa ser encarnada por uma ou mais lideranças que a simbolizem: a mudança precisa estar associada a uma nova visão sobre o país, traduzida em uma agenda de políticas públicas”. Ciro Gomes e Joaquim Barbosa, que também teria estopim curto, não parecem se enquadrar na figura do líder que caminha lado a lado com a diversidade da sociedade e, ao mesmo tempo, apontam nortes para a nação. Podem até não ser, mas parecem autoritários. Joaquim Barbosa (Ciro Gomes tem mais experiência), se eleito, teria imensa dificuldade para articular com o Congresso. Seu governo possivelmente seria travado ou teria de compor. Ele não tem o jogo de cintura de Fernando Henrique e Lula da Silva. Não é nada fácil enfrentar o realismo da vida e da política. O jogo é um no papel e é outro na realidade (sonhos são tragados rapidamente pela crueza do mundo real). O próprio Fernando Henrique articulou com José Sarney, Renan Calheiros e Antonio Carlos Magalhães. Não há notícia de que tenha ficado corado alguma vez.

Corre-se o risco, assinala Fernando Henrique, de os líderes contemporâneos não passarem pelos partidos. “Os partidos, tal como estão configurados hoje, mais esterilizam. Por outro lado, sem o filtro dos partidos, as sociedades se tornaram mais vulneráveis a líderes aventureiros e despreparados para o exercício do poder.” Jair Bolsonaro é um líder que canaliza a revolta de setores da sociedade — sobretudo dos que condenam um suposto liberticídio na área de comportamento —, mas pode ser um canal de uma sociedade que precisa ser menos separatista e menos contenciosa? Tudo indica que não. Um presidente governa para todos, mas não tem como governar para guetos. Se não incorpora o debate contemporâneo — como a questão dos gêneros — para agradar setores conservantistas da sociedade, a tendência é que governe (ou não governe) sobre pressão intensiva. O grande político incorpora novas causas, mas tem um discurso, realista e não enganador, para toda a sociedade. O sucesso eleitoral de Fernando Henrique e Lula da Silva resulta de terem compreendido a sociedade brasileira — tanto o que há de “igual” quanto o que há de “diverso”.
Guardadas as proporções, FHC é o Lula do PSDB e Lula é o FHC do PT. Mais ou menos assim. Dilma Rousseff é o José Serra do PT… José Serra é a Dilma Rousseff do PSDB.

Vale ler o que sugere Fernando Henrique: “Uma agenda progressista e contemporânea para o Brasil deve ser libertária em relação aos temas comportamentais e decididamente socialdemocrata nas questões distributivas, com ênfase tanto na equidade da distribuição do peso da carga tributária quanto na distribuição dos serviços e benefícios do Estado. (…) O Brasil está pronto para uma linguagem política diferente. Está pronto para a mensagem que dispensa marqueteiros, que deve ser transmitida pelo candidato com voz limpa na televisão, na internet, no rádio, onde for”. Quem estiver desconectado do Brasil real, que muda numa rapidez espantosa, pode acabar derrotado e surpreso.

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Adalberto de Queiroz

FHC não desiste do socialismo caviar: “Uma agenda progressista e contemporânea para o Brasil deve …decididamente socialdemocrata nas questões distributivas” – quem disse? Se a má-compreensão do “welfare state” por parte dos partidos-irmãos (ou, vamos lá, primos!) pt e psdb deu no que deu, é hora, isto sim, de uma agenda efetivamente liberal-conservadora. Como assim? Ou é liberal ou é conservadora? Não é que no Brasil “Liberal” não o é o que é nos EUA, onde os liberais são os “leftists” e aqui o termo aplicar-se-ia a alguém não referido nos debates atuais mas com o perfil de Henrique Meirelles… Leia mais