Iris Rezende joga com Daniel Vilela pensando em atrai-lo para o “aliado” Ronaldo Caiado

A aparência sugere que o pré-candidato do PMDB saiu fortalecido do encontro da semana passada. A essência manda outro recado: parte do partido quer seguir Ronaldo Caiado

Daniel Vilela e Ronaldo Caiado: o deputado federal e o senador são os pré-candidatos a governador que dividem o PMDB e trabalham para obter o apoio de seus principais líderes. O jogo é bruto

Em política há um truísmo: ninguém engana ninguém. Por vezes, não se sabe por quê, há quem se deixa enganar. Mas aqueles que estão sendo ludibriados não são inocentes, porque inocentes não sobrevivem na política por muito tempo. A política é um espaço para raposas. Só elas sobrevivem. O que a explica a longevidade política tanto do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), quanto do prefeito de Goiânia, Iris Rezende (PMDB), é a capacidade de perceber o rumo dos ventos, quer dizer, dos acontecimentos.

Henrique Santillo travou uma guerra visceral com Iris Rezende, mas não se tornou vencedor. Marconi Perillo derrotou Iris Rezende três vezes diretamente e, em termos indiretos, cinco vezes. Tornou-se hegemônico na política de Goiás exatamente por vencer um político que foi governador por duas vezes, senador, ministro e quatro vezes prefeito da capital.

Marconi Perillo conseguiu derrotar Iris Rezende, e seus aliados, porque conseguiu mapeá-lo inteiramente — tanto suas virtudes quanto seus defeitos políticos. Já o peemedebista não conseguiu “decifrar” o tucano de maneira ampla. Por isso tornou-se, por assim dizer, sua presa. Até sua presa preferida. Fica-se com a impressão de que Iris Rezende é um “quadro fixo” e Marconi Perillo é um ser “mutante”, de difícil apreensão.

Como gestor, Iris Rezende é um homem do passado e, como tal, não tem sintonia com a Goiânia moderna, com os goianienses, que são cada vez mais cosmopolitas. Ele sagrou-se vitorioso porque, como o ex-prefeito Paulo Garcia estava com a imagem desgastada, os eleitores acreditaram que era preciso eleger um gestor comum, para, não “inventando”, fazer o básico. Como o petista havia sido eleito com uma proposta moderna — resumida na palavra “sustentabilidade” —, mas com resultados não aprovados pela sociedade, os eleitores não queriam nenhum prefeito moderno “demais”. Queriam apenas uma cidade limpa e com serviços funcionando de maneira adequada.

A decepção atual nem é por que Iris Rezende não consegue, e nem quer, ser criativo e moderno. Os goianienses estão insatisfeitos porque o prefeito não consegue fazer o básico. Converse com qualquer motorista da Uber e pergunte sobre as ruas dos bairros. Estão esburacadas e a operação tapa-buraco, de tão mal feita, é um desperdício de recursos financeiros e mão de obra. Na saúde chegou a hora de se declarar calamidade pública. Não fosse o atendimento qualitativo das unidades do governo do Estado — como Hugo, Hugol, HDT, Crer, HGG —, o Ministério da Saúde, se acionado pelo Ministério Público Federal, teria de estudar uma forma de decretar intervenção nos cais da cidade. Os recursos chegam todos os meses, mas não são aplicados de maneira adequada. A secretária da Saúde, Fátima Mrué, fala em mudar paradigmas — palavra que se tornou um “fecha-se, Sésamo” —, mas parece não entender praticamente nada de gestão e planejamento. O que precisa “mudar” mesmo — ser trocado — é um paradigma chamado Fátima Mrué. E, claro, Iris Rezende, o patrono da secretária.

Quando aliados questionam a má qualidade da gestão, a falta de auxiliares que norteiem a gestão pública, Iris Rezende simplesmente afirma que em 2018 tudo será diferente. O prefeito diz que terá dinheiro para… fazer asfalto e restauras ruas. Noutras palavras, mais do mesmo. Revolução na saúde? Não se fala disso. Se há uma palavra que define Iris Rezende hoje é involução.

Raposa política

Iris Rezende, prefeito de Goiânia, e Maguito Vilela, ex-governador de Goiás: os dois líderes lutam, de maneira sutil ma non troppo, pelo controle do peemedebismo; o primeiro quer bancar Ronaldo Caiado para governador e o segundo banca o filho, Daniel Vilela

Entretanto, se Iris Rezende vai mal como administrador, porque não entende mais a cidade para a qual foi eleito, permanece um observador ligeiramente atento da cena política. Quem leu os jornais na semana passada ficou com a impressão de que o PMDB — todo o PMDB — finalmente bancou a candidatura do deputado federal Daniel Vilela para governador de Goiás. Mais do que incorreta, é uma leitura imprecisa. Quer dizer, é a leitura sugerida pelos discursos de alguns peemedebistas — inclusive Iris Rezende — mas pode não traduzir o que realmente está sendo articulado. Não se trata de farsa, e sim de um jogo cuja ambiguidade nem sempre é captada pela imprensa.

Não há a menor dúvida de que o senador Ronaldo Caiado permanece no jogo político, como pré-candidato a governador pelo DEM, porque conseguiu uma base política mínima — com líderes de pequenos partidos, como PMN, PSDC, PV e PHS (que estaria escapando) e pastores gabaritados de algumas igrejas evangélicas — estruturada com o apoio de Iris Rezende. Frise-se que seu principal articulador político, Samuel Belchior, é ligado umbilicalmente ao prefeito de Goiânia. Sem o apoio do decano peemedebista, ainda que indireto, a pré-candidatura de Ronaldo Caiado, apesar de sua popularidade, já teria rodado.

Há, no momento, basicamente quatro articulações no PMDB.

Primeiro, o vilelismo, que controla o Diretória Estadual, aposta na candidatura do deputado federal Daniel Vilela para governador.

Segundo, o ex-prefeito de Apa­recida de Goiânia Maguito Vilela é mantido como uma reserva técnica — caso seja necessário um enfrentamento mais duro com Iris Re­zende e Ronaldo Caiado — para a dis­puta do governo. Caso Daniel Vi­lela não emplaque, Maguito Vi­lela estará a postos para substitui-lo.

Terceiro, há uma facção, que não é pequena, que apoia a candidatura de Ronaldo Caiado para governador. É a corrente que propõe a união das oposições e conta com próceres como Iris Rezende (que não aparece tanto, exceto nos bastidores), os prefeitos de Catalão, Adib Elias, de Formosa, Ernesto Roller, de Rio Verde, Paulo do Vale, de Goianésia, Renato de Castro, o deputado José Nelto e o ex-presidente do PMDB Samuel Belchior. Frise-se que, para tal grupo, “união das oposições” é sinônimo de apoio a Ronaldo Caiado — não a Daniel Vilela.

Quatro, há uma corrente, na qual Iris Rezende também está inserido, que avalia que, com três candidatos — José Eliton, do PSDB, Ronaldo Caiado e Daniel Vilela —, a possibilidade de segundo turno é a mais plausível. Por isso é preciso articular um jogo para o primeiro turno e um jogo para o segundo turno.

(Há quem acredite numa quinta articulação: Iris Rezende para go­ver­nador, com a possibilidade de ser a liga entre Ronaldo Caiado e os Vilelas. Mas aí seria necessário buscar um cartório para mudar o no­me de Goiás para Último Mundo.)

Em conversas reservadas com aliados, Iris Rezende comenta que teme que, na possibilidade de segundo turno entre José Eliton e Ronaldo Caiado, o grupo de Maguito Vilela e Daniel Vilela fique com o tucano e não com o democrata. Numa reunião, o prefeito chegou a dizer que haveria um “acordo” entre Maguito Vilela e o governador Marconi Perillo. Não há acordo, e sim conversas — o que é legítimo em política, na sociedade democrática. Na verdade, em seus diálogos com aliados e possíveis aliados, Maguito Vilela não muda o tom: articula para o filho ser candidato a governador. Nunca apresenta outra via.

Por saber que o quadro é nebuloso, e vai permanecer assim até abril ou maio de 2018, Iris Rezende está falando pouco e, quando fala, afirma que Daniel Vilela é seu candidato a governador, porque, afinal, ambos pertencem ao PMDB. O que há para esclarecer?

Se Iris Rezende não declarar apoio a Daniel Vilela agora, especialmente num encontro do PMDB, não poderá pedir seu apoio e de Maguito Vilela para Ronaldo Caiado, na hipótese de uma disputa entre o senador e José Eliton, no segundo turno. Trata-se um jogo de relativa finura, o que dificulta sua percepção.

O apoio a Daniel Vilela “agora” é uma tentativa de buscar apoio para o presidente do DEM “amanhã”. Trata-se de uma tentativa de segurar o presidente do PMDB nas oposições. Eis, portanto, uma síntese, ainda que ligeira, de um dos jogos de Iris Rezende.

Ao apostar que a disputa irá para o segundo turno, dada a força do candidato da máquina, Iris Rezende aposta que a união das oposições será fundamental para Ronaldo Caiado (ou até para Daniel Vilela, do ponto de vista dos Vilelas). A aposta do prefeito é, sem combinar com os russos — os eleitores goianos —, que, com o apoio dos Vilelas, Ronaldo Caiado passa a ter chance de ser eleito no segundo turno.

Teoricamente, Iris Rezende não deveria trabalhar para remover Daniel Vilela, ou Maguito Vilela, já no primeiro turno? O prefeito acredita que, como um dos Vilelas será candidato a governador, não compensa trabalhar mais para demovê-los do intento. Mas de fato gostaria de unir as oposições — excluindo o PT do deputado federal Rubens Otoni e do vereador Antônio Gomide, de Anápolis — já no primeiro turno, mas com o apoio, insista-se, a Ronaldo Caiado, e não a Daniel Vilela (ou a Maguito Vilela).

Daniel Vilela, assim como Maguito Vilela, sabe que nenhum candidato sai forte de um encontro se os principais prefeitos do partido — Adib Elias, Paulo do Vale, Ernesto Roller e Renato de Castro — decidiram não declarar apoio irrestrito. O jovem peemedebista, assim como seu pai, sabe que Iris Rezende, uma raposa mais experimentada que os quatro prefeitos citados, é, quando quer, um artífice privilegiado do jogo duplo. Portanto, do encontro da semana passada, em Goiânia, Daniel Vilela não saiu fortalecido. Continua mais quase-candidato do que candidato. Uma turma grande, embora relativamente silente, ao menos no encontro, ainda prefere que o PMDB apoie Ronaldo Caiado para governador. É a leitura menos imprecisa do quadro.

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