Existe correlação entre arranha-céu e crises econômicas e financeiras?

Publicação inglesa discute a conexão entre a construção de edifícios muito altos e as débâcles no mercado capitalista. Em Goiânia já se pode falar em bolha imobiliária?

Fernando Leite/Jornal Opção

Fernando Leite/Jornal Opção

“The Economist” discute — no artigo “A ‘maldição do arranha-céu’ existe?” — a “tese de que há uma correlação entre a construção de edifícios mais altos e a eclosão de crises econômicas”. A revista britânica diz que, em 2014, “quase 100 edifícios com mais de 200 metros foram construídos — um recorde histórico”. A Arábia Saudita, potência petrolífera, está construindo a Torre do Reino, “que ocupará o topo do pódio mundial”. A publicação pergunta: “Seria essa mania de altura um mau agouro para a economia mundial?” A discussão é ampla e não consensual

Andrew Lawrence, quando estava no banco de investimentos Desdner Kleinwort Benson, formulou a teoria da “maldição do arranha-céu”, em 1999. Ele notou “a existência de uma curiosa correlação entre a construção dos mais altos edifícios do planeta e a eclosão de crises econômicas. A inauguração do Singer Building e da Metropolitan Life Tower, em nova York, em 1908 e 1909, respectivamente, coincide com o pânico financeiro de 1907 e com a recessão observada nos anos seguintes. O Empire State abriu suas portas em 1931, quando a Grande Depressão corria solta. As Torres Petronas, na Malásia, assumiram o posto de prédio mais alto mundo em 1996, pouco antes de ter início a crise financeira asiática. O Burj Khalifa, atualmente o mais alto do mundo, foi inaugurado em Dubai em 2010, quando um crash financeiro sacudiu a economia local e mundial”.

Num estudo anterior, de 1930, o economista William Clark e o arquiteto John Kingston concluíram que “a altura ótima para a maximização dos lucros gerados por um arranha-céu construído em Midtown Manhattan, m 1920, era de apenas 63 andares”. “Economist” postula que “a altura ideal não deve ser muito diferente hoje”.

A revista sugere que, se a tese estiver certa (adiante, apresenta-se uma nuance), “a construção de arranha-céus cada vez mais altos poderia ser vista como uma indicação de que investidores cegados pela euforia estão superestimando os retornos futuros de suas obras. A bem da verdade, não é de todo impossível que eles estejam construindo torres altíssimas mesmo sabendo que são economicamente ineficientes”.

“Economist” relata que, em 1998, o empresário Donald Trump propôs a construção, em Nova York, do “edifício residencial mais alto do mundo”. O “argumento” do multimilionário: “Sempre achei que Nova York deveria ter o prédio mais alto do mundo”. A revista ressalva: “Quando projetos como esse, movidos a pura vaidade, conseguem atrair investidores, é provável, dizem os defensores da tese da maldição do arranha-céu, que os mercados financeiros estejam desgovernados e a caminho de uma forte correção. Quando o prédio de Trump foi inaugurado, estourou a bolha da internet”.

O ramo da construção civil, na visão dos analistas históricos, “tem propensão a acessos de irracionalidade”. Mas três acadêmicos da Rutgers University, Jason Barr, Bruce Mizrach e Kusum Mundra, apresentam outra linha de raciocínio. Num estudo, o trio busca conectar 14 arranha-céus ao crescimento do PIB americano. “A distância em meses entre o anúncio da construção das torres e o pico do ciclo econômico varia muito (de zero a 45 meses). E apenas sete dos 14 arranha-céus foram inaugurados durante uma fase de desaceleração do ciclo econômico. Em outras palavras, nem o anúncio da construção do edifício mais alto do mundo, nem a conclusão de suas obras servem como indicadores da proximidade de uma recessão.”
Trata-se, pois, de uma contestação da tese inicial, a exposta por Andrew Lawrence.

“Economist” admite que a mostra de Barr, Mizrach e Mundra, apontando apenas 14 arranha-céus, é reduzida e, por isso, “é perigoso tirar conclusões categóricas”. Porém, depois, os autores “ampliam sua amostragem para 311 edifícios, considerando a torre mais alta construída a cada ano em quatro países (Estados Unidos, Canadá, China e Hong Kong).

Comparam então a altura dos prédios com o PIB per capita, e o resultado a que chegam é que em todo os países essas duas medidas são ‘cointegradas’, uma maneira criativa de dizer que caminham juntas. Em outras palavras, as incorporadoras tendem a maximizar seus lucros, reagindo com racionalidade ao aumento da renda dos indivíduos (e, portanto, ao crescimento na demanda por salas comerciais) ao construir edifícios mais altos”.

Portanto, “ainda que a egolatria e a insolência acometam o mercado de arranha-céus, argumentam os autores, seus alicerces parecem sólidos”.

O artigo da “Economist” foi publicado no Brasil pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, com tradução de Alexandre Hubner.

A bolha dos trópicos

Recentemente, uma revista mostrou que em São Paulo edifícios com salas para escritórios estão praticamente abandonados. Os proprietários, enlevados pelo boom imobiliário, compraram as salas como investimento (imobilizando capital) para alugá-las e conseguir ampliar a renda mensal. O problema é que não estão conseguindo alugá-las, mesmo oferecendo-as a preços apontados como mais baixos do que os indicados pelo mercado imobiliário.

A causa da crise é uma só: o excesso de oferta derrubou a demanda. Estão sobrando imóveis. O problema é mais visível em São Paulo, mas começa a ocorrer noutros Estados, como Goiás.
Em Goiânia, não há arranha-céus como os apontados no artigo da “Economist”. Mas os edifícios estão cada mais altos e cresce o número de prédios exclusivos para salas comerciais. Corretores imobiliários sugerem que algumas pessoas compram salas comerciais como investimento, mas admitem que a oferta começa a superar a procura. Daqui a pouco, muitos edifícios terão andares inteiros vazios e os preços dos alugueis tendem a cair — senão os proprietários terão dificuldades para pagar as taxas de condomínio.

Construtores, como Ilésio Inácio Ferreira, proprietário da Construtora Consciente, costumam negar a possibilidade de uma bolha imobiliária em Goiânia, alegando que o mercado permanece aquecido e estabilizado. Porém, recentemente, Ilésio Inácio relatou a um repórter do Jornal Opção que a Consciente está demitindo trabalhadores, o que, naturalmente, é evidência de crise.

Mesmo um observador desatento percebe que há uma oferta talvez excessiva de imóveis em Goiânia. Há dezenas de placas, algumas improvisadas, anunciando venda e aluguel de imóveis. Imobiliárias e proprietários disputam cada palmo da cidade. Curiosamente, até lotes e sobrados dos principais condomínios horizontais — Alphaville, Aldeia do Vale, Jardins e Portal do Sol — são anunciados em placas colocadas em alambrados, cercas de arame, árvores e praças. Isto é sinal de que a oferta está cada vez maior do que a procura. Portanto, a crise, se ainda não é aguda, pode ser aprofundada nos próximos meses.

Ecologia e segurança

Ao apresentar a discussão da “maldição do arranha-céu”, “Economist” não se propõe a debater outras questões, como meio ambiente e segurança. O “progresso” é tido como “incontrolável” e, às vezes, empresários subordinam gestores públicos para que aceitem “violentar” as cidades e atendam aos seus interesses imediatos. Observe-se as construções do Parque Flamboyant. A ideia era apontada como sensacional, quase uma espécie de Central Park. Mas o resultado é mais ou menos calamitoso. Curiosamente, o que torna o parque mais “feio” são as “belas” construções (não raro puro kitsch). É como se o parque servisse de máscara para a monstruosidade de concreto erguida, aparentemente de maneira descontrolada, no Jardim Goiás.

Primeiro, os empresários da construção civil não se preocuparam com as nascentes da região, que foram e estão sendo afetadas pelas construções gigantescas — mais de 40 andares. A preocupação ambiental ficou em segundo plano, e logo numa cidade na qual se tornou moda falar — como retórica político-eleitoral — em “sustentabilidade”.

Segundo, como não se pensou em ruas mais largas, em espaços adequados para estacionamento, o trânsito é confuso e, eventualmente, engarrafado em praticamente toda a região.

Terceiro, e isto já foi objeto de reportagens dos jornais, há a questão da segurança. No caso de incêndio, como o Corpo de Bombeiros vai conseguir salvar vidas de pessoas que moram no 44º andar? Simplesmente os bombeiros terão de contar com a sorte e clamar para que as pessoas desçam para andares mais baixos, se for possível, para que possam recolhê-las com suas escadas.

Há algum tempo, a Câmara Municipal de Goiânia conseguiu evitar que o empresário de origem armênia Malkon Merzian construísse um shopping no Setor Marista, mas uma empresa está construindo um hotel, no mesmo bairro, praticamente ao lado de onde seria edificado o centro comercial, e a sociedade não protestou. O Setor Oeste está se tornando um espaço privilegiado para, usando uma linguagem démodé, espigões. Quem está dormindo mais: a sociedade, os ambientalistas, a imprensa ou o poder público? A impressão que se tem é que só os empresários estão acordados… bem acordados! Permita-nos, o leitor, a exclamação — uma forma de despertar, talvez.

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Epaminondas

No entorno do parque Flamboyant, a torre mais alta tem apenas 40 andares. Demais prédios se contentaram em não passar do 30º andar. Não há comprometimento das nascentes, visto que é proibido o uso da água do lençol para abastecer os condomínios. O escritor pode achar kitsch os condomínios e é seu direito estético. Mas enquanto isto, vários moradores da cidade aproveitam as sombras das torres para pic-nics ou encontros no Parque. Num estado solar como Goiás, uma sombra é sempre bem-vinda. Não é o caso de se achar que os empreendimentos foram feitos para providenciar sombra, mas nenhum crítico… Leia mais