Henrique Meirelles pode se tornar o FHC de Michel Temer

O presidente da República gostaria de disputar a reeleição, se seu governo recuperar economia. Mas as chances do ministro da Fazenda são maiores. Geraldo Alckmin e Lula estão no páreo

Henrique Meirelles, com seu ar sisudo, inspira respeitabilidade e, como ministro da Fazenda, está tomando medidas duras para tornar o Estado mais enxuto e, sobretudo, recuperar a economia do país. Pode ser candidato a presidente da República em 2018

Os analistas de política certamente estariam mais próximos da verdade se dissessem aos seus leitores: “Estamos perdidos ma non troppo”. Envolvidos com a arte da especulação — há uma mãe Dinah em cada jornalista e em cada cientista político —, os articulistas de jornal, ou de outro meio de comunicação, são premidos, pelas circunstâncias, a avaliar o que deve acontecer digamos em 2018: quais serão os candidatos à Presidência da República e quais têm mais chances de vitória. Deveriam começar seus textos explicitando certo desconforto por ter de fazer prédicas. Nós, do Jornal Opção, não nos omitimos, mas sempre sugerimos aos leitores que reflitam, concluam pela própria cabeça e escolham seus próprios caminhos. Nosso objetivo é menos influenciar e mais contribuir para alguma ilustração — no sentido de um Iluminismo mesclado, se é possível, com certo ideário liberal.

É fato que 2018 está chegando e as articulações começam a ser feitas, ou melhor, o que se faz, neste momento, é a construção de pontes, que podem ou não se tornar alianças. Pontes sólidas, não desconfiadas, podem sedimentar alianças fortes. O presidente da República, o jurista Michel Temer, com sua fala bacharelesca, é uma raposa política. Publicamente, não demonstra que pretende disputar a reeleição em 2018. Nos bastidores, conta-se que, se puder, estará nos palanques no próximo pleito. Como tem apenas dois anos de mandato pela frente, com o país convulsionado por uma crise econômica que permanece falindo as empresas e devorando empregos — observe-se que parte dos motoristas do Uber é composta de desempregados que perderam o trabalho nos últimos dois anos —, o perspicaz líder do PMDB sabe que só tem uma chance de ser candidato e, sobretudo, de ser reeleito. Se, e somente se, debelar ao menos parte da recessão.

A economia, para se recuperar, depende da política. Em parte, a crise econômica deriva de decisões políticas, em termos de planejamento e fazendários, equivocadas do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, que jamais conseguiu entender a pujança, as nuances e a complexidade do capitalismo patropi. Corrigir erros na economia, quando afetaram seus fundamentais, é uma tarefa, ainda que não impossível, muito difícil. Por isso a intenção da política econômica de Michel Temer é organizar o Estado, tornando-o menos dispendioso para a sociedade, e torná-lo indutor do crescimento e do desenvolvimento.

Se ajustar a economia — e não é fácil levantar países que caem sob recessão profunda —, Michel Temer terá condições de ser candidato à reeleição. Não há a menor dúvida de que, se isto acontecer, vai jogar pra si e não para outro aliado. Políticos jogam primeiro pra si e só depois pra os aliados. Na semana passada, no governo e até na iniciativa privada, houve quem comemorasse a queda nos juros (ainda altos) e a deflação. Come­morou-se também a possibilidade de o país crescer entre 0,4 e 0,5%. É pouco, de fato, mas é melhor do que cair ainda mais. São sinais positivos, não há dúvida, mas não suficientes para se ter otimismo. Reconstruir uma economia que chafurdou na crise, gerando uma crise de confiança generalizada, é uma tarefa de Hércules e, como tal, não depende tão-somente de ajustes corretos do governo (como o controle dos gastos públicos, reformas previdenciária e trabalhista). Depende de a economia reagir, de maneira integrada, e não de maneira pontual.

Se a recuperação é difícil — há quem fale num processo que levará cerca de 10 anos —, os brasileiros notam a “mão” do presidente interferindo na economia, e de maneira positiva. Michel Temer ainda não é popular, talvez jamais chegue a ser, mas fica-se com a impressão de que está sendo percebido como um estadista, quer dizer, como gestor sério, equilibrado e corajoso (a Reforma da Previdência, por exemplo, “choca” setores da sociedade, notadamente os corporativos).

Presidente, ou governador, que faz ajustes, mesmo que absolutamente imprescindíveis, tende a se tornar impopular. Entretanto, se sua ideia de enxugamento da máquina pública — uma devoradora dos recursos produzidos pela sociedade — for assimilada pela sociedade, como uma oportunidade para a retomada do crescimento e do desenvolvimento, é possível que obtenha sucesso eleitoral. O problema de Michel Temer é o tempo, muito curto, e seu suposto envolvimento com negócios poucos católicos que estão sendo investigados pela Operação Lava Jato.

Se Michel Temer contribuir para uma recuperação mínima da economia, mas não for possível tornar sua imagem mais palatável, há a possibilidade de outra aposta: bancar o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para presidente da República.

Em 1994, o presidente Itamar Franco apostou em Fernando Henrique Cardoso, seu ministro da Fazenda e um dos formuladores do Plano Real, para seu sucessor. FHC, graças ao plano que estabilizou a economia, contribuindo para o controle da inflação e a retomada do crescimento, foi eleito e reeleito presidente, entre 1994 e 1998. Henrique Meirelles pode se tornar o FHC de Michel Temer, com este se tornando uma espécie de Itamar Franco? Difícil, mas não impossível.

Lula da Silva, Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves, Michel Temer, Marconi Perillo, Marina Silva, Ciro Gomes e Jair Bolsonaro: desta lista tende a sair pelo menos cinco candidatos a presidente da República em 2018

Se, por volta de junho ou julho de 2018, o Brasil estiver melhor, em termos econômicos, é possível que Henrique Meirelles, um executivo competente e com fama de honesto, se consagre mais do que o presidente Michel Temer. Aí poderá ser candidato a presidente, com o lema de que, tendo começado a recuperação da economia, poderá aprofundá-la. Fala-se que o ministro da Fazenda precisa ser mais bem trabalhado, para se tornar mais político. Talvez não seja o caso. É provável que os eleitores queiram o ex-presidente do BankBoston e do Banco Central como é — sério, austero e competente. Noutras palavras, podem fazer uma opção por um técnico que tenha certa percepção política e coragem de fazer o que é necessário para pôr a economia e o país nos eixos.

A imagem de seriedade de Henrique Meirelles agrada, é certo. Mas pode ser melhorada, pois, mesmo quando apresenta uma notícia positiva, fica-se com a impressão de que há um certo enfado e um aspecto sombrio. O engenheiro nascido em Anápolis, Goiás, é glacial e fleumático demais. Precisa se tornar mais “brasileiro”, adquirir uma certa malemolência, o que não equivale a sugerir que deve adquirir uma aura circense. O que precisa mesmo é comunicar-se melhor, o que tende a gerar uma certa empatia. Entretanto, como o país está em busca de um presidente decente e eficiente, e não de um humorista, o ministro da Fazenda pode ser uma opção.

Resta saber, por fim, se Michel Temer, querendo, poderá bancá-lo. A aliança entre o PMDB do presidente Michel Temer e o PSDB do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, é tênue. Um partido precisa do outro. Porque um fortalece o outro. Mais: juntos, têm condições de enfrentar, para citar um exemplo, um político eleitoralmente consistente como o ex-presidente Lula da Silva. Isolados, como ilhas, se tornarão “fermento” para o líder red. É a força do petista-chefe que obriga tucanos e peemedebistas a irmanarem-se.

Portanto, se Lula da Silva não estiver na disputa de 2018, como candidato a presidente, é provável que o quadro político seja outro completamente diferente. Porque aí, desculpe-nos o endosso de um preconceito, todos serão japoneses, inclusive os possíveis postulantes do PMDB e do PSDB. O que se está sugerindo é isto: sem o petista no jogo, tucanos e peemedebistas poderão lançar candidatos e, eventualmente, unirem-se no segundo turno. O PMDB poderia bancar Michel Temer, Henrique Meirelles ou, se deixar o PSDB, José Serra. O PSDB tem vários nomes: Geraldo Alckmin (que articula com o PSB de seu vice, Márcio França), Aécio Neves (possivelmente, lava-jateiro, será devolvido a Minas, para se tornar um retrato na parede das repartições pela terceira vez), Marconi Perillo e, claro, José Serra, este do círculo lava-jatista.

Há também os candidatos que, na falta do mote flaubertiano, o justo, podem ser chamados de alternativos. Marina Silva, da Rede, não é um nome frágil, é uma política que se tornou nacional, mas falta-lhe estrutura política no país. É como Lula da Silva: maior do que seu partido. É o seu partido, que, sem ela, é como o Saci Pererê — não existe. Ciro Gomes, do PDT, é uma espécie de Fernando Collor do Ceará. Mas tem um discurso azeitado. Jair Bolsonaro tem voto, causa assombro e polêmica, mas dificilmente terá chance de ser eleito. Os eleitores, para presidente, querem um político que represente a média do país, não os extremos.

Quanto a Lula da Silva, o petista, ca­be aos analistas não tratá-lo como “de­funto” político. Líderes de sua magnitude, que se tornaram mitos antes mesmo de chegarem ao poder, em termos de Presidência da República, não “morrem” facilmente. Vale lembrar de Getúlio Vargas, que, apeado do poder em 1945, era dado como “finado” em termos nacionais. Dizia-se, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra (que, antes de o Brasil declarar guerra à Alemanha, era simpático ao nazismo de Adolf Hitler): “Tira o retrato do Velho” e “põe o retrato do Velho”. O Velho, naturalmente, era Getúlio, que voltou ao poder na eleição seguinte, nos braços do povão, contrariando os liberais da UDN. A história de Lula, que está em andamento, po­de não ser similar à do político gaúcho. Po­rém, se não for condenado e se não per­der os direitos políticos, tem chance de se eleger presidente em 2018. Por quê? Po­de-se sugerir que, como presidente, foi melhor do que a imagem que se está cristalizando dele, dados o mensalão e o petrolão.

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Welbi Maia Brito

Geraldo Alckmin, sem dúvida, é um dos políticos mais experientes e de maior destaque do país. Dirige o principal Estado da nação pela quarta vez. Foi reeleito no primeiro turno com uma votação muito expressiva. Perdeu em apenas um município dos 645. Foi também vereador, prefeito, Deputado Estadual e Federal. Sua trajetória o credencia a disputar qualquer cargo. Se Alckmin for candidato, terá meu apoio e meu voto.