FHC quer inventar Luciano Huck como anti-Lula e anti-Bolsonaro

Invenção do apresentador da Globo como anti-esquerda e anti-direita, para conquistar eleitores flutuantes, pode ser a grande jogada da eleição deste ano

Fernando Henrique Cardoso tentou salvar o mandato de Fernando Collor, em 1992, e agora tenta produzir um candidato que seja visto pelos eleitores como “não-político”

O livro “Notícias do Planalto” (Companhia das Letras, 752 páginas), do jornalista Mario Sergio Conti, ex-diretor de redação da revista “Veja”, conta histórias nada edificantes sobre a cornucópia da imprensa — jornalistas e empresários —, com políticos. Relata inclusive uma ação de indivíduos, supostamente ligados ao ministro da Agri­cultura do governo do presidente José Sarney, Iris Rezende, para publicar reportagens pagas, como se fossem reportagens de fato jornalísticas, sugerindo que era o rei (ministro) das supersafras. A “Veja”, sob o comando de Conti, vetou o texto. Não se sabe como, mas, pouco depois, a matéria saiu na revista “Exame”. Frise-se que a obra não apresenta indícios de envolvimento pessoal do político goiano.

Iris Rezende é citado de maneira apenas episódica. O foco do livro é a maneira como a imprensa colaborou para produzir um candidato a presidente da República, em 1989, que fosse visto e aceito como, além de moderno, o anti-Lula da Silva. Fernando Collor, exibido como arrojado — o caçador de marajás, perseguidor de funcionários públicos —, aparecia nas capas dos jornais e das revistas, e as redes de televisão propagandeavam suas virtudes no governo de Alagoas. Yes, tínhamos, finalmente, o nosso John Kennedy. Garboso, de verve sem meias medidas, o latin lover do Nordeste, o Rudolfo Valentino mesclado com cangaceiro, tornou-se, por assim dizer, um objeto de desejo — fartamente produzido por um marketing combinado entre jornalistas, numa primeira etapa, e publicitários-marqueteiros, numa segunda fase.

O discurso do político que mudaria o Brasil, em apenas quatro anos, e barraria Lula da Silva, ressaltado como Sapo Barbudo, pegou e Fernando Collor foi eleito presidente. O filho de Arnon de Mello ganhou e o Brasil perdeu. Entretanto, como o gangsterismo da campanha havia sido levado para o governo, como uma extensão, o salvador da pátria não conseguiu salvar nem mesmo seu mandato — e sofreu impeachment.

Mas há um episódio que até hoje suscita discussão. Como se sabe, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sociólogo por formação, está escrevendo uma série de livros, quiçá com a pretensão de ajustar sua história — de tornar as histórias posteriores como dependentes ou tributárias da sua. Como argumenta bem, com relativa finura, a história do tucano está cada vez mais ajustada e, sim, “positiva”. O que FHC não consegue desdizer, apesar de sua lábia da Sorbonne, é que, quando todo o Brasil, trabalhava pela queda de Fernando Collor, ele atuava para tentar salvá-lo.

Vaidade não é crime e há quem diga que só os vaidosos constroem alguma coisa de valor — aqueles que se avaliam como imprescindíveis, como Winston Churchill, são os inventores e construtores de novas eras (os excessivamente humildes, conformistas, se contentam com a mediocridade, com a mediocracia). Fernando Henrique Cardoso é um homem vaidoso e, a bem da verdade — até ser presidente da República, nos braços do Plano Real —, nunca foi bom de voto. Convidado por Fernando Collor para ser ministro — poderia ser o que quisesse no governo, pois seria sua tábua de salvação —, empolgou-se e tentou convencer o PSDB a bancá-lo.

Porém, no meio do caminho do carioca que se fez paulista, o mulatinho que nunca esteve na senzala, havia não uma pedra, um drummond, e sim uma montanha. Talvez admirador de Lamartine Babo, o senador Mário Covas — político de rara decência — pôs uma serra da boa esperança na rota e impediu que o PSDB tentasse “salvar” Fernando Collor, o amigo de Paulo César Farias, tesoureiro de sua campanha.

Jânio Quadros, que derrotou Fernando Henrique Cardoso numa disputa pela Prefeitura de São Paulo, dizia que o doutor da USP era “ateu” e “maconheiro”. Como político ateu não dá certo no Brasil, é provável que FHC tenha se convertido a algum credo, a um sincretismo. Se reza, se faz penitência, se foi, ou deveria ter ido, a Aparecida do Norte, em São Paulo, ou se participou da romaria de Trindade, em Goiás, deve ter agradecido “são” Mário Covas. Porque, graças ao tucano paulista, Fernando Henrique Cardoso se tornou ministro das Relações Exteriores e, depois, da Fazenda do governo do presidente Itamar Franco, o sucessor de Fernando Collor, e operou o sucesso do Plano Real.

O Plano Real “criou” um eleitorado para Fernando Henrique Cardoso — até 1994, quando eleito presidente da República, conhecido como “sem voto” — e deu-lhe dois mandatos para dirigir o país a partir do Palácio do Planalto. Nada mal para quem havia colocado como prioridade salvar o mandato de Fernando Collor.

O incrível Huck

Articulação pró-Luciano Huck tenta produzir um candidato que seja, a um só tempo, anti-Lula da Silva e anti-Jair Bolsonaro

Vinte e seis anos depois, Fernan­do Henrique Cardoso, de 86 anos — e, sim, lúcido, sempre lançando livros e participando do debate político —, passa a impressão de que está tentando “reinventar” Fernando Collor. O ex-presidente, embora diga que apoia Geraldo Alckmin para presidente, apresenta indícios de que está atuando como patrocinador de Luciano Huck para presidente. À “Folha de S. Paulo”, o tucano disse: “Ele [Huck] sempre foi muito próximo ao PSDB, o estilo dele é peessedebista. É um bom cara. (…) Se ele for [candidato], é bom. Areja, põe em xeque os partidos, que precisam ser postos em xeque.”

Quase sempre, Fernando Henri­que Cardoso é mais sofisticado, explicando em detalhes o que efetivamente pensa. Mas até agora não sabemos por quais motivos o tucano de bico mais erado do país considera Huck como um “incrível” candidato a presidente da República. A rigor, o apresentador da TV Globo não é socialdemocrata, como o PSDB. Está mais próximo, em termos de ideário — se tem um —, dos liberais do partido Democratas. Se, claro, o DEM for mesmo liberal. Sugerir que o senador Agripino Maia — para citar apenas um dos integrantes do partido — é liberal soa como ofensa aos liberais clássicos e modernos. Há, entre os liberais patropis, dezenas de sanguessugas do Estado — quer dizer, na prática, não são nada liberais.

O PPS, como o DEM, sugere que está de portas abertas para Luciano Huck. Mas o que tem a ver um outsider, supostamente liberal e que conta com o apoio de setores do mercado financeiro — notadamente o de fundos de investimentos —, com um partido que, um dia, foi conhecido como Partido Comunista Brasileiro (PCB)? Pouco, quase nada — exceto, claro, se os antigos comunistas se tornaram liberais. É provável que Roberto Freire, político de­cente e qualificado, não fez nenhum revisionismo radical ou um contorcionismo ideológico de 360 graus.

O que Luciano Huck “pensa” que empolga Fernando Henrique Cardoso, que pensa, e chefes políticos do DEM e do PPS, que certamente pensam? Não se sabe exatamente, porque, na política, linguagem abstrusa — e não clareza — “é virtude”. É possível arriscar uma hipótese, seguida de algumas “amarrações”. Apesar de, política e ideologicamente, Luciano Huck ser um tanto vago — daí o entusiasmo do DEM, liberal, e do PPS, esquerda não ortodoxa —, há uma avaliação generalizada, potencializada pelas pesquisas de intenção de voto (ele está empatado com Geraldo Alckmin), de que, se operar uma aliança azeitada, pode se eleger presidente.

Por que Luciano Huck, e não Geraldo Alckmin, tem mais chance de se eleger presidente, como pensam alguns dos políticos consagrados do país? Exatamente porque não é político e, portanto, não tem desgaste. Há uma crença de que o próximo presidente deve ser aquele político — ou não político que só está se tornando político agora — que tiver menos desgaste. Insista-se: o apresentador da Globo, conhecido em todo o país, não é político e não tem desgaste. Ele é jovem e tem facilidade de expressão. Pode não ter conteúdo, mas um marketing azeitado pode transformá-lo imediatamente. O prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), um Luciano Huck melhorado em termos políticos ma non tropo, está aí para comprovar o que um marketing refinado pode fazer por um político.

À guisa de conclusão, para usar uma linguagem de 1931 — ano em que Fernando Henrique Cardoso nasceu, apenas um ano depois da Revolução de 1930 —, talvez seja apropriado sugerir que raposas espertíssimas, como o ex-presidente, começam a trabalhar a tese de que é preciso inventar o candidato anti-esquerda (anti-Lula, anti-Ciro Gomes, anti-Fernando Haddad; frise-se que as eleições serão assombradas pelo “fantasma” (de) Lula da Silva, mesmo que ele não dispute) e anti-direita (Jair Bolsonaro). Articula-se a invenção de um candidato de centro que não deve ser visto como um candidato de centro, e sim como um candidato diferente de tudo que já se viu (ou quase, porque há certo populismo na trajetória de Luciano Huck; aqui e ali, sua visão social, ao menos a que expõe na Globo, não difere da Bolsa Família e similares). Há, por assim dizer, uma reinvenção da tradição: o “velho” com fachada “nova”.

Luciano Huck diz que não é candidato, a Globo simula que pressiona seu candidato — para dizer que é ou não é candidato — e Fernando Henrique Cardoso comporta-se como porta-estandarte. Mas, se Geraldo Alckmin é visto como “picolé de chuchu” até por aliados, Luciano Huck não seria uma espécie de “picolé de abobrinha”? Pode ser. Entretanto, se for inventado como o Fernando Collor lavado com sabão Omo e consolidado como o político que não é político — que é o que os eleitores querem —, Luciano Huck tem chance de se tornar um forte candidato a presidente da República, conquistando os votos daqueles que não querem votar na esquerda, para não “inventarem” um novo Lula da Silva, e daqueles que não querem votar na direita, para não criarem um gestor (Jair Bolsonaro) que talvez, no poder, se torne autoritário. Os eleitores flutuantes, donos de votos flutuantes, são, possivelmente, a maioria. Luciano Huck, na perspectiva de Fernando Henrique Cardoso, por certo acredita que poderá torná-los não flutuantes, quer dizer, huckianos.

Há quem diga que Fernando Henrique Cardoso está jogando para Geraldo Alckmin, tentando atrair um aliado, Luciano Huck, para o primeiro ou para o segundo turno. Falta combinar com os russos, diria, se vivo, o craque Garrincha.

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Belíssimo texto. Só irei discordar quando mencionaste Mário Covas – “político de rara decência”. Aliás, ficava admirado de nunca ler indecências sobre o italiano, até…ler na coluna do Cláudio Humberto no Diário da Manhã, muitos anos atrás, as roubalheiras do italiano através de um testa de ferro, apelidado de “Português” e do filho Zuzinha. Mas…sejamos justos. O Brasil mereceria nao Huck de presidente e sim PABLO VITTAR. Ou ANITTA. Seria a glória! Arthur de Lucca – Go. 11/fevereiro/2018.

Que decadencia. Vou votar no Bolsonaro e fazer campanha de graca contra esses safados na politica

O carinha, que conseguiu em 2013, no governo Dilma, um financiamento de R$ 17 bilhões para compra de um jatinho, com juros baixíssimos de 3% ao ano, enquanto o povo paga juros de 1000% do cartão de crédito, que anda de ônibus ganholão, se acha com moralidade e ética suficiente para concorrer ao cargo de presidente da republica. É mais um que vive as custas de uma das maiores cargas tributária do universo pagas pelo cidadão brasileiro, que sustenta essa gente que mama no Estado, como as castas de juízes e promotores que ilegalmente recebem auxílio moradia e etc. Acorda… Leia mais

Melhor definição da politica atual.