Governo de Biden pode tornar o Brasil ainda mais forte no concerto global

Joe Biden não quer ficar na história como o presidente que deixou a China superar os Estados Unidos. Por isso vai precisar de aliados consistentes, como o Brasil

Joe Biden — ao lado da vice-presidente eleita, Kamala Harris — vai precisar de aliados, no concerto transnacional, para enfrentar o poderio crescente da China | Foto: Reprodução

Quando comparam seu próprio país com outras nações, os brasileiros às vezes esquecem que o Brasil é a oitava maior economia do mundo, superando Itália, Rússia e Canadá.

Do ponto de vista estritamente econômico, significa que o Brasil não está mal. Falta trabalhar, de maneira mais ampla, para reduzir as desigualdades sociais, construindo uma sociedade mais inclusiva e participativa.

Com seu imenso território e empresários capazes — que não ficam atrás de empreendedores dos Estados Unidos, China, Japão e Alemanha —, o Brasil exporta soja (é um dos maiores produtores), petróleo (sobretudo para a China), minério de ferro (a China é o maior comprador), celulose, milho (Japão, Irã e Vietnã), carne bovina (China, Hong Kong), carne de frango (China, Japão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos), produtos manufaturados, farelo de soja, café (Estados Unidos, Alemanha, Itália e Japão), açúcar.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil. As exportações de 2019 para o país asiático renderam ao país sul-americano 63,4 bilhões de dólares. As relações comerciais com os Estados Unidos renderam à nação do presidente Jair Bolsonaro 29,7 bilhões de dólares. Depois vêm os Países Baixos (10,1 bilhões de dólares), Argentina (9,8 bilhões de dólares), Japão (5,4 bilhões de dólares).

Xi Jinping, presidente da China, e Jair Bolsonaro, presidente do Brasil: a tendência é que seus governos se tornem mais próximos | Foto: Alan Santos/PR

Em termos de importações, as relações do Brasil são, mais uma vez, estreitas com a China. Importamos produtos no valor de 35,3 bilhões de dólares da terra de Ai Weiwei e Xi Jinping. Em seguida, vem os negócios com os Estados Unidos (30,1 bilhões), Argentina (10,6 bilhões), Alemanha (10,3 bilhões), Coreia do Sul (4,7 bilhões).

Na América do Sul, não há nenhum país cuja economia se aproxime da do Brasil. A maioria não se equipara nem ao Estado de São Paulo, que, se fosse um país, seria um dos mais prósperos do mundo. Em termos territoriais, o Brasil é o gigante da região. Sua população de 210 milhões supera as de todas as outras 11 nações. Juntos, Colômbia, Argentina, Peru, Venezuela, Chile, Equador, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Guiana, Suriname têm 198.154.769 habitantes — 11.992.356 a menos do que a terra de Machado de Assis e Clarice Lispector.

Sangue das veias do capitalismo brasileiro é chinês

Em suma, o Brasil é uma potência, independentemente de quem é, na circunstância, o presidente da República. Como tal, negocia tanto com a China quanto com os Estados Unidos, porque o comércio é avesso às ideologias. Bolsonaro pode não ter simpatia pelo híbrido de comunismo (política, controle do Estado) e capitalismo (economia de mercado) da China. Mas a ideologia não impede as ligações negociais entre ambos os países. Gestores têm lealdades e paixões provisórias, porque estão no poder por pouco tempo (o que são quatro ou oito anos para um país, como a China, que tem 5 mil anos de história?), mas países têm interesses permanentes ou ao menos de longo prazo.

No Brasil, por mais que Bolsonaro endureça o discurso contra a vacina dita chinesa, a Coronavac, não tem como escapar dos laços de aço entre a economia do país que dirige e a China. A retomada do crescimento econômico do país — e até a estabilidade econômica — depende, em larga medida, do crescimento da China. Trata-se de fato, para além da retórica.

A China está em fase de expansão — e um crescimento de 4,4% ao ano é superior ao de todos os países que realmente têm peso econômico no concerto transnacional —, incluindo novos consumidores ao mercado. Portanto, a segunda maior potência global precisa de matérias-primas e alimentos — os quais poderão ser fornecidos pelo Brasil, sobretudo. Cada vez mais o país sul-americano elevará sua produção para as trocas com os chineses (as florestas tendem a ser reduzidas? É possível). Para além da discussão do 5G, não há o mínimo sinal de que as trocas comerciais entre as nações vão arrefecer nos próximos anos. Por isso é palpável indicar que a China vai continuar sendo a maior parceira comercial do Brasil nos próximos anos.

Donald Trump e Jair Bolsonaro: derrota do republicano pode contribuir para “desubordinar” o Brasil ante os Estados Unidos | Foto: Reprodução

A economia tem certa autonomia em relação à política e, ao contrário do que imagina Bolsonaro — que tem o hábito de dizer que é dono da caneta e que ela ainda tem muita tinta (a eleição de 2022 vai ser disputada daqui a um ano e 11 meses) —, não há como mudar isto. O entrelaçamento entre Brasil e China é profundo. Os empresários promoveriam uma revolução se o presidente decidisse romper as relações com Xi Jinping, quer dizer, com a China, a benfeitora dos capitalistas patropis. Não deixa de ser paradoxal que o “sangue” que corre nas “veias” do capitalismo brasileiro seja chinês, isto é, comunista.

Como soldado invernal da Guerra Fria, um Capitão América tropicalista, Bolsonaro certamente fica irritado ao saber que o Brasil depende tanto da China. Entretanto, como não é nenhum néscio — e é orientado, em economia, por um realista absoluto, o ministro Paulo Guedes (que estudou em Chicago, assim como um dos principais auxiliares de Xi Jinping) —, sabe que, apesar das bravatas, Brasil e China estão irmanados, a dupla “capicomu” (capitalismo e comunismo).

O Brasil, frise-se, é maior do que Bolsonaro. Lembra-se de Getúlio Vargas, que governou o país durante quase 20 anos, ao menos 15 deles como ditador? Pois é — passou. Bolsonaro passará, como os passarinhos.

China versus Estados Unidos

Discutamos, brevemente, as relações conflituosas entre a China, no Oriente, e os Estados Unidos, no Ocidente. Os EUA são o país mais rico do mundo, acossado pela China, o segundo mais próspero, em termos de PIB.

Paulo Guedes, ministro da Economia: o novo parceiro da dança é Joe Biden, pois Donald Trump pertence ao passado| Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No livro “A Caminho da Guerra — Os Estados Unidos e a China Conseguirão Escapar da Armadilha de Tucídides?” (Intrínseca, 411 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite), Graham Allison, professor de Harvard, sugere que a possibilidade de uma batalha entre os dois países, que possivelmente arrastaria outras nações, é real. Pode ser evitada? Pode. Ele sugere caminhos para evitar uma luta, que, se acontecer, será destrutiva, por causa da energia nuclear.

A China fabrica tudo e é rival para Estados Unidos, Japão e Alemanha em quase todos os campos. Os supercomputadores mais rápidos do mundo são chineses. Sua melhor faculdade de Engenharia superou o MIT. Durante uma crise com o Banco Mundial, a China criou o seu Banco Mundial, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. O governo americano pressionou, mas não adiantou — 57 nações (inclusive o Reino Unido) aderiram ao AIIB. O Banco de Desenvolvimento da China ultrapassou “o Banco Mundial como maior financiador de projetos de desenvolvimento internacional”. Lee Kuan Yew, de Singapura, escreveu: a “China está absorvendo os países do Sudeste Asiático em seu sistema econômico graças a seu vasto mercado e crescente poder de compra. Japão e Coreia do Sul inevitavelmente também serão sugados. Ela simplesmente absorve os países sem ter de recorrer à força”.

Como situar o Brasil, um gigante, no meio do conflito de dois super-gigantes como os Estados Unidos e a China, que são parceiros comerciais, mas lutam pela hegemonia econômica globalmente?

Alguns jornalistas, e até economistas, tendem a tratar o Brasil como um “pinto de granja” perto dos galos índios gigantes — Estados Unidos e China. Há os que dizem: com Joe Biden, do Partido Democrata, na Presidência da República, a partir de 2021, o Brasil e Bolsonaro serão “enquadrados”.

Joe Biden não é de esquerda, não chega a ser nem socialdemocrata, porque é um verdadeiro liberal. Suas preocupações sociais, de fato superiores às do presidente Donald Trump, não devem levar as pessoas a interpretá-lo como um político estatista ou anti-mercado. Pelo contrário, qualquer que seja o presidente dos Estados Unidos, republicano ou democrata, o discurso e a prática liberais vão prevalecer. Trump é um isolacionista, pouco dado ao intervencionismo de George W. Bush e mesmo de Barack Obama. Joe Biden tende a ser protecionista, o que, paradoxalmente, o aproxima de Trump. As retóricas são diferentes. A de Biden é civilizada, como a de Franklin D. Roosevelt. Trump lembra Theodore Roosevelt, sem a habilidade deste.

Mas Biden será intervencionista? Talvez sim. Talvez não. Mas os Estados Unidos não deixarão de ser “imperialistas” e lutarão — com unhas e dentes, mas quiçá sem as “trovoadas” verbais de Trump — pelo “comando” do mundo. O democrata não vai querer ficar na história como o presidente que deixou a China superar a maior potência global dos séculos 20 e 21. Se “deixar”, será sua marca na história. Portanto, não terá como aderir inteiramente ao bom-mocismo que se espera dele. Internamente, é provável que se comporte como Lyndon Johnson na pacificação do país.

Eleito Joe Biden, os Estados Unidos se tornarão “adversários” ou “inimigos” do Brasil e de Bolsonaro? De maneira alguma. Os EUA sequer vão pressionar o país de maneira excessiva. Poderá até discordar de alguns aspectos do governo, como a questão da Amazônia e a respeito de determinadas organizações, como a Organização Mundial de Saúde. Entretanto, como tem de enfrentar um gigante, a China, para tentar manter sua hegemonia global, os Estados Unidos de Biden precisarão ter países importantes, em termos de economia, alinhados como aliados.

Se a estratégia pauleira de Trump não deu certo, e desagradou parte do establishment americano — e não só parte do povão —, Biden terá de adotar a política do soft power. Os Estados Unidos não têm como serem suaves completamente, mas a retórica para enfrentar a China, e recompor um pouco o poderio americano, terá de ser mais leve. Para se contrapor à China, os americanos terão de buscar o apoio de Alemanha, Grã-Bretanha, Japão e Brasil. Se não buscar, assistirão a China reforçando parcerias e ampliando seu poder no Ocidente.

Então, por ser realista, Biden não vai tentar “enquadrar” o Brasil. Vai possivelmente buscar parcerias e um alinhamento com o mínimo de conflito.

A diplomacia de Bolsonaro não é do primeiro time, não porque os diplomatas brasileiros sejam de segunda linha — pelo contrário, o Itamaraty é uma escola de realistas, de profissionais que sabem muito bem como lidar, de maneira racional, com as diferenças entre os países. O problema é que Bolsonaro, influenciado por Ernesto Araújo — um discípulo de Olavo de Carvalho, outro soldado invernal da Guerra Fria (eles não percebem, mas, como os comunistas, querem criar um mundo novo, puro, o que a história tem provado ser impossível) —, está formulando uma diplomacia ideológica, ainda que a economia do país, “desobedecendo” os rumos traçados pelo presidente, siga por outro caminho, o do pragmatismo: parceiro bom é o que compra do Brasil, não importa se é a China ou se é a Arábia Saudita. A vida é assim, não é utópica, não é perfeita.

Aos poucos, sobretudo com Trump fora de órbita — e certamente vai responder a processos judiciais, inclusive por sonegação de impostos (e Biden terá acesso a informações privilegiadas sobre as manipulações do republicano contra seu filho) —, Bolsonaro será enquadrado, não por Biden, e sim pela realidade. A tendência é que Ernesto Araújo ceda o lugar a um diplomata mais alinhado com o realismo do mundo da economia e da política. Se ficar no governo, terá de mudar o discurso em pelo menos 180 graus — o que o tornará outro homem, menos olavista. Provando que é realista, Bolsonaro expurgou Abraham Weintraub do Ministério da Educação e “deu-lhe” um penduricalho de bon vivant no Banco Mundial. Encostou-o, mas dando-lhe dolce vita.

Como o Brasil é um dos países centrais na peleja dos Estados Unidos contra a China — trata-se de um gigante de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, cuja economia é uma das mais diversificadas do mundo (e com 210 milhões de consumidores), e que produz alimentos e tem ferro, aço —, Biden vai precisar de Bolsonaro. Talvez seja até herético dizer isto, mas talvez Biden vai precisar mais de Bolsonaro do que Bolsonaro de Biden.

Se é assim, o que a inteligência sugere a Bolsonaro? Que, no contencioso mundial entre Estados Unidos e China, mantenha-se, ainda que parcialmente — não há como manter-se inteiramente afastado —, equidistante. O Brasil tende a ganhar com a crise entre chineses e americanos — desde que o governo de Bolsonaro se comporte como um grande “jogador”, que é, e não como um “torcedor”.

Uma relação alinhada, mas não totalmente alinhada com os Estados Unidos, será positiva para o Brasil, o que reforçará os negócios com a China. A realpolitik fará um bem imenso ao Brasil, aos empresários, aos produtores rurais e à população. Cabe aos experts que assessoram Bolsonaro, os que escapam do primarismo de certas ideologias — no momento, os militares são o que há de melhor, pois são pragmáticos —, mostrarem que, como possível mediador, o Brasil pode se tornar maior do que é no concerto mundial. A vitória de Biden “desubordina” o Brasil ante os Estados Unidos — o que pode aumentar seu peso geopolítico.

Hoje, o Brasil tem uma economia de primeira linha e uma política de segunda linha. Bolsonaro será capaz de perceber que o papel do país pode ser maior do que o atual, quando parece um peão do jogo dos Estados Unidos?

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